Livro ‘O Ocultismo Prático e as Origens do Ritual na Igreja e na Maçonaria’ por H. P. Blavatsky

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Neste pequeno volume sobre o que realmente vem a ser o que chamamos de "ciências ocultas", assim como sua prática e rituais, Helena P. Blavatsky - a primeira dama do pensamento esotérico ocidental - verte uma nova luz sobre a palavra OCULTISMO e explica de forma didática e direta a diferença entre ocultismo teórico e ocultismo prático e os perigos de se confundir um e outro. Sem deixar de lado as verdadeiras origens dos rituais, suas explicações científicas e os benefícios espirituais que advêm do seu uso correto, Blavatsky esclarece nestas páginas o que é realidade e superstição, principal­mente na Igreja e na maçonaria...
Editora: Pensamento; 1ª edição (11 setembro 2009)
Capa comum: 136 páginas
ISBN-10: 8531515998
ISBN-13: 978-8531515996
Dimensões: 20.8 x 13.8 x 0.8 cm

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Leia trecho do livro

H. P. Blavatsky

O OCULTISMO PRÁTICO E AS ORIGENS DO RITUAL NA IGREJA E NA MAÇONARIA

Tradução de
Hugo Mader
e
Dulce do Amaral

A DVERTÊNCIA
AOS ESTUDANTES

Ocultismo Prático - Neste pequeno volume sobre o que realmente vem a ser o que chamamos de "ciências ocultas", assim como sua prática e rituais, Helena P. Blavatsky - a primeira dama do pensamento esotérico ocidental... Livros online, Baixar PDF, Download, Frases de H.P. Blavatsky, Resenha, Resumo, Análise e Critica...

São muitas as pessoas interessadas em adquirir conhecimentos práticos a respeito do ocultismo. Faz-se necessário, todavia, esclarecer de uma vez por todas:

(a) a diferença essencial entre o ocultismo prático e o teórico; ou entre o que geralmente se conhece por teosofia, de um lado, e ciências ocultas, de outro, e:

(b) a natureza das dificuldades que o estudo desta última apresenta.

É fácil tornar-se um teosofista. Qualquer pessoa de inteligência mediana e certa inclinação para o metafísico, qualquer pessoa pura e generosa, que sente mais alegria em ajudar ao próximo do que em receber ela própria alguma ajuda, que está sempre pronta a sacrificar os próprios prazeres em benefício dos outros, que ama a verdade, a bondade e a sabedoria pelo que elas significam em si mesmas e não pelas vantagens que se pode obter delas – essa pessoa é um teosofista.

Outra coisa inteiramente diversa, porém, é a pessoa decidir-se a trilhar a caminho que conduz ao conhecimento do que é bom, assim como à distinção perfeita entre o bem e o mal; esse caminho também leva o homem à faculdade de fazer o bem que deseja, na maioria dos casos sem precisar, aparentemente, mover um dedo sequer.

Além disso, há um ponto importante do qual o estudante deveria estar inteirado. Trata-se da enorme e quase ilimitada responsabilidade que o mestre deve assumir em face do aluno. Sejam os gurus do Oriente, que ensinam aberta ou secretamente, sejam os poucos cabalistas que, no Ocidente, tomam a si a tarefa de ensinar os rudimentos da ciência sagrada aos seus discípulos – esses hierofantes ocidentais, quase sempre ignorantes do risco que correm –, todos esses “professores” estão sujeitos a uma lei única e inviolável. A partir do momento em que passam realmente a ensinar, a partir do instante em que outorgam qualquer poder – seja ele psíquico, mental ou físico – aos seus alunos, chamam para si, de acordo com os princípios das ciências ocultas, todos os pecados que possam trazer os referidos alunos, sejam eles de abuso ou de negligência, até o momento em que a iniciação fizer do discípulo um Mestre, tornando-o responsável por sua vez. Há uma lei religiosa, envolta em mistério e misticismo, bastante reverenciada pelos gregos, sobre os quais exercia poderosa influência, semiesquecida pelo catolicismo romano e completamente abolida pela Igreja Protestante. Data ela dos primeiros tempos do Cristianismo e possui o seu fundamento na lei há pouco mencionada, da qual se constitui em símbolo e expressão. Trata-se do dogma da santidade absoluta que se deve verificar nas relações entre os padrinhos de uma criança. Estes últimos assumem deliberadamente todos os pecados da criança recém-batizada (misteriosa semelhança: a criança é ungida como na iniciação!) até o dia em que ela se transformar num ser responsável, capaz de distinguir o bem do mal. Torna-se claro, assim, o motivo pelo qual os “professores” são tão reticentes e por que se exige dos “chelas” que passem por uma provação de sete anos a fim de demonstrarem a sua aptidão e desenvolverem as qualidades necessárias tanto à sua própria segurança quanto à do Mestre.

