Livro ‘O Portador’ por Sophie Hannah

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Ele jurava que era o assassino. A verdade era pior. Francine Breary, sensível apenas aos próprios sentimentos, controlava as mínimas facetas da vida do marido, Tim, e ditava regras que pretendiam reger as emoções de todos ao seu redor. Vítima de um AVC e presa a uma cama sem poder se mover ou falar, ela encontra o fim de sua existência. Quem terá sido o verdadeiro culpado pela sua morte? Um crime de crueldade deliberada ou apenas um gesto de misericórdia? Rancores, inseguranças e arrependimentos preenchem todos os cantos de Dower House, aquela casa onde revelações assustadoras fazem com que pessoas comuns potencializem peculiaridades que as tornam monstruosas. “Toda vítima de assassinato é alguém que inspirou, em pelo menos uma pessoa, o desejo de que ela não existisse.” Devido a um atraso no voo de volta para casa, a empresária Gaby Struthers precisa pernoitar em um hotel e dividir o quarto com Lauren Cookson, uma das passageiras…

Páginas: 448 páginas; Editora: Rocco; Edição: 1 (8 de outubro de 2019); ISBN-10: 8532531539; ISBN-13: 978-8532531537; ASIN: B07Y335RS3

Leia trecho do livro

Para Peter Straus, meu adorável agente com poderes mágicos

PROVA POLICIAL 1431B/SK — TRANSCRIÇÃO DE CARTA MANUSCRITA DE KERRY JOSE PARA FRANCINE BREARY DATADA DE 14 DE DEZEMBRO DE 2010

Você ainda está aqui, Francine?

Eu sempre acreditei que as pessoas podem determinar a própria morte. Se nossa mente consegue fazer com que despertemos exatamente um minuto antes que nossos despertadores toquem, então deve ser capaz de interromper nossa respiração. Pense bem: cérebro e respiração têm uma ligação mais poderosa do que cérebro e mesinha de cabeceira. Um coração que recebe um pedido de parar de uma mente que não aceita um não como resposta — que chance ele tem? Pelo menos foi o que sempre achei.

E não consigo acreditar que você queira ficar por aqui. Mesmo que queira, isso não vai durar muito. Alguém vai matá-la. Logo. Todo dia eu mudo de ideia sobre quem será. Não sinto necessidade de tentar detê-los, apenas de lhe contar. Ao lhe dar a oportunidade de se colocar longe, fora de alcance, eu estou sendo justa com todo mundo.

Deixe-me admitir; estou tentando convencê-la a morrer porque tenho medo de que se recupere. Como o impossível pode parecer possível? Isso deve significar que ainda sinto medo de você.

Tim não sente. Sabe o que ele me perguntou uma vez, há anos? Ele e eu estávamos na sua cozinha, em Heron Close. Aqueles prendedores de guardanapos brancos que sempre me lembravam coletes cervicais estavam sobre a mesa. Você os havia tirado da gaveta, juntamente com os guardanapos marrons com patos na beirada, e batera com eles na mesa sem dizer nada; Tim deveria fazer o resto, independentemente de achar ou não importante que guardanapos fossem enfiados em prendedores apenas para serem retirados quinze minutos depois. Dan havia saído para buscar comida chinesa, e você fora para os fundos do jardim, ressentida. Tim havia pedido algo saudável e cheio de brotos de feijão que todos sabíamos que ele ia odiar, e você o acusou de escolher aquilo pela razão errada: satisfazê-la. Lembro-me de tentar conter as lágrimas enquanto arrumava a mesa, depois de ter tirado os talheres da mão dele desajeitadamente. Não havia nada que eu pudesse fazer para salvá-lo de você, mas podia poupá-lo do esforço de arrumar garfos e facas, e estava determinada a fazer isso. As coisas pequenas eram as únicas que Tim permitia que fizéssemos por ele naquela época, então Dan e eu fazíamos isso, o máximo possível, dedicando a elas o máximo de esforço e cuidado. Ainda assim, não consegui tocar naqueles malditos prendedores de guardanapos.

Quando tive certeza de que não ia chorar, me virei e vi uma expressão familiar no rosto de Tim, aquela que significa: “Há algo que eu quero que você saiba, mas não estou preparado para contar, então em vez disso vou confundir a sua cabeça.” Você não será capaz de imaginar essa expressão a não ser que a tenha visto, e estou certa de que nunca viu. Tim desistiu de tentar se comunicar com você uma semana depois de se casar. “O quê?”, perguntei a ele.

