Livro ‘Escravidão’ por Laurentino Gomes

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Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares
Maior território escravista do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio. Como resultado, o país tem hoje a maior população negra do planeta, com exceção apenas da Nigéria. Foi também, entre os países do Novo Mundo, o que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico de pessoas e o último a abolir o cativeiro, por meio da Lei Áurea de 1888 — quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional quanto a escravidão. Conhecê-lo ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente...
Editora: Globo Livros; 1ª edição (23 agosto 2019)  Páginas: 504 páginas  ISBN-10: 6580634014  ISBN-13: 978-6580634019  ASIN: B07VN7DVM1

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Sobre o autor: Paranaense de Maringá e seis vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura, Laurentino Gomes é autor de 1808, obra sobre a fuga da corte portuguesa de dom João para o Rio de Janeiro (eleito o Melhor Ensaio de 2008 pela Academia Brasileira de Letras); 1822, sobre a Independência do Brasil; e 1889, sobre a Proclamação da República; além de O caminho do peregrino, em coautoria com Osmar Ludovico da Silva — todos publicados pela Globo Livros. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação pela Universidade de São Paulo, é titular da cadeira de número 18 da Academia Paranaense de Letras.

Leia trecho do livro

Livro 'Escravidão' por Laurentino Gomes

Para meus pais, João e Maria.

“O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África.”

PADRE ANTÔNIO VIEIRA,
missionário jesuíta na Bahia, 1691

LINHA DO TEMPO

Alguns acontecimentos que marcaram a história do Brasil e do mundo entre o início da escravidão africana no Atlântico e o fim do século XVII.

1444 Registro do primeiro leilão de africanos escravizados em Portugal, diante do infante dom Henrique na vila de Lagos, Algarve.


1453 Tomada de Constantinopla pelos turco-otomanos.
1454 Publicação da Bíblia de Gutemberg, primeiro livro impresso na Europa.
1455 Pela bula Romanus Pontifex, o papa Nicolau V autoriza os portugueses a escravizar os infiéis entre o Marrocos e a Índia.
1456 Os portugueses chegam ao Arquipélago de Cabo Verde, até então desabitado.
1484 Início da colonização da Ilha de São Tomé.
1485 O rei do Congo se converte ao cristianismo.
1488 O português Bartolomeu Dias cruza o Cabo da Boa Esperança.
1492 Chegada de Cristóvão Colombo à América. Construção do Castelo de São Jorge da Mina, ou Elmina, primeiro grande entreposto de tráfico de escravos na costa da África.
1494 No Tratado de Tordesilhas, Portugal e Espanha dividem o mundo entre si.
1496 Judeus de Portugal são obrigados a se converter ao cristianismo.
1498 A esquadra de Vasco da Gama chega à Índia.
1500 Em 22 de abril, Pedro Álvares Cabral chega à Bahia. O total de escravos comprados ou capturados na África pelos portugueses chega a 150 mil. No Império Africano de Bornu, um cavalo árabe vale entre quinze e vinte escravos.
1501 Início oficial do tráfico de africanos para os domínios espanhóis nas Américas. 1503 Leonardo da Vinci pinta a Monalisa.
1511 A nau Bretoa chega a Portugal levando papagaios, peles de onça-pintada, toras de pau-brasil e 35 índios brasileiros cativos.
1513 Maquiavel escreve O príncipe.
1515 Leilão de 85 índios brasileiros escravizados em Valência, na Espanha.
1517 Início da Reforma Protestante.
1519 O espanhol Hernán Cortés conquista o México. Brasil.
1530 Martim Afonso de Sousa dá início à colonização do O espanhol Hernán Cortés conquista o México. Brasil.
1534 O Brasil é dividido em Capitanias Hereditárias. Criação da Companhia de Jesus por Inácio de Loyola. Michelangelo pinta o Juízo Final no teto da Capela Sistina.
1535 Engenhos de açúcar começam a funcionar em Pernambuco. Notícias da chegada dos primeiros escravos africanos ao Brasil.
1545 São Vicente, a capitania de Martim Afonso de Sousa, tem cerca de 3 mil índios escravizados.
1549 Chegada dos primeiros jesuítas ao Brasil.
1554 Fundação da cidade de São Paulo.
1555 Os franceses ocupam a Baía de Guanabara até 1567.
1565 Fundação da cidade do Rio de Janeiro.
1575 Paulo Dias de Novais dá início à ocupação portuguesa em Angola.
1577 O corsário Francis Drake inicia, na Inglaterra, a sua volta ao mundo.
1580 Começa a União Ibérica; o trono de Portugal passa para a Espanha.
1585 A população do Brasil é de 60 mil habitantes, sem contar os índios arredios.
1600 A população indígena da América é estimada em 10 milhões, apenas um quinto do número existente na época da chegada dos europeus. No Brasil, epidemias de varíola dizimam dezenas de milhares de índios.
1605 Miguel de Cervantes publica Dom Quixote.
1608 Invenção do telescópio, na Holanda. Nasce em Lisboa o futuro padre Antônio Vieira.
1612 Os franceses invadem São Luís do Maranhão e permanecem até 1615.
1618 Começa na Europa a Guerra dos Trinta Anos, em que morreriam cerca de 8 milhões de pessoas.
1621 Criada na Holanda a Companhia das Índias Ocidentais.
1627 Frei Vicente do Salvador publica a primeira História do Brasil.
1630 Após um ataque frustrado à Bahia, os holandeses ocupam Pernambuco. Jinga, a rainha africana, enfrenta as tropas portuguesas em Angola.
1632 O bandeirante Raposo Tavares escraviza entre 40 mil e 60 mil índios.
1637 São Luís do Maranhão tem 250 habitantes. Belém, no Pará, apenas oitenta.
1640 Fim da União Ibérica. O duque de Bragança sobe ao trono em Portugal como rei dom João IV. O preço de venda total do açúcar produzido no Brasil equivale a dezoito toneladas de ouro.
1641 Os holandeses ocupam Luanda, Benguela e São Tomé.
1648 Tropas brasileiras de Salvador de Sá e Benevides expulsam os holandeses de Angola.
1654 Os holandeses são expulsos do Recife.
1660 Criada em Londres a Royal African Company (RAC), que teria o monopólio do tráfico de escravos na Inglaterra. 1662 A portuguesa Catarina de Bragança se casa com o rei Charles II e dá início ao consumo de chá na Inglaterra.
1665 Tropas brasileiras e portuguesas destroem o Reino do Congo na Batalha de Ambuíla.
1666 Londres é devastada por um incêndio.
1672 A cidade do Rio de Janeiro abriga 4 mil habitantes brancos e 20 mil negros africanos.
1675 O bandeirante Domingos Jorge Velho abre o caminho que liga São Paulo e Minas Gerais.
1683 No ataque a Viena, os turco-otomanos escravizam 8 mil cristãos, todos brancos.
1687 São Paulo tem 1,5 mil moradores brancos e 10 mil escravos indígenas. Isaac Newton publica Principia, que revoluciona o conhecimento sobre o universo.
1694 Estima-se em 2 milhões o total de eslavos escravizados pelos tártaros na Crimeia nos duzentos anos anteriores. No mesmo período, outros 2,5 milhões de escravos brancos foram comercializados pelos turco-otomanos no Mediterrâneo.
1695 Depois de quase um século de resistência, o Quilombo dos Palmares é destruído em Alagoas. A cabeça degolada de Zumbi dos Palmares é exibida num poste no Recife.
1697 Chegam a Salvador as primeiras notícias de que há ouro em Minas Gerais.
1700 A população total do Brasil é estimada em 300 mil habitantes.

