Livro ‘Fernão de Magalhães’ por Gianluca Barbera

Livro 'Fernão de Magalhães' por Gianluca Barbera
A magnífica história da primeira circum-navegação da Terra
Ano 1519. De Sevilha, partem cinco navios que singram os mares sob o comando de Fernão de Magalhães. A viagem durará três anos. Em busca de uma passagem que o leve da América do Sul ao Oriente, Magalhães terá que enfrentar motins, tempestades, frio polar, doenças e confrontos com populações nativas rumo ao seu destino final: as fabulosas Ilhas das Especiarias. Mas os eventos terão um rumo inesperado. Fernão de Magalhães é a história da primeira circum-navegação do globo, narrada pela voz de Juan Sebastián Elcano, um dos poucos que voltaram para casa a bordo da única nau sobrevivente... 
Capa comum: 256 páginas
Editora: Vestígio; Edição: 1 (30 de julho de 2019)
Idioma: Português
ISBN-10: 8554126351
ISBN-13: 978-8554126353
Dimensões do produto: 22,8 x 15,6 x 1,8 cm
Peso de envio: 281 g

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Leia trecho do livro

Aqui jaz Anaxágoras, que, na busca da verdade, se alçou até os confins dos céus.
Diôgenes Laêrtios, Vida e Doutrina dos Filósofos Ilustres, trad. Mário da Gama Kury
Eu estou dançando em cima de arames de luz!
Robert Musil, O homem sem qualidades,
trad. Lya Luft e Carlos Abbenseth

Cara leitora, caro leitor,

Livro 'Fernão de Magalhães' por Gianluca Barbera

A extraordinária aventura em que você está prestes a embarcar é narrada com rigor por um homem do mar que domina seu ofício. Para que vá de vento em popa, incluímos um glossário de termos marítimos no final deste volume. Boa jornada!

Prólogo

Livro 'Fernão de Magalhães' por Gianluca Barbera

12 de setembro de 1568

Chamo-me Juan Sebastián Elcano – conhecido como el Perro , o Cão – e, como a maior parte dos meus conterrâneos certamente se lembra, viajei na qualidade de timoneiro na nau Trinidad, ao lado de Fernão de Magalhães, por um ano, sete meses e dezessete dias: foram quantos contei. Das cinco carracas que partiram para desafiar os oceanos, tendo a bordo uma tripulação de 265 homens, apenas uma retornou, a Victoria, que o destino colocara sob o meu comando, como último oficial remanescente de toda aquela grande expedição; na verdade a menor e mais frágil da frota depois da Santiago , que naufragou entre as fendas do Rio Santa Cruz , a não mais que dois graus de latitude do Estreito de Todos los Santos, por nós descoberto em 1º de novembro do ano da graça de 1520.

Sim, eu tive a fortuna (ou chamem como preferirem) de ser um dos dezoito homens aos quais foi concedido retornar, depois de três anos ao redor do globo e de aventuras e tragédias para além de todos os limites da resistência humana. Eu, Sebastián Elcano, el Perro – confesso, aqui, pela primeira vez –, traí meu comandante e almirante Fernão de Magalhães do mais abjeto dos modos, ainda que não tenha sido o único. E por essa traição, ocultada com tanta habilidade e vilania, apropriei-me das honras, da glória e das riquezas que a ele somente, Fernão de Magalhães, caberiam por direito terreno e divino. Eu, Sebastián Elcano, fui, sem mérito algum (exceto aqueles que sói reconhecer a ladrões e assassinos), recoberto de ouro, honras e glória perene. Glória, honras e ouro que somente a ele, Magalhães, cabiam, e que em razão de nossa traição (minha e de outros marinheiros e oficiais da tripulação, como saberão por estas minhas memórias) lhe foram subtraídos e negados do modo mais miserável.

Porém, é chegado o momento, depois de tantos anos transcorridos nessa vergonha, que maculou não só a mim mas a toda a corte de Espanha; é chegado o momento, eu dizia, em que tenhamos a hombridade de restabelecer a verdade, toda a verdade, sobre aquela memorável expedição, concebida, projetada e conduzida, enquanto as forças não o abandonaram, por Fernão de Magalhães, único a merecer o título de circum-navegador do globo e de descobridor de novos mundos a oriente para a honra e a glória da Coroa de Espanha, ele que era nascido na terra de Portugal, da qual precisou fugir como um ladrãozinho qualquer, no meio da noite, no lombo de um jumento. Títulos que, desprezando toda verdade terrena, foram reconhecidos a mim somente.