“Estou pensando em você, Kerry”, ele disse. Ele queria que eu ouvisse a desconfiança fingida na voz dele. Eu sabia que ele não desconfiava de nada em mim, e imaginei que tentava descobrir uma forma disfarçada de falar sobre si mesmo, como costumava fazer. Perguntei o que estava pensando, e ele disse em voz alta, como se para uma plateia de várias fileiras em um grande salão: “Imagine Francine morta.”Três palavras que cravaram um instantâneo desejo doído em meu peito. Eu queria muito que você não estivesse mais lá, Francine, mas estávamos presos com você. Antes de seu derrame, eu achava que você provavelmente viveria até os 120.

“Você ainda sentiria medo dela?”, Tim perguntou. Qualquer um que escutasse e que não o conhecesse bem teria achado que ele estava me provocando e gostando disso. “Acho que sim. Mesmo que soubesse que estava morta e nunca mais voltaria.”

“Você fala como se houvesse uma alternativa”, alertei. “Morta e voltando.”

“Você ainda ouviria a voz dela na sua cabeça, dizendo todas as coisas que diria caso estivesse viva? Você estaria mais livre dela do que está agora? Se não pudesse vê-la, imaginaria que ela devia estar em algum outro lugar, observando-a?”

“Tim, não seja idiota”, reagi. “Você é a pessoa menos supersticiosa que eu conheço.”

“Mas estamos falando de você”, ele disse em um tom de completa inocência, novamente chamando a atenção para sua encenação.

“Não. Eu não sentiria medo de alguém morto.”

“Se você sentisse igual medo dela morta, então matá-la não resultaria em nada”, prosseguiu Tim como se eu não tivesse dito nada. “A não ser provavelmente em uma sentença de prisão.” Ele tirou de um armário quatro taças de vinho com hastes grossas em vidro verde opaco. Eu também sempre as odiara, por causa do efeito de limo no fundo da bebida.

“Nunca entendi por que alguém acha interessante especular sobre a diferença entre assassinos e o restante de nós”, Tim comentou, tirando da geladeira uma garrafa de vinho branco. “Quem se importa com o que torna uma pessoa disposta e capaz de matar e outra não? A resposta é óbvia: graus de sofrimento, e em que ponto do espectro bravura-covardia você está; não é nada mais do que isso. A única distinção que merece ser investigada é aquela entre aqueles de nós cuja presença no mundo, por mais apagada e caótica, não esmaga e destrói o espírito dos outros, e aqueles de quem isso não possa ser dito, por mais gentis que queiramos ser. Toda vítima de assassinato é alguém que inspirou, em pelo menos uma pessoa, o desejo de que ela não existisse. E espera-se que sintamos alguma simpatia quando elas têm um triste fim”, concluiu, e fez um som de desprezo.

Eu ri daquele ultraje, depois me senti culpada por cair nessa. Tim nunca é melhor em me alegrar do que quando não identifica esperança de consolo para si mesmo; eu devo me sentir mais feliz e imaginar que ele está tendo a mesma trajetória emocional. “Você está dizendo que todas as vítimas de assassinato pedem por isso?”, pergunto, intencionalmente mordendo a isca. Se ele quer discutir alguma coisa, por mais ridícula que seja, mesmo agora, eu discuto até que ele decida que é o suficiente. Dan também faz isso. É uma das formas, existem milhões delas, que o amor pode assumir. Duvido que você entenda.

“Você está supondo, equivocadamente, que a vítima de um assassinato é sempre a pessoa que foi morta e não aquela que matou.” Tim se serviu de uma taça de vinho. Não me ofereceu uma. “Causar a alguém tanta inconveniência a ponto de a pessoa ficar disposta a arriscar sua liberdade e sacrificar o que restou de sua humanidade para removê-lo da face da Terra deveria ser visto como um crime mais sério do que pegar uma arma ou um instrumento contundente e eliminar uma vida, considerando todas as outras coisas equivalentes.”

