Livro ‘O Diário de Anne Frank’ por Anne Frank

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O diário de Anne Frank, o depoimento da pequena Anne, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona leitores no mundo inteiro. Suas anotações narram os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto. Uma poderosa lembrança dos horrores de uma guerra, um testemunho eloquente do espírito humano. Assim podemos descrever os relatos feitos por Anne em seu diário. Isolados do mundo exterior, os Frank enfrentaram a fome, o tédio e a terrível realidade do confinamento, além da ameaça constante de serem descobertos. Nas páginas de seu diário, Anne Frank registra...
Capa comum: 352 páginas  Editora: Record; Edição: 82 (29 de setembro de 1995)  ISBN-10: 8501044458  ISBN-13: 978-8501044457  ASIN: B00S1Q15QS

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Annelies Marie Frank (1929-1945) foi uma adolescente alemã de origem judaica. Nascida na cidade de Frankfurt, ela viveu grande parte de sua vida em Amsterdã, onde acabaria se tornando vítima do holocausto. É uma das figuras mais discutidas do século XX após a publicação de seu diário, encontrado no sótão onde a menina morou com a família em seus últimos anos de vida. Lançado em 1947, O diário de Anne Frank tornou-se um dos livros mais lidos do mundo.

Leia trecho do livro

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank

O diário de Anne Frank

Segunda Edição

Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta. Mas pergunto-me: escreverei alguma vez alguma coisa de importância? Virei a ser jornalista ou escritora? Espero que sim, espero de todo o meu coração! Ao escrever consigo esclarecer tudo, os meus pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias.

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Anne Frank

Prefácio

O holocausto, talvez a obra-prima da estupidez humana, ceifou cerca de 6 milhões de vidas. Chega a ser surreal que uma dessas vidas perdidas seja uma garota de 15 anos de idade predestinada a oferecer ao mundo uma pequena amostra do que foi a realidade vivida pelas vítimas da tragédia nazista.

Digo pequena em termos relativos, porque o impacto causado pela história contada por Anne Frank é imensurável. O “Diário de uma jovem menina”, — este é o título da edição original — tornou-se um clássico da literatura, traduzido para mais de 70 idiomas e lido por mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo.

Seu valor transcende os aspectos literários. Trata de um documento histórico de grande valia para a humanidade. Uma prisão de grades invisíveis, na qual uma menina passa dois anos de sua vida com mais sete pessoas. Anne Frank sublimou nas páginas de um diário a tentativa de entender a triste realidade da guerra; e também a si própria, como ser humano em desenvolvimento numa conjuntura de altíssimo risco.

O Diário de uma jovem é um livro que, sem dúvida, merece ser lido.

Boa leitura!

Sumário

INTRODUÇÃO
Sobre a autora
Sobre o livro
Fotos O DIÁRIO DE ANNE FRANK
Domingo, 14 de junho de 1942
Segunda-feira, 15 de junho de 1942
Sábado, 20 de junho de 1942
Sábado, 20 de junho de 1942
Domingo, 21 de junho de 1942
Quarta-feira, 24 de junho de 1942
Terça-feira, 3o de junho de 1942
Sexta-feira, 3 de julho de 1942
Manhã de domingo, 5 de julho de 1942
Quarta-feira, 8 de julho de 1942
Quinta-feira, 9 de julho de 1942
Sexta-feira, 10 de julho de 1942.
Sábado, 11 de julho de 1942
Sexta-feira, 14 de agosto de 1942
Sexta-feira, 21 de agosto de 1942
Quarta-feira, 2 de setembro de 1942
Segunda-feira, 21 de setembro de 1942
Sexta-feira, 25 de setembro de 1942
Domingo, 27 de setembro de 1942
Segunda-feira, 28 de setembro de 1942
Terça-feira, 29 de setembro de 1942
Quinta-feira, 1 de outubro de 1942
Sábado, 3 de outubro de 1942
Sexta-feira, 9 de outubro de 1942
Sexta-feira, 16 de outubro de 1942 até Terça-feira, 1º de agosto de 1944

Introdução

Sobre a autora

Annelisse Maria Frank, ou Anne Frank, foi uma adolescente alemã de origem judaica que se tornou mundialmente conhecida por ter escrito um diário, posteriormente transformado em livro. Em princípio seria apenas um diário como o de milhares de adolescentes, mas neste caso específico tratava-se de um relato direto do período de 25 meses em que ficou escondida para não ser capturada pelos nazistas.

