Livro ‘Quem tem medo do feminismo negro?’ por Djamila Ribeiro

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Um livro essencial e urgente, pois enquanto mulheres negras seguirem sendo alvo de constantes ataques, a humanidade toda corre perigo. Quem tem medo do feminismo negro? reúne um longo ensaio autobiográfico inédito e uma seleção de artigos publicados por Djamila Ribeiro no blog da revista CartaCapital, entre 2014 e 2017. No texto de abertura, a filósofa e militante recupera memórias de seus anos de infância e adolescência para discutir o que chama de “silenciamento”, processo de apagamento da personalidade por que passou e que é um dos muitos resultados perniciosos da discriminação... 
Capa comum: 120 páginas  Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (8 de junho de 2018)  ISBN-13: 978-8535931136  Dimensões do produto: 20,8 x 13,6 x 1,8 cm

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Leia trecho do livro

Introdução

A máscara do silêncio

O feminismo negro não é uma luta meramente identitária, até porque branquitude e masculinidade também são identidades. Pensar feminismos negros é pensar projetos democráticos. Hoje afirmo isso com muita tranquilidade, mas minha experiência de vida foi marcada pelo incômodo de uma incompreensão fundamental. Não que eu buscasse respostas para tudo. Na maior parte da minha infância e adolescência, não tinha consciência de mim. Não sabia por que sentia vergonha de levantar a mão quando a professora fazia uma pergunta já supondo que eu não saberia a resposta. Por que eu ficava isolada na hora do recreio. Por que os meninos diziam na minha cara que não queriam formar par com a “neguinha” na festa junina. Eu me sentia estranha e inadequada, e, na maioria das vezes, fazia as coisas no automático, me esforçando para não ser notada.

Aprendi a jogar xadrez aos seis anos, na União Cultural Brasil-União Soviética, lugar onde os comunistas da cidade de Santos levavam seus filhos para fazer cursos ou para se divertir nos fins de semana. Aos oito, fiquei em terceiro lugar no torneio da cidade.

Lembro que senti vergonha durante a premiação, com todas aquelas pessoas me olhando. Meu nome saiu no maior jornal da cidade, e meu pai o mostrava orgulhoso a todos que iam a nossa casa.

Mas todo dia eu tinha que ouvir piadas envolvendo meu cabelo e a cor da minha pele. Lembro que nas aulas de história sentia a orelha queimar com aquela narrativa que reduzia os negros à escravidão, como se não tivessem um passado na África, como se não houvesse existido resistência. Quando aparecia a figura de uma mulher escravizada na cartilha ou no livro, sabia que viriam comentários como “olha a mãe da Djamila aí”. Eu odiava essas aulas ou qualquer menção ao passado escravocrata — me encolhia na carteira tentando me esconder.

Em casa, a situação era outra: eu gostava da atenção, me sentia segura. Soltava meus cabelos crespos, era falante e até pretensiosa. Gostava de ler e brincar, como qualquer criança. No prédio onde cresci, éramos a única família negra. Morávamos no apartamento número 1 e, sempre que alguém fazia uma traquinagem, culpavam “os neguinhos lá da frente”, embora, na maioria das vezes, nem tivéssemos participação no caso. Mas morar no térreo tinha suas vantagens. Foi da janela do meu quarto, que dava para a rua, que ouvi uma conversa entre um dos moradores do prédio e uma vizinha de doze anos. Enquanto regava o pequeno jardim que monopolizava, esse senhor perguntou à menina quando ela iria ao seu apartamento de novo para brincar de sentar no colo dele — evito aqui a expressão que de fato usou por considerá-la ofensiva demais. Contei tudo para minha mãe, e descobriram que não somente aquele senhor abusava dela, mas também o pastor de uma igreja próxima. Houve uma tentativa de me desmentir, argumentando que eu era muito nova e não havia entendido direito, mas depois daquele dia eles quase não foram mais vistos no prédio. A “neguinha lá da frente” tinha se mostrado muito mais esperta do que eles.

Por mais que eu tirasse boas notas, fosse saudável e inteligente, uma sensação de inadequação sempre me perseguia. Assim como em A náusea, de Sartre, em que o enjoo do personagem passava temporariamente ao ouvir Billie Holiday, comigo isso acontecia quando ia visitar minha avó em Piracicaba — cidade natal de minha mãe, onde passei muitas das minhas férias.