Ocultismo não é magia. Relativamente, é mais fácil aprender os truques de feitiçaria e os métodos de utilização das forças insondáveis, mas nem por isso menos concretas, da natureza física; os poderes da alma animal que há no homem são logo despertos; as forças que o amor, o ódio e a paixão são capazes de ativar, exacerbam-se facilmente. Isso, no entanto, é magia negra – feitiçaria , pois é a intenção, unicamente a intenção, que determina se uma demonstração de poder constitui magia negra e maléfica ou magia branca e benéfica. O emprego das forças espirituais torna-se impossível para aquele que guarda dentro de si algum vestígio de egoísmo, por menor que seja. Se a intenção não for inteiramente legítima, portanto, o elemento espiritual converter-se-á em psíquico, afetando o plano astral e podendo trazer as consequências mais terríveis. Os poderes e as forças da natureza animal podem ser usados tanto pelo egoísta e vingativo quanto pelo altruísta e misericordioso; os poderes e as forças espirituais são concedidos somente àqueles que possuem o coração inteiramente puro – e nisso consiste a MAGIA DIVINA.

Quais são, então, os requisitos que se exigem do estudante da “Divina Sapientia”? Pois é preciso ressalvar que nenhuma instrução surtirá efeito se o estudante não aceitar e não observar rigorosamente, durante o período de estudos, certo número de requisitos. Trata-se de uma condição sine qua non. Ninguém pode aprender a nadar sem antes se aventurar em águas profundas.

Pássaro algum pode voar sem que as asas estejam crescidas, sem que haja espaço ou coragem para lançar-se ao voo. Aquele que deseja manejar uma faca de dois gumes deve antes tornar-se um mestre completo no manejo da faca sem corte, se não quiser ferir a si próprio ou – o que é pior – aos outros, na primeira tentativa.

Para dar uma ideia aproximada das condições indispensáveis para que o estudo da Sabedoria Divina seja conduzido em segurança, ou seja, sem que haja risco de a magia divina dar lugar à negra, apresentaremos algumas das “regras reservadas” familiares a todos os instrutores orientais. As poucas passagens que seguem foram escolhidas dentre inúmeras outras e a sua explicação encontra-se entre parênteses.

  • 1. Pássaro algum pode voar sem que as asas estejam crescidas, sem que haja espaço ou coragem para lançar-se ao voo. Aquele que deseja manejar uma faca de dois gumes deve antes tornar-se um mestre completo no manejo da faca sem corte, se não quiser ferir a si próprio ou – o que é pior – aos outros, na primeira tentativa. Para dar uma ideia aproximada das condições indispensáveis para que o estudo da Sabedoria Divina seja conduzido em segurança, ou seja, sem que haja risco de a magia divina dar lugar à negra, apresentaremos algumas das “regras reservadas” familiares a todos os instrutores orientais. As poucas passagens que seguem foram escolhidas dentre inúmeras outras e a sua explicação encontra-se entre parênteses.

  • 2. Antes que o discípulo seja autorizado a enfrentar-se “cara a cara” com o estudo, terá que adquirir noções preliminares na companhia seleta de outros upasaka (discípulos) leigos, cujo número deve ser ímpar.
    (“Cara a cara” significa, na passagem em questão, um estudo realizado independentemente ou separadamente dos outros, quando o discípulo recebe os ensinamentos “cara a cara” consigo mesmo [com o seu Eu superior, divino] ou com o seu guru. Só então é que os discípulos recebem cada um a sua quota de informação, segundo o uso que fizeram de seu saber. Isso ocorre apenas quando se aproxima o fim do ciclo de lições.)

  • 3. Antes que você (o professor) participe ao seu Lanu (discípulo) as boas (sagradas) palavras de LAMRIN ou permita que ele “arranje” o Dubjed, deverá cuidar para que a sua mente esteja purificada e em paz com tudo que o cerca, especialmente com os outros eus. Se assim não for, as palavras da Sabedoria espalhar-se-ão e serão levadas pelo vento. (“Lamrin” é uma obra de Tson-kha-pa destinada à instrução prática, dividida em duas partes, uma para uso eclesiástico e exotérico, a outra para uso esotérico. “Arranjar” o Dubjed é preparar os recipientes para a adivinhação, tais como espelhos e cristais. “Outros eus” refere-se aos demais companheiros de estudo. Se não reinar a mais completa harmonia entre os aprendizes, nenhum sucesso poderá ser alcançado. Cabe ao professor selecionar os estudantes levando em conta a natureza magnética e elétrica de cada um, reunindo e acomodando cuidadosamente os elementos positivos e negativos.

