Livro ‘Tudo Sobre o Amor’ por Bell Hooks

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que é o amor, afinal? Será esta uma pergunta tão subjetiva, tão opaca? Para bell hooks, quando pulverizamos seu significado, ficamos cada vez mais distantes de entendê-lo. Neste livro, primeiro volume de sua Trilogia do Amor, a autora procura elucidar o que é, de fato, o amor, seja nas relações familiares, românticas e de amizade ou na vivência religiosa. Na contramão do pensamento corrente, que tantas vezes entende o amor como sinal de fraqueza e irracionalidade, bell hooks defende que o amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que dominam nossa cultura. É através da construção de uma ética amorosa que seremos...
Editora: Editora Elefante; 1ª edição (24 fevereiro 2021)  Páginas: 260 páginas  ISBN-10: 6587235247  ISBN-13: 978-6587235240  ASIM: B08WYK42FW

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Biografia do autor: Bell Books é uma aclamada intelectual negra, teórica feminista, crítica cultural, artista e escritora. Escreveu mais de 30 livros, de gêneros diversos, como teoria crítica, memórias, poemas e literatura para crianças. Em seus trabalhos, trata de temas como gênero, raça, classe, espiritualidade, ensino e o significado da mídia na cultura contemporânea. Em 2014, fundou o bell hooks Institute. Este é seu primeiro livro pela Rosa dos Tempos.

Leia trecho do livro

a primeira cana de amor que escrevi foi para você, assim como este livro foi escrito para falar com você. anthony, você tem sido meu ouvinte mais íntimo. sempre vou te amar.

em a canção de solomon, há um trecho que diz: “encontrei aquele que minha alma ama. me abracei a ele e não o deixarei ir”. persistir, conhecer novamente aquele momento de arrebatamento, de reconhecimento, em que podemos encarar um ao outro como realmente somos, despidos de artifícios e fingimentos, nus e sem inibições.

préfacio

Quando eu era criança, tinha clareza de que não valia a pena vivier se não conhecêssemos o amor. Quem me dera pudesse dizer que atingi essa consciência por causa do amor que sentia. Foi sua falta, no entanto, que me fez saber quanto ele é importante. Fui a primeira filha do meu pai. Assim que nasci, fui acalentada e tratada com gentileza, de modo a me sentir querida neste mundo e em minha casa. Até hoje não consigo me lembrar do momento em que esse sentimento de ser amada me deixou. Só sei que, um dia, eu já não era preciosa. Aqueles que inicialmente me amavam se afastaram. A ausência de seu reconhecimento e de sua atenção perfurou meu coração e me infligiu uma dor tão profunda que fiquei zonza.

O luto e a tristeza me esmagaram. Eu não sabia o que tinha feito de errado. E, por mais que eu tentasse, não conseguia consertar as coisas. Nenhuma outra relação curou a dor daquele primeiro abandono, daquele primeiro banimento do paraíso do amor. Durante anos vivi uma vida suspensa, presa ao passado, incapaz de seguir em direção ao futuro. Como qualquer criança ferida, só queria voltar no tempo e estar naquele paraíso outra vez, naquele momento de arrebatamento do qual me lembrava, em que me senti amada, em que senti pertencimento.

Nunca podemos voltar. Sei disso agora. Podemos seguir em frente. Podemos encontrar o amor pelo qual nosso coração anseia, mas não antes de nos desapegarmos do luto em relação ao amor perdido há tanto tempo, quando éramos pequenos e não tínhamos voz para expressar os desejos de nosso coração. Olhando para trás, descobri que todos os anos da minha vida em que eu pensava estar em busca do amor foram simplesmente tentativas de recuperar o que havia perdido, voltar ao primeiro lar, regressar ao arrebatamento do primeiro amor. Eu não estava realmente pronta para amar e ser amada no presente. Ainda estava de luto — apegada ao coração partido da meninice, a conexões desfeitas. Quando o luto acabou, fui capaz de amar novamente.