A mim e somente a mim foram perdoadas e declaradas extintas as culpas de uma vida inteira (e eram muitas), das quais decidi fugir embarcando numa missão que então considerava insensata. A mim foi conferida uma pensão anual de quinhentos florins de ouro. A mim a ordem de cavaleiro da Santa Cruz de Córdoba. A mim o grandioso brasão de memória perene, que me designa como executor do imortal empreendimento: dois paus de canela cruzados, rodeados por cravos-da-índia e nozes-moscadas, e acima um elmo no qual se apoia a esfera terrestre; e sobre a esfera o grandioso mote Primus circumdedisti me.

E tudo isso enquanto o nome de Magalhães jaz no pó e na lama, espezinhado por pés indignos, e sua estirpe está extinta, apagada para sempre. Porém, que ao menos a memória lhe possa ser restituída intacta, a ele que (no limite) foi grande, agora o sei e reconheço, maior que todos nós, que não só não o compreendemos, mas o desprezamos e demos-lhe as costas, atingindo-o traiçoeiramente, do modo mais mesquinho.

É chegado o momento, eu dizia, de contar como eu, depois de traí-lo, manchei seu nome e usurpei-lhe as honras e os méritos. Como urdimos a grande conspiração e como traímos um homem que não o merecia e que era, como só agora compreendo, muito melhor do que nós (ao menos creio). Em todos esses anos, Nosso Senhor é testemunha (caso tenha se dignado a lançar um olhar sobre mim) de que a consciência nunca deixou de atormentar-me, dia e noite; e isso é bom, porque, se assim não fosse, não poderia considerar-me um homem. Por tempo demais me tenho deixado esmagar pelo peso da culpa, calando-me, para não ter de renunciar àquelas honras e àquelas riquezas das quais me apoderei e que me tinham sido concedidas sem nenhum mérito, ou quase. Mas antes de morrer quero, sinto a necessidade de recolocar cada coisa em seu lugar, restituindo a cada um, dentro do que for possível, aquilo que lhe cabe do bem e do mal, indiferente a todas as possíveis consequências. Sinto a morte se aproximando, na idade de 82 anos completos, e, não tendo herdeiros nem parentes aos quais me sinta ligado, não temo ser injusto com meu próprio sangue, uma vez que esta confissão, chegando aos ouvidos de nosso amado e piedoso Soberano Ilustríssimo, por certo me privará no mesmo instante de títulos, honras e riquezas – tão certo quanto que o dia invariavelmente sucede a noite.

Como se verá por este meu relato verdadeiro ao extremo, nosso bom messere Antonio Pigafetta, cavaleiro de Rodes, cidadão da gloriosa República Sereníssima de Veneza, acusado de ter mentido e perjurado em seus relatos, mantidos dia a dia durante toda a viagem, disse a verdade e somente a verdade, aqui reconheço publicamente, tendo plena razão e bom direito de não mencionar-me jamais, nem para louvor nem para infâmia. Tendo-me apropriado de seus cadernos, mantive-os escondidos por todos esses anos, juntamente com o diário de bordo de nosso almirante Fernão de Magalhães, mirando com isso ocultar a verdade aos olhos do mundo e da História. Mantive escondidos os diários e as cartas de Magalhães por todo esse tempo, diários e cartas que pretendo publicar, por inteiro e sem nenhuma omissão, em apêndice a estas minhas memórias.

Com isso não creio nem pretendo limpar minha consciência nem merecer o acesso às sagradas estâncias do Paraíso (no qual, ademais, creio bem pouco), porque não seria possível; mas pelo menos ouso esperar e desejo, apesar da pouca fé que me resta nos homens, restituir àquele homem sublime que foi nosso comandante e almirante Fernão de Magalhães a luz que seu glorioso nome merece e que por tanto tempo contribuí para ofuscar, para minha eterna danação. Ainda que mesmo no fogo eterno já não creia tanto assim.