Anne Frank nasceu a 12 de junho de 1929, na cidade alemã de Frankfurt am Main, lugar onde a família do seu pai já vivia por várias gerações. A crise econômica, a ascensão de Hitler ao poder e o crescimento do antissemitismo põem fim à vida tranquila da família. Otto Frank e a sua mulher Edith decidem, como vários outros judeus, deixar a Alemanha levando suas filhas Anne e sua irmã Margo, três anos e meio mais velha que ela.

A família consegue se estabelecer em Amsterdam mas em io de maio de 194o, as tropas alemãs invadem a Holanda que se rende em 5 dias. A situação se torna cada vez mais difícil para os Judeus e a família, que resolve se esconder em um anexo da empresa.

Pouco antes de ir para o esconderijo, Anne recebe um diário de presente de aniversário. Ela começa a escrever imediatamente e, durante o tempo em que passa escondida, escreve sobre os acontecimentos no Anexo Secreto bem como sobre si mesma. O seu diário serve como um amigo e apoio psicológico para ela, mas antes que consiga terminar, ela e as outras pessoas do esconderijo são presas e levadas para campos de concentração.

Anne Frank morreu na cidade de Bergen-Belsen (Alemanha) em 12 de março de 1945, aos 15 anos de idade e de sua família, apenas o pai Otto Frank sobreviveu ao campo de concentração.

Sobre o livro

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank
Capa da Primeira edição.

O diário que deu origem ao livro foi encontrado no esconderijo após a prisão da família e guardado, juntamente com outros cadernos de texto, por uma funcionária da empresa de Otto Frank chamada Miep Gies

Após a sua libertação, ao receber o diário e relembrar todos os momentos de isolamento e tensão vividos pela família, seu pai se emociona e conhece o impacto da situação sob a ótica de sua filha adolescente. “Para mim foi uma revelação… Eu não tinha ideia da profundidade de seus pensamentos e sentimentos… Ela tinha guardado todos esses sentimentos para si mesma”. Disse Otto Frank

Anne escreveu no seu diário que queria tornar-se escritora ou jornalista e que gostaria de ver o seu diário publicado como um romance. Por ocasião da prisão ela já estava revisando os seus escritos pensando na publicação de um livro.

Amigos de Otto Frank o convenceram da grande expressividade do diário e no dia 25 de junho de 1947 os escritos de sua filha são publicados com o título “Het achterhuis” ou “O anexo secreto” numa edição de 3.000 exemplares.

Seguem-se a esta, muitas outras edições, traduções, uma peça de teatro e um filme e a história de Anne Frank e sua família se torna conhecida em todo o mundo. O livro de Anne Frank já vendeu mais de 3o milhões de cópias. Foi publicado em mais de 6o países e está -traduzido em mais de 70 idiomas.

Fotos

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank
Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank

Família Frank que permaneceu escondida por 25 meses.

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank

Foto de Anne Frank e textos extraídos de seu diário

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank

Foto da fachada no local onde a família ficou escondida

Livro 'O diário de Anne Frank' por Anne Frank

Vista da aérea do local do esconderijo na parte posterior do prédio.

'O diário de Anne Frank' - Anne Frank escreveu um diário entre 12 de junho de 1942 e1º de agosto de 1944. A princípio, guardava-o para si mesma.Até que, certo dia de 1944, Gerrit Bolkestein, membro do governoholandês no exílio... Livros online, Baixar PDF, Download,  Anne Frank, Resenha, Resumo, Análise e Critica...

Entrada secreta do esconderijo, protegida por um armário

O DIÁRIO DE ANNE FRANK

Domingo, 14 de junho de 1942

Na sexta-feira, 12 de junho, acordei às seis horas. Pudera! Era dia do meu aniversário. É claro que eu não tinha permissão para levantar àquela hora, e por isso tive de refrear a minha curiosidade até as quinze para as sete. Aí então não aguentei mais e corri até a sala de jantar, onde recebi as mais calorosas saudações de Moortie (a gata).
Logo depois das sete fui dar bom-dia à mamãe e ao papai, e, depois, corri à sala de estar para desembrulhar meus presentes. O primeiro que me saudou foi você, possivelmente o melhor de todos. Sobre a mesa havia também um ramo de rosas, uma planta e algumas petúnias; durante o dia chegaram outros.
Ganhei uma porção de coisas de mamãe e papai e fui devidamente presenteada por vários amigos. Entre outras coisas, deram-me um jogo de salão chamado Câmara Escura, muitos doces, chocolates, um quebra-cabeça, um broche, os Contos e lendas dos Países Baixos, de Joseph Cohen, Daisy e suas férias nas montanhas (um livro espetacular) e algum dinheiro. Agora posso comprar Os mitos da Grécia e Roma —que legal! Lies veio então apanhar-me para irmos à escola. No recreio, distribuí biscoitinhos doces para todo mundo, e então tivemos de voltar às aulas.
Agora tenho que parar. Até logo. Acho que seremos grandes amigas.

