Livro ‘Senhor das Sombras’ por Cassandra Clare

Livro 'Senhor Das Sombras - Os Artifícios Das Trevas' por Cassandra Clare
Os Artifícios Das Trevas
"O segundo volume da nova série da Cassandra Clare, autora de Os Instrumentos Mortais. A ensolarada Los Angeles pode ser um lugar sombrio na continuação de Dama da Meia-Noite, de Cassandra Clare. Emma Carstairs finalmente conseguiu vingar a morte dos pais e pensou que com isso estaria em paz. Mas se tem uma coisa que ela não encontrou foi tranquilidade. Dividida entre o amor que sente pelo seu parabatai Julian e a vontade de protegê-lo das graves consequências que um relacionamento entre os dois pode trazer, ela começa a namorar Mark Blackthorn, irmão de Julian. Mark, por sua vez, passou os últimos cinco anos preso...
Capa comum: 602 páginas
Editora: Galera; Edição: 6 (10 de agosto de 2020)
Idioma: Português
ISBN-10: 8501401072
ISBN-13: 978-8501401076
Dimensões do produto: 22,9 x 15,2 x 3 cm

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Leia trecho do livro

Para Jim Hill

Eu disse: Dor e tristeza
Ele disse: Aguente firme. A ferida é o
lugar por onde a Luz entra em você.
– Rumi

Parte Um

Terra dos Sonhos

Terra dos Sonhos
Edgar Allan Poe

Por uma rota obscura e solitária,
Assombrado apenas por anjos doentes,
Onde um Fantasma, chamado Noite,
Em um trono negro, reina erguido,
Eu alcancei essas terras há tempos,
De uma escuridão completa de Thule —
De um clima selvagem e estranho que está, sublime,
Fora do Espaço — fora o Tempo.

Vales sem fim e cheias sem limites,
E abismos, cavernas e bosques titãs,
Com formas que nenhum homem pode descobrir
Pois os orvalhos pingam de todos os lados;
Montanhas ruindo cada vez mais
Em mares sem costas;

Mares, que aspiram inquietos,
Ondulando em céus de fogo;
Lagos, que se estendem infinitamente
Suas águas solitárias — solitárias e mortas —
Suas águas paradas — paradas e geladas
Com as neves do lírio.
Perto dos lagos que então se espalham
Suas águas solitárias, solitárias e mortas —
Suas águas tristes, tristes e frias
Com as neves do lírio caído —
Nas montanhas — perto do rio,
Murmurando humildemente, murmurando eternamente —

Perto dos bosques cinzentos — perto do pântano,
Onde o sapo e a salamandra acampam —
Perto dos lagos sombrios e piscinas
Onde habitam os Espíritos, —
Em cada pedaço, o mais maldito —
Em cada canto, mais melancolia —

Lá o viajante encontra, horrorizado,
Lembranças cobertas do Passado —
Formas cobertas que se assustam e suspiram
Ao passarem pelo errante —
Formas cobertas de vestes brancas, de amigos que se foram,
Em agonia, para a Terra — e para o Céu.

Para o coração, cujos infortúnios são incontáveis
É uma região pacífica e calmante —
Para o espírito, que caminha em sombra
É — ah, é um Eldorado!
Mas o viajante, atravessando-a,
Não pode — não ousa — olhar abertamente;
Nunca seus mistérios são expostos
Ao frágil olho humano;
Assim deseja o seu Rei, que proibiu
Que se abrisse a tampa;
E assim a triste
Alma que aqui passa
Suporta através de vidros escuros.
Por uma rota escura e solitária
Assombrado apenas por anjos doentes
Onde um Fantasma, chamado
Noite, Em um trono negro, reina erguido,
Voltei para casa há muito tempo
Desta completa escuridão de Thule.

1

Águas Paradas

Kit tinha acabado de descobrir o que era um mangual, e agora havia uma prateleira cheia deles sobre sua cabeça, brilhantes, afiados e mortais.