D. Antônia sabia como ninguém me fazer sentir segura. Era benzedeira das boas: no dia em que atendia, uma fila se formava quarteirão afora e a gente precisava brincar na rua para não atrapalhar. Eu costumava ficar ouvindo embaixo da janela e sair correndo quando ela percebia.

Até hoje guardo a memória olfativa da casa dela, um misto de boldo, incenso de arruda, o feijão que só ela sabia fazer e o doce de abóbora com coco. Quando eu sentia dor de barriga, ela pegava uma erva do quintal e fazia um chá, hábito que tenho até hoje — com a diferença de que compro minhas ervas na feira. Ela me benzia e depois entregava a bebida. Se demorasse a passar, ficava apertando minha barriga enquanto murmurava algo inaudível. Devo ter mentido algumas vezes quanto à dor de barriga só para dormir enquanto ela me massageava.

Minha avó gostava de trançar meus cabelos. Diferente da minha mãe, que não tinha muita paciência, com ela o processo podia levar gostosas horas. Cuidadosamente, ela separava meus cabelos em mechas, passava Yamasterol, cujo cheiro eu amava e me foi familiar por décadas, penteava gentilmente cada mecha e só depois trançava. Desconfio que desfazia algumas, alegando que não tinham ficado boas, só para prolongar aqueles momentos.

Por ser “a neta de Santos”, que não via com tanta frequência, eu sempre dormia com ela quando ficava na sua casa. Acordava com o cheiro do café e deparava com a mesa farta. “Come, você tá muito magra”, minha avó dizia. E eu obedecia. Uma vez ela foi a uma excursão para Aparecida do Norte e me levou junto. Como ela já havia comprado o pacote antes da minha ida para sua casa, passei a viagem ora no chão do ônibus, encostada em seus pés, ora no seu colo. Não havia poltrona para mim, mas ela fizera questão de que eu fosse também. Minha avó sempre insistia para que meus tios me levassem para passear, comprassem doces, me mimassem, cortassem cana para eu mascar ou pegassem manga verde do pé, que ela preparava com sal.

Com vovó, toda a dor e qualquer sentimento de inadequação ou medo passavam. Parecia que lá, com ela, minha vida ganhava sentido. Eu tinha prazer em sentir o vento no rosto quando saía para empinar pipa na Escola Agrícola, ou enquanto aguardava ansiosamente seus atendimentos acabarem para ser benzida também. Era a única que podia mexer no rádio-relógio com telefone sem fio que uma das pessoas que atendia havia lhe dado. Se ia a Santos nos visitar, eu não queria sair de perto dela, e chorava quando ela ia embora, assim como chorava quando precisava voltar de Piracicaba. Sabia que não teria mais a minha Billie Holiday para me tirar daquela náusea que eu não sabia nomear.

Vó Antônia faleceu quando eu tinha treze anos. Ela fora picada por um barbeiro na infância, desenvolvera a doença de Chagas e vivera com um marca-passo boa parte da vida. Eu me recordo claramente do dia em que recebi a notícia de sua morte. Havia ganhado um par de patins do meu pai e brincava de me apresentar com um amigo. Ligaram de Piracicaba e deram a notícia. Meu irmão foi me contar. Fiquei paralisada, sem entender como lidar com aquela informação. Meu amigo disse, apressado: “Vamos, é sua vez de patinar”. Acostumada a querer agradar as pessoas para que fossem minhas amigas, patinei, sem saber o que estava fazendo. Por um tempo, já adulta, quando me lembrava dessa cena, me culpava por julgar que não havia respeitado minha avó. Tempos depois me dei conta de que ela teria achado graça.

* * *

Em 1988, precisei insistir para fazer a leitura principal no Dia do Livro. A professora havia escolhido uma colega de classe branca de cabelo liso que não lia bem. Eu já lia com fluência, mas mesmo assim a professora relutou. Já estávamos bem perto do dia da apresentação e a outra menina ainda não evoluía nos ensaios, então a professora não teve opção a não ser me escolher. Me saí muito bem no evento e recebi elogios de professores e pais.