Segunda-feira, 15 de junho de 1942

Minha festa de aniversário foi no domingo de tarde. Passamos um filme de Rin-Tin-Tin. Meus amigos e eu adoramos. Divertimo-nos a valer. Vieram muitos meninos e meninas. Mamãe está sempre querendo saber com quem vou me casar. Nem de longe suspeita que é com Peter Wessel; um dia — sem corar nem pestanejar — consegui tirar definitivamente essa ideia da cabeça dela. Durante anos, Lies Goosens e Sanne Houtman foram minhas melhores amigas. Mas depois conheci Jopie de Waal, na Escola Secundária Israelita. Passamos a andar juntas, e ela é, agora, minha melhor amiga. Lies fez amizade com outra menina e Sane frequenta outra escola onde conquistou novos amigos.

Sábado, 20 de junho de 1942

Faz alguns dias que não escrevo porque eu quis, antes de tudo, pensar neste diário.
É estranho uma pessoa corno eu manter um diário; não apenas por falta de hábito, mas porque me parece que ninguém — nem eu mesma — poderia interessar-se pelos desabafos de uma garota de treze anos. Mas que importa? Quero escrever e, mais do que isso, quero trazer à tona tudo o que está enterrado bem fundo no meu coração.
Há um ditado que diz: “O papel é mais paciente que o homem”. Lembrei-me dele em um de meus dias de ligeira melancolia, quando estava sentada, com a mão no queixo e tão entediada e cheia de preguiça que não conseguia decidir se saía ou ficava em casa. Sim, não há dúvida de que o papel é paciente, e como não tenho a menor intenção de mostrar a ninguém este caderno de capa dura que atende pelo pomposo nome de diário — a não ser que encontre um amigo ou amiga verdadeiros —, posso escrever à vontade. Chego agora ao cerne da questão, motivo pelo qual resolvi começar este diário: não possuo nenhum amigo realmente verdadeiro.
Vou explicar isso melhor, pois ninguém há de acreditar que uma menina de treze anos se sinta sozinha no mundo. Aliás, nem é esse o caso. Tenho meus pais, que são uns amores, e uma irmã de dezesseis anos. Conheço mais de trinta pessoas a quem poderia chamar de amigas — e tenho uma porção de pretendentes doidos para me namorar e que, não o podendo fazer, ficam me espiando, na classe, por meio de espelhinhos. Tenho parentes, tios e tias, que também são uns amores, além de um lar agradável. Aparentemente, nada me falta. Mas acontece sempre o mesmo com todos os meus amigos: gracejos, brincadeiras, nada mais. Jamais consigo falar de algo que não seja a rotina de sempre. O problema é que não conseguimos nos aproximar uns dos outros. Talvez me falte autoconfiança; seja como for, o fato é esse, e não sei como mudá-lo.
Daí, este diário. A fim de incrustar na minha imaginação a figura da amiga por quem esperei tanto tempo, não vou anotar aqui uma série de fatos corriqueiros, como faz a maioria.
Quero que este diário seja minha amiga e vou chamar esta amiga de Kitty. Mas se eu começasse a escrever a Kitty, assim sem mais nem menos, ninguém entenderia nada. Por isso, mesmo contra minha vontade, vou começar fazendo um breve resumo do que foi minha vida até agora.
Meu pai tinha trinta e seis anos quando conheceu minha mãe, que na ocasião contava vinte e cinco. Margot, minha irmã, nasceu em 1926, em Frankfurt. A 12 de junho de 1929, nasci eu, e, como somos judeus, emigramos para a Holanda em 1933, onde meu pai foi designado para o cargo de diretor-gerente da Travies N. V. Esta firma mantém estreitas relações com outra firma, a Kolen & Co., que funciona no mesmo edifício e da qual meu pai é sócio.
O resto de nossa família, no entanto, sofreu todo o impacto das leis antissemitas de Hitler, enchendo nossa vida de angústias. Em 1938, depois dos pogroms, meus dois tios (irmãos de minha mãe) fugiram para os Estados Unidos.
Minha avó, já contando setenta e três anos, veio morar conosco. Depois de maio de 1940, os bons tempos se acabaram. Primeiro a guerra, depois a capitulação, seguida da chegada dos alemães. Foi então que, realmente, principiaram os sofrimentos dos judeus. Decretos antissemitas surgiam, uns após outros, em rápida sucessão. Os judeus tinham de entregar suas bicicletas; os judeus não podiam andar de bonde; não podiam dirigir automóveis. Só lhes era permitido fazer compras das três às cinco e, mesmo assim, apenas em lojas que tivessem uma placa com os dizeres: loja israelita. Os judeus eram obrigados a se recolher a suas casas às oito da noite, e, depois dessa hora, não podiam sequer sentar-se em seus próprios jardins. Os judeus não podiam frequentar teatros, cinemas e outros locais de diversão. Os judeus não podiam praticar esportes publicamente. Piscinas, quadras de tênis, campos de hóquei e outros locais para a prática de esportes eram-lhes terminantemente proibidos. Os judeus não podiam visitar os cristãos. Só podiam frequentar escolas judias, sofrendo ainda uma série de restrições semelhantes.
Assim, não podíamos fazer isto e estávamos terminantemente proibidos de fazer aquilo. Mas a vida continuava, apesar de tudo, Jopie costumava dizer: — A gente tem medo de fazer qualquer coisa porque pode estar proibido. — Nossa liberdade era terrivelmente limitada, mas ainda assim as coisas eram suportáveis.
Vovó morreu em janeiro de 1942. Ninguém consegue imaginar o quanto ela está presente em meus pensamentos e o quanto eu ainda gosto dela.
Em 1934 fui para a escola, o Jardim de Infância Montessori, e lá continuei. Ao terminar o 6°B, tive de despedir-me da Sra.
K. Foi uma tristeza! Ambas choramos. Em 1941, fui com Margot, minha irmã, para a Escola Secundária Israelita. Ela, para o quarto ano, eu, para o primeiro.
Por enquanto, tudo vai bem para nós quatro, e, assim, chegamos ao dia de hoje.