Ele nunca tinha visto nada como a sala das armas do Instituto de Los Angeles. As paredes e o chão eram de granito branco prateados, e ilhas de pedra se erguiam a intervalos pela sala, fazendo com que todo o lugar parecesse uma exposição de armas e armaduras em um museu. Havia cassetetes e maças, bengalas, colares, sapatos e casacos acolchoados, engenhosamente desenhados, que escondiam lâminas finas e achatadas para apunhalar e arremessar. Estrelas da manhã, cobertas por terríveis espinhos, e bestas de todos os tipos e tamanhos.

As ilhas de granito eram cobertas por pilhas de instrumentos brilhantes talhados em adamas, a substância similar a quartzo que os Caçadores de Sombras extraíam da terra e que só eles sabiam como transformar em espadas, lâminas e estelas. O que havia de mais interessante para Kit era a prateleira com as adagas.

Não que ele nutrisse qualquer interesse específico em aprender a usar uma adaga — nada além do interesse geral que achava que a maioria dos adolescentes tinha em armas mortais, mas, mesmo assim, ele preferiria receber uma metralhadora ou um lança-chamas. Mas as adagas eram obras de arte, com seus cabos cravejados de ouro, prata e pedras preciosas — safiras azuis, cabochões de rubi, gravações brilhantes de espinhos, marcadas em platina e diamantes negros.

Ele conseguia pensar em, pelo menos, três pessoas no Mercado das Sombras que as comprariam por um bom dinheiro, sem fazer perguntas.

Talvez quatro.

Kit retirou a jaqueta jeans que estava usando — ele não sabia a qual dos Blackthorn ela tinha pertencido; acordou na manhã seguinte à chegada ao Instituto e encontrou uma pilha de roupas recém-lavadas ao pé da cama — e vestiu um casaco acolchoado. Ele se viu no espelho, na outra ponta do quarto. Cabelos louros sem corte, hematomas desbotados na pele pálida. Abriu o zíper do bolso interno do casaco e começou a encher o forro com adagas, escolhendo as de cabo mais bonito.

A porta da sala das armas se abriu. Kit deixou a adaga que estava segurando cair na prateleira e se virou apressadamente. Ele achou que tinha saído do quarto sem ser notado, mas se tinha uma coisa que ele aprendera durante a curta estadia no Instituto foi que Julian Blackthorn notava tudo, e seus irmãos não ficavam muito atrás.

Mas não era Julian. Era um jovem que Kit nunca tinha visto, apesar de alguma coisa nele ser familiar. Ele era alto, tinha cabelos louros bagunçados e corpo de Caçador de Sombras — ombros largos, braços musculosos, e as linhas negras das Marcas com as quais se protegiam apareciam por baixo do colarinho e dos punhos da camisa.

Seus olhos tinham uma cor dourada escura e incomum. Ele usava um anel de prata pesado em um dedo, como muitos Caçadores de Sombra faziam. E ergueu uma sobrancelha para Kit.

— Você gosta de armas, certo? — falou.

— São legais. — Kit recuou um pouco em direção a uma das mesas, torcendo para que as adagas no bolso interno não chacoalhassem. O rapaz foi até a prateleira onde Kit estava mexendo e pegou a adaga que ele tinha largado.

— Esta foi uma boa escolha. Viu a inscrição no cabo? — perguntou ele. Kit não viu.

— Foi feita por um dos descendentes de Wayland, o Ferreiro, que fez a Durendal e a Cortana. — O rapaz girou a adaga entre os dedos antes de colocá-la de volta na prateleira. — Não é tão extraordinária quanto Cortana, mas adagas assim sempre voltam para a sua mão depois que você as arremessa. Conveniente.

Kit deu um pigarro.

— Deve valer muito — observou ele.

— Duvido que os Blackthorn estejam interessados em vender — retrucou o outro secamente. — Eu sou Jace, a propósito. Jace Herondale.

Ele fez uma pausa. Parecia esperar uma reação, que Kit estava determinado a não dar. Ele conhecia o nome Herondale, sim. Era a única palavra que todos lhe diziam fazia duas semanas. Mas isso não significava que ele quisesse dar ao sujeito — a Jace — a satisfação que ele claramente estava procurando.

