Livro ‘Hora de alimentar serpentes’ por Marina Colasanti

Livro 'Hora de alimentar serpentes' por Marina Colasanti
Tendo publicado anteriormente vários livros de minicontos, Marina volta ao gênero com este livro que reúne 206 contos. Embora pertencendo à literatura fantástica, os relatos ignoram fronteiras e se lançam com a mesma intimidade dentro e fora da realidade guiados pelo olhar irreverente e crítico da autora. Ironia e doçura constroem personagens que, por mais imprevisíveis ou erráticos, nos soam admiravelmente familiares. Nesta obra o leitor encontrará formas diversas – o roteiro, a história em quadrinhos – usadas não só para dar suporte ao olhar diversificado da autora, mas para remeter à multiplicidade do nosso tempo. 
Editora : Global Editora; Português edição (1 janeiro 2013)
Idioma: : Português
Capa comum : 448 páginas
ISBN-10 : 8526019317
ISBN-13 : 978-8526019317
Dimensões : 21.4 x 14 x 2.2 cm

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Leia trecho do livro

PRÓLOGO

Enfiou a serpente na agulha. E começou a costurar.

TÁTICA

Uma janela pintada para complementação arquitetônica da fachada. No peitoril dessa janela, ao lado de um vaso de gerânios também pintado, um gato vivo, desejando ser parte do conjunto, esforça-se para manter a imobilidade.

Disposto a aniquilar a concorrência, o vaso de gerânios deixa cair uma folha.

AO SOL

Então, naquele verão, a árvore generosa em cuja sombra se abrigavam as vacas, começou a dar leite.

AMADA OCULTA

Desejoso de querer bem, apaixonou-se por uma raposa. As raposas — sempre soubera disso — são criaturas encantadas que abrigam o espírito de uma mulher. Amou-a com devoção durante muitos anos, sem que a mulher oculta se desse a conhecer. Quando a raposa afinal morreu, a solidão sentou-se à mesa diante dele. Que, acostumado, continuou a se alimentar de carne crua.

ENTRE PRETO E BRANCO

Não se acha capaz para a vida este homem que, sozinho, joga xadrez com o computador. Como em tantas partidas anteriores, perdidas todas, não enfrenta apenas o adversário invisível, duela com uma dúvida. Vale mais:
• perder, e reforçar a certeza de sua incapacidade?
• ou vencer, e destroçar hábitos e identidade?

POR DENTRO

Tão difícil, para ela, se aquecer à noite. Calçava meias, e os pés, de gelo. Vestia pijama felpudo, e as pernas, de mármore. Suéteres e braços cruzados sobre o peito de quase nada adiantavam. E cobertores, cobertores, cobertores. Na noite em que por cima de tudo deitou seu casaco de lã de carneiro, sentiu-se enfim protegida.
Acordou de madrugada, a nuca quente, os cabelos empapados de suor, e uma náusea, um ímpeto que lhe enchia a boca de água e buscava expelir o que havia em si de mais fundo. Sem se importar com o tapete, debruçou-se na beira da cama e, num jato, vomitou os primeiros coágulos de fogo.

NA MEDIDA

Tinha só meia sombra. Nenhum espanto. Era apenas meio homem.

COMO O CAVALO

Andava sobre as mãos porque, como o cavalo do Barão de Munchausen, havia sido cortado ao meio. Não por uma bala de canhão, mas pela vida. Enrodilhados ao redor do braço levava ramos de hera com que emendaria a parte ausente quando a encontrasse. E palma a palma a buscava, embora suspeitando-a despedaçada.

PARA CONSERVÁ-LO NO JUSTO LUGAR

O homem acorda, se levanta, vai ao banheiro, abre a torneira, ergue o rosto para o espelho. E seu rosto não está lá. No espelho está a estrutura do rosto, o suporte, mas não as feições.

Surpreso e ainda mole de sono, o homem apalpa a testa, a cabeça, a nuca. Quem sabe, o rosto deslizou para trás. Não o encontra. A angústia começa a escalar sua garganta. Olha ao redor, procurando. Os azulejos assépticos quadriculam a luz, nada entope o ralo da pia, nada boia na água da privada.