Em fé,
Juan Sebastián Elcano
Humilde servo de Sua Majestade Ilustríssima e Excelentíssima Filipe II

Livro 'Fernão de Magalhães' por Gianluca Barbera

É preciso saber calar, especialmente quando se sofre. Essas palavras agradariam a Magalhães, além de ser o perfeito retrato dele. E, no entanto, quando o vi pela primeira vez, pensei : Este homem é louco, e extremamente perigoso. Tinha um olhar de fanático, de falcão predador, de lobo desconfiado, de animal noturno e rasteiro, de alguma espécie exótica de réptil mortal . Um fanático calmo. A raça mais perigosa de fanáticos. Mais tarde modifiquei meu juízo, é claro, mas foi preciso tempo, e muitas coisas tiveram de acontecer antes que tal mudança se produzisse em meu espírito.

Lembro-me como se fosse hoje do nosso primeiro encontro.

Era uma manhã de início de agosto, límpida e fresca. As águas estavam calmas na dupla enseada, e nuvens brancas flutuavam no horizonte limpo. Do porto subiam odores de pescado e de especiarias, e o vozerio das pessoas que os negociavam; mas também, de vez em quando, exalações de pântano levantadas pelo libecho, o vento sudoeste. Naquela manhã eu botara no estômago mais de um copo de aguardente, fitando com tristeza o dedão do meu pé direito que despontava do sapato rasgado, quando, despedindo-me da taverneira, tomado por uma inspiração súbita, decidi correr até o porto, surdo aos chamados da mulher que clamava (“Hijo de puta!”) pelo pagamento. Estava em Sevilha havia dois dias e precisava embarcar no primeiro navio de partida. Para onde se dirigisse, não importava. Tinha razões imperiosas em meus calcanhares.

Desci então pelo emaranhado de vielas que levavam ao porto, passando por casebres de pescadores erguidos com terra e palha que mal paravam em pé. Na noite anterior, na taverna do Tremolino, um marinheiro asturiano sem uma orelha, diante de um copo de xerez, falara-me de um português, Magalhães, e de seu sócio, Faleiro, que estavam recrutando marinheiros para uma grande armada prestes a zarpar em nome do rei. Destino desconhecido. Tempo de permanência no mar, no mínimo dois anos. O navio chamava-se Trinidad. Era o que eu precisava, pensei, necessitando, entre outras coisas, conseguir o perdão dos tribunais de Castela por alguns pecadinhos do modo costumeiro – ou seja, deixando transcorrer o tempo necessário para que caducassem.

Num espaço aberto no limiar do porto, era dia de feira. Passei entre as bancas de latoeiros, amoladores, salsicheiros, verdureiros, peixeiros, vendedores de tecidos. Sobre um palco instável de madeira, um casal de bailarinos de farruca dançava ao som de um alaúde. Alguns passantes lançavam uma moeda no cesto, mas eram mais frequentes botões e pedras.

Parei diante de um espetáculo miserável de marionetes e fui atraído, pouco depois, por um pregador que bem naquele momento começava seu sermão, ereto em cima de um pequeno estrado. Mal tinha aberto a boca e a multidão ao redor já zombava.

Enrolado num manto cor de piche, a barba comprida e pegajosa no queixo, olhos pequenos e maliciosos apontados para o público, a voz catarrosa , ele começou a dizer:

– E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte e, assentando-se aproximaram-se dele seus disciplos . Tomando então a palavra, ensinava-os dizendo: “Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os que têm fome, porque serão saciados…”

Muitos aplaudiram, mas alguns gritavam:

– Temos fome! Dá-nos alguma coisa.

– “Bem-aventurados os que hoje choram, porque rirão. Bem-aventurados os que serão perseguidos em meu nome, porque grande será sua recompensa no Reino do meu Pai. Ai dos ricos, porque não terão mais nada…”

– Aqui, o mais rico morre de fome! – gritou um carreteiro carregado de lenha.

– “Ai de vós, que estais saciados agora, porque tereis fome…”

– Toca aqui, dá para sentir as costelas! – escarneceu um sujeito coxo, bêbado de não se aguentar em pé.

– “Ai de vós, que agora rides, porque estareis em luto e chorareis. Ai de vós, quando todos os homens falarem bem de vós…”

– Pois se nos chamam de ladrões e perjuros! – gargalharam dois grosseirões de sotaque basco, que certamente escondiam uma faca embaixo do manto.

– “Escutai o que vos digo: amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos maldizem, orai pelos que vos dão pauladas. Se alguém te bater numa face, oferece também a outra; se alguém te roubar a bolsa, dá-lhe as chaves de casa…”

– Quisera eu ter uma casa – murmurou alguém.