Mais de uma vez fui premiada por estar entre os melhores alunos da escola. No Anuário Escolar do Estado de São Paulo de 1990, com os nomes dos estudantes que tiraram melhores notas no ano, lá estava eu como aluna do Colégio Moderno dos Estivadores. Eu tinha dez anos na época. Meus pais e eu ficamos muito felizes. Ainda tenho a foto da minha mãe me entregando um livro de presente pelo meu desempenho. Apesar do orgulho visível em meus olhos, sentia uma força agindo sobre mim que muitas vezes me impedia de falar ou existir plenamente em alguns espaços.

Como passava muito tempo sozinha, eu fantasiava demais. Achava que, se ficasse na frente do prédio, um olheiro de passagem acabaria me chamando para ser modelo. Eu estamparia capas de revistas e meus colegas sentiriam inveja de mim. Às vezes eu me imaginava fora das situações cotidianas para não enfrentar a realidade. Esses momentos aliviavam a náusea, mas o sentimento de inadequação permanecia.

Estudei inglês na escola mais conhecida da cidade. Lembro que, quando cheguei para a minha primeira aula, as conversas animadas foram substituídas pelo silêncio assim que fui vista. Todos pararam para me olhar e comentar. Mas não perdi a pose. Segurei os livros bem junto de mim, ergui a cabeça e fingi que não havia nada acontecendo. Depois daquilo, comecei a chegar em cima da hora para a aula, em mais uma tentativa de não ser notada.

Os outros alunos passavam as férias na Disney ou em Paris. O mais longe que eu ia era Piracicaba ou Peruíbe, numa casa que meu pai construiu com amigos. Na volta às aulas, eles conversavam animados sobre tudo o que tinham visto, e eu ficava ouvindo com um sorriso no rosto, tentando agradar. Até que um dia um professor os obrigou a fazer perguntas sobre minhas férias também. Houve alguns momentos de hesitação e sorriso amarelo até que eles entendessem que minhas férias não eram nada interessantes.

Uma vez, um professor pediu que levássemos para a aula alguma coisa que havia sido comprada no exterior. Por sorte, a garota que tinha feito dupla comigo tinha uma amiga que viajava sempre. Fomos ao prédio dela, em frente à praia, buscar um porta-joias e algumas outras coisas. Viajar para fora do país era algo tão distante para mim — nem sequer havia andado de avião — que me recordo de ter ficado impressionada com a facilidade com que a garota explicava cada item. E me lembro perfeitamente da minha dupla se gabando por ter uma amiga viajada.

Algumas vezes, durante essas aulas, eu fantasiava que morava numa casa bonita, com uma cama só para mim no lugar do beliche que dividia com minha irmã. Eu ia às aulas de ônibus, porque meus pais não tinham carro, e ficava sonhando com o dia em que meu pai buzinaria para mim na porta da escola. Também imaginava que, a qualquer momento, minha mãe bateria na porta dizendo que eu havia esquecido o guarda-chuva ou qualquer outra coisa, como faziam as mães dos outros alunos, que não precisavam trabalhar o dia inteiro como a minha. O máximo que acontecia era uma funcionária bater na porta e me chamar para a sala da diretora para avisar que meu pai precisava quitar a mensalidade.

Antes desse lugar, eu tinha estudado em uma escola de idiomas mais modesta, e ainda assim era a única aluna negra. Havia um garoto que sempre me xingava, subindo as escadas atrás de mim proferindo insultos racistas. Eu odiava ir às aulas. Um dia, meu pai foi comigo fazer a rematrícula. Ele subiu antes de mim, porque passei no banheiro. Quando o garoto me viu, correu atrás de mim para recomeçar seu ritual macabro. Ri por dentro. Fui subindo vagarosamente as escadas, em vez de quase correr como sempre fazia para me livrar dele. Quando chegamos lá em cima, meu pai me aguardava na recepção. Assim que o avistou, o menino gelou. Contei ao meu pai o que o garoto fazia, e ele deu um escândalo. “Pago a mesma merda que o pai desse moleque, essa situação não pode se repetir.” O garoto nunca mais teve coragem de me encarar, e durante as aulas fazia o possível para se mostrar agradável.

Apesar dessa história, eu preferia essa primeira escola por ser menor, o que fazia com que meus problemas também fossem. Quando fui estudar em outro lugar, minha capa de proteção precisou ficar mais grossa. Às vezes mentia sobre conhecer outras cidades e dizia que meu pai era advogado, e não um trabalhador braçal. Também falava que ele ia me buscar, mas que esperava na outra esquina com o carro porque não conseguia estacionar. Quando me viam no ponto de ônibus, eu alegava que ele estava trabalhando. O fato de ser a única menina negra da sala por anos numa escola de pessoas de outra classe social me fez agir assim.