O homem volta ao quarto, procura minuciosamente, como quem fareja. Confere tudo, os lugares óbvios e os mais improváveis. Abre as cortinas. Só então percebe seu rosto deitado sobre a fronha. Sentindo-se quase traído, sem ousar tocar aquela pele se é que de pele se trata — sacode o travesseiro devagar. O rosto não se move. O homem sacode mais intensamente, chama. O rosto não responde nem ouve, as orelhas ficaram presas à cabeça.

Com a ponta dos dedos tomados de súbita delicadeza, o homem tenta descolar do tecido uma qualquer lingueta, um mínimo fiapo que lhe permita puxar o resto. Em vão. O rosto está fundido no linho como um retrato sobre a tela.

Lentamente, para não prejudicar suas feições, tira o travesseiro de dentro da fronha. Pensa que talvez, molhando-a. Mas para antes mesmo de voltar ao banheiro. Dois temores o detém: que o rosto derreta debaixo da água, ou que se afogue na pia.

Com a fronha na mão, não ousa dobrá-la, poderia rachar o rosto. Nem pode deixá-la sobre uma cadeira, abandonar a si mesmo como um trapo. Por algum tempo continua assim, desamparado no meio do quarto, a fronha pendente da mão. E de repente a enfia na cabeça, como um capuz, tentando colocar o rosto lá onde ele deveria estar.

Assim passa o dia. Ao anoitecer, sai. As pessoas se surpreendem vendo-o encapuzado. Mas não se dão conta, não exatamente. Confundem a fronha estampada com um lenço, o capuz de um abrigo. Um homem estranho não é coisa que chame a atenção nas ruas, sobretudo no escuro. Afastam-se, e seguem caminho.

O homem volta na hora de dormir, tira a fronha da cabeça, enfia nela o travesseiro, já sem tantos cuidados. Aprendeu que não são necessários. E deita-se de bruços, com a cara metida sobre o rosto. Mas dali a pouco sente-se sufocar não sabe se pelas plumas de ganso ou por suas antigas feições e é obrigado a virar-se um pouco de lado.

Na manhã seguinte, ao acordar, olha logo para a fronha. O rosto não está lá. Feliz, ansioso, corre ao espelho. O rosto voltou para o seu lugar. Ou melhor, quase para o seu lugar. Grudou um pouco de lado. Uma bochecha lhe cobre a orelha, a outra parece curta e, decididamente, o nariz não está centrado.

O homem unta o rosto com creme, tenta fazê-lo deslizar, acertá-lo. O rosto não se move. Melhor que ontem, porém, pensa o homem. Enfia um boné abaixando a viseira, enrola uma echarpe alta no pescoço e vai trabalhar.

Que friorento! pensam os colegas. Mas o dia acaba e o homem volta para casa.

Em casa se estuda no espelho. O rosto continua deslocado para a direita. Ele tira o espelho do prego, o inclina para a esquerda e começa a dar-lhe pancadinhas com a mão, a batê-lo de leve contra a mesa. Golpe a golpe, o rosto desliza entre vidro e prata, se solta, se desloca. Quando finalmente o nariz está no centro, o homem pendura o espelho e se olha. Seu velho querido rosto está no lugar. Mas os olhos, talvez mais profundos que de costume, se perguntam como fazer para conservá-lo assim.

PRIMEIRA HISTÓRIA DE INSÔNIA

Porque o sono se recusa a emantá-lo na cama, um homem começa a contar carneiros. Do que se aproveita o lobo, para deslizar sorrateiro na cena e posicionar-se, boca aberta, do outro lado da cerca.

DIREITOS DE PROPRIEDADE

A verdade não estava disponível naquela sala, naquela casa, naquela tarde. No entanto, dois homens discutiram, com irônica elegância a princípio e logo com ferocidade, ambos seguros de possuí-la. Teriam chegado ao duelo, não fosse a intervenção de um terceiro, que oferecia a paz através de uma outra opinião.