  • 4. Durante o estudo, os upasaka devem se manter unidos como os dedos de uma mão. Você deverá gravar na mente deles que tudo quanto possa ferir um deles, ferirá os demais; e se o regozijo de um deles não produzir qualquer eco no seio dos demais, estarão ausentes as condições exigidas e será inútil prosseguir. (Se a seleção preliminar levou em conta as exigências magnéticas, isso dificilmente acontecerá. Por outro lado, sabe-se que muitos chelas promissores e preparados para receberem a verdade tiveram, dado o seu temperamento e a impossibilidade que sentiam de entrarem em harmonia com os seus companheiros, de esperar muitos anos ainda, pois –

  • 5. Os condiscípulos devem ser afinados pelo guru como as cordas de um alaúde ( vina ): embora cada uma delas seja diferente da outra, são capazes de emitir sons em total harmonia. Coletivamente, devem ser como um teclado, respondendo cada um deles ao seu mais leve toque (o toque do Mestre). Desse modo, as mentes deles estarão abertas e as harmonias da Sabedoria poderão vibrar feito conhecimento por todos e cada um, produzindo efeitos agradáveis aos deuses invocados (anjos da guarda ou anjos padroeiros) e úteis ao Lanu. Assim, a Sabedoria será gravada para todo o sempre no coração deles e a harmonia da lei jamais será quebrada.

  • 6. Aqueles que desejam adquirir o saber acerca dos Siddhis (forças ocultas) devem renunciar a todas as pompas da vida e do mundo (segue-se a enumeração dos Siddhis).

  • 7. Ninguém pode se gabar da diferença que o separa dos demais companheiros de estudo – “Eu sou o mais sábio”, “Eu sou o mais puro e agrado mais ao professor e à comunidade que o meu irmão”, etc. – e ainda assim considerar-se um upasaka . O pensamento deve estar voltado antes de tudo para o próprio coração, a fim de expulsar dali o menor pensamento de hostilidade contra qualquer ser vivo. Ele (o coração) deve estar pleno de sentimentos de sua não separação do resto dos seres e de tudo quanto existe na natureza; caso contrário, nenhum sucesso será alcançado.

  • 8. Um Lanu deve se precaver contra as influências externas atuantes (emanações magnéticas das criaturas vivas). Por essa razão, estando a sua natureza interior em harmonia com tudo o que existe, deve cuidar de separar o seu corpo exterior (externo) de qualquer influência que não seja genuína: ninguém mais, além dele, deve beber ou comer em sua tigela. Deve-se evitar o contato corporal (isto é, tocar ou ser tocado) tanto com o ser humano, quanto com os animais. (Não é permitido possuir qualquer animal de estimação, sendo proibido até mesmo tocar certas árvores e plantas. O discípulo tem que viver, por assim dizer, na sua própria atmosfera, a fim de individualizá-la para os propósitos ocultistas.)

  • 9. A mente deve permanecer vedada a tudo o que não sejam as verdades universais da natureza, a fim de que a “doutrina do coração” não dê lugar à mera “doutrina do olho” (isto é, um ritualismo exotérico vazio).

  • 10. O discípulo não deve consumir nenhum alimento de origem animal, seja de qualquer espécie, nada que possui vida em si. Nem vinho, nem bebidas alcoólicas, nem ópio, pois tais substâncias são como os Lhamaym (espíritos do mal) que se apossam do incauto – elas devoram o entendimento. (Acredita-se que o vinho e o álcool contêm e preservam em si o mau magnetismo daqueles que os fabricaram; que a carne dos animais preserva as características psíquicas da espécie correspondente.)

  • 11. A meditação, a abstinência, o cumprimento dos deveres morais, os pensamentos nobres, as boas ações e as palavras gentis, assim como a disposição necessária para o perfeito e total esquecimento do Eu são os meios mais eficazes para se alcançar o saber e receber a Sabedoria superior.

  • 12. Somente pelo cumprimento rigoroso das regras precedentes é que um Lanu pode esperar alcançar em boa hora os Siddhis dos Arhats, o aperfeiçoamento gradual que o leva a tornar-se Uno com o TODO UNIVERSAL.


    Essas 12 passagens foram extraídas de umas 73 regras, as quais seria inútil enumerar, já que são incompreensíveis no Ocidente. Essas poucas, entretanto, bastam para dar uma ideia das enormes dificuldades que se estendem pelo caminho daquele que, tendo nascido e crescido no Ocidente, pretende tornar-se um “Upasaka”.