Jace pareceu inabalado pelo silêncio de Kit.

— E você é Christopher Herondale.

— Como sabe disso? — quis saber Kit, mantendo o tom de voz neutro. Ele detestava o nome Herondale. Ele detestava a palavra.

— Semelhança de família — disse Jace. — Nós somos parecidos. Aliás, você se parece com os desenhos de muitos dos Herondale que já vi. — Nova pausa. — Além disso, Emma me mandou uma foto sua pelo celular.

Emma. Emma Carstairs tinha salvado a vida de Kit. Mas eles não tinham se falado muito desde então — logo após a morte de Malcolm Fade, o Alto Feiticeiro de Los Angeles, tudo foi um caos. Ele não tinha sido a prioridade de ninguém, e, além disso, tinha a sensação de que ela o considerava uma criança.

— Tudo bem. Sou Kit Herondale. As pessoas não param de me dizer isso, mas para mim não significa nada. — Kittrincou o queixo. — Eu sou um Rook. Kit Rook. — Eu sei o que seu pai te disse. Mas você é um Herondale. E isso tem importância.

— Qual? Qual importância? — quis saber Kit.

Jace se inclinou para trás contra a parede da sala das armas, sob uma coleção de pesadas espadas claymores. Kit torceu para que uma delas caísse em sua cabeça.

— Sei que você sabe sobre os Caçadores de Sombras — falou ele. — Muitas pessoas sabem, principalmente integrantes do Submundo e mundanos com Visão. Que é o que você achava que fosse, certo?

— Nunca achei que eu fosse um mundano — disse Kit. Os Caçadores de Sombras não sabiam como soava quando eles usavam essa palavra? Mas Jace o ignorou.

— A história e a sociedade dos Caçadores de Sombras não são coisas sobre as quais quem não é Nephilim saiba. O mundo dos Caçadores de Sombras é feito de famílias, e cada uma tem um nome que estima. Cada família tem uma história que passamos às gerações seguintes. Carregamos as glórias e os fardos dos nossos nomes; o bem e o mal que nossos ancestrais fizeram, por todas as nossas vidas. Tentamos viver à altura dos nossos nomes, para que os que nos sucedem possam carregar fardos menores. — Jace cruzou os braços. Seus pulsos eram cobertos por Marcas; tinha uma que parecia um olho aberto nas costas da mão esquerda. Kit havia notado que todos os Caçadores de Sombras tinham esta mesma Marca. — Entre os Caçadores de Sombras, seu sobrenome é muito importante. Os Herondale são uma família que moldou os destinos dos Caçadores de Sombras por muitas gerações. Não restam muitos de nós; todos achavam que eu era o último. Só

Jem e Tessa tinham fé de que você existisse. Eles o procuraram por um longo tempo. Jem e Tessa. Junto com Emma, eles ajudaram Kit a escapar dos demônios que mataram seu pai. E lhe contaram uma história: a história de um Herondale que traiu seus amigos e fugiu, iniciando uma nova vida longe de outros Nephilim. Uma nova vida e uma nova linhagem.

— Eu ouvi falar de Tobias Herondale — disse. — Sou o descendente de um grande covarde então.

— As pessoas têm defeitos — comentou Jace. — Nem todo integrante da sua família vai ser incrível. Mas quando você encontrar Tessa outra vez, e você vai, ela pode te contar sobre Will Herondale. E James Herondale. E sobre mim, é claro — acrescentou ele, modestamente. — No que se refere aos Caçadores de Sombras, eu sou muito importante, mas não quero te intimidar.

— Não estou intimidado — disse Kit, se perguntando se esse sujeito era assim mesmo. Havia um brilho no olhar de Jace quando ele falava, que indicava que talvez não levasse a sério nada do que estava dizendo, mas era difícil ter certeza. — Estou com vontade de ficar sozinho.