Introdução

MARCELIN NORBERTO DE SOUZA veste-se à moda africana: camisa colorida em tom rosa-choque, mangas curtas e fraldas soltas sobre as calças de tecido leve da mesma cor. Está sentado em um sofá modesto, de três lugares e estampas quadriculadas, de costas para a parede de uma pequena sala de teto baixo e janelas fechadas, sem ventiladores ou ar-condicionado. A penumbra do ambiente contrasta com a intensa luminosidade lá fora. É um homem sorridente, de olhar meigo, cabelos e bigodes brancos que realçam a pele negra. A voz é grave e rouca. Na aparência e no jeito sossegado de falar, lembra um pouco o compositor baiano Dorival Caymmi.

Em Ajudá,* litoral da República do Benim, a quarenta quilômetros da fronteira com o Togo, região quente e úmida da África, perpendicular à Linha do Equador, tudo remete à Bahia. Na praça central, de terra batida, um grupo de moradores protege-se do sol forte do meio-dia à sombra de uma antiga e frondosa gameleira, árvore sagrada do candomblé, de cujos ramos balançam ao vento dezenas de fitas coloridas. Foram colocadas ali em memória dos mortos da comunidade e em homenagem às muitas divindades locais, aparentadas dos orixás, que em Ajudá são chamadas de voduns — mesma denominação que recebem nos terreiros de tradição jeje de Salvador e do Recôncavo Baiano. A faixa mais longa e mais colorida, uma peça inteira de tecido que recobre todo o tronco da árvore, das raízes aos galhos mais altos, é dedicada à serpente Dan, a deusa do arco-íris, princípio de tudo, a rainha entre todos os voduns.

Aos 92 anos, Marcelin Norberto é o patriarca da nona geração da família De Souza, dinastia fundada no Reino do Daomé, hoje parte da República do Benim,* no final do século XVIII pelo baiano Francisco Félix de Souza, um dos personagens mais extraordinários da história do Brasil. Mulato claro nascido em Salvador, Francisco Félix ainda jovem mudou-se para a África, onde passou a dedicar-se ao mais lucrativo negócio da época: o tráfico de escravos. Em pouco tempo, tornou-se o mais rico, famoso e influente mercador de gente na costa africana, com numerosa clientela no Brasil. Teria embarcado mais de meio milhão de cativos para o Recôncavo Baiano. Ao morrer, em 1848, aos 94 anos, deixou 53 mulheres viúvas, mais de oitenta filhos e 2 mil escravos. Teria acumulado uma fortuna hoje equivalente a 120 milhões de dólares.[1] Francisco Félix foi tão importante no comércio de escravos que ganhou do rei Guezo, do Daomé, seu amigo e sócio no tráfico negreiro, o título de chachá — honraria hereditária que desde então vem passando de geração em geração dentro da família De Souza. Quando cheguei à República do Benim, em novembro de 2017, acabara de morrer o oitavo chachá, Honoré Feliciano Julião Francisco de Souza. Caberia ao patriarca Marcelin Norberto anunciar e organizar a entronização do novo detentor do título, cujo nome, àquela altura, era ainda desconhecido fora de um círculo familiar mais restrito.

Os descendentes de Francisco Félix estão hoje espalhados por quatro países africanos — República do Benim, Nigéria, Togo e Costa do Marfim —, onde ocupam posições de grande importância na hierarquia social, muitas vezes à frente de grupos ou forças políticas rivais. Um deles, o general Paul Émile de Souza, foi presidente da junta que, entre 1969 e 1970, governou o Benim quando o país ainda se chamava Daomé e vivia sob uma ditadura militar. Outro, o arcebispo Isidore de Souza, presidiu o Alto Conselho da República, responsável pela redemocratização ao fim do mesmo regime, em 1990. A lista inclui ainda vodunsis (sacerdotisas de vodun), políticos, advogados, agricultores, bancários, carpinteiros, motoristas, comerciantes, construtores, costureiras, enfermeiros, escritores, fotógrafos, funcionários públicos, jornalistas, mecânicos, médicos, músicos, parteiras, professores e pedreiros, entre outras pessoas das mais diversas atividades e profissões.

Brasileiros, embora relativamente raros nesta parte da África, são sempre bem-vindos em Ajudá. Por esse motivo, a primeira providência de Marcelin Norberto ao receber um novo visitante é sempre lhe pedir os contatos — telefone, e mail, endereço de correspondência. É o que faz comigo antes ainda que eu me sente ao seu lado no sofá de estampas quadriculadas. “Para futuras comunicações de nosso interesse comum”, explica. Em seguida, informa que uma de suas missões é manter vivas as tradições da família, os traços da cultura brasileira presentes no Benim e os laços que unem esta região ao Brasil. “A que devo a honra da visita?”, ele me pergunta, em francês, o idioma oficial do país. Respondo que esta é minha quarta viagem à África, de um total de cinco, parte do trabalho de pesquisas para uma série de três livros-reportagem sobre a história da escravidão no Brasil. “Há muita coisa para ver aqui”, adianta ele.

E, de fato, as marcas da escravidão e seus estreitos vínculos com o Brasil podem ser observados por todo lado neste ponto do litoral africano.

A algumas centenas de metros da casa de Marcelin Norberto, ergue-se a antiga Fortaleza de São João de Ajudá, o mais importante entreposto de tráfico negreiro português e brasileiro no Golfo do Benim até a metade do século XIX. Na praça em frente, emoldurada pela frondosa gameleira sagrada do candomblé, pessoas capturadas no interior do continente eram arrematadas em concorridos leilões. Também ali começa a Rota dos Escravos, uma estrada de terra de três quilômetros que termina na praia, última parte da jornada que os cativos faziam em solo africano antes de embarcarem nos navios negreiros para a travessia do Atlântico. No local da partida, junto à areia batida por ondas agitadas, ergue-se hoje a Porta do Não Retorno, memorial da Unesco (a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) em homenagem às legiões de seres humanos que dali partiram sem esperança de voltar a ver a terra em que haviam nascido.

