Livro ‘As Grandes Estratégias’ de John Lewis Gaddis

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De Sun Tzu a Franklin Roosevelt, como os grandes líderes mudaram o mundo
A arte de liderar é milenar e não há melhor maneira de dominá-la que estudando sua história. Neste livro fascinante, o renomado historiador John Lewis Gaddis explica as grandes teorias da estratégia e como os líderes as colocaram em prática. Cobrindo um período que vai do mundo antigo à Segunda Guerra Mundial, Gaddis analisa, de maneira brilhante e pessoal, estrategistas como Sun Tzu, Augusto, Santo Agostinho, Maquiavel, Tolstói, Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e Isaiah Berlin. Há mais de vinte anos como titular da Universidade de Yale ministrando um popular e disputado curso sobre estratégia, o historiador vencedor do Pulitzer oferece um resumo para o grande público e ensina...
Editora: Crítica; 1ª edição (22 março 2019)  Páginas: 384 páginas  ISBN-10: 8542215893  ISBN-13: 978-8542215892  ASIN: B07PK5KS5S

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Americano, John Lewis Gaddis estudou História na Universidade de Yale, onde se tornou professor titular. Há 20 anos ministra um curso sobre estratégia que é um dos mais concorridos da universidade. Já escreveu vários livros sobre a guerra fria e ganhou um Pulitzer pela biografia de George Kennan.

PREFÁCIO

O título — no original, On Grand Strategy —, eu sei, corre o risco de arquear sobrancelhas. No entanto, fui precedido por Timothy Snyder, meu colega no departamento de história de Yale (On Tyranny, ou Sobre a tirania), assim como, há muito mais tempo, por Sêneca (On the Shortness of Life, ou Sobre a brevidade da vida). Fico mais preocupado, na verdade, com os admiradores de Carl von Clausewitz, entre os quais me incluo. Seu livro Da guerra (On War, 1832), publicado postumamente, estabeleceu um padrão para todos os estudos seguintes a respeito das grandes estratégias e de seu indispensável corolário. A justificativa para outra publicação sobre o assunto é a concisão, que não seria um dos pontos fortes de Clausewitz: Da grande estratégia cobre um intervalo maior que Da guerra e tem menos da metade da extensão.

Este livro nasce de duas experiências relacionadas a grandes estratégias, separadas por um quarto de século. A primeira, enquanto professor de estratégia e programa militar de ação no Colégio de Guerra Naval dos Estados Unidos, de 1975 a 1977, nas circunstâncias descritas ao fim do capítulo 2; a segunda, em parceria com outro professor, na Universidade Yale, no seminário anual Estudos em Grande Estratégia, de 2002 ao presente ano (2017). Nos dois cursos foram priorizados textos clássicos e estudos de casos históricos, não teoria. Os seminários de um semestre na Newport têm como público-alvo oficiais militares em meio de carreira. Já o programa de dois semestres na Yale reúne estudantes de graduação, pós-graduação e especialização, bem como, a cada ano, um tenente-coronel da ativa do Exército e do corpo de fuzileiros navais.

Os dois cursos são ministrados em parceria: em geral, um civil e um instrutor militar para cada parte do seminário em Newport e variadas combinações na Yale. Eu e meus colegas Charles Hill e Paul Kennedy começamos como uma troika. Presentes em todas as aulas, discutíamos o tema diante dos alunos e, fora da classe, prestávamos tutoria individual (nem sempre de modo consistente). Por incrível que pareça, nós três ainda somos vizinhos e amigos íntimos.

A criação, em 2006, do Programa Brady-Johnson de Grande Estratégia nos permitiu contar com alguns profissionais da área: David Brooks, Walter Russell Mead, John Negroponte, Peggy Noonan, Victoria Nuland, Paul Solman, Jake Sullivan e Evan Wolfson. O curso também atraiu professores de outras áreas da Universidade Yale: Scott Boorman (sociologia), Elizabeth Bradley (inicialmente da Escola de saúde pública, diretora do Programa Brady-Johnson em 2016-2017 e hoje presidente do Vassar College), Beverly Gage (história e, a partir de 2017, diretora do Programa Brady-Johnson), Bryan Garsten (ciências políticas e humanas), Nuno Monteiro (ciências políticas), Kristina Talbert-Slagle (epidemiologia e saúde pública) e Adam Tooze (a princípio da área de história e atualmente na Universidade Columbia).