— Sei que é muita coisa para digerir — falou Jace. Ele esticou o braço para afagar as costas do garoto. — Mas eu e Clary ficaremos aqui pelo tempo que você precisar que a gente…

O tapinha nas costas deslocou um das adagas no bolso de Kit. Ela caiu no chão entre eles, cintilado no chão de granito como se fosse um olho acusador.

— Ora — falou Jace. — Então você está roubando armas.

Kit, que sabia que não adiantava nada negar o óbvio, não disse uma única palavra.

— Muito bem, veja, eu sei que seu pai era trapaceiro, mas você é um Caçador de Sombras agora e… espera, o que mais tem aí? — quis saber Jace. Ele fez uma coisa complicada com o pé esquerdo, chutando a adaga para o ar para então a segurar; os rubis no cabo espalharam luz. — Tire o casaco.

Silenciosamente, Kit tirou o casaco e o jogou sobre a mesa. Jace o virou do avesso e abriu o bolso interno. Ambos ficaram olhando silenciosamente para o brilho das lâminas e das pedras preciosas.

— Então. Você estava planejando fugir, suponho?

— Por que eu deveria ficar? — Kit explodiu. Ele sabia que não devia, mas não conseguiu evitar; era demais: a perda do pai, seu ódio ao Instituto, a arrogância dos Nephilim, a exigência de que ele aceitasse um sobrenome com o qual não se importava, nem queria se importar. — Meu lugar não é aqui. Você pode me falar todas essas coisas sobre o meu nome, mas não significa nada para mim. Sou filho de Johnny Rook. Passei a vida treinando para ser como meu pai, não para ser como você. Não preciso de você. Não preciso de nenhum de vocês. Preciso é de um pouco de dinheiro para começar, e posso ter minha própria tenda no Mercado das Sombras.

Os olhos dourados de Jace se estreitaram, e pela primeira vez Kit viu, sob a fachada arrogante e brincalhona, o brilho de uma inteligência aguda.

— E vender o quê? Seu pai vendia informações. Ele demorou anos, e precisou de muita magia ruim para criar essas conexões. Você quer vender sua alma assim? Para poder viver às sombras do Submundo? E quanto ao que matou seu pai? Você o viu morrer, não viu?

— Demônios…

— Sim, mas alguém os enviou. O Guardião pode estar morto, mas isso não significa que não tenha alguém te procurando. Você tem quinze anos. Pode achar que quer morrer, mas acredite em mim: você não quer.

Kit engoliu em seco. Ele tentou se imaginar atrás do balcão de uma tenda no Marcado das Sombras, como havia feito nos últimos dias. Mas a verdade é que sempre esteve seguro no Mercado por causa do pai. Porque as pessoas temiam Johnny Rook. O que aconteceria com ele sem a proteção do pai? —

Mas eu não sou um Caçador de Sombras — falou. Ele olhou em volta, para os milhões de armas, as pilhas de adamas, os uniformes de luta e os cintos de armas. Era ridículo. Ele não era um ninja. — Eu não saberia nem como começar a ser um.

— Espere mais uma semana — pediu Jace. — Mais uma semana aqui no Instituto. Se dê uma chance. Emma me contou que você lutou contra aqueles demônios que mataram seu pai. Só um Caçador de Sombras poderia ter feito isso.

Kit mal se lembrava de ter combatido os demônios na casa do pai, mas sabia que tinha feito. Seu corpo tinha assumido, e ele lutou. E, de um jeito pequeno e estranho, escondido, até gostou.

— Isso é o que você é — falou Jace. — Você é um Caçador de Sombras. Você é parte anjo. Tem o sangue de anjos nas veias. É um Herondale. O que, por sinal, significa que você não só é parte de uma família absurdamente atraente, mas também é parte de uma família que possui muitos bens valiosos, inclusive uma casa em Londres e uma mansão em Idris, à qual você provavelmente tem algum direito. Sabe, se tiver interesse.

Kit olhou para o anel na mão esquerda de Jace. Era prateado, pesado. Parecia antigo. E valioso.

— Estou ouvindo.

— Só estou dizendo para esperar uma semana. Afinal, os Herondale não resistem a um desafio. — Jace sorriu.

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