    A instrução ministrada no Ocidente, especialmente a inglesa, baseia-se toda ela no princípio da emulação e da disputa; todas as crianças são estimuladas a aprender mais depressa a fim de superar os seus colegas e sobrepujá-los de qualquer maneira. A assim chamada “rivalidade amigável” é amplamente cultivada, sendo o seu espírito incensado e reforçado em todos os aspectos da vida.

    “Instruído” segundo tais ideias desde a infância, como esperar que um ocidental se sinta “como os dedos de uma mão” em face de seus companheiros de estudo? Estes, por sinal, não são sequer objetos da sua própria escolha, nem por ele eleitos em função da estima e da simpatia pessoal. São escolhidos pelo professor segundo critérios muito diversos, quando um estudante deveria, antes de tudo, ser forte o suficiente para eliminar do seu coração todo e qualquer sentimento de aversão e antipatia pelos outros. Quantos ocidentais estão preparados para tentar isso com seriedade?

    Ao lado disso, os pormenores da vida cotidiana, o preceito de não tocar sequer a mão daquele que nos é mais caro e querido… Quão opostos aos padrões ocidentais da afeição e dos bons sentimentos! Quão frios e insensíveis parecem eles! E egoístas também, diriam, deixar de proporcionar prazer aos outros para favorecer o próprio desenvolvimento. Bem, deixemos aqueles que assim pensam adiarem para a outra vida a resolução de se porem a caminho com total seriedade. Não deixemos, porém, que se gabem de sua suposta generosidade. Pois na verdade aquilo que admitem ser a causa de suas decepções não passa de aparências, de ideias feitas, calcadas no sentimentalismo e na efusão, ou na chamada cortesia, falsos valores, não os ditames da verdade.

    Todavia, mesmo deixando de lado essas dificuldades, que podem passar por “exterioridades”, não sendo por isso menos importantes, como poderiam os estudantes ocidentais “entrar em sintonia” com o estado de harmonia que se lhes exige aqui? O individualismo alastrou-se com tal força pela Europa e pela América, que já não há escola de artistas cujos membros não sintam ódio ou inveja uns pelos outros. A rivalidade e a competição “profissional” chegaram a se tornar proverbiais; os homens perseguem os seus próprios interesses a qualquer custo e mesmo as chamadas cortesias da vida não passam de máscaras sob as quais se escondem estes demônios do rancor e da inveja.

    No Oriente, o espírito da não separação é apregoado desde a infância, com a mesma tenacidade com que se destila o espírito de rivalidade no Ocidente. A ambição pessoal, os sentimentos e desejos pessoais não são, como aqui, incentivados a um crescimento tão desenfreado. Quando a terra é boa por natureza, ela se presta ao bom cultivo, e a criança transforma-se num homem para quem a subordinação do Eu inferior ao Eu superior tornou-se hábito sólido e arraigado. No Ocidente, as pessoas pretendem que a sua simpatia ou antipatia pelos outros e pelas coisas é que deve ditar o seu modo de agir, quando nem mesmo elas vivem segundo tais princípios e ainda procuram impô-los aos outros.

    Para aqueles que se queixam de pouco terem aprendido na Sociedade Teosófica, deixemos que as palavras que se seguem, tiradas de um artigo publicado em Path, calem fundo no coração deles: “A chave de tudo, a cada passo, é o próprio aspirante”. Não é o “temor a Deus” que consiste no “início da Sabedoria”, mas sim o conhecimento do EU, que é SABEDORIA EM SI.

    Assim, o estudante do ocultismo que começou a perceber algumas das verdades precedentes poderá admirar a majestade e a verdade contidas na resposta dada pelo Oráculo Délfico a todos aqueles que buscam a Sabedoria oculta – palavras ditas repetidas vezes, sempre e novamente, pelo sábio Sócrates: HOMEM, CONHECE-TE A TI MESMO…

O CULTISMO VERSUS
CIÊNCIAS OCULTAS

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“I oft have heard, but ne’er believed till now,
There are, who can by potent magic spells
Bend to their crooked purpose Nature’s laws.”

MILTON

Em tradução literal:

“Sempre ouvi falar, mas jamais acreditara até então,
Pessoas há que, por meio de poderosas fórmulas mágicas,
Dobram aos seus vis desígnios as leis da Natureza.”

Na seção “Correspondência” deste mês, inúmeras cartas testemunham o forte impacto causado pelo nosso último artigo mensal, “Ocultismo prático”. Tais cartas contribuem para provar e reforçar duas conclusões lógicas.

(a) Há mais pessoas bem-educadas e bem-pensantes que creem na existência do ocultismo e da magia (cuja diferença é enorme) do que supõe o materialista moderno; e

(b) A maioria dos crentes (incluindo muitos teosofistas) não tem uma ideia muito clara da natureza do ocultismo, confundindo-o com as ciências ocultas de modo geral e até mesmo com a “magia negra”.