O monumento de Ajudá é uma entre muitas Portas do Não Retorno que se pode conhecer na África atualmente. Existem dezenas delas, em vários países, marcando os antigos pontos de embarque de escravos. O banco de dados Slave Voyages, que cataloga cerca de 36 mil viagens dos navios negreiros ao longo de três séculos e meio, registra um total de 188 portos de partida de cativos no continente africano, sendo que 20 deles responderam por 93% do total do tráfico no Atlântico.[2] A mais famosa e mais fotografada dessas “portas” fica na Ilha de Goreia, situada na Baía de Dacar, a capital do Senegal. Foi visitada por diversas celebridades internacionais, incluindo o papa João Paulo II e os presidentes Barack Obama, dos Estados Unidos, e Nelson Mandela, da África do Sul. O brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que lá esteve em 2005, aproveitou a viagem para pedir “perdão pelo que fizemos aos negros”, atitude que o português Marcelo Rebelo de Sousa preferiu evitar ao também passar pelo local, doze anos mais tarde. “A dor da escravidão é como a dor de um cálculo renal; não adianta contar, só sentindo”, ponderou Lula.

Embora menos conhecida, a Porta do Não Retorno de Ajudá se destaca entre todas as demais pelo número de cativos que por ali passaram: mais de 1 milhão de homens, mulheres e crianças embarcados à força nos navios do tráfico para uma jornada sem volta que os levaria aos engenhos de açúcar, às lavouras de café, arroz, algodão e tabaco, às minas de prata, ouro e diamantes e para a execução de inúmeras outras atividades no outro lado do oceano.

Para a imensa maioria dos escravos vendidos aos traficantes em Ajudá ou em qualquer outro local da África, a Porta do Não Retorno foi uma realidade concreta e inexorável. Quase a totalidade dos 12,5 milhões de embarcados nos navios negreiros jamais teve a oportunidade de voltar às suas origens africanas. Os índices de mortalidade eram altíssimos. Pelo menos 1,8 milhão morreu ainda na travessia do Atlântico. Entre os que chegavam ao Novo Mundo, as expectativas de vida eram mínimas. Poucos sobreviveram aos primeiros anos de trabalho cativo. Uma minoria, no entanto, teve destino diferente. São os retornados, ex-escravos, africanos ou brasileiros, que tiveram a chance de cruzar novamente o Atlântico, no sentido contrário ao das rotas convencionais do tráfico, e cujos descendentes hoje habitam a República do Benim e países vizinhos.

Essas linhagens familiares nascidas de ex-cativos brasileiros são conhecidas como agudás e carregam sobrenomes como Souza (ou Sousa), Silva, Santana, Chagas, Santos, Almeida e Medeiros. Alguns de seus fundadores chegaram à África expulsos da Bahia depois da chamada Revolta do Malês, importante insurreição africana ocorrida no Brasil em 1835 e comandada por cativos muçulmanos.[3] Outros retornaram por vontade própria depois de obter a alforria ainda durante o período do cativeiro ou após a assinatura da Lei Áurea, que aboliu formalmente a escravidão, em 13 de maio de 1888.

Entre os atuais descendentes dos retornados, poucos ainda falam português ou têm algum contato direto com o Brasil. A maioria se comunica em francês, inglês ou em um dos muitos idiomas locais. Ainda assim, festejam o Carnaval e o dia de Nosso Senhor do Bonfim, se reúnem para comer feijoada, dançam a “burrinha”, uma forma arcaica do bumba meu boi, e torcem pela seleção brasileira de futebol. A herança do Brasil também é visível na arquitetura. Em Porto Novo, a capital constitucional do Benim, próxima à fronteira com a Nigéria, existe até uma mesquita com estilo arquitetônico de igreja católica brasileira erguida por pedreiros, marceneiros e mestres de obras agudás no século XIX. Em Lagos, na Nigéria, a antiga Mesquita Central, construída segundo os planos do mestre de obras agudá João Baptista da Costa, foi demolida há alguns anos para dar lugar a um templo modernoso, financiado pela Arábia Saudita. Tinha feições de igreja jesuíta brasileira. A Mesquita Shitta, também em Lagos, foi erguida no estilo brasileiro e ainda está de pé.

Alvo de antigos e arraigados preconceitos, a África permanece um desafio para a civilização tecnológica e industrial do século XXI. No imaginário popular, alimentado quase diariamente por notícias ruins ou sensacionalistas, o continente africano hoje oscila entre a visão do paraíso primevo e idílico das savanas coalhadas de animais selvagens e o espectro de um lugar assolado por tragédias humanitárias, guerras civis, epidemias de fome, de doenças como o ebola e recorrentes imagens de imigrantes ilegais que arriscam suas vidas na travessia do Mediterrâneo em balsas precárias em busca de vida melhor na Europa. Nas minhas viagens de pesquisa, pude constatar que a África real, em muitos aspectos, assemelha-se ao Brasil. Tem, sim, pobreza, corrupção, mazelas e problemas. Ao mesmo tempo, tem países de economia dinâmica, gente trabalhadora e empreendedora, legiões de estudantes que, em número cada vez maior, frequentam universidades e centros de pesquisas.

Há, sim, bolsões de violência, causados por guerras civis e religiosas, em lugares como a região norte da Nigéria, a República Democrática do Congo, o Sudão e a Somália. Em compensação, é possível andar na rua sem medo de roubos, assaltos ou agressões físicas, a qualquer hora do dia ou da noite, em capitais como Dacar (Senegal), Acra (Gana), Cotonou (sede do governo do Benim), Praia (Cabo Verde) e Maputo (Moçambique) — coisa que raros brasileiros se arriscariam a fazer em metrópoles como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife.

Essa África de história milenar, berço da humanidade, de cultura riquíssima, complexa e diversa permanece como um desafio também para nós brasileiros, especialmente os de ascendência branca e europeia, que mantemos com nossa raiz africana uma relação contraditória, marcada por duas atitudes extremas: de um lado, o mais cru preconceito racial; de outro, a celebração ufanista e irreal das heranças africanas, como nos festejos de Carnaval, sem reconhecer, entretanto, que os responsáveis por elas — os negros e seus descendentes — nunca tiveram o mesmo tratamento e as mesmas oportunidades usufruídas por brasileiros de outras origens.

A relação contraditória do Brasil com a África tem profundas raízes históricas e pode ser observada ainda nos dias atuais no próprio continente africano. Os primeiros soberanos a reconhecer a independência brasileira, em 1822, foram dois reis africanos: o obá Osenwede, do Daomé (atual Benim), e o ologum Ajan, de Lagos (hoje cidade da Nigéria).* Eram ambos grandes exportadores de escravos. Na direção oposta, em 11 de novembro de 1975, o Brasil tornou-se o primeiro país a reconhecer Angola como um país independente, decisão que causou surpresa, levando-se em conta que o novo país nascia sob a bandeira marxista do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), enquanto os brasileiros viviam sob uma ditadura militar inaugurada em 1964 com o pretexto de combater o comunismo. Nos dias atuais, esse relacionamento tem se pautado mais por discursos e protocolos de intenções do que por ações e decisões práticas. O último surto de aproximação ocorreu durante os catorze anos de administração petista, em que o governo brasileiro derramou farto dinheiro destinado a obras de infraestrutura em diversos países africanos, usando como duto empreiteiras que, mais tarde, seriam denunciadas na Operação Lava-Jato, de combate à corrupção.