– “Dá a quem te pede; e se alguém levar tuas coisas, não as peças de volta. E o que queres que te façam, assim deves fazer aos outros… Amar aqueles que nos amam: que mérito há nisso? Também os pecadores amam aqueles que os amam… Se fizeres o bem aos que o fazem a ti, que vertude tens?”

Ouviram-se alguns assovios.

– Vai para casa, analfabeto!

– “E se emprestares àqueles de quem esperas receber, que vertude tens?” – E insiste!

– “Amai antes vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca, e será grande vossa recompensa e sereis chamados filhos do Altíssimo, porque Ele é benigno também com os ingratos e os maus… Sede misericordiosos, como o é vosso Pai. Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado…”

– Para poder dar, é preciso ter. Tirando os piolhos, não temos mais nada – replicou uma mulher grandalhona com uma touca branca na cabeça e uns brações de pedreiro.

Deve ser uma daquelas mulheres que em casa batem no marido, pensei, olhando para ela. Porém, no instante seguinte, quando meu olhar pousou na mulher que estava ao lado dela, meu coração deu um pulo. Meu Deus, aquela era minha mãe! Como era possível? Tinha uma atadura vistosa no pescoço e o rosto de uma Nossa Senhora cega. Parecia envolta por um halo de luz. Abri caminho entre a multidão, mas quando acreditei ter chegado até ela, não estava mais lá. Literalmente, desaparecera. Continuei a procurá-la com o olhar, o coração em tumulto.

– “Sede justos” – continuava a voz enfadonha do pregador. – “Por que olhas o cisco no olho de teu irmão e não percebes a trave que está no teu? Todo aquele que vem a mim, ouve minhas palavras e as põe em prática é semelhante ao homem que, construindo uma casa, cavou bem fundo e assentou os alicerces sobre a rocha. Vindo a enchente, bateu com ímpeto contra aquela casa, mas não a pôde abalar. Quem, pelo contrário, ouve e não pratica assemelha-se a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerces. Vem a enchente contra ela e logo ismorona…”

Rebentaram aplausos misturados a assovios.

– Posso apostar que em casa ele faz tudo ao contrário do que prega! – riu baixinho a grandalhona, cutucando-me com o cotovelo. Foi nesse momento que a revi, do outro lado do espaço onde estava a feira. Mas somente por um instante. Depois desapareceu, como um fio de fumaça que se dissipa, deixando-me tomado por uma grande perturbação.

Afastei-me depressa, tomando a direção do cais do porto, num redemoinho de pensamentos.

Dando alguns passos em direção ao poente, vi-me diante de uma longa fila de homens à espera de subir a escadinha que levava ao convés de uma magnífica carraca de pelo menos cem toneladas de arqueação, completamente reformada. Em seu flanco, uma escrita recente dizia: Trinidad. Exatamente o que eu procurava. Assim que me acalmei um pouco, fiz algumas perguntas aqui e ali e entrei na fila. No fundo, estava ali para isso.

Quando, uma hora depois, pude subir a escadinha e ficar diante do convés da Trinidad, tinha recuperado totalmente o controle. Não me foi difícil avistar a figura contraída daquele que tinha o comando, o almirante Magalhães em pessoa. Todo vestido de preto, porte exíguo, rosto largo e vulgar, expressão enfastiada, sentava-se a uma mesinha empunhando uma pena de ganso que de vez em quando mergulhava num tinteiro para, em seguida, aplicá-la sobre o registro aberto à sua frente. Era baixinho, como dizia, mas com costas mais largas que o normal, embora achatadas; mãos grandes e atarracadas, olhos pretos e encovados sob as sobrancelhas espessas e desarrumadas, uma barbicha eriçada que se alongava sobre o peito, começando a agrisalhar-se, e lábios salientes que ostentavam um perene desgosto. Movia-se com compostura, pesando cada palavra com a balança de um ourives, e tinha o ar de quem olha o mundo de uma certa altura. Ao lado dele, ereto como um mastro corroído pela maresia, mas bem diferente no semblante, estava um pançudo que todos chamavam com respeito de Señor Faleiro, e que tinha fama, pelo que ouvira dizer, de ser excelente cartógrafo. Era, também ele, português. Passava uma impressão ridícula, movendo-se aos solavancos e retorcendo continuamente a cabeça de um lado para o outro, como se tivesse torcicolo ou algum trejeito de natureza nervosa. Com frequência, inclinava-se e sussurrava ao ouvido do sócio.

