Livro ‘Nossa Casa Está em Chamas’ – Vários Autores

Livro 'Nossa Casa Está em Chamas' - Vários Autores
Ninguém é pequeno demais para fazer a diferença
Como a luta de uma jovem sueca contra a crise climática alcançou repercussão mundial. Quando a jovem Greta Thunberg percebeu que a mídia e os políticos não falavam ou faziam nada a respeito da crise climática global ela soube que precisava fazer alguma coisa. A garota então resolveu fazer uma greve escolar toda sexta-feira, sentada em frente ao parlamento sueco, exigindo do governo uma posição sobre medidas que reduzissem a emissão de gás carbônico. Sua atitude inspirou milhares de crianças e adolescentes em todo o mundo e culminou no movimento Fridays for Future, em greves estudantis mundiais pela crise climática e na indicação de Greta ao Nobel da Paz...
Capa comum: 336 páginas
Editora: BestSeller; Edição: 1 (9 de setembro de 2019)
Idioma: Português
ISBN-10: 8546500274
ISBN-13: 978-8546500277
Dimensões do produto: 20,6 x 13,2 x 2,4 cm
Peso de envio: 358 g

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Leia trecho do livro

1.
POR DETRÁS DA CORTINA VERMELHA

Pois o dia padece.
O sol morrerá às sete horas.
Digam, especialistas em escuridão,
quem vai nos iluminar agora?
Quem acende uma luz ocidental,
quem sonha um sonho oriental?
Venha qualquer um com uma lanterna!
De preferência você.

“Elegia”, Werner Aspenstrõm

Esta poderia ser minha história. Quase como uma autobiografia, caso eu quisesse escrever uma.

Mas não estou tão interessada em autobiografias.

Para mim, há outras coisas mais importantes.

Svante e eu escrevemos esta história com nossas filhas, e ela fala sobre a crise que afetou nossa família.

É sobre Greta e Beata.

Mas é, sobretudo, uma história sobre a crise que nos rodeia e afeta a todos. A crise que nós, humanos, criamos com o nosso modo de vida: aquém da sustentabilidade, apartado da natureza à qual todos nós pertencemos. Alguns chamam isso de consumo excessivo; outros, de crise climática.

Parece que a maioria das pessoas acredita que essa crise esteja acontecendo em algum lugar distante daqui, que não nos atingirá tão cedo.

Mas não é verdade.

Porque ela já está aqui, nos rodeando o tempo todo, de diversas formas. Na mesa do café da manhã, nos corredores da escola, nas ruas, nas casas e apartamentos. Nas árvores de frente para a janela, no vento que bagunça seu cabelo.

Talvez devêssemos ter esperado para dizer algumas das coisas que Svante e eu, junto com as crianças, decidimos dizer depois de longa hesitação.

Para quando tivéssemos nos distanciado mais delas.

Não por nós, mas por você.

Essas coisas certamente seriam consideradas mais agradáveis. Um pouco mais comedidas.

Mas não temos esse tempo. Se quisermos uma chance, temos que começar a tornar essa crise visível agora.

Poucos dias antes deste livro ser lançado, em agosto de 2018, nossa filha, Greta Thunberg, estava sentada do lado de fora do Parlamento da Suécia, começando sua greve escolar — uma greve que ainda acontece, tanto na Mynttorget, na Cidade Velha, quanto em vários outros lugares do mundo.

Desde então, muita coisa mudou. Tanto para ela quanto para nossa família.

Em alguns dias, é quase como se vivêssemos um conto de fadas.

Esta história é sobre o caminho que levou até a greve escolar de Greta. Sobre os acontecimentos que nos levaram até o dia 20 de agosto de 2018.

Malena Ernman, novembro de 2018.

PS.: Antes deste livro ser publicado pela primeira vez, decidimos que o dinheiro que conseguíssemos arrecadar seria doado para o Greenpeace, a WWF e as associações suecas Aprender com Animais, Biólogos em Campo, Rei da Vida, Sociedade de Conservação da Natureza, Children in Need e Direitos dos Animais, tudo isso através de uma fundação que criamos.

E assim será.

Porque foi isso que Greta e Beata decidiram.

CENA 1
ULTIMA NOITE NA OPERA

No palco.

A orquestra afina os instrumentos uma última vez e a luz do salão diminui. Estou ao lado do maestro Jean-Christophe Spinosi, e estamos saindo da coxia para assumir nossas posições no palco.

