Livro ‘Villette’ por Charlotte Brontë

Livro 'Villette' por Charlotte Brontë
Villette é, de muitas formas, um romance delicado e deliciosamente difícil. Tudo o que diz respeito à sua heroína, Lucy Snowe, é encoberto por uma névoa de inacessibilidade e uma certa escuridão que sustenta a narrativa. Lucy se muda para a cidade fictícia de Villette, onde será professora de inglês em um internato. Ali, será confrontada pelos traumas do passado enquanto completa seu percurso de heroína, com os dessabores e conquistas de uma mulher vitoriana, mas eternamente atual. Uma obra-prima de Charlotte Brontë.
Capa dura: 755 páginas  Editora: Martin Claret; Edição: integral (31 de março de 2020)  ISBN-10: 8544002897  ISBN-13: 978-8544002896  Dimensões do produto: 21,8 x 14,4 x 4,2 cm

Leia trecho do livro

Livro 'Villette' por Charlotte Brontë

PREFÁCIO

NARRADORA MAROTA

LENHA MARIA RIMOLI PISETTA*

O que em geral um leitor espera de um narrador em primeira pessoa? Por estabelecer um diálogo direto com o leitor, poderíamos dizer, em termos gerais, que esse tipo de narrador cria a expectativa de um tom quase confessional: que a narrativa se dê em uma atmosfera de sinceridade e que nada se oculte do leitor. Bentinho, por exemplo, um dos mais discutidos narradores em primeira pessoa da literatura brasileira, conta ao leitor tudo que sente. De certa forma, ele impõe a sua visão das coisas, a sua versão dos fatos. E o leitor fica naquela dúvida: será que Bentinho está vendo as coisas com clareza? Ou será que está distorcendo os fatos, levado pelo ciúme? De qualquer forma, Bentinho revela seu íntimo, seus impulsos mais monstruosos, suas atitudes mais frias: dizendo claramente o que sente, ele desnuda sua história para análise e julgamento do leitor.

Riobaldo Tatarana, outro famoso narrador em primeira pessoa de nossa literatura, também se expressa candidamente quando vai contando sua saga ao seu interlocutor, cujo papel se confunde com o do próprio leitor. Esse nosso jagunço filósofo não tem reservas ao contar sobre os mais mirabolantes episódios de sua vida nem ao revelar suas inquietações e dúvidas.

E que dizer então de Lucy Snowe, a personagem principal de Villette? Ela estabelece um canal de comunicação com o leitor que parece direto e franco. Com muita frequência se dirige diretamente ao “Leitor”, travando com ele um diálogo explícito. No entanto, em várias passagens, temos depois a impressão de que ela não está contando tudo.

A primeira vez que isso acontece claramente é quando ela nos conta que já sabia de algo que revela depois. Não entro em mais detalhes para não privar o leitor do prazer da descoberta, mas a passagem é facilmente identificável. Depois dessa primeira revelação da possibilidade de Lucy não ser uma narradora franca e direta, nós assumimos uma atitude meio defensiva, sempre esperando que isso aconteça de novo. E nos indagamos, perplexos: se ela sabia, por que não me contou?

Mais adiante, a narradora revela ao leitor uma série de fatos que pensávamos que ela, como nós, estava aflita para saber. E não é que ela de repente conta tudo aquilo que ansiávamos tanto por conhecer e que, identificando nossa curiosidade com a da narradora, julgávamos que ela também desconhecia? De novo, somos surpreendidos: se ela sabia, por que demorou tanto para nos contar?

Outro traço muito forte em Lucy Snowe é a ironia. Em sua narrativa se manifesta aquela ironia mais explícita, aquele mecanismo pelo qual dizemos o contrário do que pensamos, e que em geral tem um efeito humorístico. Mas também há momentos em que ficamos em dúvida se ela está sendo sincera na sua apreciação dos personagens com os quais convive. Será que ela está dizendo aquilo sinceramente?

Tomemos, por exemplo, o modo como ela descreve Madame Beck, sua patroa. Ela é uma mulher controladora, xereta, interesseira. Ao mesmo tempo, é racional, competente na administração de sua escola e, em certo sentido, respeitosa da individualidade de Lucy. Temos então a construção de um retrato complexo da personagem, o que enriquece a obra, embora às vezes deixe o leitor inseguro.

E um tratamento parecido é dado aos personagens principais. John Graham é às vezes caracterizado como um homem quase perfeito, tanto fisica quanto psicologicamente. E, quando estamos quase acreditando nisso, Lucy diz que não é bem assim, ele tem seus defeitos, embora ela não os enxergasse em determinada época. A própria descrição das características fisicas do Dr. John é ambígua. Ele teria soberbos cabelos castanho-avermelhados ou uma lamentável juba vermelha?

Essa dubiedade nas caracterizações, essa sobreposição de atributos que muitas vezes se opõem, pode, como já foi dito, confundir o leitor. Mas ao mesmo tempo, de certa forma, ela “imita” nossa experiência real. É porque não podemos manter nossas certezas por muito tempo que provavelmente procuramos nos romances caracterizações mais definitivas e comportadas, que não nos surpreendam a cada momento. Assim, Villette é um romance que, nesse aspecto, recria muito bem o modo como, na nossa convivência com as pessoas, vamos transformando nossas opiniões sobre elas. Dependendo da situação, enxergamos aqueles com quem convivemos sob uma luz mais ou menos positiva.

Por outro lado, há também na história um bom toque “romanesco”, no sentido de algumas coisas parecerem bem inverossímeis. Em alguns pontos, nós as aceitamos porque assim a história fica mais “redonda”; nesses momentos, mandamos às favas a tal verossimilhança e apreciamos a história como ela é. Como dizia a minha avó, “a bem da novela, é melhor que aconteça assim”. O número de “coincidências” em Villette é muito grande. É incrível como os personagens se “reencontram”. Quase todos eles, mesmo os que aparecem ocasionalmente, no pano de fundo, têm uma função específica na história. Charlotte Brontë parece “reservar” personagens e reaproveitá-los em cenas futuras.