Na época de minhas viagens à África, já depois do processo que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, o clima era de visível má vontade de parte a parte. As marcas brasileiras iam, uma vez mais, desaparecendo da paisagem africana. Encontrei obras paradas, projetos interrompidos, representações diplomáticas, associações e entidades de intercâmbio cultural com dificuldades para pagar as contas, incluindo o aluguel, como resultado dos cortes ao orçamento brasileiro destinado a essas áreas e iniciativas. Entre os governos locais, até pouco tempo antes habituados a conviver com a generosidade do dinheiro farto do BNDES e com outras linhas de financiamento brasileiras, imperava um ambiente de franca revolta contra o governo do então presidente Michel Temer, no qual a torneira se fechou.

Em Acra, capital de Gana, visitei o bairro dos Tabons, outro grupo de retornados brasileiros. Ali existe uma rua do Brasil e um prédio igualmente identificado como Brazil House (Casa do Brasil). Reformado com dinheiro da empreiteira Camargo Corrêa, com o propósito de ser um museu e um memorial à presença brasileira em Gana, o edifício foi inaugurado em 2005 com uma grande festa na qual o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestiu-se como rei africano e foi tratado como tal. Passada a festa, o governo brasileiro não se preocupou em negociar a desocupação do edifício com a família ganesa que até então reivindicava a posse ancestral do imóvel. Em 2017, seus representantes pediam uma indenização entre 2 milhões e 3 milhões de dólares, dinheiro que o governo brasileiro, por meio de sua embaixada em Gana, obviamente, se recusava a pagar. Diante do impasse, nenhum visitante era autorizado a entrar ou mesmo fotografar a Brazil House. Tive a oportunidade de observá-la apenas por fora e de longe, sob o olhar vigilante da família ganesa que, avisada com antecedência da minha chegada, havia estendido uma faixa na frente do prédio explicando quem eram exatamente os proprietários.

O vácuo deixado pela relutante presença brasileira é hoje ocupado na África pelos chineses, cujos projetos estão espalhados por todos os lugares. Encontrei-os em Cabo Verde, Angola e Moçambique — para citar apenas os três países de língua portuguesa que visitei no meu trabalho de reportagem. São obras gigantescas, identificadas com placas, também enormes, escritas em mandarim, o idioma predominante na China. No bairro de Talatona, em Luanda, a capital angolana, pude observar o canteiro de obras de um novo edifício público cercado por arame farpado. Lá dentro, labutava parte dos 100 mil trabalhadores chineses que, em condições difíceis de apurar, atualmente abrem estradas, constroem hospitais, escolas, usinas hidrelétricas, portos, dutos, refinarias de petróleo e uma infinidade de outras instalações em todo o país. A agressividade chinesa pode ser medida, entre outras providências, pela criação do Fórum de Macau, organismo de cooperação entre a China e as nações lusófonas da África, iniciativa que tem o óbvio propósito de se contrapor à CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem o Brasil entre seus membros fundadores.

Enquanto isso, a África continua dentro do Brasil. Forte e predominante, como sempre esteve. O Brasil foi o maior território escravista do hemisfério ocidental por quase três séculos e meio. Recebeu, sozinho, quase 5 milhões de africanos cativos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América. Como resultado, é atualmente o segundo país de maior população negra ou de origem africana do mundo. Os afrodescendentes brasileiros, classificados nos censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como pretos e pardos, somam hoje cerca de 115 milhões de pessoas, número inferior apenas à população da Nigéria, de 190 milhões de habitantes, e superior à da Etiópia, o segundo país africano mais populoso, com 105 milhões. O Brasil foi também a nação que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico negreiro e o último a abolir oficialmente o cativeiro no continente americano, em 1888 — quinze anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba.

O tráfico de africanos escravizados no Brasil começou por volta de 1535, algumas décadas depois da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral à Bahia, em 1500. O objetivo inicial do comércio de gente era fornecer mão de obra para a indústria do açúcar no Nordeste, a primeira importante atividade econômica colonial, mas rapidamente se propagou por todos os segmentos da sociedade e da economia. Três séculos mais tarde, na época da Independência, praticamente todos os brasileiros livres eram donos de escravos, incluindo inúmeros ex-cativos que também tinham seus próprios cativos. A presença de africanos nas ruas e lavouras brasileiras surpreendia os viajantes que por aqui passavam. No interior do país, eram agricultores, tropeiros, marinheiros, pescadores, vaqueiros, mineradores de ouro e diamante, capangas e seguranças de fazendas. Nas cidades, trabalhavam como empregados domésticos, sapateiros, marceneiros, vendedores ambulantes, carregadores de gente e mercadoria, açougueiros, entre muitas outras funções.

A escravidão é um fenômeno tão antigo quanto a própria história da humanidade. No mundo inteiro, desde a mais remota Antiguidade, da Babilônia ao Império Romano, da China Imperial ao Egito dos Faraós, das conquistas do Islã na Idade Média aos povos pré-colombianos da América, milhões de seres humanos foram comprados e vendidos como escravos. Provinham de todas as regiões, raças e linhagens étnicas, incluindo eslavos (designação que originou a palavra “escravo”) de olhos azuis das regiões do Mar Báltico. A descoberta e a ocupação de um novo continente pelos europeus na virada do século XV para o XVI, porém, adicionaria ingredientes inteiramente novos a essa história. Nada foi tão volumoso, organizado, sistemático e prolongado quanto o tráfico negreiro para o Novo Mundo: durou três séculos e meio, promoveu a imigração forçada de milhões de seres humanos, envolveu dois oceanos (Atlântico e Índico), quatro continentes (Europa, África, América e Ásia) e quase todos os países da Europa e reinos africanos, além de árabes e indianos que dele participaram indiretamente. Além disso, redesenhou a demografia e a cultura da América, cujos habitantes originais, os indígenas, foram dizimados e substituídos por negros escravizados. Até 1820, para cada branco europeu que aportava no continente americano, chegavam outros quatro africanos cativos.[4] Também, pela primeira vez, escravidão se tornou sinônimo da cor de pele negra, origem da segregação e do preconceito racial que ainda hoje assustam e perturbam a convivência entre as pessoas em muitos países, caso do Brasil e dos Estados Unidos.