Despertei do meu estado de transe e fiquei atordoada ao descobrir que o mundo em que eu vivia, o mundo do presente, já não era um inundo aberto ao amor. E percebi que tudo o que eu ouvia ao meu redor evidenciava que o desamor tinha se tornado a ordem do dia. Sinto nosso país se afastando do amor com a mesma intensidade que senti o abandono do amor na infância. Com esse afastamento, nos arriscamos a penetrar em um quadro de selvageria de espírito tão intensa que talvez jamais encontremos o caminho de volta. Escrevo sobre o amor para dar testemunho do perigo desse movimento e também para convocar um regresso ao amor. Redimido e recuperado, ele nos leva de volta a uma promessa de vida eterna. Quando amamos, podemos deixar nosso coração falar.

introdução

graça:
tocada pelo amor

É possível falar diretamente com o nosso coração. A maioria das culturas mais antigas sabe disso. Podemos de fato conversar com o nosso coração como se ele fosse um bom amigo. A vida moderna se tornou tão atribulada com os afazeres e pensamentos diários que perdemos essa arte essencial de reservar um tempo para conversar com o nosso coração.
— Jack Kornfield

Na minha cozinha, estão penduradas quatro fotografias de um grafite que vi pela primeira vez num canteiro de obras, anos atrás, enquanto caminhava para dar aula na Universidade Yale. A frase — “a busca pelo amor continua, mesmo diante das improbabilidades” — estava pintada em cores vivas. Naquela época, recém-separada de um companheiro depois de quase quinze anos juntos, eu era frequentemente soterrada por um luto tão profundo que parecia que um imenso mar de dor carregava meu coração e minha alma. Dominada pela sensação de ser arrastada para debaixo d’água, de me afogar, procurava constantemente âncoras que me mantivessem na superfície, que me puxassem em segurança de volta para a margem. A frase nos tapumes da construção, junto a desenhos infantis de animais não identificáveis, sempre animava meu espírito. Toda vez que eu passava pelo canteiro de obras, a afirmação da possibilidade do amor se espalhando pelo quarteirão me dava esperança.

Assinada com o primeiro nome de um artista local, a pintura falou ao meu coração. Ao ler aquelas palavras, eu tinha certeza de que o artista estava passando por uma crise em sua vida, de que já tinha confrontado a perda ou estava diante de sua possibilidade. Na minha cabeça, mantinha conversas imaginárias com ele a respeito do significado do amor. Eu lhe contava que seu grafite divertido havia me ancorado e me ajudado a restaurar a fé no amor. Falava sobre como a promessa de um amor esperando para ser encontrado, um amor pelo qual eu ainda podia esperar, me erguia do abismo em que tinha caído. Meu luto era uma tristeza pesada e desesperadora, causada pela separação de um companheiro de muito anos, mas, o que é mais importante, era um desespero enraizado no medo de que o amor não existisse, de que não pudesse ser encontrado. Ainda que ele estivesse à espreita por aí, talvez jamais o conhecesse em minha vida. Havia se tornado difícil, para mim, continuar acreditando na promessa do amor quando, para qualquer lugar que eu olhasse, o encantamento do poder ou o terror do medo ofuscavam o desejo de amar.

Um dia, a caminho do trabalho, ansiosa pela meditação diária provocada pela visão do grafite, fiquei chocada ao ver que a construtora havia coberto a pintura com uma tinta branca muito brilhante, sob a qual era possível ver os traços esmaecidos da arte original. Chateada com o fato de que aquilo que tinha se tomado um ritual de afirmação da graça do amor já não estava mais lá para me acolher, contei para todo mundo sobre a minha decepção. Alguém espalhou o rumor de que o grafite tinha sido coberto de branco porque as palavras eram uma referência a pessoas vivendo com atv e de que o artista poderia ser gay. Talvez. É igualmente provável que os homens que espalharam tinta na parede tenham se sentido ameaçados por essa confissão pública do desejo de ser amado — um desejo tão intenso que não apenas precisava ser verbalizado, mas também era deliberadamente buscado.

Depois de muito procurar, localizei o artista e conversei com ele pessoalmente sobre o significado do amor. Falamos sobre a forma como a arte pública pode ser um veículo para compartilhar pensamentos de afirmação da vida. E nós dois expressamos nosso pesar e nossa contrariedade com o fato de a construtora ter coberto insensivelmente uma mensagem de amor tão poderosa. Para que eu me lembrasse dos muros, ele me deu fotografias do grafite. Desde que nos conhecemos, em todos os lugares onde morei, mantive as fotos sobre a pia da cozinha. Todos os dias, quando bebo água ou pego um prato no armário, paro diante desse lembrete de que todos ansiamos por amor — todos o buscamos —, mesmo quando não temos esperança de que ele possa ser de fato encontrado.