As imagens que fazem dos poderes que o ocultismo confere aos homens e dos meios necessários para obtêlos são tão variadas quanto fantasiosas. Alguns imaginam que, para indicar o caminho, um mestre tem de mostrar tudo o que se espera ver em um Zanoni, por exemplo. Outros acham que basta atravessar o Canal de Suez e chegar até a Índia para se sentirem imediatamente revigorados, como um Roger Bacon ou até mesmo um Conde de St. Germain. Margrave e a sua juventude eterna é o modelo de muitos, que não levam em conta, porém, que ele teve de pagar com a alma por isso. Não poucos, confundindo pura e simplesmente a feitiçaria com o ocultismo – “através da terra dilacerada, subi, fantasmas descarnados das trevas, para as regiões luminosas” – desejam, com base nessa proeza, ser tomados por adeptos calejados. A “magia cerimonial”, conforme as regras irreverentemente preconizadas por Eliphas Lévi, constitui outro alter ego imaginário da filosofia dos Arhats da antiguidade. Em resumo, os prismas através dos quais o ocultismo se mostra para esses inocentes da filosofia são tão numerosos e multicoloridos quanto pode a fantasia humana pintá-los.

Seria muito forte a indignação de tais candidatos ao poder e à sabedoria se lhes fosse dita a verdade pura e simples? Desenganá-los, antes que seja tarde, é algo não apenas conveniente, mas necessário. Essa verdade pode ser expressa em poucas palavras: não há, no Ocidente, sequer meia dúzia de pessoas, dentre os milhares de fervorosos que se intitulam ocultistas, que tenha uma noção sequer próxima da verdade quanto à natureza da ciência da qual procuram se assenhorear. A não ser umas poucas exceções, caminham todos em direção à bruxaria. Antes de contestarem essa verdade, esperamos que eles estabeleçam alguma ordem no caos que reina nas suas mentes. Esperamos que aprendam, primeiro, a verdadeira relação entre ciências ocultas e ocultismo e a diferença entre ambas, para então se sentirem irados e pensarem que ainda estão certos. Enquanto isso, esperamos que aprendam que o ocultismo está para a magia e para as demais ciências secretas como o esplendor do Sol para uma débil luz de vela, assim como o imutável e imortal Espírito do Homem – reflexo do TODO absoluto, incriado e incognoscível – está para o barro perecível – o corpo humano.

No Ocidente altamente civilizado, que assiste ao surgimento de modernas linguagens e à criação de novas palavras sob o influxo das novas ideias e pensamentos – como ocorreu com todas as línguas –, quanto mais estes últimos se concretizam na atmosfera fria do egoísmo ocidental e da sua incessante corrida aos bens deste mundo, menos se sente a necessidade de criar novos termos para expressar aquilo que se considera explicitamente uma “superstição” ultrapassada. Tais palavras somente poderiam corresponder a ideias que um homem culto não admite abrigar na sua mente.

“Magia”, sinônimo de embuste; “feitiçaria”, um equivalente para a ignorância crassa; “ocultismo”, por fim, a triste herança de filósofos perturbados da Idade Média, dos Jacob Boehme e São Martinho – essas expressões são consideradas mais do que suficientes para cobrir todo o domínio da “falcatrua”. São expressões de desdém, em geral usadas apenas para se referir aos resíduos e detritos de eras sombrias e aos períodos de paganismo. Por essa razão, a nossa língua não possui termos para definir e matizar a diferença entre os poderes paranormais e as ciências a eles relacionados com a mesma precisão que é possível encontrar nas línguas orientais – especialmente no sânscrito. O que significam palavras como “milagre” e “feitiço” (palavras de idêntico significado, afinal de contas, uma vez que ambas expressam a ideia de se produzir o maravilhoso a partir da transgressão das leis da natureza [!!], como explicam as autoridades reconhecidas) para aqueles que as ouvem ou pronunciam? Um cristão acreditará piamente em milagres (não obstante sejam contrários às leis da natureza), posto que se diz terem sido produzidos por Deus por intermédio da pessoa de Moisés; no entanto, negará com veemência os feitiços produzidos pelos mágicos do Faraó ou os atribuirá ao demônio. É este último que os nossos pios inimigos associam ao ocultismo; os ímpios, por sua vez, os infiéis, estes riem de Moisés, dos mágicos e dos ocultistas e sentir-se-iam envergonhados de refletir seriamente acerca de semelhantes “superstições”. Isso porque não existem termos capazes de expressar a diferença, nem palavras para designar a luz e a sombra e assim estabelecer a fronteira entre o sublime e a verdade e o absurdo e ridículo. Como estes últimos são as interpretações teológicas que defendem a “transgressão das leis da natureza” pelo homem, por Deus ou pelo diabo; como os primeiros são os “milagres” científicos e os feitiços produzidos por Moisés e pelos mágicos em conformidade com as leis naturais , segundo conhecimentos que lhes foram transmitidos pela sabedoria dos santuários – que constituíam as “Sociedades Reais” daquela época – e pelo verdadeiro OCULTISMO. Esta última palavra certamente se presta a equívocos, traduzida que foi da palavra composta Gupta-Vidya, “conhecimento secreto”. Conhecimento de quê, entretanto? Algumas palavras sânscritas podem nos ajudar.