Do outro lado, montando guarda, com a mão nodosa no cabo do cris enfiado na cintura, aquele que parecia ser um malaio (tinha encontrado alguns em minhas viagens), baixo e magro, de pele morena e reluzente, cabelos soltos de um preto betuminoso, nervos tensos e olhos que pareciam facas. Devia tratar-se de Henrique, o escravo do qual também me tinham falado. Magalhães o comprara em Malaca por um preço irrisório (ninguém saberia dizer quem era mais pobre, o escravo ou o dono). Um jovem que caíra em desgraça por dívidas de jogo e se resignara a seguir o bastão de seu senhor aonde quer que este o guiasse.

Fiquei à espera o tempo necessário, passando o olhar do almirante para Henrique e de Henrique para Faleiro, cujo aspecto não cessava de me impressionar: parecia o enxerto de uma cabeça de menino no corpanzil de um velho sátiro. Enquanto esperava, troquei algumas palavras com quem me precedia na fila, tentando extrair informações úteis, porém com pouco êxito. Quando chegou minha vez, avancei meio hesitante e meio audacioso. Magalhães levantou o olhar e pareceu tomar minhas medidas. Juro que, não fosse pelo bater das pálpebras, diria se tratar de uma estátua.

– Nome? – perguntou de supetão, com uma voz aguda que muito me surpreendeu num homem com aquelas feições, e lançou um olhar para meu dedão imundo.

– Chamo-me Elcano. Sebastián Elcano.

– Origem? – Agora me fitava nos olhos com prepotência.

– Venho da Getaria, na província de Guipúscoa, País Basco – respondi. – E não existe terra melhor – acrescentei logo em seguida, sorrindo em busca de aprovação.

– Melhor para fazer o quê? – devolveu ele e, sem me dar tempo de responder, emendou outra pergunta bem pouco pertinente: – Sua família tem propriedades por aquelas bandas?

– Nem a cama onde dormem – me gabei de responder. – Pobres de tudo. Embora não lhes faltem títulos e linhagem, se valerem alguma coisa hoje em dia.

– Compreendo. Habilidades e experiências anteriores pelo menos deve ter.

– Não tenha dúvidas. Fui timoneiro nas últimas quatro viagens às Índias e ao Bornéu. Se me permite, posso garantir que não há timoneiro melhor de Sevilha ao Porto de Palos. – E levantei a mão, mostrando a palma em sinal de juramento.

– De conversa todo mundo é bom. Enquanto se está em terra, é fácil ser o melhor timoneiro do mundo – respondeu Magalhães.

– Pois sim – cuspi nas mãos e plantei-as diante do rosto dele. – Olhe! Grandes e robustas. Firmes como rocha. Mas é principalmente nesta que eu confio – disse, tocando a têmpora. – Miolo na cabeça, eis o segredo de todo bom oficial. E, se me permite, isso não me falta; aliás, tenho de sobra.

– Suboficial – corrigiu-me ele.

– Claro – segui adiante. – Sem contar que tenho uma vista de falcão. Dizendo isso, quase por graça, puxei do alforje que trazia a tiracolo uma grossa lente focal, que aproximei do olho direito enquanto me esforçava para manter fechado o esquerdo, apontando o olhar na direção dos bairros orientais de Sevilha assentados sobre a vertente de uma colina, pouco abaixo da fileira de moinhos de vento.

– Quer que lhe diga o que está escrito na placa pregada naquele edifício amarelo lá adiante? – Guarde isso, e menos palhaçadas. Não acho graça. – Pois aposto que nenhum dos presentes é capaz de ler a tal distância… “Brigantino” é o que está escrito. E agora me diga se não pode se mostrar útil um olho como o meu! – Aposto que é ali que está hospedado – foi o comentário do almirante.

– Como quiser – apressei-me em dizer. – Porém já aviso: não sou bom só de conversa, embora com os selvagens isso também possa se mostrar útil; como terá oportunidade de confirmar, quando necessário sou um homem de ação, prático e confiável. E bom combatente, ainda por cima.

Percebi que alguma coisa caminhava em meu nariz. Ergui a mão e a peguei. Era uma aranha, daquelas peludas. Joguei-a no chão e, praguejando, pisei nela várias vezes, como se uma só não bastasse.