Não há muitos debates públicos a respeito do amor em nossa cultura hoje. No máximo, a cultura popular é o domínio em que nosso desejo por amor é mencionado. Filmes, músicas, revistas e livros são os locais para os quais nos voltamos para ver expressos nossos anseios amorosos. No entanto, não se trata daquele discurso de afirmação da vida dos anos 1960 e 1970, que nos instava a acreditar que “All You Need Is Love”.’ Atualmente, as mensagens mais populares são as que declaram a insignificância do amor, sua irrelevância. Um exemplo evidente dessa mudança cultural é o tremendo sucesso alcançado pela canção de Tina Turner cujo título declara ousadamente: “What’s Love Got to Do With It” [O que o amor tem a ver com isso?]. Fiquei triste e chocada quando entrevistei uma rapper bem conhecida, pelo menos vinte anos mais nova que eu e que, perguntada sobre o amor, respondeu com um sarcasmo cortante: “Amor: o que é isso? Nunca tive amor algum na minha vida”.

A cultura jovem de hoje é cínica em relação ao amor. E esse cinismo vem do sentimento dominante de que o amor não pode ser encontrado. Em When All You’ve Ever Wanted Isn t Enough: The Search for a Life That Matters [Quando tudo o que você queria não é o bastante: a busca por uma vida que importe], Harold Kushner escreve sobre essa preocupação:

Temo que estejamos criando uma geração inteira de jovens que crescerão com medo de amar, com medo de se entregar completamente a outra pessoa, porque terão visto quanto dói correr o risco de amar e não dar certo. Temo que eles cresçam procurando intimidade sem risco, prazer sem investimento emocional significativo. Eles terão tanto medo da dor da decepção que renunciarão às possibilidades do amor e da alegria.

Jovens são cínicos em relação ao amor. No fim das contas, o cinismo é uma grande máscara para um coração decepcionado e traído.

Quando viajo pelo país dando palestras sobre como acabar com o racismo e o machismo, o público, especialmente os jovens, fica agitado quando falo sobre o papel do amor em qualquer movimento por justiça social. Todos os grandes movimentos por justiça social de nossa sociedade têm enfatizado fortemente uma ética do amor. No entanto, os jovens continuam relutantes em abraçar a ideia do amor como uma força transformadora. Para eles, o amor é para os ingênuos, os fracos, os românticos incorrigíveis. Sua atitude se espelha na dos adultos, aos quais se dirigem pedindo explicações. Como porta-voz de uma geração desiludida, em Bitch: In Praise ofDifficult Women [Puta: um elogio a mulheres difíceis], Elizabeth Wurtzel afirma: “Nenhuma de nós está ficando melhor em amar, estamos é ficando com mais medo. Para começo de conversa, não nos ensinaram a ser hábeis, e as escolhas que fazemos tendem apenas a reforçar a sensação de que o amor é inútil e sem esperança”. Suas palavras ecoam tudo que costumo ouvir de uma geração mais velha a respeito do amor.

Ao falar de amor com pessoas da minha geração, descobri que elas ficavam nervosas ou assustadas, especialmente quando eu comentava que não me sentia amada o suficiente. Em diversas ocasiões em que falei de amor com amigos, eles me aconselharam a fazer terapia. Entendi que alguns poucos estavam simplesmente cansados da minha insistência na questão e achavam que se eu fizesse terapia eles teriam uma folga. No entanto, a maioria ficava apavorada em relação ao que poderia ser revelado em qualquer investigação sobre o significado do amor na vida deles.

Toda vez que uma mulher solteira por volta dos quarenta anos introduz na conversa a questão do amor, vem à tona, repetidamente, a suposição, enraizada no pensamento machista, de que ela está “desesperada” por um homem. Ninguém pensa que ela está apenas intelectualmente interessada no assunto. Ninguém pensa que ela está rigorosamente envolvida numa empreitada filosófica na qual está se aventurando a entender o significado metafisico do amor na vida cotidiana. Não: ela é vista apenas como alguém em busca de uma “atração fatal”.