Até meados do século XIX, com exceção dos próprios cativos, quase todos os demais seres humanos estiveram envolvidos, participaram ou lucraram com o tráfico negreiro, incluindo reis e chefes africanos, que forneciam escravos para seus parceiros europeus. Na Europa, o negócio do tráfico negreiro nunca foi restrito aos países mais ativos na colonização da América, caso de Portugal, da Espanha e Inglaterra. Entre os demais participantes, estavam os alemães, os italianos, os suecos e os dinamarqueses. A Inglaterra, baluarte do abolicionismo no século XIX, fora a maior traficante de escravos no século anterior. Por volta de 1780, os ingleses transportavam em média 35 mil cativos por ano da África, numa frota de aproximadamente noventa navios negreiros. O primeiro grande traficante inglês, John Hawkins, tinha como sócia ninguém menos do que a rainha Elizabeth I, a mesma soberana que foi a mecenas do poeta William Shakespeare.[5] Fernando, rei da Espanha, chamado de “Atleta de Cristo” pelo papa Alexandre VI, assinou o primeiro assiento, alvará de licença para o transporte de escravos em larga escala para o Império Colonial Espanhol na América.[6]

Hoje, parece inconcebível que algo de tamanhas proporções tenha ocorrido. A história, porém, demonstra que, para os europeus, a ideia de que a escravidão seria inaceitável do ponto de vista moral desabrochou apenas no finalzinho do século XVIII, com o nascimento do abolicionismo britânico. “Antes disso, a compra e a venda de seres humanos eram tão comuns e naturais quanto o comércio de quaisquer outras mercadorias e produtos”, observaram os historiadores David Eltis e David Richardson. “A participação no tráfico negreiro no Atlântico até o século XIX era definida pela oportunidade, e não pela moralidade.”[7] Cabe acrescentar que a abolição do cativeiro na América não significou o fim da escravidão em outras partes do mundo. Até recentemente, diversos Estados ainda mantinham a instituição. Os últimos a aboli-la legalmente foram a Etiópia, em 1942; o Marrocos, em 1956; a Arábia Saudita, em 1962; e a Mauritânia, em 2007.[8] Em resumo, a escravidão ainda existia e era oficialmente tolerada até pouco mais de uma década atrás, neste mesmo século XXI, quando a imensa maioria dos seres humanos hoje vivos já tinha nascido.

Desde tempos imemoriais até muito recentemente, portanto, a captura, a venda e o cativeiro de gente foi parte da vida de quase todos os povos e sociedades. Essa triste realidade, infelizmente, ainda persiste nos dias de hoje sob outros disfarces. Legalmente, nenhum país admite mais a escravidão nos moldes antigos, em que seres humanos podiam ser comprados ou vendidos como mercadorias. Ainda assim, muitos a permitem na prática, incluindo o Brasil, onde é recorrente o noticiário sobre pessoas submetidas a condições de trabalho análogas ao cativeiro, exploradas mediante o pagamento de salários irrisórios (ou nem isso), privadas da liberdade de ir e vir, em ambientes sórdidos ou insalubres que, muitas vezes, se assemelham aos das senzalas e dos engenhos de cana-de-açúcar do século XVII.

Uma organização britânica, a Anti-Slavery International — mais antiga entidade de defesa dos direitos humanos, sucessora da British Anti-Slavery Society, fundada em 1823 para combater o tráfico negreiro —, estima que existam, hoje, mais escravos no mundo do que em qualquer período durante os 350 anos de escravidão africana na América. Seriam 40 milhões de pessoas vivendo nessas condições — ou seja, mais do que o triplo do total de cativos traficados no Atlântico até meados do século XIX. Segundo os dados da mesma instituição, cerca de 800 mil pessoas são traficadas internacionalmente ou mantidas sob alguma forma de cativeiro, impossibilitadas de retornar livremente e por seus próprios meios aos locais de origem. Nada disso é surpreendente, considerando-se o alto índice de pobreza prevalente no planeta: calcula-se que, em todo o mundo, 3,4 bilhões de seres humanos (quase a metade do total da população) sobrevivam com uma renda igual ou inferior a 3,20 dólares por dia, o equivalente a pouco mais de 12 reais, valor insuficiente para assegurar as necessidades mínimas de alimentação, moradia e outros cuidados básicos.

Por essas e outras razões, ao contrário do que se imagina, a escravidão e seu legado (presente, por exemplo, no preconceito racial) não estão confinados aos museus, livros didáticos e de história, como se fossem assuntos encerrados, tombados ou congelados no passado. São, em vez disso, parte de uma agenda cada vez mais urgente e decisiva na realidade brasileira e mundial de hoje, a ponto de extrapolar os estudos acadêmicos e as salas de aula para se converter em bandeira política, forte o suficiente para incendiar controvérsias nas redes sociais, influenciar programas de partidos e governos e definir resultados de eleições.

Nada disso, porém, é novidade. Em 1937, ou seja, cinco décadas após a Lei Áurea, o antropólogo alagoano Arthur Ramos, um dos pioneiros no estudo do tema no Brasil, alertava para a persistência de diferentes formas de exploração do negro.[9] Uma delas seria justamente de natureza política. Nesse caso, haveria um esforço deliberado de adulteração ou reinterpretação de fatos, personagens e fenômenos históricos com propósitos políticos. Ecos desse fenômeno podem ser ouvidos ainda hoje no Brasil, e com intensidade cada vez maior, quando o debate das campanhas eleitorais incorpora tentativas de capitalizar tensões raciais subjacentes na sociedade em favor de partidos ou candidatos. “A escravidão se tornou um assunto politicamente sensível, contaminado por interesses e bandeiras ideológicas que, muitas vezes, dificultam seu estudo de forma objetiva”, observou o historiador norte americano Paul E. Lovejoy.[10]

O Brasil dos colonizadores europeus foi construído por negros, mas sempre sonhou ser um país branco. Essa atitude, ainda na interpretação de Arthur Ramos, estaria presente em textos, sermões, discursos e crônicas de viagem da época da colônia até o Segundo Império, que representavam os africanos e seus descendentes como seres “pitorescos”, “interessantes”, “exóticos”, quando não “selvagens” ou “pagãos”, a serem salvos da barbárie no seio da Igreja Católica e, portanto, muito diferentes do biotipo padrão dos observadores, todos eles invariavelmente brancos e de ascendência europeia. Essa visão apareceria também no romantismo e no lirismo piegas do movimento abolicionista do século XIX, em poemas como “O navio negreiro”, de Castro Alves. Seria, nesse caso, reflexo de uma atitude paternalista e culposa de parte da elite intelectual brasileira, aí incluídos escritores e poetas, que enxergaria o negro como um ser ingênuo e incapaz, a ser protegido em nome dos altos valores morais da civilização ocidental, mas ao qual não se dava, de fato, direito de voz e participação nos destinos da sociedade.

No Brasil do século XIX, em paralelo ao movimento abolicionista, havia projetos de “branqueamento” da população, com o apoio disseminado entre os dirigentes e intelectuais tanto do império quanto do movimento republicano. Os programas de imigração europeia tinham exatamente esse objetivo: eram uma forma de contrabalançar o número e a influência dos africanos no Brasil, que, na visão das autoridades da época, seria excessivo e comprometeria o desenvolvimento futuro do país. “O Brasil não é, nem deve ser, o Haiti”, alertava, em 1881, o crítico literário, promotor, juiz e deputado sergipano Silvio Romero. “A vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá, no porvir, ao branco”, insistia em seu livro A literatura brasileira e a crítica moderna, de 1880. Para isso, defendia, seriam necessários, “de um lado, a extinção do tráfico africano e o desaparecimento constante dos índios, e, de outro, a imigração europeia”.