Por pouco Magalhães não caiu na risada. Vi quanto esforço fazia para se segurar.

– Não seja bufão – repreendeu-me, ainda que em tom quase bem-humorado. – De qualquer forma – acrescentou, até para afastar o meio sorriso que se insinuava em seus lábios –, um bom timoneiro é o que precisamos, e até agora não encontrei nenhum que me servisse. Não para a Trinidad, pelo menos. Pergunto-me, todavia, se o senhor é mesmo o que sustenta ser.

– Ponha-me à prova – disse com ousadia.

– A seu tempo. Mal começamos a nos conhecer. Mas é isso que vou fazer. Mostre-me a licença de embarque.

Tirei do alforje a folha surrada, com manchas aqui e ali, e entreguei a ele. Pegou-a entre o polegar e o indicador e começou a examiná-la de cima a baixo, de um lado e do outro, com muita atenção.

– Muito bem – assentiu. – Tenerife, Cabo Verde quatro vezes, Moçambique duas, Calicute duas, Goa, Timor, Bornéu, Ternate. Nada mal. É bem o que preciso. Desde que seja tudo verdade. Quero colocá-lo à prova: se encontrar vento acima dos 25 nós, o que faz?

– Vou de popa, se a rota permitir; ergo a varredoura e reduzo o velame. À bolina o barco bateria forte, arriscando acabar de través.

Vi que ele aprovava com a cabeça.

– Quando o vento aumenta e fica forte e agressivo – acrescentei, arriscando exagerar –, uma forra de rizes ou uma mudança de estai, se feitas em tempo, são moleza. Se atrasadas, tornam-se cansativas e às vezes arriscadas. Muitas vezes tende-se a esperar, por receio de perder aquele vento bom que empurra rápido por sobre as ondas. É um erro que mesmo os mais experientes cometem. Quando se dá pano demais em relação ao vento, o barco não vai mais rápido, muito pelo contrário. Só fica mais adernado e bem menos dócil ao leme.

– Muito bem colocado – e reforçou a anuência com a cabeça. – Como estima a força do vento?

– Com base em seus efeitos no mar e no barco, até uma criança saberia dizer. Basta dar uma olhada na superfície da água. É preciso prática, é claro. Quando as ondas espumam, significa que é vento de uns dez nós. Quando engrossam e batem, estamos em torno de vinte. É preciso rizar e usar a vela de estai pequena. Quando o vento arrasta a espuma das ondas que arrebentam, formando longas faixas esbranquiçadas que se estendem na sua direção, estamos em torno de trinta. É hora de reduzir ao máximo a vela grande e usar a menor vela de estai que tiver. Na navegação à bolina ou de través, é o próprio barco, com seu adernamento, que vai dizer se está com pano demais. Contudo, é preciso atenção: quando se navega à popa, o barco não aderna muito, e é fácil subestimar o vento.

Na dúvida, é sempre melhor reduzir.

– E com vento de tempestade?

– Reduzir o velame não basta – respondi, incorporando de vez o papel. – É preciso se preparar para o pior. Reduzir o que for possível. Depois, arrumar o barco, cuidando para que o convés e o poço estejam desocupados e tudo esteja em ordem e bem fixo: cabos, botes, sacos de velas, objetos na coberta. E todas as aberturas fechadas: claraboias, escotilhas e tudo o mais. É preciso sobretudo manter distância da costa, especialmente se for rochosa, e também das águas rasas e dos portos com entrada estreita e impenetrável. Se o porto estiver a barlavento, vale a pena tentar entrar, embora seja provável que precise navegar contra o vento. Mas se estiver a sotavento, é melhor não arriscar. O barco iria de encontro a ondas ainda mais gigantescas em razão das águas rasas. Na dúvida, melhor ficar ao largo.

– Digamos que resolva ficar no mar esperando que a tempestade acalme. Qual seria sua conduta?

– Se estiver em mar aberto, com vento de tempestade e mar grosso, as possibilidades são duas: marear com o vento pela popa ou ficar à espera, conforme mandar o vento. Se soprar na direção certa, a melhor navegação é aquela em largo aberto, com a vela grande rizada ao máximo e o estai de tempo. Em condições extremas, amaina-se também a vela grande e se prossegue só com a vela de estai.

– E se não se estiver em condições de correr em popa?