Há quatro nomes (entre muitos outros) para designar as várias espécies de conhecimentos ou ciências esotéricas ou mesmo os exotéricos Puranas. São elas: (1) Yajna-Vidya, 3 conhecimento das forças ocultas que podem ser despertadas na natureza a partir de certas cerimônias e ritos religiosos; (2) Mahavidya, ou “magnífico conhecimento”, a magia dos cabalistas e das seitas Tantrika, quase sempre feitiçaria da pior espécie; (3) Guhya-Vidya, conhecimento das forças místicas que habitam o som (éter), presentes, por conseguinte, nos mantras (preces e ladainhas cantadas), segundo o ritmo e a melodia usados; em outras palavras, um espetáculo de magia baseado no conhecimento das forças da natureza e em sua correlação; e (4) ATMA-VIDYA, palavra cuja tradução é simplesmente “conhecimento da alma”, verdadeira Sabedoria segundo os orientalistas, mas cujo significado é muito mais amplo do que esse.

Esta última é a única modalidade de ocultismo que os teosofistas, aqueles que se consideram admiradores da “Luz no Caminho” (Light on the Path), que se querem sábios e altruístas, deveriam se esforçar por obter. Tudo o mais não passa de um ramo ou outro das “ciências ocultas”, ou seja, métodos que visam ao conhecimento da essência última de tudo quanto existe no reino da natureza – como os minerais, as plantas, os animais; logo, dos fatos que dizem respeito ao domínio da natureza material, por mais que tal essência continue invisível e escape à compreensão da ciência. A alquimia, a astrologia, a fisiologia oculta, a quiromancia, existem na natureza, sendo que as ciências exatas – assim chamadas porque nessa época de filosofias paradoxais talvez elas constituam o exato reverso disso – já reconheceram vários dos métodos acima relacionados. Mas a clarividência, simbolizada na Índia pelo “Olho de Shiva” ou denominada “Visão Infinita”, no Japão, não se confunde com o hipnotismo, rebento bastardo do mesmerismo, e não pode ser obtida por meio de métodos como esses. Outros métodos ainda poderão ser desenvolvidos e proporcionar alguns resultados, sejam bons ou ruins; são, no entanto, de pouco valor do ponto de vista da Atma-Vidya, que abrange a todos, podendo até mesmo recorrer a eles ocasionalmente para propósitos benéficos, não sem antes purificá-los de suas impurezas e despojá-los de qualquer motivação egoísta. Para ser mais claro: qualquer homem ou mulher pode se dedicar ao estudo de um ou de todos os “métodos ocultos” acima especificados sem para isso contar com alguma espécie de preparo muito complexo, ou mesmo sem precisar adotar uma disciplina por demais rígida. Poder-se-ia até mesmo prescindir de princípios sublimes de moralidade. Admitindo-se essa hipótese, poderíamos antecipar que um entre dez estudantes acabaria por se transformar num feiticeiro até mesmo decente… e então descamba-ria para a magia negra. Mas, pode-se perguntar, e daí? Os Vudus e os Dugpas comem, bebem e se divertem com as hecatombes produzidas por suas artes infernais. E não é de outro modo que procedem os gentis cavalheiros legistas e os “hipnotizadores” diplomados das faculdades de medicina; a única diferença, no caso, é que os Vudus e os Dugpas agem conscientemente, ao passo que o bando de seguidores dos Charcot-Richet são, inconscientemente, feiticeiros. Assim, na medida em que todos colhem os frutos de suas atividades e de seus feitos na magia negra, também os práticos ocidentais devem a sua fama ou a sua difamação aos proventos e prazeres que dela retiram. Pois, repetimos uma vez mais, o hipnotismo e a autópsia, tais como praticados nessas escolas, não passam de pura e simples feitiçaria, sem o conhecimento que possuem os Vudus e Dugpas, conhecimento este que nem em cinquenta anos de árduas pesquisas e observações experimentais os Charcot-Richet poderão alcançar. Deixemos, pois, aqueles que querem se meter com a magia, compreendendo ou não a sua natureza, aqueles que consideram muito duras as exigências impostas aos estudantes e, assim, colocam de lado a Atma-Vidya ou o ocultismo, passarem sem eles. Deixemos que se tornem mágicos a qualquer preço, nem que para isso tenham de se tornar Vudus e Dugpas nas próximas dez encarnações.