Com inconveniência, ele queria dizer dor. “Você tem uma distorção”, eu disse. Sabia que Dan poderia voltar com a comida a qualquer instante, e queria dizer algo mais direto do que normalmente teria arriscado. Decidi que, ao iniciar aquela conversa extraordinária, Tim me dera sua permissão tácita. “Se você acha que Francine destrói espíritos, se a única razão pela qual não a matou é ter mais medo dela morta do que viva…”, falei.

“Não sei de onde você tirou isso”, retrucou Tim, sorrindo. “Está ouvindo coisas novamente?” Ambos entendíamos por que ele estava sorrindo. Eu recebi a mensagem dele, e não deveria me esquecer dela. Ele sabia que estava segura comigo. Foram necessários anos conhecendo Tim para descobrir que mudança não é aquilo que ele busca; tudo o que ele quer é estocar a informação importante com alguém em quem possa confiar.

“Você pode abandoná-la mais facilmente do que pensa”, disse a ele, ansiando pela mudança — do tipo gigantesco, irreversível — mais do que o suficiente para ambos. “Não precisa ser um confronto. Você não precisa dizer a ela que está indo embora, nem ter qualquer contato com ela após ter partido. Dan e eu podemos ajudá-lo. Deixe que Francine fique com esta casa. Vá morar conosco.” “Você não pode ajudar”, Tim disse com firmeza. Ele fez uma pausa, longa o suficiente para que eu compreendesse — ou entendesse mal, como sabia que ele insistiria se eu criasse caso —, antes de acrescentar: “Porque eu não preciso de ajuda. Estou bem.”

Eu o escutei falando com você ontem, Francine. Ele não estava pesando todas as palavras, planejando diversas jogadas da conversa com antecedência. Estava simplesmente falando, lhe contando outra história de Gaby. Envolvia um aeroporto, claro. Gaby parece viver em aeroportos, quando não está em pleno ar. Não sei como ela consegue suportar — isso me deixaria maluca. Essa história em particular era sobre quando a máquina de escaneamento do aeroporto de Barajas, em Madri, comeu um dos sapatos dela, e ele estava adorando contar. Soava como se estivesse dizendo tudo que passava pela cabeça sem absolutamente se censurar. Nada calculado, nenhum elemento de encenação. Muito atípico em Tim. Enquanto escutava, eu me dei conta de que qualquer medo que ele tivesse sentido um dia desaparecera havia muito. O que eu não consigo entender é: isso significa que ele provavelmente a matará ou que precisa que você viva para sempre?

1

Quinta-feira, 10 de março de 2011

A jovem ao meu lado está mais aborrecida do que eu. Não apenas do que eu; está mais aborrecida do que todas as outras pessoas no aeroporto somadas, e quer que todos saibam disso. Atrás de mim, as pessoas resmungam e dizem “Ah, não”, mas ninguém mais chora além dessa garota, ou treme de fúria. Ela consegue tagarelar com o funcionário da Fly4You e chorar copiosamente ao mesmo tempo. Fico impressionada com o fato de ela não precisar jamais interromper sua diatribe para engolir em seco, do modo incoerente como as pessoas que soluçam normalmente fazem. E também, diferentemente das pessoas comuns, ela parece não saber a diferença entre um atraso em viagem e uma desolação.

Não sinto pena dela. Poderia, caso sua reação fosse menos radical. Sinto mais pena das pessoas que insistem em parecer totalmente bem, enquanto seus órgãos estão sendo consumidos em alta velocidade por um micróbio comedor de carne. Isso provavelmente revela algo ruim sobre mim.

Não estou absolutamente aborrecida. Se não chegar em casa hoje, chegarei lá amanhã. Isso será logo.

— Responda à minha pergunta! — grita a garota com o pobre alemão educado que teve o azar de ser colocado no portão de embarque B56. — Onde está o avião agora? Ainda está aqui? Está lá embaixo?

Ela aponta para a passagem temporária de paredes sanfonadas que se abre atrás dele, aquela pela qual, cinco minutos antes, todos esperávamos passar para encontrar nosso avião ao final.

— Está lá embaixo, não está? — ela cobra. Seu rosto não tem rugas nem marcas, e é estranhamente achatado; uma boneca de pano maldosa. Parece ter uns dezoito anos, no máximo. — Escute, camarada, há centenas de nós e apenas um de vocês. Poderíamos passar por você e entrar todos no avião, um bando de britânicos raivosos, nos recusando a sair até que alguém nos leve para casa! Eu não arrumaria confusão com um bando de britânicos raivosos, se fosse você!

