Livro ‘Segredos’ por Domenico Starnone

'Segredos' por Domenico Starnone
Anos 1970, Itália. Pietro tem 33 anos e é professor numa escola na periferia de Roma. Ele mantém um relacionamento tempestuoso com Teresa, dez anos mais nova, uma ex-aluna brilhante e independente que parece o tempo todo testar seus limites. Certa ocasião, Teresa propõe um jogo: que eles compartilhem um com o outro o seu segredo mais obscuro. Poucos meses depois de se confessarem, o romance acaba. Pietro se envolve então com Nadia, uma jovem que lhe transmite segurança e com quem ele acabará se casando e tendo filhos: ela nunca seria capaz de remexer em suas coisas, ao contrário da antiga namorada...
Capa comum: 152 páginas
Editora: Todavia; Edição: 1 (3 de junho de 2020)
Idioma: Português
ISBN-10: 6551140181
ISBN-13: 978-6551140181
Dimensões do produto: 20,8 x 13,4 x 1,2 cm
Peso de envio: 200 g

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Leia trecho do livro

Primeiro relato

1.

O amor, dizer o quê?, fala-se tanto dele, mas não acho que eu tenha usado a palavra com frequência, aliás, minha impressão é que nunca recorri a ela, apesar de ter amado, claro que amei, amei até perder a cabeça e os sentimentos. De fato, o amor tal como o conheci é uma lava de vida bruta que queima a vida fina, uma erupção que anula a compreensão e a piedade, a razão e as razões, a geografia e a história, a saúde e a doença, a riqueza e a pobreza, a exceção e a regra. Resta apenas uma agonia que torce e distorce, uma obsessão sem remédio: onde ela está, onde não está, o que está pensando, fazendo, o que disse, qual era o verdadeiro sentido daquela frase, o que não está me dizendo, e se passou bem como eu também passei, e se continua bem agora que estou longe, ou se minha ausência a debilita como a dela faz comigo, me aniquilando, tirando de mim toda a energia que sua presença produz, o que eu sou sem ela, um relógio parado na esquina de uma rua movimentada, ah, já a voz dela, ah, estar ao lado dela, encurtar a distância, zerá-la, apagar quilômetros, metros, centímetros, milímetros, e me fundir, me confundir, deixar de ser eu, aliás, já começo a achar que nunca fui senão nela, no prazer dela, e isso me deixa orgulhoso, me deixa alegre e me deprime, me entristece, e de novo me reacende, me eletriza, como eu gosto dela, sim, eu só quero o bem dela, sempre, não importa o que aconteça, mesmo que ela se esquive, mesmo que ame outros, mesmo que me humilhe, mesmo que me esvazie de tudo, até da capacidade de gostar dela. Quanta coisa absurda pode acontecer na cabeça, gostar já sem conseguir gostar, odiar mesmo continuando a gostar. Comigo aconteceu, por isso evitei a palavra o máximo possível, não sei o que fazer com o amor seráfico, o amor que conforta, o amor que toca os sinos, o amor que purifica, o amor patético: é por estranheza que muitas outras — agonia, fúria, languidez, abatimento, necessidade, urgência, desejo —, temo que demasiadas, as quais pesco em cinco mil anos de escrita, e poderia seguir adiante quem sabe quanto. Mas agora tenho de passar a Teresa, foi ela quem sempre se recusou a estar dentro dessa combinação de quatro letras e no entanto as quis para si, e ainda quer, milhares e milhares de outras.

Eu tinha uma queda por Teresa desde que ela se sentava numa cadeira perto da janela e era uma de minhas alunas mais animadas. Mas só me dei conta disso quando, depois de um ano de formada, ela me ligou, veio me esperar na saída da escola, me falou de sua turbulenta vida universitária enquanto caminhávamos num belo dia de outono e de repente me beijou. Aquele beijo foi o marco inicial de nosso relacionamento, que durou ao todo uns três anos, entre exigências de fato nunca satisfeitas de absoluta posse recíproca e tensões que terminavam em insultos, choros e mordidas. Lembro uma noite na casa de conhecidos, éramos sete ou oito pessoas. Eu me sentava ao lado de uma jovem nascida em Arles que estava em Roma havia alguns meses e tinha um modo tão sedutor de desmontar o italiano que eu preferiria ouvir apenas a voz dela. Mas todos conversavam ao mesmo tempo, sobretudo Teresa, que falava coisas muito inteligentes com seu habitual jeito generoso e extremamente preciso. Devo admitir que, fazia uns meses, eu começara a me incomodar com aquela sua vontade de estar sempre no centro, subindo o nível até mesmo da conversa mais frívola, por isso tendia a interrompê-la frequentemente com alguma ironia, mas ela me fulminava com o olhar e dizia: desculpe, quem está falando sou eu. Naquela ocasião eu talvez tenha ido um pouco além do suportável: gostava da jovem de Arles e queria que ela gostasse de mim. Então Teresa se virou furiosa em minha direção, pegou a faca do pão e gritou: experimente cortar de novo minha fala que eu corto sua língua e mais outra coisa. Brigamos em público como se estivéssemos a sós, e hoje penso que de fato estávamos, a tal ponto nos vimos absorvidos um pelo outro, no bem e no mal. Nossos conhecidos estavam lá, sim, havia a garota de Arles, mas se tratava de figuras supérfluas, só contava nossa contínua atração e repulsa. Era como se gostássemos um do outro sem medida apenas para poder apurar que nos detestávamos. Ou vice-versa.