Juntos, esses colegas me ensinaram muito. E eis outra razão pela qual me sinto agora obrigado a tentar expor o que aprendi. Fiz isso de modo informal, subjetivo e completamente idiossincrático: meus professores não têm a menor responsabilidade em relação a este livro, a não ser a de me encorajar a seguir caminhos fora de seu controle. Por buscar padrões de tempo, espaço e escala, sentime livre para eliminar tais restrições para fins comparativos e até mesmo comunicativos: vez por outra, Santo Agostinho e Maquiavel conversarão, assim como Clausewitz e Tolstói — este é, por sua vez, o “imaginador” mais providencial que encontrei; a lista inclui Virgílio, Shakespeare e F. Scott Fitzgerald. Por fim, retomei com frequência às ideias de sir Isaiah Berlin, que conheci de passagem ao visitar a Universidade de Oxford em 1992-1993. Acho que ele gostaria de ser considerado um grande estrategista (sem dúvida, acharia divertido).

Quando comecei a escrever este livro, meu agente, Andrew Wylie, e meu editor, Scott Moyers, depositavam mais confiança no projeto que eu. Trabalhar de novo com eles foi um prazer, assim como, mais uma vez, contar com a eficiência de toda a equipe da Penguin: Ann Godoff, Christopher Richards, Mia Council, Matthew Boyd, Bruce Giffords, Deborah Weiss Geline e Juliana Kiyan.

Meu agradecimento especial aos alunos de graduação da Yale que participaram de meu seminário “Raposas e porcos-espinhos” no outono de 2017 e testaram com obstinação cada capítulo deste livro: Morgan Aguiar-Lucander, Patrick Binder, Robert Brinkmann, Alessandro Buratti, Diego Fernandez-Pages, Robert Henderson, Scott Hicks, Jack Hilder, Henry Iseman, India June, Declan Kunkel, Ben Mallet, Alexander Petrillo, Marshall Rankin, Nicholas Religa, Grant Richardson, Carter Scott, Sara Seymour, David Shimer e Jared Smith. Também contei com a ajuda dos competentes alunos de graduação e meus assistentes na pesquisa: Cooper d’Agostino, Matthew Lloyd- Thomas, David McCullough III, Campbell Schnebly-Swanson e Nathaniel Zelinsky.

Richard Levin e Peter Salovey, presidentes da Universidade Yale, apoiaram com veemência e desde o início nosso curso sobre grande estratégia — assim como Ted Wittenstein, assistente especial dos dois e um de nossos primeiros alunos. Diretores-adjuntos do International Security Studies e do Programa Brady-Johnson nos mantiveram na linha — Will Hitchcock, Ted Bromund, Minh Luong (já falecido), Jeffrey Mankoff, Ryan Irwin, Amanda Behm, Jeremy Friedman, Christopher Miller, Evan Wilson e Ian Johnson —, bem como a equipe da Hillhouse 31: Liz Vastakis, Kathleen Galo, Mike Skonieczny e Igor Biryukov. Minha mulher, Toni Dorfman, professora, acadêmica, mentora, atriz, dramaturga, diretora de teatro e óperas barrocas, crítica do manuscrito e editora, chef, terapeuta noturna e o amor da minha vida há vinte anos (!), me mantém em forma de todas as maneiras.

A dedicatória presta homenagem aos dois grandes mecenas de nosso programa e a um sábio facilitador. A visão, a generosidade e os bons conselhos deles — não se esqueçam de que “ensinamos senso comum” — foram nossa bússola, nossa âncora e a embarcação em que navegamos.