Ela tira a jaqueta de couro preta como se estivesse se preparando para uma briga física. A palavra “PAI” está tatuada no alto do braço direito em grandes letras maiúsculas, tinta azul. Veste jeans pretos apertados, cinto de balas e muitas tiras nos ombros: de sutiã branco, corpete rosa e camiseta vermelha sem mangas.

— O avião está sendo redirecionado para Colônia — diz o funcionário alemão da Fly4You pacientemente, pela terceira vez. Há uma plaqueta de identificação presa em seu uniforme castanho: Bodo Neudorf. Eu acharia difícil falar com rispidez com alguém chamado Bodo, embora não espere que outros partilhem esse escrúpulo específico. — O clima está perigoso demais. Não há nada que eu possa fazer. Lamento.

Um apelo racional. No lugar dele, eu provavelmente tentaria a mesma tática — não porque vá funcionar, mas porque se você tem racionalidade e o hábito de utilizá-la com regularidade, com certeza é um admirador e possivelmente valoriza demais sua utilidade potencial, mesmo ao lidar com alguém que considera mais útil acusar pessoas inocentes de esconder aeronaves dela.

— Você continua dizendo que está sendo redirecionado! Isso significa que vocês ainda não o mandaram para lugar nenhum, certo?

Ela limpa as bochechas molhadas — um gesto violento o suficiente para ser confundido com golpear o próprio rosto — e gira para se dirigir à multidão atrás de nós.

— Ele ainda não o mandou embora — ela diz, a vibração de sua voz ultrajada superando o som de guerra junto ao portão de embarque B56, abafando os constantes apitos eletrônicos que anunciam as confirmações iminentes de aberturas de portões para outros voos, os quais com mais sorte que o nosso. — Como ele poderia ter mandado embora? Há cinco minutos estávamos todos sentados aqui prontos para embarcar. Você não pode mandar um avião para algum lugar tão rápido assim! Eu digo que não vamos deixar que ele o mande embora. Estamos aqui, o avião tem de estar aqui, e todos queremos ir para casa. Não ligamos para o maldito clima! Quem está comigo?

Eu gostaria de me virar e ver se todos estão achando seu espetáculo solo tão constrangedoramente compulsivo quanto eu, mas não quero que nossos colegas não passageiros imaginem que ela e eu estamos juntas simplesmente por ficarmos uma ao lado da outra. Melhor deixar evidente que ela não tem nenhuma relação comigo. Dou um sorriso encorajador para Bodo Neudorf. Ele retribui com o próprio sorriso discreto, como se dizendo: “Agradeço o gesto de apoio, mas seria tolice sua imaginar que qualquer coisa que você possa fazer compense a presença da monstruosidade ao seu lado.”

Felizmente, Bodo não parece indevidamente alarmado com as ameaças. Ele provavelmente notou que muitas das pessoas com passagens para o Voo 1221 são cantoras extremamente bem comportadas, com idades aparentemente entre 8 e 12 anos, ainda vestindo seus trajes de coro depois do concerto em Dortmund hoje mais cedo. Sei disso porque o regente e cinco ou seis pais acompanhantes estavam recordando, orgulhosos, enquanto aguardávamos o embarque, como as garotas cantaram bem algo chamado “Angeli Archangeli”. Não pareciam o tipo de pessoas que iriam rapidamente derrubar um funcionário de aeroporto alemão em uma enorme correria ou insistir em expor suas crias talentosas a condições tempestuosas perigosas apenas para chegar em casa no momento previsto.

Bodo pega um pequeno equipamento preto, preso à mesa do portão de partida por um fio preto enrolado, e fala nele, tendo primeiramente apertado o botão que produz o apito que precisa anteceder todas as falas no aeroporto:

— Este é um comunicado para os passageiros do Voo 1221 com destino a Combingham, Inglaterra. Aquele é Fly4You Voo 1221 com destino a Combingham, Inglaterra. Seu avião está sendo redirecionado para o aeroporto de Colônia, onde se dará o embarque. Por favor, dirijam-se à área de coleta de bagagens para pegar suas malas, depois esperem do lado de fora do aeroporto, bem em frente ao saguão de embarque. Estamos tentando conseguir ônibus que os peguem e levem ao aeroporto de Colônia. Por favor, dirijam-se ao ponto de coleta do lado de fora do saguão de embarque assim que possível.