Em 1877, o médico cearense Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho, político e proprietário de terras em São Paulo, assustava-se com as estatísticas populacionais brasileiras, chamando atenção para o fato de que, num contingente de cerca de 10 milhões de pessoas, apenas 3,8 milhões pertenciam à raça branca, enquanto os mais de 6 milhões restantes distribuíam-se entre negros, índios e mestiços. Era preciso, dizia, urgentemente, equilibrar e “aperfeiçoar as raças” no Brasil, “em ordem a melhorar e não a retrogradar, pois o africano deve cruzar com o mulato, e este com o branco”. Pelos seus cálculos, nesse processo de miscigenação, o Brasil se tornaria branco e, portanto, livre de seus traços africanos em cinco gerações.[11] Alguns anos mais tarde, o médico e escritor maranhense Raymundo Nina Rodrigues, outro pioneiro no estudo da África brasileira, afirmava em seu livro clássico Os africanos no Brasil:

A raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido os seus incontestáveis serviços à nossa civilização […], há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. […] Consideramos a supremacia imediata ou mediata da raça negra nociva à nossa nacionalidade.[12]

Ainda segundo Nina Rodrigues, o Quilombo dos Palmares, no interior da então capitania de Pernambuco (hoje estado de Alagoas), teria sido, no século XVII, “a maior das ameaças à civilização do futuro povo brasileiro”, uma vez que, se bem-sucedido, transformaria o Brasil em um “novo Haiti refratário ao progresso e inacessível à civilização”.

Oficialmente, a escravidão acabou em 1888, mas o Brasil jamais se empenhou, de fato, em resolver “o problema do negro”, segundo expressão usada pelo próprio Nina Rodrigues. Liberdade nunca significou, para os ex-escravos e seus descendentes, oportunidade de mobilidade social ou melhoria de vida. Nunca tiveram acesso a terras, bons empregos, moradias decentes, educação, assistência de saúde e outras oportunidades disponíveis para os brancos. Nunca foram tratados como cidadãos. Os resultados aparecem nas estatísticas a respeito da profunda e perigosa desigualdade social no país:

• Negros e pardos — classificação que inclui mulatos e uma ampla gama de mestiços — representam 54% da população brasileira, mas sua participação entre os 10% mais pobres é muito maior, de 78%. Na faixa dos 1% mais ricos da população, a proporção inverte-se. Nesse restrito e privilegiado grupo, situado no topo da pirâmide de renda, somente 17,8% são descendentes de africanos.

• Na educação, enquanto 22,2% da população branca têm 12 anos de estudo ou mais, a taxa é de 9,4% para a população negra. O índice de analfabetismo entre os negros em 2016 era de 9,9%, mais que o dobro do índice entre os brancos. A brutal diferença se repete na taxa de desemprego, de 13,6% e 9,5%, respectivamente. Os negros no Brasil ganham em média R$ 1.570,00 por mês, enquanto a renda média entre os brancos é de R$ 2.814,00.[13]

• Nos cursos superiores, em 2010, os negros representavam apenas 29% dos estudantes de mestrado e doutorado, 0,03% do total de aproximadamente 200 mil doutores nas mais diversas áreas do conhecimento[14] e só 1,8% entre todos os professores da Universidade de São Paulo (USP).[15]

• Um homem negro tem oito vezes mais chances de ser vítima de homicídio no Brasil do que um homem branco. Afrodescendentes formam a maior parte da população carcerária e são mais expostos à criminalidade. São também a absoluta maioria entre os habitantes de bairros sem infraestrutura básica, como luz, saneamento, segurança, saúde e educação.[16]

• Entre os 1.626 deputados distritais, estaduais, federais e senadores brasileiros eleitos em 2018, apenas 65 — menos de 4% do total — são negros. Incluindo os pardos, o número chega a 27%, ainda assim, proporcionalmente a metade da população brasileira total que se encaixa nessas duas classificações (54%). No Senado, a mais alta câmara legislativa do país, a proporção é ainda menor. Só três dos 81 senadores (3,7%) se declaram negros. Entre os governadores dos estados e do Distrito Federal, não há nenhum.[17] E também nenhum entre os ministros do Supremo Tribunal Federal, desde que Joaquim Barbosa se aposentou, em 2014.

• Nas quinhentas maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos postos de direção e 6,3% dos cargos de gerência são ocupados por negros.

• Os brancos são também a esmagadora maioria em profissões de alta qualificação, como engenheiros (90%), pilotos de aeronaves (88%), professores de medicina (89%), veterinários (83%) e advogados (79%).[18]

• Só 10% dos livros publicados no Brasil entre 1965 e 2014 são de autores negros. Entre os diretores de filmes nacionais produzidos de 2002 a 2012, apenas 2%.[19]

Essas cifras são o alto preço que o Brasil paga ainda hoje pelo abandono de sua população negra à própria sorte na época da Lei Áurea. Durante a campanha abolicionista que empolgou o país na segunda metade do século XIX, o pernambucano Joaquim Nabuco dizia que os brasileiros estariam condenados a permanecer no atraso enquanto não resolvessem de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los à sociedade como cidadãos de pleno direito. O regime de escravidão, dizia, corrompia tudo e impedia que a sociedade evoluísse. “A escravidão não consentiu que nos organizássemos, e sem povo as instituições não têm raízes, a opinião não tem apoio, a sociedade não tem alicerces”, escreveu.[20] Às vésperas da Proclamação da República, em 1889, alertava que, sem corrigir esse enorme passivo histórico e social, seria difícil construir uma democracia sólida apenas com a mudança do regime monárquico para o republicano. “A grande questão da democracia brasileira não é a monarquia, é a escravidão”, dizia. É um diagnóstico que continua a assombrar as gerações atuais.

Incapaz de resolver esses obstáculos na sua jornada rumo ao futuro, restou ao Brasil a construção de inúmeros mitos relacionados a sua história escravista. Durante muito tempo, sustentou-se a tese de que a escravidão brasileira teria sido mais branda, patriarcal e benévola quando comparada, por exemplo, ao regime de segregação explícita dos Estados Unidos. O resultado, ainda segundo essa visão, seria um país com menos preconceito e barreiras étnicas e culturais — a tão celebrada democracia racial brasileira. Muitos estudos têm contribuído para mudar de forma drástica essa interpretação. Como se verá ao longo destes três livros, os escravos brasileiros foram sempre explorados e tratados com violência como em qualquer outro território. “Não há escravidão suave ou cruel, ela dispensa adjetivos”, observou a historiadora Hebe Maria Mattos de Castro, da Universidade Federal de Juiz de Fora.[21] O preconceito, por sua vez, é parte do dia a dia dos brasileiros, como se pode observar nos estádios de futebol, onde jogadores negros são alvos frequentes de agressões verbais.