JLG
New Haven, Connecticut

1

ATRAVESSANDO O ESTREITO DE HELESPONTO

A data é 480 a.C., e o local é Abídos, cidade situada no lado asiático do estreito de Helesponto (atual Dardanelos), onde ele se reduz a cerca de 1,5 quilômetro. A cena é digna da Hollywood dos áureos tempos. Xerxes, rei dos reis da Pérsia, sobe ao trono num promontório do qual avista os exércitos reunidos com mais de 1,5 milhão de homens, segundo nos conta o historiador Heródoto. Ainda que fosse apenas um décimo desse número, como é mais provável, já chegaria perto do tamanho das forças de Eísenhower no Dia D, em 1944. Hoje não há mais ponte no estreito, mas na ocasião Xerxes tinha duas: uma apoiada em 360 embarcações amarradas umas às outras e a outra apoiada em 314 — ambas curvas, para melhor se adaptarem aos ventos e às correntes. Tempos antes, durante uma tempestade, a antiga ponte havia desabado. Furioso, o rei ordenara a decapitação dos construtores e que as águas fossem açoitadas e marcadas. Ë possível que existam até hoje, em algum lugar no fundo das águas, as correntes de ferro atiradas pelo mandatário.

Nesse dia, contudo, as águas estão calmas, e Xerxes parece contente — até se debulhar em lágrimas. Artabano, seu tio e conselheiro, pergunta o motivo. “Eis todos estes milhares de homens”, responde o rei, “e nenhum estará vivo daqui a cem anos”. Artabano consola seu soberano mencionando todas as calamidades capazes de tornar a vida intolerável e a morte um alívio. Xerxes concorda, mas pede: “Conte-me a verdade”. Será que Artabano teria sido favorável a uma segunda invasão persa à Grécia em pouco mais de uma década, se ambos não tivessem tido o mesmo pesadelo assustador? É a vez de Artabano estremecer: “Ainda estou morrendo de medo”.

Xerxes tivera duas vezes o mesmo pesadelo após Artabano dissuadi-lo a não vingar a humilhação infringida pelos gregos a Dario, pai de Xerxes, na Batalha de Maratona, dez anos antes. Como se antecipasse Hamlet — dois milênios antes —, uma visão, régia na aparência e paternal na atitude, lhe dera um ultimato: “Se não começares a guerra de imediato, […] da mesma forma que te criei para seres grande e poderoso, com igual rapidez serás humilde”. A princípio Artabano zombou do sonho, e Xerxes ordenou ao tio que trocasse de roupa e dormisse na cama real. O espectro reapareceu, aterrorizando Artabano a tal ponto que ele acordou aos berros e, de imediato, aconselhou a invasão. Xerxes, então, convocou a grande força reunida em Sardes, sacrificou mil novilhos nas ruínas de Troía, chegou ao Helesponto, encontrou prontas as pontes e preparava-se para a travessia quando deu ao tio a última chance de verbalizar quaisquer possíveis restrições.

A despeito do pesadelo, Artabano não resiste. Os inimigos à frente, adverte, não serão apenas os gregos, lutadores extraordinários, mas também a terra e o mar. A marcha ao redor do Egeu atravessará territórios incapazes de alimentar tão numeroso exército. Não haverá portos suficientes para abrigar embarcações em caso de tormentas. A exaustão e até mesmo a fome podem chegar antes mesmo da primeira batalha. O líder prudente “receia e reflete sobre tudo o que pode lhe acontecer, mas é destemido quando está no centro da ação”. Paciente, Xerxes escuta, mas contesta: “Se formos levar tudo em conta […], nunca faremos nada. Melhor ter um coração valente e vencer metade dos terrores que tememos do que calcular todos os terrores e nada sofrer. Só se conquistam grandes triunfos ao se enfrentarem grandes perigos”.

Assunto resolvido. Xerxes ordena que Artabano retorne e governe o império enquanto ele se dedicará a duplicar sua extensão. Ele ora ao Sol pedindo forças para conquistar não apenas a Grécia, mas toda a Europa. Ramos de murta são espalhados em frente às pontes. Manda os sacerdotes acenderem incensos. E recompensa o estreito de Helesponto jogando em suas águas uma libação, a taça de ouro que a continha, em seguida a tigela de ouro na qual foi preparada e, para finalizar, uma espada. Um ritual a fim de liberar o caminho para a travessia, que dura sete dias e sete noites. Quando Xerxes chega pessoalmente à margem europeia, eles ouvem um espectador atônito perguntar o motivo de Zeus ter se disfarçado de monarca persa e levado consigo “todas as pessoas do mundo”. O deus não poderia, sozinho, ter destruído a Grécia?

