Livro ‘Palavra mortal’ por Genevieve Cogman

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HÁ ALGUMA ESPERANÇA DE SE MANTER A PAZ EM MEIO AO CAOS? No quinto volume da série A BIBLIOTECA INVISÍVEL, o destino dos mundos está em jogo e o equilíbrio entre o caos, a ordem e a própria biblioteca está por um fio. As negociações de paz são sempre complicadas… especialmente quando um importante diplomata é esfaqueado! Este assassinato interrompe abruptamente uma cúpula ultrassecreta entre os dragões e os feéricos, e a espiã bibliotecária Irene é convocada imediatamente para investigar. Em uma versão de Paris de 1890, Irene, seu assistente Kai e seu amigo detetive Vale devem rastrear o assassino...
Editora: Morro Branco; 1ª edição (23 abril 2021)  Capa comum: 464 páginas  ISBN-10: 6586015111  ISBN-13: 978-6586015119  Dimensões: 14 x 2.2 x 21 cm

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CAPÍTULO 1

Os braseiros na câmara de tortura queimavam com uma chama baixa enquanto Irene esperava o Conde chegar. A parede de pedra atrás dela estava fria, apesar das camadas de roupas — vestido de tirolesa, blusa, avental e xale —, e as algemas arranhavam seus pulsos. Pelo corredor ela ouvia os sons de outros prisioneiros: lágrimas reprimidas, orações e uma mãe tentando acalmar seu bebê.

Tinha sido presa perto das três horas. Agora, devia ser o começo da noite: não havia janelas nas masmorras e ela não conseguia ouvir os sinos na capela do castelo nem na igreja do vilarejo, mas já tinham se passado várias horas. Desejou ter comido mais no almoço.

A porta se abriu e um dos guardas colocou a cabeça no vão para ver se ela ainda estava lá dentro. Era uma inspeção pró-forma, não era séria: afinal, ela estava acorrentada à parede, numa câmara de tortura trancada, nas profundezas do castelo. Como poderia ir a qualquer lugar?

As suposições dele estariam corretas, se ela não fosse uma Bibliotecária.

Mas, por enquanto, eles pensavam que ela era uma humana comum, apesar de acreditarem que era uma bruxa, e ela tinha de interpretar esse papel.

Irene sabia que as pessoas no pequeno vilarejo alemão ao lado do castelo seriam especialmente devotas nas orações daquela noite. Pois outra bruxa — a saber, ela mesma — tinha sido presa pela guarda do conde e arrastada para ser interrogada. Otto, o Conde de Süllichen — ou graf von Süllichen era supersticioso, paranoico e vingativo: estava sempre vigiando em busca de bruxas e pessoas que conspiravam contra seu governo. Os aldeões tinham medo de que ela desse o nome deles em sua confissão inevitável.

O som de choro foi abafado quando o baque de botas marchando ecoou pelo corredor. Irene engoliu em seco, a garganta abruptamente seca. Era ali que ela descobriria se seu plano tinha sido tão inteligente quanto parecia algumas horas antes. A porta da masmorra foi aberta com brutalidade, batendo na parede. Iluminado pela tocha que estava atrás, o graf se assomou ali, com os braços cruzados. Seu gibão pesado de veludo preto dava a impressão de ombros mais largos do que a realidade, mas os dois soldados em posição de alerta atrás dele eram musculosos o suficiente para qualquer demonstração de força que fosse necessária. Ele analisou Irene, acariciando o queixo de um jeito pensativo.

— Então — disse ele finalmente —, a bruxa mais recente que ousa invadir meus domínios e tramar contra mim. Você não sabe, mocinha, que todas as que apareceram antes de você fracassaram?

— Ó, me perdoe, nobre graf — implorou Irene humildemente. Ela sabia que seu alemão era moderno demais para esta época e este lugar, mas ele provavelmente ficaria feliz em supor que era apenas mais uma prova de bruxaria. — Fui tola por vir aqui. Eu me lanço aos seus pés e imploro por demência!

O graf pareceu surpreso.

— Você admite sua culpa?

Irene olhou para o chão, tentando espremer uma ou duas lágrimas.

— Você me acorrentou com ferro, vossa graça, e há um crucifixo na porta. Estou restrita e meu Mestre Satânico não quer mais me ajudar.

— Muito bem. — O graf parou e esfregou as mãos. —Bem, essa é uma mudança agradável! Talvez eu não tenha de interrogá-la com a mesma rispidez que fiz com suas irmãs. Confesse todas as suas maldades e entregue suas cúmplices e talvez você seja poupada da danação.

— Mas eu fiz coisas tão terríveis, meu nobre graf… — Irene conseguiu fungar de um jeito sincero. — Como posso ferir seus ouvidos com minha confissão? Você é um homem nobre, muito acima dessas coisas.

Como esperava, isso atraiu seu interesse total.

— Mocinha, não tem nada que você possa me dizer que eu já não tenha lido. Você pode não saber…

Na verdade, ela sabia, e esse era o motivo para estar ali. — … mas sou o homem mais instruído de toda Württem-berg. Os homens atravessam a Alemanha para admirar meus livros. Muitos dos tratados de grandes homens santos e caçadores de bruxas enfeitam minha biblioteca. O Malleus Maleficarum, de Kramer, foi minha leitura na infância. Estudei as confissões de bruxas do mundo todo. A sua não será diferente.

Uma ideia de como se livrar de pelo menos um guarda ocorreu a Irene.

— Então imploro que convoque um padre, meu nobre graf. Deixe-me fazer minha confissão final a ele e a você, para que eu possa ser salva das chamas do inferno.

O graf fez que sim com a cabeça.

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