À minha direita, uma mulher elegantemente vestida, com cabelos vermelhos do tom do correio inglês e sotaque americano, diz:

— Não precisamos nos apressar, pessoal. Esses são ônibus hipotéticos: o tipo mais lento.

— Quanto tempo de ônibus daqui até Colônia? — grita um homem.

— Ainda não tenho detalhes sobre o horário dos ônibus — Bodo Neudorf anuncia. Sua voz se perde na onda de resmungos que se espalha.

Fico contente por não precisar fazer uma visita à coleta de bagagens. A ideia de todos caminhando para lá a fim de pegar a bagagem que despacharam em uma fila arrastada e cercada por cordas em zigue-zague, pouco mais de uma hora antes, me deixa exausta. São 8 horas da noite. Eu deveria pousar em Combingham às 20h30, horário da Inglaterra, e ir para casa tomar um longo banho em uma banheira quente com espuma, bebendo uma taça gelada de Muscat. Acordei às 5 da manhã para pegar o 0700 de Combingham para Dusseldorf. Não sou uma pessoa matinal, e me ressinto de qualquer dia que me obrigue a me levantar antes de 7 da manhã; aquele já durara demais.

— Ah, que porra de piada é essa? — diz Boneca de Pano Psicótica. — Você está de sacanagem comigo!

Se Bodo imaginara que ao amplificar a voz e projetá-la eletronicamente conseguiria impor à sua nêmese um silêncio obsequioso, se enganou.

— Não vou pegar mala nenhuma!

Um homem magro e careca de terno cinza se adianta e diz:

— Nesse caso, você provavelmente chegará em casa sem sua mala. E tudo dentro dela.

Aplaudo por dentro; o Voo 1221 tem seu primeiro herói silencioso. Ele tem um jornal debaixo do braço. Agarra o canto com a outra mão, esperando uma reação.

— Fique fora disso você! — Boneca de Pano berra na cara dele.

— Veja só: achando que é melhor do que eu! Eu não tenho sequer uma mala; você não sabe de nada! — conclui, depois volta a sua atenção novamente para Bodo. — O quê, vocês vão descarregar as malas de todo mundo do avião? Qual o sentido disso? Me diga se isso faz sentido. É simplesmente… Lamento a baixaria, mas isso é uma idiotice fudida!

— Ou — me pego dizendo a ela, porque não posso abandonar o herói careca ali parado sozinho, e ninguém mais parece estar saindo em sua ajuda — você é a idiota. Se você não despachou uma mala, então é claro que não vai coletar bagagem alguma. Por que faria isso?

Ela me encara. Lágrimas ainda correm por seu rosto.

— Além disso, se o avião estivesse aqui no momento e pudesse voar em segurança para o aeroporto de Colônia, poderíamos ir para lá nele, não poderíamos? Ou mesmo ir para casa, que é o que todos idealmente gostaríamos de fazer — digo. Merda. Por que abri a boca? Não é obrigação minha, nem mesmo de Bodo Neudorf, corrigir o raciocínio distorcido dela. O careca foi embora com seu jornal e me largou ali. Cretino ingrato. Continuo em minha missão de disseminar a paz e a compreensão. — Por causa do clima, nosso avião não pode voar para Dusseldorf. Ele nunca esteve aqui, não está aqui agora, e sua mala, caso você tivesse uma, não estaria nele, e não precisaria ser tirada dele. O avião está em algum lugar no céu — acrescento, apontando para cima. — Estava indo para Dusseldorf, e agora mudou de direção e está seguindo para Colônia.

— Nãão — ela diz, insegura, me olhando de cima a baixo com uma espécie de repulsa chocada, como se horrorizada de se ver obrigada a se dirigir a mim. — Isto não está certo. Estávamos todos sentados lá — diz, agitando um braço na direção dos assentos plásticos laranja curvos nas fileiras de estruturas metálicas pretas. — Foi dito para irmos ao portão. Só se diz isso quando o avião está lá pronto para embarque.