I

Dois mil quatrocentos e dezenove anos depois, um diretor de Oxford de 30 anos de idade decide tirar uma folga das tutorias e ír a uma festa. Isaíah Berlin nasceu em Riga, foi criado em São Petersburgo e, aos 8 anos, após ter testemunhado a Revolução Bolchevique, emigrou com a família para a Inglaterra, onde dominou a nova língua num emaranhado de sotaques (de que nunca se desfez) e passou com êxito nas provas de Oxford, tornando-se o primeiro judeu a ganhar uma bolsa de estudos no All Souls College. Em 1939, dava aulas de filosofia no New College, fundado em 1379, desenvolvia verdadeira aversão ao positivismo lógico (nada significa nada sem verificação reproduzível) e gozava bastante a vida.

Comunicador brilhante e sedento de ideias, Berlin aproveitava todas as oportunidades para se exibir e ficar por dentro das novidades. Em uma festa — a data exata é desconhecida — conheceu Julian Edward George Asquith, o segundo duque de Oxford e Asquith, que na época concluía o bacharelado em filologia clássica no Balliol College. Lorde Oxford havia se deparado com um intrigante verso do poeta grego antigo Arquíloco de Paros. O verso, como Berlin recorda, era o seguinte: “A raposa sabe muitas coisas; o porco-espinho sabe uma só, mas muito importante”.

A passagem sobrevive apenas como fragmento; o contexto há tempos se perdeu. O humanista Erasmo de Roterdã, no entanto, brincou com a ideia, e Berlin acabou seguindo seu exemplo. Poderia ser transformado em método para a classificação de grandes escritores? Nesse caso, Platão, Dante, Dostoiévslti, Nietzsche e Proust teriam todos sido porcos-espinhos. Aristóteles, Shakespeare, Goethe, Púchltin e Joyce, raposas, é óbvio. Assim como Berlin, que desconfiava da maioria das coisas importantes — como o positivismo lógico —, mas se sentia totalmente à vontade com as menos importantes. Absorto na Segunda Guerra Mundial, Berlin não voltou aos personagens quadrúpedes até 1951, quando deles se serviu para compor um ensaio sobre a história da filosofia em Tolstói: “O porco-espinho e a raposa”, publicado dois anos mais tarde em seu livro Estudos sobre a humanidade.

Porcos-espinhos, explicou Berlin, “relacionam tudo a um ponto de vista central”, a partir do qual “tudo que dizem e fazem tem significado”. As raposas, por sua vez, “perseguem muitos fins, em geral desconexos e até contraditórios, ligados, se tanto, por uma forma prática”. A distinção era simples, mas não frívola: oferecia “um ponto de vista a partir do qual observar e comparar, um ponto de partida para a investigação genuína”. Podia até refletir “uma das mais profundas diferenças que dividem escritores e pensadores e, quem sabe, seres humanos em geral”.

Apesar de ter acendido essa chama, Berlin cometeu o erro de iluminar pouco além de Tolstói. O grande homem desejara ser um porco-espinho, declarou Berlin. Guerra e paz deveria revelar as leis que permitem o funcionamento da história. Tolstói, no entanto, era sincero demais para negligenciar as idiossincrasias e as casualidades que desafiam tais generalizações. Assim, incluiu em sua obra-prima alguns dos textos mais “raposa” de toda a literatura, hipnotizando seus leitores, que, de bom grado, pularam as ruminações da história “porco-espinho” espalhadas pelo texto. Dilacerado por contradições, Tolstói encontrou a morte, concluiu Berlin, “velho e desesperado, fora do alcance do socorro humano, vagando meio cego [como Édipo] em Colono”.

Em termos biográficos, era simples demais. Tolstói morreu numa estação de trem sombria na Rússia em 1910, aos 82 anos de idade, depois de ter abandonado casa e família. É improvável que tenha tomado tal atitude, contudo, lamentando os fios soltos deixados décadas antes em Guerra e paz. Também não fica claro o fato de Berlin evocar Édipo por algum propósito mais profundo, a não ser terminar seu ensaio com floreio dramático. Talvez dramático demais, por sugerir diferenças irreconciliáveis entre raposas e porcos-espinhos. É preciso ser um ou outro, parecia afirmar Berlin. Impossível ser ambos ao mesmo tempo e feliz. Ou eficiente. Ou mesmo completo.