Todos estão felizes nesta noite. É nossa última apresentação, e amanhã cada um pode voltar para sua casa, para perto da família. Adiante, para o próximo trabalho. Cada um vai ao encontro de suas famílias na França, Itália e Espanha. Para Oslo e Copenhague. Depois para Berlim, Londres e Nova York.

As últimas performances foram quase como um transe.

Quem já atuou em um palco sabe o que quero dizer. Às vezes rola uma espécie de fluxo; uma energia que cresce na interação entre palco e público, formando uma reação em cadeia que se mantém de uma performance à outra, de uma noite à outra. É como mágica. Mágica do teatro e da ópera.

E agora acontece a última apresentação de Serse, de Hãndel, na galeria de arte Artipelag, no arquipélago de Estocolmo. O dia é 2 de novembro de 2014 e, esta noite, vou cantar minha última ópera na Suécia. Mas ninguém sabe disso.

Hoje à noite será minha última performance em uma ópera.

O clima está elétrico e todos atrás do palco se movem alguns centímetros acima do piso de concreto quase novo da galeria Artipelag.

Há uma equipe de filmagem também. Gravamos o espetáculo com oito câmeras e uma equipe de produção em grande escala.

Pela porta da coxia ouvimos o som de novecentas pessoas em completo silêncio. O rei e a rainha estão lá.

Todo mundo está lá.

Ando para lá e para cá. Tento respirar, mas não consigo. Meu corpo se joga para a esquerda o tempo todo, e estou suando. Minhas mãos estão dormentes. As últimas sete semanas foram um pesadelo. Sem lugar para descansar. Não consigo ter paz em lugar algum. Passo mal, mas ao mesmo tempo estou longe de ter náuseas. É como um ataque de pânico prolongado.

É como se eu tivesse pulado e dado de cara com uma parede de vidro, ficando presa na queda de volta para o chão. Fico esperando o baque. Esperando a dor vir. Esperando sangue, ossos quebrados e sirenes de ambulâncias.

Mas nada disso acontece. A única coisa que vejo é meu corpo pairando no ar em frente àquela merda de parede de vidro que está lá, sem nenhuma rachadura.

— Não estou me sentindo bem — digo.

— Sente-se um pouco. Quer uma água? — Eu e o maestro nos comunicamos em francês.

De repente, as pernas não me sustentam mais. Eu caio. Jean-Christophe me segura.

— Não tem problema, damos uma pausa no espetáculo. Eles que esperem. Colocamos a culpa em mini, sou francês mesmo. Sempre nos atrasamos.

Alguém ri.

Depois da apresentação, tenho que me apressar. Minha filha mais nova, Beata, completa nove anos no dia seguinte, e eu tenho mil coisas para ajeitar em casa. Mas agora estou onde estou. Desmaiada nos braços do maestro.

Típico.

Alguém acaricia minha testa.

Tudo escurece…

CENA 2
A FÁBRICA

Cresci em uma casa geminada na cidade de Sandviken. Minha mãe era diaconisa e meu pai trabalhava como gerente de finanças e impostos. Tenho uma irmã três anos mais nova que eu, Vendela, e um irmão onze anos mais novo, que minha mãe batizou de Karl-Johan em homenagem ao cantor Loa Falkman, porque ela achava que o nome Loa não era muito elegante.

Essa é a única conexão com ópera e música clássica que eu trouxe de casa.

Nós cantávamos muito. Música folclórica, Abba, John Denver. Éramos, de forma geral, uma típica família do interior da Suécia. Talvez a única coisa que nos diferenciava dos outros fosse o fato de meus pais serem muito engajados com a causa de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Lá em casa, no bairro de Vallhov, prevalecia o humanitarismo, e sempre foi natural tentar apoiar pessoas que precisassem de ajuda. Uma tradição familiar que minha mãe carregou consigo e que vem desde meu avô paterno, Ebbe Arvidsson. Ele tinha um cargo de alto escalão na igreja sueca, e foi um pioneiro no ecumenismo e em trabalhos de altruísmo moderno. Por isso cresci rodeada de hóspedes, refugiados e imigrantes ilegais.

Às vezes as coisas ficavam complicadas.

Mas deu tudo certo.