Mas pode ser que os nossos leitores estejam interessados naqueles que são inexoravelmente atraídos para o “oculto”, embora não façam ideia da verdadeira natureza daquilo a que aspiram, nem tenham se tornado resistentes à paixão ou, muito menos que isso, capazes de autêntica generosidade.

Deveríamos, pois, indagar o que é feito desses desventurados, dilacerados que são por forças conflitantes. Já se disse muitas vezes para que seja preciso tornar a fazê-lo, sendo um dado patente para qualquer observador, que, uma vez tenha o desejo pelo ocultismo realmente despertado no coração do homem, não resta para ele qualquer esperança de paz, nem lugar algum de alívio e sossego em todo o mundo. Ele é impelido para os espaços selvagens e desolados da vida por um tormento invencível e sem fim. O seu coração está ainda muito cheio de paixões e desejos egoístas para que lhe seja permitido transpor os Portões Dourados; já não encontra sossego ou paz na vida de todos os dias. Deve, por isso, deixar-se arrastar fatalmente para a magia negra e para a feitiçaria, acumulando, uma encarnação após a outra, um terrível karma para si? Não haveria uma outra saída?

Em verdade há, respondemos. Esperemos que ele não aspire a mais do que se sente capaz de alcançar. Esperemos, até que desista de carregar uma cruz muito pesada para as suas forças. Sem nem mesmo exigir dele que se torne um “Mahatma”, um Buda ou um Grande Santo, mas apenas que estude a filosofia e a “ciência da alma”, esperemos que se torne um modesto benfeitor da humanidade, sem qualquer poder “sobre-humano”. Os Siddhis (ou os poderes de Arhat) destinam-se apenas àqueles que são capazes de viver a vida, de aceitar os terríveis sacrifícios exigidos por uma tal disciplina, e aceitá-los ao pé da letra, sem mais. Esperemos que aprenda de uma vez por todas e jamais esqueça que o verdadeiro ocultismo ou a teosofia consiste na “Grande Renúncia ao EU”, renúncia incondicional e absoluta, tanto em ato quanto em pensamento. ALTRUÍSMO: aquele que o pratica deixa de fazer parte do mundo dos vivos. “Não para si, mas para o mundo é que ele vive”: e assim será, tão logo lance mãos à obra. Durante os primeiros anos de provação, muita coisa é esquecida. Mas não sem que antes tenha ele “aceito” que a sua personalidade deve desaparecer e não ser mais que uma força benéfica da natureza. Depois disso, só tem pela frente duas saídas, duas estradas e nenhum remanso. Ou terá de subir laboriosamente, degrau por degrau, uma a uma, várias encarnações, sem pausa nem pouso, a escadaria dourada que leva ao andar do Mahatma (a condição de Arhat ou de Bodhisattva ) – ou então, por descuido seu, despencará escada abaixo ao primeiro passo em falso e rolará até ao Dugpa

Tudo isso é ignorado ou então mantido inteiramente longe dos olhos. Todavia, se alguém seguir a silenciosa evolução das primeiras aspirações dos candidatos, quase sempre acabará por descobrir estranhas ideias a se apossarem tranquilas de suas mentes. Há aqueles cujas faculdades de raciocínio foram tão afetadas por influências alienígenas, que chegam a imaginar que as paixões sensuais podem ser sublimadas e intensificadas a tal ponto que toda a sua fúria, a sua força e o seu furor voltam-se, por assim dizer, para dentro; que podem ficar armazenadas e encerradas no peito até que a sua energia seja não ampliada, mas dirigida para finalidades mais altas e sagradas: ou seja, até que a energia coletiva e potencial torne os seus possuidores capazes de ingressar no verdadeiro Santuário da Alma e aí se defrontarem com o Mestre – o EU SUPERIOR. Para tanto, julgam desnecessário combater ou eliminar as suas paixões. Simplesmente, por um forte esforço de vontade, pretendem apagar as chamas impetuosas e mantê-las atormentadas dentro dos limites de suas naturezas, permitindo ao fogo arder sob uma fina camada de cinzas. Submetem-se risonhamente à mesma flagelação do menino espartano que, para não se desfazer de sua raposa, deixou que ela lhe devorasse as entranhas. Ó pobres, cegos visionários!