A escravidão no Brasil foi uma tragédia humanitária de proporções gigantescas. Arrancados do continente e da cultura em que nasceram, os africanos e seus descendentes construíram o Brasil com seu trabalho árduo, sofreram humilhações e violências, foram explorados e discriminados. Essa foi a experiência mais determinante na história brasileira, com impacto profundo na cultura e no sistema político que deu origem ao país depois da Independência, em 1822. Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor para a construção da nossa identidade. Estudá-lo ajuda a explicar a jornada percorrida até aqui, o que somos neste início de século XXI e também o que seremos daqui para a frente. Em nossas raízes africanas, há uma história de domínio e opressão de um grupo de seres humanos pelo outro, de muita dor e injustiça. Mas há também beleza e encantamento. São da África a capacidade de resistência e adaptação, a resiliência, a criatividade, o vigor, o sorriso fácil, a hospitalidade, a alegria, a música, a dança, a culinária, as crenças religiosas e outros aspectos que transformaram o Brasil em uma sociedade plural e multifacetada, marcada por cores e ritmos que hoje nos diferenciam no mundo.

Por essa razão, o tema tem sido alvo de uma vasta produção literária e acadêmica com enfoques diferenciados e, muitas vezes, conflitantes. Cada nova geração de escritores e historiadores procura iluminá-lo sob diferentes perspectivas, que incluem desde obras de grande densidade acadêmica, como teses de doutorado, dissertações de mestrado e outros trabalhos que todos os anos brotam nas universidades e em centros de pesquisa, até livros de interesse geral, destinados ao público leigo.

A série que se inicia com a publicação deste volume pretende ser parte desse grande esforço coletivo. Os três livros, a serem publicados, um por ano, até 2021 (portanto, até as vésperas da comemoração do bicentenário da Independência, no ano seguinte), compreendem ensaios e reportagens de campo e, sempre que possível, procuram seguir uma ordem cronológica. Este primeiro volume tem seu foco principal na África — pela óbvia razão de que, ao escrever sobre a escravidão no Brasil, é preciso começar por esse continente. Cobre um período de, aproximadamente, 250 anos, entre o início das incursões e capturas de escravos pelos portugueses na costa da África, em meados do século XV, até o final do século XVII. Traz também alguns trechos sobre a escravidão em outros períodos da história da humanidade, como na Grécia Antiga, no Egito dos faraós, no Império Romano, nos domínios do islã e na própria África antes da chegada dos portugueses.

O segundo livro concentra-se no século XVIII, auge do tráfico negreiro no Atlântico, motivado pela descoberta das minas de ouro e diamantes no Brasil e pela disseminação do cultivo de cana-de-açúcar, arroz, tabaco, algodão e lavouras e do uso intensivo de mão de obra cativa em outras regiões do continente. Num período de apenas cem anos, mais de 6 milhões de seres humanos foram traficados da África para a América, dos quais 2 milhões (um terço do total) vieram só para o Brasil. O terceiro e último livro se dedica ao movimento abolicionista, ao tráfico ilegal de cativos, ao fim (pelo menos do ponto de vista formal e legal) da escravidão no século XIX e ao seu legado nos dias atuais. São também abordados, nos dois próximos volumes da trilogia, temas como a família escrava, as alforrias, a escravidão urbana, as festas, irmandades e práticas religiosas, a assimilação, as fugas, rebeliões e os movimentos de resistência.

Pesquisar e escrever esta série de livros envolveu uma longa e fascinante jornada de seis anos que me levou ao encontro de paisagens, culturas, experiências e pessoas em doze países de três continentes — África, América e Europa.

No primeiro semestre de 2017, depois de já familiarizado com a vasta bibliografia relacionada ao tema, estive em Cartagena, na Colômbia, o mais importante porto negreiro do Império Colonial Espanhol, e percorri o antigo sul escravista dos Estados Unidos, palco de uma guerra civil na qual morreram cerca de 750 mil pessoas e que ainda hoje é cenário de lutas pela liberdade e pela igualdade de direitos civis entre brancos e negros com grande repercussão no mundo todo. Repetia assim uma experiência que o pernambucano Gilberto Freyre teve no final da década de 1920. Freyre, então um jovem sociólogo, visitou essa região enquanto reunia os primeiros ensaios, rascunhos e ideias que, anos depois, se converteriam no clássico Casa-grande & senzala, marco da celebração da mestiçagem como virtude nacional. Como ele, tive o privilégio de conhecer bibliotecas, museus, centros de estudos e antigas fazendas produtoras de arroz, algodão, cana-de-açúcar e tabaco — as famosas plantations escravocratas americanas, algumas delas hoje transformadas em memoriais dedicados à história do cativeiro africano na América.

No mesmo ano, estive em Londres e Liverpool, outros dois importantes locais associados à história do tráfico negreiro e à campanha abolicionista que levaria ao fim da escravidão no século XIX. Morei um semestre em Lisboa, base de apoio para minhas cinco viagens a oito países africanos (Cabo Verde, Senegal, Angola, Marrocos, Gana, Benim, Moçambique e África do Sul). Antes e depois dessas incursões internacionais, percorri diversos estados brasileiros, revivendo, com o encantamento de sempre, a experiência de muitos anos atrás, quando, na condição de jovem repórter, tive o privilégio de viver, morar e trabalhar em todas as regiões do país — com a diferença de que, desta vez, meu olhar tinha um foco mais preciso: a história da escravidão e seu legado no Brasil de hoje.[22]

O desfecho desta jornada de leituras, pesquisas e reportagens levou-me ao encontro de um veterano amigo e colaborador, o poeta, ensaísta e historiador Alberto da Costa e Silva, com quem eu já tivera o privilégio de trabalhar na edição de um dos meus livros anteriores, 1822, sobre a Independência do Brasil. Membro e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva é considerado atualmente o maior especialista brasileiro em história da África, autor das várias obras fundamentais para a compreensão do tráfico negreiro para a América. São de sua autoria as notas e observações que aparecem no rodapé de alguns capítulos deste livro, tarefa que o “Embaixador” (como o conhecem seus muitos amigos) teve a gentileza de realizar com a paciência, a generosidade e o cuidado que o tornaram um dos intelectuais mais admirados e respeitados no Brasil. “A história da África é importante para nós, brasileiros, porque ajuda a explicar-nos. É de onde proveio quase a metade dos nossos antepassados. O obá (chefe local) do Benim ou o angola de Quiluanje estão mais próximos de nós do que os antigos reis de França”, escreveu Alberto da Costa e Silva.[23] “Hoje, todos somos descendentes de escravos ou de senhores e mercadores de escravos”.[24]

Um antigo ditado africano recorda que, até o leão aprender a escrever, a história exaltará a versão do caçador.