Ser a CDF evitou que eu fosse xingada algumas vezes, mas nunca me protegeu de verdade. Descobri que podia fazer com que os outros alunos, que até então só riam de mim, precisassem de mim. Ajudava-os a estudar, fazia a lição por eles, passava cola. Vivia explicando para os outros as matérias que dominava bem. Então passei a dar aulas particulares de inglês e português para crianças mais novas e a receber por isso. Um dia, coloquei um anúncio no jornal e consegui um aluno de outra escola. Foi outra forma de fuga por um tempo, mas eu ainda não entendia o que me fazia sentir aquela sensação de gelo na barriga toda vez que passava por um grupo de meninos na rua ou uma professora me pedia para dar um recado na outra classe.

Meu pai, autodidata e militante comunista e do movimento negro, exigia que tirássemos boas notas e nos obrigava a ir à escola sem falta. Mas eu me perguntava se ele sabia o que acontecia lá. Se entendia quão difícil era aturar os xingamentos diários. Senti raiva dele muitas vezes, como quando dizia que eu devia ter orgulho das minhas raízes e me proibia de alisar o cabelo. “Isso porque não é no seu cabelo que eles escondem borrachas”, eu pensava. “E orgulho de quê? De ser a neguinha feia do cabelo duro?” Eu não compreendia por que meu pai insistia em dizer que meu cabelo era lindo, em vez de simplesmente atenuar meu sofrimento permitindo que o alisasse. Eu chegava a colocar toalhas na cabeça quando estava em casa para simular fios mais longos. Com o tempo, ele cedeu, e minha mãe alisava meus cabelos e os da minha irmã em casa. Era um ritual de tortura, no qual ela acendia uma boca do fogão, deixava o pente de ferro ali até ficar pelando e passava nos fios. Aquilo era comum, mas inúmeras vezes o cabelo queimava: você sentia o cheiro e via os fios se desfazendo. Podia-se até queimar o couro cabeludo nos piores casos. A vontade de ser aceita nesse mundo de padrões eurocêntricos é tanta que você literalmente se machuca para não ser a neguinha do cabelo duro que ninguém quer.

Mais tarde, meu pai deixou de se opor a que minha mãe nos levasse para alisar o cabelo com chapinha. A cabeleireira passava henê (um produto capilar), depois o pente e a chapinha, que na época também se esquentava no fogo. A primeira vez que saí de lá chacoalhando meus cabelos para um lado e para o outro foi um grande momento de felicidade — assim como quando, depois de rodar a cidade, meu pai finalmente encontrou uma boneca negra para me dar de presente, já que as meninas do prédio implicavam comigo porque brincava de ser mãe de uma boneca branca (até hoje me lembro do cheiro dessa boneca, talvez o único brinquedo que não quebrei e que guardei por anos).

Com o passar do tempo, as técnicas de tortura foram mudando. A época das químicas relaxantes ou de alisamentos deve ter enriquecido muita gente. Passava-se um produto no cabelo mecha por mecha até cobrir tudo. Então se deixava um tempo para fazer efeito, o máximo que você conseguisse aguentar, porque ardia e queimava o couro cabeludo e parte da orelha, além de cheirar tão forte que fazia os olhos lacrimejarem. A ideia era de que quanto maior o tempo de ação, mais liso o cabelo ficava. Até hoje, lembro de ter me feito de desentendida no ônibus ou em qualquer espaço coletivo quando alguém reclamava do cheiro forte de química no ar.

Por mais que eu fizesse escova após os procedimentos, que com o passar dos anos foram se aperfeiçoando, meus cabelos nunca ficavam como eu fantasiava, como os da moça da capa de revista. Mesmo assim, era reconfortante ir à escola levando um pente para ficar deslizando pelos cabelos como as meninas brancas faziam. Até a magia sumir com a lavagem.

A sensação de não pertencimento era constante e me machucava, ainda que eu jamais comentasse a respeito. Até que um dia, num processo lento e doloroso, comecei a despertar para o entendimento. Compreendi que existia uma máscara calando não só minha voz, mas minha existência.

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