Seria o mesmo que esperar de um bando de limpadores de chaminés, voltando do trabalho bêbados e sujos, que se encerrassem num santuário revestido de linho puro e alvo e, em vez de manchá-lo e reduzi-lo a uma pilha de trapos encardidos, pudessem se apossar do sagrado recinto e finalmente dele se retirarem tão imaculados quanto o próprio recinto. Ou, então, imaginar que uma dúzia de depravados recolhidos ao ambiente puro de um Dgon-pa (monastério) pudessem sair dali impregnados com todos os aromas dos incensos queimados… Estranha aberração da mente humana. Como pode chegar ela a tal ponto? Ponderemos.

No santuário de nossa alma, o “Mestre” é o “Eu Superior” – o espírito divino cuja consciência se baseia na mente e apenas dela deriva (o que, de um modo ou de outro, se dá no correr da existência finita do homem na qual ela se acha cativa), e à qual convencionamos chamar de alma humana (sendo a “Alma Espiritual”, por sua vez, veículo do Espírito). Esta (referimo-nos à alma pessoal ou humana) é, na sua forma mais elevada, um composto de aspirações espirituais, volições e amor divino; quanto ao seu aspecto inferior, um composto de desejos sensuais e paixões a ela comunicadas pelo seu veículo, sede de todas estas. Assim, ela desempenha o papel de elo e intermediário entre a natureza animal do homem, à qual a sua razão superior procura subjugar, e a sua natureza espiritual divina, para a qual é atraído sempre que leva a melhor na luta contra o animal recôndito. Esse último é a “alma animal” instintiva, o antro no qual prosperam essas paixões que, como acabamos de ver, são atiçadas em vez de serem mortas e encontram abrigo no seio de alguns fanáticos irrefletidos. Será que ainda esperam assim transformar o esgoto imundo da cloaca animal nas águas cristalinas da vida? Onde, em que paragem remota poderão ser confinados a fim de não prejudicarem os homens? As intensas paixões despertadas pelo amor e pela luxúria ainda vivem e mesmo assim se consente que permaneçam no local em que nasceram – nesta mesma alma animal; ora, tanto a região superior como a inferior da “alma humana” e da mente rejeitam semelhantes companhias, ainda que não possam evitar serem corrompidas por tal espécie de vizinhos. O “Eu Superior” ou Espírito é incapaz de assimilar esses sentimentos tanto quanto a água de se misturar com o óleo ou com impurezas gordurosas. Assim, a mente – o único elo e intermediário entre a criatura terrena e o Eu Superior – é a única a pagar pelo sofrimento, correndo a todo momento o risco de se ver arrastada pelas paixões, que podem reacender de uma hora para outra, e perecer no caos da matéria. Como esperar que ela possa se ajustar à divina harmonia do Princípio superior se precisamente essa harmonia é destruída pela mera presença das paixões animais no santuário em preparação? Como esperar que a harmonia possa prevalecer e sair-se vitoriosa se a alma é maculada e perturbada pelo alvoroço das paixões e pelos desejos materiais dos sentidos corpóreos, quando não do “homem astral” ele próprio?

Pois esse “astral” – o “duplo” soturno (tanto do animal como do homem) – não faz companhia ao Ego divino, mas sim ao corpo terrenal . Constitui o elo que liga o EU individual à consciência inferior de Manas e ao Corpo, estando a serviço da vida efêmera, não da vida imortal. Como a sombra de um homem, executa os seus movimentos e se dobra aos seus impulsos de modo servil e mecânico, conduzindo, portanto, à matéria sem jamais ascender ao Espírito. Somente quando as forças da paixão forem completamente liquidadas, somente quando forem esmagadas e aniquiladas por meio das retortas de uma vontade inabalável; somente quando a volúpia e a febre da carne estiverem mortas; mais ainda, quando inexistir o reconhecimento do eu pessoal e, por conseguinte, o “astral” se reduzir a zero, é que a união com o “Eu Superior” poderá ocorrer. Aí então, quando o “astral” não reflete senão o homem conquistado, a personalidade ainda viva, mas sem os egoísmos e desejos de antes, aí o brilhante Augoeides, o EU divino, poderá vibrar em harmonia consciente com ambos os polos da entidade humana – o homem liberto da matéria e a Alma Espiritual para sempre pura – e se ver diante do EU SUPREMO, o Cristo dos místicos gnósticos, congraçado, unido e absorvido NELE para sempre.

Como, então, pensar que alguém possa passar pela “porta estreita” do ocultismo se os seus pensamentos, a cada hora, a cada dia, não se desligam das coisas mundanas, dos desejos de posse e poder, da cobiça, da ambição e de obrigações que, embora decentes, são ainda as da Terra, são terrenais? Até mesmo o amor pela esposa e pela família – o mais puro e o menos egoísta dos sentimentos humanos – constitui um obstáculo para o verdadeiro ocultismo.

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