Em uma tese do Curso de Altos Estudos apresentada em 2007 ao Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores, a diplomata Irene Vida Gala — outra reconhecida africanista contemporânea brasileira com quem também tive o privilégio de contar entre os colaboradores nesta série de livros — procurou decodificar esse ditado na forma de diferentes “olhares” sobre a história das relações do Brasil com a África. Segundo ela, haveria “os olhares negros”, que reconhecem o papel do africano e de seus descendentes, protagonistas de uma história tão antiga e pródiga quanto o continente de que são oriundos, e os “olhares brancos”, que perpetuam os registros de uma história repetida desde os tempos do colonizador europeu, perfeitamente condizente com interesses e perspectivas eurocêntricas e caucasianas presentes nas narrativas tradicionais da historiografia brasileira. Haveria, porém, no entendimento da embaixadora Irene Gala, um terceiro grupo, o dos “olhares atentos”, contemporâneos, que assimilam a complexidade dessas duas histórias e incorporam novos ingredientes ao seu relato e análise, dispondo-se a oferecer uma compreensão mais ampla e ao mesmo tempo mais sutil e refinada das relações Brasil-África. Estes últimos são olhares que, a meu ver, poderiam servir igualmente à história da escravidão — uma parte hedionda e dolorosa, mas também essencial para a compreensão dessas relações. Na perspectiva oferecida por esses “olhares atentos”, seria possível identificar e destacar novas narrativas e reinterpretar heróis, acontecimentos e consequências que marcam quatro séculos de uma convivência ainda hoje pendente de reconciliação.

Ao iniciar esta série de livros sobre a escravidão, eu gostaria de me alistar ao grupo dos “olhares atentos”. Ao mesmo tempo, preciso reconhecer (e desde já pedir a compreensão dos leitores) que minhas raízes e referências culturais de certa forma condicionam e limitam o meu olhar. Como repórter e pesquisador, posso e devo observar e ouvir os diferentes olhares e vozes, admitindo, porém, que seria indevido ou falso de minha parte tentar, por exemplo, expressar na sua totalidade a experiência de dor e sofrimento do “olhar negro”, pela qual nunca passei. Pelo lado materno, dos Fagnani, sou descendente de imigrantes italianos que, fugindo da fome na Europa, chegaram ao Brasil no final do século XIX para substituir a mão de obra cativa nas lavouras de café de Mococa, Araraquara e Descalvado, no interior de São Paulo. Pelo lado paterno, do sobrenome Gomes, tenho entre meus ascendentes um líder abolicionista e republicano da atual cidade de Brasópolis, sul de Minas Gerais. Desse modo, posso dizer que a escravidão também é assunto meu. Sua história e seu legado são temas do meu interesse, como deveriam ser para todos os demais 210 milhões de brasileiros. Cabe-me, portanto, trabalhar com uma atitude atenta, de responsabilidade e respeito pelos agentes envolvidos nessa história, entre os quais eu me inscrevo, deixando que os leitores julguem se, nesse esforço, fui honesto e sincero nos meus propósitos — ainda que, talvez, não inteiramente bem-sucedido.

O “olhar atento” com o qual me propus a escrever esta trilogia inclui também o reconhecimento de que existem aspectos de natureza semântica relacionados ao tema que hoje são alvos de intenso debate acadêmico. O correto seria dizer “escravo” ou “escravizado”? Expressões como “senhor de escravo” ou “dono de escravo” pertenceriam ao domínio dos “olhares brancos” ou seriam também aceitáveis no universo dos “olhares negros” ou dos “olhares atentos”? Palavras, obviamente, escondem significados profundos que à primeira vista escapam à percepção de quem as lê ou escreve. “Escravo”, substantivo ou adjetivo, remete à definição de um ser humano cuja condição seria natural e essencialmente a de cativo, alguém que assim teria nascido e assim permaneceria devido à sua própria natureza. O olhar preconceituoso, por exemplo, poderia supor que a escravidão seria uma vocação natural ou inata dos negros africanos. “Escravizado”, particípio do verbo “escravizar”, também usado como adjetivo, por sua vez, denotaria uma condição circunstancial ou temporária, produzida pela violência que tornou a pessoa cativa. Homens e mulheres escravizados seriam, portanto, pessoas que sofreram escravização, foram subjugadas e reduzidas à condição de cativas, sem que essa fosse sua identidade ou vocação original. Essas sutilezas linguísticas são importantes e devem ser levadas em conta. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que determinados vocábulos já se incorporaram aos usos e costumes da língua portuguesa e podem ser livremente utilizados em favor de uma mais fácil compreensão dos leitores. “Escravo” é uma palavra de uso consagrado nos dois mais importantes dicionários brasileiros, o Aurélio e o Houaiss, onde aparece como “aquele que, privado da liberdade, está submetido à vontade de um senhor, a quem pertence como propriedade”. Desse modo, autorizado pelos dicionários, mas também atento às novas exigências e tendências da linguagem, optei por grafar indistintamente “escravo” e “escravizado” ao longo desta obra como sinônimos de “cativo”, alternando seu uso sempre que necessário para evitar cacofonias ou repetições enfadonhas. Da mesma forma, os leitores encontrarão no meu texto expressões como “dono de escravo” ou “senhor de escravo”, ambas igualmente consagradas por respeitados escritores, historiadores, sociólogos e outros estudiosos que me precederam e que delas se valeram no passado sem qualquer constrangimento vernacular.

Apesar do fôlego aparente, em três volumes, esta série não pretende nem poderia ser um estudo exaustivo ou definitivo da escravidão. Seria impossível, além de arrogante e pretensiosa, qualquer tentativa de esgotar um assunto tão vasto, importante e premente, ainda que numa obra que, no conjunto, terá cerca de 1.500 páginas. Por essa mesma razão, ao definir o escopo deste projeto, optei pelo uso do artigo indefinido: “uma história da escravidão no Brasil”, em lugar de “a história da escravidão no Brasil”. Ou seja, é uma entre muitas possíveis narrativas, visões e interpretações num campo marcado por numerosa, diversificada e complexa bibliografia. Meu propósito é destacar e explicar alguns aspectos que julgo importantes na análise do assunto seguindo a fórmula já utilizada nos livros anteriores, mediante o uso de linguagem jornalística, simples e fácil de entender (como suponho ter feito na série 1808, 1822 e 1889). Eu me sentiria absolutamente recompensado se, ao final desta trilogia, conseguisse despertar o interesse de um público mais amplo, não habituado a estudar o tema, incluindo os jovens e estudantes.

É preciso também fazer uma nota final sobre a metodologia. As estatísticas sempre foram um grande desafio no estudo da escravidão no Brasil. Os mapas e números utilizados neste volume tomam como referência as pesquisas de dois autores norte-americanos, David Eltis e David Richardson, compiladas no livro Atlas of the Transatlanic Slave Trade [“Atlas do comércio transatlântico de escravos”, em tradução livre]. Esse estudo serviu de referência para a construção de um notável banco de dados, disponível para consulta na internet em . É resultado de um gigantesco esforço internacional envolvendo pesquisadores de diversos países, incluindo os brasileiros Manolo Garcia Florentino, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Roquinaldo Ferreira, da Universidade Brown, em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos, dois de seus mais importantes colaboradores. Como esse é um banco de dados dinâmico, em constante processo de renovação e atualização, é possível que, ao longo do tempo, os leitores encontrem diferenças significativas entre os números citados nesta obra e os disponíveis na internet. O que significa também que esta série de livros, embora tente resumir a história até hoje conhecida da escravidão no Brasil e, em parte, na América, carrega também um caráter efêmero, como se fosse uma fotografia instantânea de uma paisagem ou cena em rápida mutação.

Laurentino Gomes
Itu, São Paulo, julho de 2019

fim da Amostra

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