As únicas vezes que viajamos foi para visitar a melhor amiga da mamãe, uma freira que morava no norte da Inglaterra. Durante alguns verões nos hospedamos no convento em que ela vivia. Acho que é por isso que falo tantos palavrões quando estou no palco. Uma espécie de revolta infantil crônica que nunca sara.

Mas, além do fato de termos passado os verões em dormitórios de conventos ingleses e de termos refugiados morando na nossa garagem, éramos exatamente iguais às outras pessoas.

Como eu disse, nós cantávamos, e eu adorava cantar, cantava o tempo todo.

Cantava tudo o que podia — quanto mais difícil a peça, mais divertido achava.

O motivo de eu ter virado cantora de ópera é porque eu amo desafios. No fim das contas, ópera é o que há de mais difícil e mais divertido de se cantar.

CENA 3
ARTISTAS

Estou nos palcos e canto para o público desde os 6 anos. Corais da igreja, grupos vocais, bandas de jazz, musicais, ópera. Meu amor pela música cantada é ilimitado — prefiro não pertencer a nenhum gênero específico ou ser colocada em categorias. Me espalho por todas as direções e cantos possíveis. Canto qualquer coisa que aparecer, desde que seja música boa.

Na indústria do entretenimento, costuma-se dizer que, quanto mais alguém se destaca como artista, mais livros de receitas publicará — e meus livros de receitas são provavelmente mais escassos que os dos outros. Mas, nos últimos 15 anos, tenho sido bastante coerente, pelo menos ao meu ver. Tento combinar altitude artística com amplitude de público. Quis transformar o complexo em algo um pouco mais simples, a alta cultura em algo um pouco menos fino, o esbelto em algo um pouco mais espaçoso. E vice-versa.

Segui meu próprio caminho. Sempre contra o fluxo e quase sempre sozinha. Exceto quando Svante estava ao meu lado, é claro.

O que no começo era embasado em instinto e intuição com o passar dos anos se tornou um método. Quase como uma responsabilidade, uma convicção de que a pessoa que tem a capacidade de aprimorar o que faz tem também a obrigação de buscar esse aprimoramento.

Svante e eu pertencemos ao grupo dos poucos que tiveram essa possibilidade.

E nós tentamos.

Somos artistas. Estudamos em faculdades de ópera, música e teatro, e temos um tempo de trabalho freelance e institucional como bagagem. Fazemos o que todos os artistas são programados para fazer. Trabalhamos duro para assegurar nosso futuro e alcançar nosso eterno objetivo: encontrar os novos públicos.

Viemos de lugares bem diferentes, mas sempre tivemos os mesmos objetivos, desde o princípio.

Diferentes, porém iguais.

Quando engravidei de nossa primeira filha, Greta, Svante trabalhava nos teatros ëstgõta, Orion e no Teatro Nacional Sueco. Ao mesmo tempo. E eu tinha vários anos de contratos à minha frente, em diversas óperas na Europa. A 1.000 quilômetros de distância um do outro, discutíamos ao telefone sobre como faríamos para que nosso novo cotidiano funcionasse.

— Você está entre as melhores do mundo no que faz — disse Svante. — Eu li isso em pelo menos dez jornais diferentes. E eu sou um baixista no teatro sueco. Além disso, você ganha mais melhor do que eu.

— Melhor que eu.

— Você ganha melhor que eu.

Protestei um pouco, sem muito entusiasmo, mas a decisão foi tomada. Depois da última apresentação de Svante, ele pegou um voo para me encontrar em Berlim.

No dia seguinte, o telefone de Svante tocou e ele atendeu na sacada que dá para Friedrichstrasse, falou durante alguns minutos. Isso foi no fim de maio, e o calor do verão já estava ardendo. Não tinha nem seis meses que estávamos juntos.

— É uma merda mesmo — disse ele, rindo, quando desligou.

— Quem era?

— Erik Haag e outro cara. Estavam na Orion e viram o espetáculo na semana passada.

Svante tinha atuado com Helena af Sandeberg em uma peça de Irvine Welsh, que escreveu Trainspotting; todo mundo se drogava e eles embrulhavam cadáveres em filme plástico.

“Me fode!” era uma das falas que Helena gritava para Svante várias noites por semana desde a estreia da peça. Eu tinha muito ciúme.

— Eles estão fazendo um programa de humor na Rádio da Suécia e me acham engraçado. Perguntaram se eu queria participar, mais como um teste. Exatamente o tipo de telefonema que a gente espera…

— O que você respondeu? Você tem que aceitar! — falei, tensa. — Respondi que minha namorada está grávida e trabalhando no exterior. — respondeu ele, também tenso.