Um último aspecto que merece menção neste comentário é uma questão que permeia muitos romances escritos em épocas relativamente distantes da nossa: a variabilidade do conceito de “politicamente correto”. Expressões e comparações que hoje são em geral consideradas antiéticas eram usadas com frequência e sem problemas na época de Charlotte Brontë. O ponto em que talvez esse descompasso seja mais flagrante é o embate entre catolicismo (religião do país imaginário onde Lucy Snowe vai morar e trabalhar, na igualmente fictícia cidade de Villette) e o protestantismo (religião da heroína e que ela defende com inabalável convicção). O modo como Lucy se refere aos católicos poderia ser considerado agressivo nos dias de hoje. Da mesma forma, as reservas que os habitantes de Villette têm em relação ao fato de Lucy ser protestante talvez não fossem tão claramente explicitadas hoje em dia. Lendo o romance, é preciso lembrar que algumas normas de conduta vigentes na época da autora (que viveu entre 1816 e 1855) estão hoje ultrapassadas.

Quem se interessar em conhecer a biografia de Charlotte Brontë logo vai perceber que ela se baseou em vários acontecimentos e experiências da sua vida para escrever seu romance. Villette tem vários aspectos que se assemelham bastante com a época em que Charlotte esteve na Bélgica, trabalhando como professora em um pensionato (1842-1843). Além disso, vários personagens (não só de Villette, mas também de outros romances seus, como O professor e Jane Eyre) são identificados com pessoas reais com quem a autora conviveu. É claro que não há da parte dela nenhum compromisso com uma fiel descrição da realidade, mas não deixa de ser interessante pensar que a própria Charlotte viveu, em certa medida, muitas das experiências e situações descritas em Villette. E conviveu com pessoas bastante semelhantes aos personagens que descreve no romance.

Mas talvez o mais interessante aspecto de toda a obra seja mesmo essa narradora que não confessa tudo. Ou confessa, mas no tempo que ela escolhe, e que nem sempre acompanha a sequência da narrativa. Para quem leu Jane Eyre, talvez o mais conhecido romance de Charlotte, a diferença entre Jane e Lucy fica muito clara, não só em termos de caráter e de traços emocionais, mas também no modo como se caracteriza cada uma dessas duas narradoras em primeira pessoa.

I. BRETTON

Minha madrinha morava em uma bela casa na graciosa e antiga cidadezinha de Bretton. A família do seu marido vivera lá por gerações, e tinha, na verdade, o nome do seu local de nascimento — Bretton de Bretton: se foi por coincidência, ou se houve algum ancestral importante o suficiente para transmitir seu nome ao de sua localidade, eu não sei.

Quando eu em menina, visitava Bretton umas duas vezes ao ano, e gostava muito da visita. A casa e seus habitantes me agradavam sobremaneira. Os cômodos grandes e tranquilos, a mobília bem cuidada, as janelas amplas e limpas, a varanda lá fora, que tinha vista para uma rua bela e antiga, onde os domingos e os feriados sempre pareciam perdurar — tão pacífica era a sua atmosfera, tão limpo o seu calçamento —, eu gostava muito disso.

Em uma casa onde vivem adultos uma criança geralmente recebe bastante atenção, e de uma forma discreta eu era bastante cercada de cuidados por parte da Sra. Bretton, que havia enviuvado, com um filho, antes de eu conhecê-la; seu marido, um médico, morrera enquanto ela ainda era uma jovem e bela mulher.

Ela não era jovem, pelo que me lembro dela, mas ainda era bonita, alta, com boas formas, e, embora fosse morena para uma mulher inglesa, sempre tinha o brilho da saúde nas faces e a vivacidade em um par de belos e alegres olhos negros. As pessoas consideravam uma grande pena ela não ter transmitido sua tez a seu filho, cujos olhos eram azuis — embora, mesmo em sua juventude, muito penetrantes — e tal era a cor de seu longo cabelo que seus amigos não se aventuravam a específicá-la, a não ser quando o sol brilhava sobre ele, e então eles diziam que era dourado. Ele herdou as feições da mãe, entretanto; também seus bons dentes, sua estatura (ou a promessa de sua estatura, pois ele ainda não havia terminado de crescer), e, o que era melhor, a boa saúde dela, e seu espírito, daquela intensidade e equanimidade que são melhores que uma fortuna para quem os possui.

No outono do ano de **** eu estava visitando Bretton, minha madrinha tendo ido pessoalmente me reaver dos parentes com quem eu, naquela época, tinha residência permanente. Eu acredito que ela então via com clareza os eventos vindouros, cuja própria sombra eu mal podia adivinhar e cuja ligeira suspeita bastava para me fazer sentir uma tristeza indefinida e fez com que eu ficasse feliz por uma mudança de cenário e de companhia.

Para mim, o tempo sempre passava com doçura quando eu estava ao lado da minha madrinha; não com uma rapidez tumultuosa, mas ameno, como o fluir de um rio cheio através de uma planície. Minhas visitas à sua casa pareciam a caminhada do Cristão e do Esperançoso às margens de certo rio agradável, com “árvores verdejantes em cada margem, e prados embelezados com lírios o ano todo”. O encanto da variedade não se encontrava lá, nem a excitação dos acontecimentos; mas eu apreciava tanto a paz, e procurava tão poucos estímulos que, quando estes aconteciam, eu quase os sentia como uma perturbação, e desejava que eles tivessem se mantido a distância.

Livro 'Villette' por Charlotte Brontë

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