– Aí só resta pôr-se à capa, com a vela de estai cambada, a vela grande parcialmente abafada e a cana do leme travada a barlavento. A cana do leme deve ficar travada toda para um lado. Nessas condições se avança bem devagarinho, derivando a sotavento. Pode-se ficar à capa por horas ou dias. Mas em metade de um dia o barco não se deslocará mais que algumas léguas.

– Como assim? O senhor sugere, se não entendi mal, manter distância da terra firme? – Comandante, o senhor deve estar brincando comigo. Qualquer um que conheça um pouco o mar sabe que são as correntes que influenciam o movimento das ondas, e sabe também que as correntes se manifestam com mais força nas proximidades da terra firme. É por isso que é preciso manter distância dos cabos, dos canais entre as ilhas, da foz dos rios. A não ser que a forma da ilha ou da costa seja apropriada para romper o movimento das ondas.

– E com ondas longas e altas, como se comporta ao leme?

– Pego-as pela alheta, ou seja, pela popa, ou pela amura.

– Isso deve bastar.

– Passei no exame?

– Diga-me uma última coisa: que razões tem para embarcar com tanta pressa?

– O que o faz pensar que eu tenha alguma? Fiquei esperando na fila como todos!

– Responda. Contas pendentes com a justiça? Dívidas com o erário? Considero a sinceridade o mérito mais estimável num suboficial de marinha.

– Já que é assim… – disse, coçando tão furiosamente a nuca que parecia até estar com piolhos. Convinha abrir o jogo – não por inteiro, só a parte menos inoportuna. Omiti, portanto, a escuna que contrabandeara e vendera a uma dupla de armadores venezianos, o homem que esfaqueara numa taverna de Cádiz… Em minha defesa, é preciso dizer que a facada não foi fatal, tanto que o patife (que me devia um bom dinheiro) não só escapara da morte como, se bem o conheço, devia ter-se entocado em algum canto remoto, empanturrando-se de peixe podre e aguardente e esperando que eu me cansasse de caçá-lo.

– É só isso? – perguntou Magalhães, ao final.

– Pois é claro. Que eu tenha um ataque de calvície se estiver mentindo. Pode verificar minhas credenciais na Casa de Contratación – disse, brincando com a sorte. Se ele se desse ao trabalho de fazê-lo, adeus trabalho.

– Não me importa nem um pouco – disse Magalhães, para minha surpresa – se meus marinheiros têm contas pendentes com a lei. São questões que não me dizem respeito. Mas quando nos encontrarmos em mar aberto, quero saber com que tipo de homens, ou, melhor dizendo, com que raça de canalhas estou lidando, certo? Especialmente se forem graduados… Assim como contei e anotei cada prego, cada imundo cabo, cada maldito remo, cada amaldiçoado arcabuz deste excomungado navio, também quero conhecer até o último fiozinho de cabelo cada homem que subirá a bordo dele e viajará sob o meu comando. Entendido?

– Pois então saiba – disse eu, no tom mais espirituoso que consegui – que menos de uma semana atrás larguei esposa e filhos para vir até aqui, e agora os três irmãos da minha doce cara-metade estão me caçando para levar-me de volta à força ou me arrancar o couro, e é por isso que pareço dominado pela pressa. Isso pode ser um obstáculo? – E dei um sorrisinho fajuto.

Ele encarou-me por um instante. Estava começando a gostar de mim.

– Este será seu pagamento – disse com uma voz de corneta. Escreveu uma cifra no registro, ao lado da palavra “timoneiro”. – Pegar ou largar.

– Para mim está ótimo – respondi, empolgado até um pouco demais. – E agora, se me permite: para onde dirigiremos a proa?

– Será informado no momento da partida. É tudo.

– Um procedimento insólito. – Se não lhe convier, pode abrir caminho e ceder o lugar para aqueles que estão esperando ansiosos atrás do senhor. E são muitos.

– Não foi isso que eu disse. O trabalho me interessa.

– Pode colocar uma assinatura aqui – disse, virando para mim o registro aberto sobre a mesa, sobre o qual corria uma centopeia.

– Uma última coisa – disse. – Quanto tempo se prevê que ficaremos no mar? Isso pode-se esperar saber? Pergunto para ajustar o que falar em casa.

– Não acabou de jurar que abandonou a família?

– Ainda me resta, porém, um velho pai, viúvo há dois lustros, que depende deste que vos fala.

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