— Você recusou?

— Recusei. Tem que ser assim. Estamos juntos nessa, senão nunca funcionará.

E assim foi feito.

Algumas semanas depois, estávamos na festa de estreia de Don Giovanni, na Ópera Estatal de Berlim, enquanto Svante explicava ao maestro Barenboim e a Cecilia Bartoli:

— Então, eu virei dona de casa.

Continuamos assim por 12 anos. Foi cansativo, mas também extremamente divertido. Morávamos dois meses em cada cidade e depois nos mudávamos para a próxima. Berlim, Paris, Viena, Amsterdã, Barcelona. Sempre circulando.

Passávamos os verões em Glyndebourne, Salzburgo ou Aix-en-Provence. Como acontece quando se é um bom cantor de ópera e outras músicas clássicas.

Eu ensaiava cerca de 20 a 30 horas semanais, e o resto do tempo passávamos juntos. De folga. Nenhum parente exceto a vovó Mona. Nada de amigos. Nada de jantares. Nada de festas. Apenas nós.

Beata nasceu três anos depois de Greta, e compramos um Volvo V70 para carregar casas de bonecas, ursos de pelúcia e triciclos. Então seguimos em frente. Uma viagem atrás da outra. Foram anos incríveis. Nos invernos, sentávamos no chão de belos apartamentos neorrenascentistas bem iluminados e brincávamos com as meninas, e, quando a primavera chegava, íamos passear juntos em parques arborizados.

Nosso cotidiano não se igualava ao de mais ninguém. E isso era maravilhoso.

CENA 4
OPORTUNIDADES ÚNICAS

— Participar do Festival de Melodias sueco é mais ou menos como ter um filho. Você pode contar para os outros, descrever cada detalhe. Mas só aqueles que experimentaram entendem como a gente sente.

Anders Hansson era produtor musical e em breve começaríamos a trabalhar juntos no meu próximo álbum. Naquele momento estávamos puxando nossas malas pela Stortorget, em Malmõ, indo para a estação para pegar o trem de Estocolmo. Anders ria enquanto explicava a situação para Svante e eu.

Minha estreia no festival havia sido na noite anterior, e uma foto enorme comigo, Petra Mede e Sarah Dawn Finer estampava a primeira página do jornal Aftonbladet. A legenda dizia: “Arena Malmõ às 21:23h.” Eu não conseguia esconder que estava completamente em choque. Se fosse para participar do Festival de Melodias, linha que ser para ganhar. E ganhar de verdade. Começar com todas as chances de chegar em último lugar. Disputar contra todos os grandes e bons artistas na final — e, além de tudo, vencer com a menor margem possível, de preferência somente por conta da ajuda dos votos do público. Como eu. Mais difícil que isso não dá.

Então foi só começar os trabalhos.

As condições não poderiam ter sido melhores.

O Festival de Melodias nos deu uma chance única — uma oportunidade que provavelmente nunca mais aconteceria de novo. A plateia ficava cheia. O Ministro da Cultura batizou de “efeito-Malena”.

A manchete no jornal Expressen dizia: “A ópera sai dos salões e volta para o povo.” E o redator cultural do Dagens Nyheter escreveu que “é bom demais para ser verdade.”

Mas era verdade. Por um breve instante, quase acreditei que fosse possível: dava para fazer ópera popular. Mas quando o outono chegou, tudo voltou ao normal. Nenhum instituto de ópera sueca entrou em contato e quis aproveitar a oportunidade. O público estava lá, mas era como se ninguém estivesse interessado nele.

Então fizemos tudo sozinhos.

Eu protagonizava óperas no exterior e trabalhava como artista na Suécia, produzindo de forma independente concertos, turnês e palestras.

Tudo isso em nossa busca por um público novo e amplo.

Certa noite, duas semanas antes da última performance de Serse, Svante e eu estávamos sentados no chão do banheiro de nossa casa, em Estocolmo. Já era tarde, as crianças haviam dormido. Tudo começou a desmoronar ao nosso redor. As paredes do apartamento estavam se comportando de maneira diferente. Rachaduras corriam pelo telhado e parecia que o quarteirão inteiro cederia a qualquer momento e cairia no lago Klara.