Berlin ficou, portanto, surpreso — e satisfeito — quando suas criaturas viralízaram, bem antes da existência da internet. Referências se espalharam pela imprensa. Sem mais explicações, desenhos animados surgiram? Em salas de universidades, professores passaram a indagar aos alunos: “X” (qualquer figura histórica ou literária) era uma raposa ou um porco-espinho?”. Alunos começaram a perguntar aos professores: “É melhor (neste ou naquele momento) ser porco-espinho ou raposa?”. Em certo ponto, tanto professores quanto alunos se questionavam: “Onde, dentro dessa polaridade, devo me encaixar?”. Ou: “Posso ficar nesse lugar?”. E por fim: “Quem eu sou, afinal de contas?”.

Graças a uma festa em Oxford, a um fragmento de texto de Arquíloco e ao romance épico de Tolstói, Berlin havia conhecido duas das melhores formas de se tomar intelectualmente indelével. A primeira: apresentar-se deifico, truque conhecido por oráculos ao longo do tempo. A segunda: mostrar-se esopiano — transforme suas ideias em animais e elas alcançarão a imortalidade.

II

Heródoto, que viveu de 480 a 420 a.C., talvez tivesse ouvido falar das raposas e dos porcos-espinhos de Arquíloco (c. 680-645 a.C.). Ele cita o poeta em outro contexto; portanto, é capaz de ter lido o poema — se é que ainda existia — em que os animais apareceram pela primeira vez. Mesmo que não o conhecesse, é difícil ler a descrição de Heródoto acerca de Artabano e Xerxes no Helesponto sem perceber no conselheiro uma raposa inquieta e no monarca um porco-espinho contumaz.

Artabano enfatiza os custos — em gasto de energia, consumo de suprimentos, comunicações comprometidas, moral baixa, enfim, tudo o que pode dar errado — de transportar qualquer exército numeroso por qualquer extensão de terra ou água. O êxito exige levar em consideração todos esses pontos. Seria difícil para Xerxes entender que “o deus atinge com o raio” apenas os que se empenham em grandes feitos, enquanto os pequenos “não lhe despertam o desejo de agir”? Destrua as pontes, disperse os exércitos e mande todos de volta para casa, insiste Artabano, onde o pior a esperar são mais pesadelos.

Xerxes, que chora os mortos com cem anos de antecedência, tem visão mais ampla e de longo alcance. Se o preço da vida é a morte, por que não pagar um valor menor para tomar a vida memorável? Por que ser um rei dos reis caído no esquecimento? Domado o Helesponto, ele quase não consegue parar. As pontes devem conduzir a algum lugar. Militares de destaque levam o que for preciso para garantir que nada dê errado — e, se der, que não faça grande diferença. “É o deus quem nos guia e, portanto, quando nos debruçamos sobre nossas diversas empreitadas, prosperamos.” Artabano respeita a natureza, ciente de que a geografia pode ajudar ou atrapalhar um exército, de que frotas nunca controlam por completo os mares em que navegam e de que a previsão do tempo está além da capacidade de qualquer mortal. Comandantes devem reconhecer onde podem agir e o que aceitar, confiando em sua perícia apenas quando as circunstâncias assim permitirem. Xerxes, em contrapartida, remodela a natureza. Ele transforma água em terra (ou quase isso), ao construir pontes no Helesponto. Converte terra firme em líquido, ao escavar um canal na península de Atos — por “pura arrogância”, nos conta Heródoto — para evitar que seus navios precisem contorná-la. O rei não se preocupa com o que encontrará, pois é capaz de derrotar o que quer que apareça em seu caminho. E confia apenas na mão divina, que lhe conferiu tamanho poder.