Recolhidos ao seguro território da civilidade, cada qual mantendo em silêncio seu lote, agora eram três a possuir a verdade inexistente.

HISTÓRIA 1

Em tempos que não tiveram registro por falta de escrita, os Citas foram assolados por densos bandos de águias que toldavam o sol e ameaçavam as crianças. Arco e flecha eram, além das lâminas, sua única arma.

Só muitos séculos mais tarde desceram das terras do Norte. E os assírios, que primeiro relataram a presença daqueles bárbaros, nunca entenderam seu estranho costume de disparar setas para as nuvens.

UM POUCO, POR AMOR

Porque se amavam, abraçaram-se confundindo seus corpos. Quando, findo o amor, se separaram, ele afastou-se mancando um pouco porque, além do ventrículo esquerdo, havia assumido uma tíbia dela, ligeiramente mais curta que a sua própria. E ela se foi, mais alta do que quando o havia encontrado, mas apertando um pouco as pálpebras sobre os cristalinos antes dele, agora seus, e míopes.

ESCRITO NAS ESCAMAS

Embrenhado na selva em sol e chuva, metido na água dos igarapés sob o ataque dos insetos, durante anos caçou a lendária Anaconda. Por fim, antes que se esgotassem suas forças, contentou-se com uma sucuri.

Agora, destripado o animal, percorre-lhe o couro com dedos ansiosos, buscando ler a história ancestral escrita nas escamas. De fato, como lhe havia dito o xamã, um padrão emerge progressivamente dessa leitura. O que o xamã lhe omitiu é que a ele, pálido intruso, seriam necessários séculos para decifrá-lo.

A TEMPO E HORA

De alto a baixo nas paredes da relojoaria, relógios. E cada um marca hora diferente. Assim prefere o velho relojoeiro. Para ele que vê o mundo de duas maneiras ao mesmo tempo — uma com o olho atacado pela catarata, outra com o olho agigantado pela lupa — a unicidade é inviável. Das horas, escolhe a que mais lhe convém.

QUESTÃO DE TIMING

Achou que não ficaria bem ter relações sexuais com ele no primeiro encontro. Teve antes.

A PISTA FINAL

Longa, a busca. Anos seguindo sinais, analisando documentos, decifrando indícios, temendo, após cada avanço, deparar-se com o nada. Mas não era erro o que os esperava ao final do percurso.

A equipe de pesquisadores pode afirmar agora que na parede por trás do altar-mor, debaixo do afresco de outra autoria que adorna a capela do convento, há evidências da obra do grande mestre há séculos perdida: “O arrependimento de Madalena”, mais comumente referida nos relatos de época como “Madalena em prantos”.
ão são vestígios de tinta que ali se encontram. As lágrimas sempre vertidas se infiltraram entre as antigas pedras, vazaram encharcando uma a uma as camadas de reboco, comprometeram a pintura superior. E forneceram aos pesquisadores a pista inegável de que necessitavam.

NO BAR DO PHILLIES

E noite adiantada, e não faz frio. Um homem saí de um edifício, caminha pela calçada, cruza uma e outra rua, e numa esquina para. Chegou ao bar, entra.

O mesmo homem está agora sentado ao balcão. Não tirou o chapéu. Bebe. Veio em busca de sons e presenças, para quebrar a solidão da sua própria casa. É tarde, porém, o bar, como as ruas, está quase vazio. Assim mesmo ele fica, protegido pelas paredes de vidro como se num aquário. E, por baixo da aba do chapéu, olha.

Olha o casal que divide com ele o balcão. Tomaram café, as xícaras estão vazias à sua frente. E não se falam. Encostados quase, lado a lado, o vestido dela vermelho como uma plumagem, sorvem o silêncio. Não é uma briga nem um fastio. É uma ausência. Falta a ambos o desejo de falar. E de se ouvir.

O homem poderia ir embora, ninguém entra naquele bar, ninguém passa naquela rua. Mas ali são três, embora calados. E no bar, pensa o homem, não corre o perigo de estender a mão e apagar a luz.

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