Greta tinha acabado de começar a quinta série e estava sendo um momento dificil para ela. Chorava à noite quando ia dormir. Chorava a caminho da escola. Chorava durante as aulas e nos intervalos, e os professores ligavam para nós quase todos os dias. Svante precisava sair correndo para buscá-la na escola. Para junto de Moses, só Moses conseguia ajudá-la.

Ela ficava horas sentada com nosso golden retriever, fazendo carinho e alisando seu pelo. Nós tentamos tudo o que podíamos, mas nada ajudava. Ela desapareceu em algum tipo de escuridão e foi como se tivesse parado de funcionar. Parou de tocar piano. Parou de rir. Parou de falar.

E…

Parou de comer.

Estávamos lá, sentados no piso duro de mosaico, e sabíamos exatamente o que fazer. Nós faríamos tudo. Mudaríamos tudo. Encontraríamos Greta novamente, a qualquer custo.

Mas não foi o suficiente. Nós precisávamos fazer algo que fosse além de palavras e sentimentos. Um desfecho. Uma pausa.

— Você está bem? — perguntou Svante. — Quer continuar?

— Não.

— Ok, acho que podemos mandar tudo isso à merda. Não dá para fazer ópera popular quando os institutos de ópera não querem que ela seja popular, e não importa se alguém encontra esse tal novo público se nenhum babaca está interessado nele.

— Eu concordo. Estou cheia disso. — E estava mesmo.

— Se não for suficiente levar vinte mil pessoas a uma galeria de arte, no meio da floresta, em Vãrmdii, a três quilômetros do ponto de ônibus mais próximo, tudo sem a ajuda de patrocinadores ou um único centavo em contribuição do governo, se nem isso for suficiente, nem o inferno será.

Svante tem um temperamento que nem sempre o favorece. Mas eu não tinha como discordar dele naquele momento.

— Nós já fomos longe o suficiente. — falei. — Eu honestamente não acho que sobreviveria se continuássemos.

— Então cancelamos tudo. Cada contrato — continuou ele. — Madrid, Zurique, Viena, Bruxelas. Tudo. Arrumamos uma desculpa. Vamos fazer outra coisa. Concertos, musicais, teatro, TV. Você canta ópera. Canta a música, mas não faz mais palestras.

— Faço a última apresentação daqui a duas semanas. Depois disso, nunca mais.

Eu estava decidida.

— Vamos dizer alguma coisa? É estúpido, né?

— É. É estúpido.

E não dissemos nada.

CENA 5
SERSE – O REI DA PÉRSIA

Fiquei desmaiada por quase dez minutos, me disseram depois. O público foi informado de que, infelizmente, a apresentação estava alguns minutos atrasada.

Por trás da cortina, se discutia como a situação seria tratada, é claro. Mas isso não me afetava, porque eu sabia exatamente o que iria fazer.

Era hora de acabar com isso de uma vez por todas.

Tomei um gole de água e acenei para o maestro.

— Você consegue se levantar?

— Não. — Eu me levantei.

— Consegue andar?

— Não. — Eu comecei a ir em direção à porta que dava para o palco. Olhares preocupados ao meu redor.

— Mas você consegue cantar?

— Não — respondi, acenando positivo para o mestre do palco e entrando em cena.

As pessoas que estavam presentes disseram que o aplauso no final foi algo extra. Todos ficaram de pé e gritaram de uma forma que normalmente não fazem.

Por trás da cena, todo mundo flutuava como se estivesse embriagado de felicidade. Como em um filme. O rei e a rainha cumprimentaram todos e falavam entre risadas.

Como se estivesse em câmera lenta. Extremamente lento.

Pernilla me ajudou a tirar o traje e a peruca.

— Não diga nada para Svante sobre o que aconteceu. Ele só vai ficar preocupado sem necessidade — falei.

Ela confirmou em silêncio.

Do foyer acima, vinham vozes — em sueco, francês, alemão, espanhol.

Pareciam tão felizes. E, quando me acompanharam até o táxi, vi que levantaram suas taças de champanhe e brindaram. Um quádruplo “hip hip hurra!”.

Me deitei no banco de trás e chorei o caminho inteiro até o centro.

Não que eu estivesse triste. Não que eu estivesse aliviada. Não que tudo estivesse como sempre foi.

Chorei porque não me lembrava de nada da apresentação.

Era como se eu nunca tivesse estado lá.

fim da amostra…

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