— Normalmente isso é verdade, mas não esta noite — digo a ela secamente. Quase consigo ver as engrenagens girando atrás dos olhos dela enquanto seu maquinário mental luta para colocar um em contato com o outro. — Quando eles nos disseram para ir ao portão, ainda esperavam que o avião conseguisse chegar a Dusseldorf. Pouco depois de termos nos reunido aqui, eles se deram conta de que isso não seria possível.

Lanço um olhar para Bodo Neudorf, que em parte concorda, em parte dá de ombros. Ele está se submetendo a mim? Isso é insano. Ele deveria saber mais sobre as operações de bastidores da Fly4You do que eu.

A Garota Chorosa Raivosa desvia os olhos e balança a cabeça. Posso ouvir seu desprezo silencioso. Acredite nisso se quiser. Bodo está falando em alemão em um walkie-talkie. Garotas cantoras próximas começam a perguntar se irão para casa hoje. Os pais respondem que não sabem. Três homens em camisas de times de futebol discutem quanta cerveja conseguirão beber entre aquele momento e qualquer que seja o instante em que partamos, especulando se a Fly4You pagará a conta do bar.

Uma mulher grisalha, preocupada, de cinquenta e tantos ou sessenta e poucos anos, diz ao marido que só tem mais dez euros.

— O quê? Por quê? — ele reage, impaciente. — Isso não é suficiente.

— Bem, não achei que fôssemos precisar de mais — ela responde, se agitando ao lado dele, aceitando a responsabilidade, esperando misericórdia.

— Você não achou? — ele cobra, com raiva. — E quanto a emergências? Esgotei toda a minha capacidade de intervenção, do contrário poderia perguntar se ele já ouvira falar de caixa eletrônico, e o que planejava fazer caso sua esposa entrasse em combustão espontânea e todo o numerário em sua bolsa se transformasse em fumaça. E quanto a emergências, valentão? Sua esposa, na verdade, tem trinta e cinco anos e só parece ter sessenta porque desperdiçou os melhores anos da vida com você?

Não há nada como um aeroporto para fazer com que você perca a fé na humanidade. Eu me afasto da multidão, passando por sucessivos portões de embarque vazios, sem nenhum destino específico. Estou farta de cada um de meus colegas de viagem, mesmo daqueles cujos rostos não notei. Sim, mesmo das gentis meninas cantoras. Não estou ansiosa para ver nenhum deles novamente — no desamparado e esperançoso grupo que iremos formar do lado de fora do saguão de embarque, onde passaremos horas de pé sob chuva e vento; do outro lado do corredor do ônibus; caídos semiadormecidos em vários bares pelo aeroporto de Colônia.

Em contrapartida. É um avião atrasado, não uma desolação. Eu voo muito. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo. Ouvi as palavras “Lamentamos anunciar…” com a mesma frequência com que vi o piso de linóleo pesado salpicado de cinza do aeroporto de Combingham, com a lateral espalhada de azul em todas as beiradas, para dar contraste. Fiquei de pé abaixo de painéis de informação e acompanhei pequenos atrasos se transformarem em cancelamentos com a mesma frequência com que vi as pequenas linhas paralelas que formam os quadrados sem limites, que, por sua vez, criam o padrão de um milhão de conjuntos de degraus prateados de avião; uma vez sonhei que as paredes e o teto do meu quarto eram cobertos de uma trama de alumínio texturizado.

A pior coisa de um atraso sempre é telefonar para Sean e lhe dizer que, mais uma vez, não vou voltar quando disse que voltaria. É um telefonema que não suporto dar. Embora… Neste caso, pode não ser tão ruim. Eu poderia fazer com que não fosse tão ruim.

Sorrio comigo mesma à medida que a ideia brota em minha mente. Então enfio a mão na bolsa — sem olhar, ainda caminhando — e aperto a mão ao redor de uma caixa retangular embrulhada em plástico: o teste de gravidez que tenho carregado comigo nos últimos dez dias e que nunca encontro o momento certo de usar.

Com frequência me preocupo com minha tendência a procrastinar, embora evidentemente esteja evitando lidar com o problema. Nunca fui assim quanto a nada relacionado a trabalho, e continuo não sendo, mas se é algo pessoal e importante me esforço ao máximo para adiar por tempo indeterminado. Pode ser por isso que não choro em aeroportos quando meus voos não partem no horário; atraso é meu ritmo natural. Parte de mim ainda não está pronta para encarar o teste, embora a cada dia que passe toda a coisa complicada de urinar em uma vareta plástica e esperar seu veredicto comece a parecer cada vez mais sem sentido. Estou obviamente grávida. Há um trecho de pele estranhamente sensível no alto de minha cabeça que nunca esteve lá, e me encontro mais cansada do que nunca.