Com sua visão limitada, Artabano descortina no horizonte imediato a complexidade como inimiga, enquanto o sagaz Xerxes vê um horizonte distante, no qual ambições são oportunidades: a simplicidade é o farol a iluminar o caminho. Artabano muda de ideia com frequência. Suas idas e vindas, como as da Odisseia, têm por objetivo o retomo à casa. Xerxes, ao atravessar o Helesponto, toma-se Aquiles. Só terá casa nas narrativas, contadas no futuro, a respeito de suas façanhas.

Essa raposa e esse porco-espinho, portanto, não têm qualquer ponto em comum. Uma vez ignoradas suas advertências, Artabano ruma para o leste afastando-se de Abidos e de Heródoto, que não mais o menciona. Xerxes ruma para o oeste, levando com ele seus exércitos, sua frota e seu historiador, bem como todos os subsequentes cronistas da invasão persa. O Helesponto, divisa entre continentes, passou também a separar as duas maneiras de pensar previstas por Arquíloco, que ficariam famosas graças a Berlin e que uma obra de sociologia no fim do século XX definiria de modo ainda mais incisivo.

III

Numa tentativa de determinar as raízes da precisão e da imprecisão dos prognósticos, entre 1988 e 2003 o psicólogo e cientista social americano Philip E. Tetlock e seus assistentes recolheram, com 284 “especialistas”, 27.451 previsões sobre acontecimentos políticos mundiais, em universidades, instituições governamentais e internacionais, grupos de reflexão, fundações e mídia. Repleto de tabelas, gráficos e equações, Expert Political Judgement [Capacidade de juízo de especialistas políticos], livro de Tetlock publicado em 2005, apresenta os resultados do mais abrangente estudo realizado sobre o assunto, explicando a razão de algumas pessoas acertarem as previsões para o futuro e outras não.

“Não importou muito quem eram os especialistas — histórico profissional, posição social, cargo etc.”, conclui Tetlock. “Tampouco importou o que pensavam os especialistas — liberais ou conservadores, monarquistas ou institucionalistas, otimistas ou pessimistas.” O que fez a diferença foi “como pensavam, o tipo de raciocínio”. A variável crítica acabou sendo a autoidentificação como “raposa” ou “porco-espinho”, quando mostradas as definições de Berlin desses termos. Os resultados foram inequívocos: raposas eram bem mais eficientes nas previsões que porcos-espinhos, cujo desempenho se equiparou ao de um chipanzé atirando dardos (possivelmente por simulação de computador).

Abismado com o resultado, Tetlock pesquisou as características diferenciadoras de raposas e porcos-espinhos. Para os prognósticos, as raposas confiavam numa intuitiva “costura de diversas fontes de informações”, não em deduções resultantes de “grandes métodos”. Desconfiavam de “que o nebuloso assunto da política” pudesse ser “objeto de uma ciência sistemática”. As melhores raposas “compartilham de um estilo de pensamento autodepreciativo” que não “poupa qualquer pensamento de crítica”. Tendiam, porém, a ser discursivas em excesso — justificando em demasia suas alegações —, a fim de prender a atenção da plateia. Raramente voltaram a ser convidadas por apresentadores de programas de entrevistas. Estrategistas políticos andavam muito ocupados para ouvi-las.

Os porcos-espinhos de Tetlock, por sua vez, evitavam a autodepreciação e deixavam de lado as críticas. Apresentavam com agressividade explicações importantes, demonstrando “impaciência aguda” com quem “demorava a compreender”. Quando as lacunas intelectuais criadas por eles se aprofundavam, cavavam ainda mais. Tomaram-se “escravos de seus pressupostos”, aprisionados em círculos de autoelogio. Embora as frases surtissem efeito, apresentavam pouca relação com os fatos ocorridos em seguida.

Tudo isso sugeriu a Tetlock “a teoria do juízo correto”: “Pensadores autocríticos são mais hábeis em descobrir as contraditórias dinâmicas das situações em evolução, mais circunspectos quanto à habilidade de prever, mais rigorosos em reconhecer os próprios erros, menos propensos a racionalizar os erros, mais predispostos a atualizar suas convicções no momento oportuno e — como resultado dessas vantagens —mais bem preparados para apor probabilidades realistas na rodada seguinte de eventos”. Em resumo, as raposas se saem melhor.

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