A decepção e uma sensação persistente de coração partido me levaram a começar a pensar mais profundamente no significado do amor em nossa cultura. Meu desejo de encontrar o amor não me fez perder meu senso de razão nem de perspectiva; ele me incentivou a pensar mais, a falar de amor e a pesquisar o tema em textos populares e também em estudos mais sérios. Quando me debrucei sobre obras de não ficção a respeito do amor, me surpreendi ao descobrir que a grande maioria dos livros “reverenciados”, aqueles usados como referência, e mesmo dos livros populares de autoajuda, havia sido escrita por homens. Durante toda a minha vida, pensei no amor como um tópico que as mulheres contemplam com maior intensidade e vigor que qualquer outra pessoa no planeta. Ainda acredito nisso, embora as elaborações visionárias das mulheres sobre o assunto ainda precisem ser levadas tão a sério quanto os pensamentos e os escritos dos homens. Ainda que eles teorizem sobre o amor, são as mulheres que o praticam com mais frequência. A maioria dos homens sente que recebe amor e, portanto, sabe o que é ser amado; as mulheres geralmente se sentem num estado constante de anseio, querendo amor, mas sem recebê-lo.

Na cartilha A Little Book on Love: A Wise and Inspiring Guide to Discovering the Gifi of Love [Um pequeno livro sobre o amor: um guia sábio e inspirador para descobrir a dádiva do amor], do filósofo Jacob Needleman, praticamente todas as principais narrativas de amor comentadas foram escritas por homens. Sua lista de referências importantes não inclui livros escritos por mulheres. Das aulas que tive durante o doutorado em literatura, só consigo me lembrar de uma poeta exaltada como uma alta sacerdotisa do amor, Elizabeth Barrett Browning. Contudo, ela era considerada uma poeta menor. Apesar disso, até os estudantes menos ligados à literatura entre nós conheciam o primeiro verso de seu soneto mais famoso: “How do I love thee? Let me count the ways”.² Isso foi antes do feminismo. Com o despertar do movimento feminista contemporâneo, a poeta grega Safo se tornou outra consagrada deusa do amor.

Naquela época, em qualquer curso de escrita criativa, os poetas que se dedicavam a poemas de amor eram sempre homens. De fato, o companheiro que deixei depois de muitos anos me cortejou inicialmente com um poema de amor. Ele sempre foi emocionalmente indisponível e não se interessava nem um pouco pelo amor como assunto de conversas nem como uma prática do dia a dia, mas acreditava plenamente que tinha algo significativo a dizer a respeito do tema. Já eu pensava que todas as minhas tentativas adultas de escrever poemas de amor eram piegas e patéticas. As palavras me faltavam quando eu tentava escrever sobre amor. Meus pensamentos pareciam sentimentais, tolos e superficiais. Quando escrevia poesia ainda menina, sentia a mesma confiança que, na vida adulta, veria apenas nos escritores homens. Quando comecei a escrever poesia, pensava que o amor era o único assunto, a paixão mais importante. O primeiro poema que publiquei, aos doze anos, se chamava “a look at love” [um olhar sobre o amor]. Em algum ponto do caminho, na transformação de menina em mulher, aprendi que fêmeas realmente não tinham nada sério para ensinar ao mundo sobre o amor.

A morte se tornou meu tema. Ninguém ao meu redor, nem professores nem estudantes, duvidava da capacidade de uma mulher de ser séria quando se tratava de pensar e escrever sobre a morte. Todos os poemas de meu primeiro livro estavam ligados à morte e a morrer. Ainda assim, o poema com que abri o livro, “The woman’s mourning song” [A canção de luto da mulher], era sobre a perda de alguém amado e a recusa em permitir que a morte destruísse a memória. Contemplar a morte sempre me leva de volta ao amor. Não por acaso, comecei a pensar mais no significado do amor conforme testemunhava a morte de inúmeros amigos, camaradas e conhecidos, muitos deles jovens, partindo de maneira inesperada. Quando me aproximava dos quarenta anos, encarei o câncer, uma ameaça que se tomou um lugar tão comum na vida das mulheres que é praticamente rotineira. Meu primeiro pensamento, enquanto esperava os resultados dos exames, era que eu não estava pronta para morrer porque ainda não tinha encontrado o tipo de amor pelo qual meu coração vinha procurando.

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