Confiro o relógio, imaginando se teria tempo para fazer aquilo, depois debocho de minha própria ingenuidade. A americana estava certa. Não há ônibus físicos reais vindo nos resgatar. Só Deus sabe quando haverá. Bodo não tinha nenhuma ideia do que estava acontecendo. Ele nos induziu a supor que estava no comando dos preparativos por ser alemão. O que significa que tenho pelo menos quinze minutos para fazer o teste e telefonar para Sean enquanto o resto deles recupera sua bagagem. Por sorte, Sean se distrai facilmente, como uma criança. Quando lhe disser que não voltarei essa noite, ele vai se preparar para começar a reclamar. Quando lhe disser que o teste de gravidez foi positivo, ficará tão encantado que não vai ligar quando eu não voltar.

Paro no toalete feminino mais próximo e me obrigo a entrar, repetindo de cabeça tranquilizações silenciosas. Isto não é assustador. Você já sabe o resultado. Ver uma pequena cruz azul não mudará nada.

Desembrulho a caixa, tiro o teste, jogo o folheto de instruções de volta na bolsa. Já fiz isso antes — uma vez, ano passado, quando sabia que não estava grávida e só fiz o teste porque Sean não aceitava meu instinto como sendo suficientemente bom.

Não é uma cruz, é um sinal de mais. Não vamos chamar de cruz, é ruim para o moral.

Não demora muito para que surja algo para ver. Há um toque de azul. Ah, Deus, não consigo fazer isso. Quero apenas ligeiramente ter um bebê. Acho. Na verdade, não faço ideia. Mais azul: duas linhas se estendendo horizontalmente. Ainda nada de sinal de mais, mas é só uma questão de tempo.

Sean vai ficar contente. É nisso que tenho de me concentrar. Sou o tipo de pessoa que duvida de tudo e nunca consegue estar descomplicadamente feliz. A reação de Sean é mais confiável do que a minha, e sei que ficará fascinado. Ter um bebê vai ser legal. Se eu não quisesse ficar grávida, teria passado o ano anterior engolindo Mercilon em segredo, e não fiz isso.

O quê?

Não há uma cruz azul na maior janela da vareta. E mais nada está ficando azul. Já se passaram mais de cinco minutos desde que fiz o teste. Não sou especialista, mas tenho a forte impressão de que todo o azul que deveria acontecer já ocorreu.

Não estou grávida. Não posso estar.

Uma imagem surge em minha mente: uma pequena figura humana, dourada e sem traços, socando o ar em triunfo. Desaparece antes que eu consiga examiná-la em detalhes.

Agora realmente não quero falar com Sean. Tenho duas notícias decepcionantes para dar em vez de uma. A perspectiva de dar o telefonema está me deixando em pânico. Se tenho de fazer isso, preciso superar. Parece terrivelmente injusto que não possa lidar com este problema, fingindo não conhecer ninguém chamado Sean Hamer e desaparecendo em uma nova vida. Isso seria muito mais fácil.

Saio do toalete feminino e começo a retornar ao saguão de embarque, tirando o BlackBerry do bolso do paletó. Sean atende depois de um toque.

Biografia do autor: Sophie Hannah, poeta e romancista britânica, tem sua obra publicada em 27 países. Uma de suas coletâneas de poemas foi escolhida pela Poetry Book Society como uma das obras de referência da nova geração de poetas britânicos. Autora de livros infantis, contos e romances, Hannah é apaixonada pelos livros policiais desde os 13 anos e foi inspirada por Hercule Poirot e Miss Marple, personagens de Agatha Christie com profundo conhecimento da mente humana. Recebeu indicação para o prêmio TS Eliot (2007) por uma de suas coletâneas de poesia e foi vencedora do primeiro Festival de Contos Daphne Maurier por sua história de suspense psicológico The Octupus Nest. Um de seus romances, The Point of Rescue (2008), foi adaptado para uma série televisiva cuja primeira exibição teve mais de 5 milhões de telespectadores.


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