Naturalmente não faltavam períodos felizes, quando falávamos de tudo, brincávamos e eu lhe fazia cócegas até que, para me fazer parar, ela me enchia de beijos intermináveis. Mas isso não durava, nós mesmos éramos os perturbadores de nossa convivência. Parecíamos convencidos de que a violência com que injetávamos continuamente desordem entre nós enfim nos transformaria num casal harmônico; mas essa meta, em vez de se aproximar, só se afastava. A vez que descobri, graças a uma fofoca da mesma garota de Arles, que Teresa se mostrara em atitudes íntimas demais com um conhecido acadêmico macilento e destrambelhado, dentes podres, olhos doentios, uns dedos que mais pareciam pernas de aranha com os quais martelava um piano para alunas em êxtase, fui tomado de tal repugnância por ela que voltei para casa e, sem explicações, agarrei-a pelos cabelos, arrastei-a até o banheiro e queria eu mesmo lavar cada milímetro de seu corpo com sabão de Marselha. Eu não gritava, falava com a costumeira ironia, dizia: sou um homem de visão aberta, faça o que lhe der na telha, mas não com um cara tão nojento. E ela escapava, esperneava, me dava tapas, me arranhava, gritava olha aí o que você é de verdade, vergonha, vergonha.

Daquela vez, brigamos de um jeito que parecia definitivo, não dava para voltar atrás depois das coisas que jogamos na cara um do outro. No entanto, mesmo naquela ocasião, conseguimos nos reconciliar. Ficamos abraçados até o amanhecer, rindo da garota de Arles, do pianista e docente de citologia. Mas agora estávamos assustados com o risco que havíamos corrido de nos perder. E foi aquele susto, acho, que nos levou logo em seguida a buscar uma maneira de marcar para sempre nossa dependência recíproca.

Teresa insinuou cheia de dedos uma proposta e disse: vamos mim mesma nunca tentei dizer, e você me conta um seu equivalente, uma coisa que, se fosse descoberta, te destruiria para sempre. Sorriu como se estivesse me convidando para um jogo, mas lá no fundo me pareceu muito tensa. Logo me senti também ansioso, fiquei assustado, preocupado que ela, aos vinte e três anos, pudesse ter um segredo tão inconfessável. Eu, que estava com trinta e três, tinha um, e se tratava de uma história tão embaraçosa que só de pensar nela eu me ruborizava, baixava os olhos para a ponta dos sapatos, esperando que a perturbação passasse. Demos voltas em torno do assunto, nos perguntando quem confessaria primeiro.

— Primeiro você — ela disse, e o tom era imperioso e irônico, o mesmo que costumava usar quando transbordava de afeto.
— Não, primeiro você, preciso avaliar se seu segredo é tão horrível quanto o meu.
— E por que eu deveria confiar, e você não?
— Porque conheço meu segredo e acho impossível que você tenha um tão inconfessável.

Por fim, depois desse vaivém ela acabou cedendo, especialmente irritada — suponho — com o fato de eu não considerá-la capaz de ações inomináveis. Deixei que falasse sem interrupções e no final não consegui formular um comentário adequado.

— E então?
— É feio.
— Eu te avisei, agora é sua vez. E, se me contar uma tontice, vou embora e você nunca mais me vê. Então me abri, a princípio de modo fragmentário, depois cada vez mais articulado, e não queria parar de falar, foi ela quem disse chega. Soltei um longo suspiro e disse:

— Agora você sabe de mim o que ninguém nunca soube.
— E você também sabe de mim.
— Não podemos nos deixar nunca, de fato estamos nas mãos um do outro.
— Não está contente?
— Estou.
— Foi uma ideia sua.
— Foi.
— Gosto de você.
— Eu também.
— Mas eu gosto muito.
— E eu muito, muito.

Poucos dias depois, sem bater boca, ao contrário, com um protocolo cortês que nunca tínhamos usado entre nós, decidimos que nossa relação estava encerrada e de comum acordo terminamos.

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