Sábado, 20 de junho de 1942

Querida Kitty

Vou principiar já. Tudo está tranquilo neste momento. Mamãe e papai saíram, e Margot foi jogar pingue-pongue com alguns amigos.
Eu também tenho jogado um bocado de pingue-pongue, ultimamente. Nós, jogadores de pingue-pongue, adoramos sorvete, principalmente no verão, quando sentimos mais calor por causa do jogo. Assim, quase sempre, ao final do jogo, vamos todos para a sorveteria mais próxima — a Delphi ou a Oásis —, onde são permitidos judeus. A Oásis geralmente está cheia, e em nosso imenso círculo de amigos sempre há algum cavalheiro generoso ou namorado que nos oferece uma quantidade de sorvete muito maior do que a que conseguiríamos devorar em uma semana.
Você deve estar admirada por eu estar falando de namorados, na minha idade. Mas, o que é que eu posso fazer? Ninguém pode evitar isso na minha escola. Sempre que um menino pede para vir comigo para casa, de bicicleta, e começamos a conversar, uma em cada dez vezes é certo que ele se vai apaixonar loucamente e não vai mais me perder de vista. É claro que depois de algum tempo isso esfria, ainda mais que não dou muita bola para seus olhares ardentes, e vou em frente, pedalando despreocupadamente.
Se as coisas vão longe demais e eles falam em ir lá em casa “falar com papai”, dou uma guinada na bicicleta, deixo minha mala cair, e quando o garoto estaca, para apanhá-la, já tratei de mudar de assunto. Esses são os tipos mais inocentes; há outros que atiram beijos ou tentam segurar-nos pelo braço; nesse caso, estão definitivamente batendo na porta errada.
Salto da bicicleta e recuso-me a seguir em sua companhia, e, fingindo-me insultada, digo-lhes claramente que não me interessam.
Pronto, os alicerces de nossa amizade foram criados. Até amanhã.
Sua Arme.

Domingo, 21 de junho de 1942

Querida Kitty

A turma B1 está tremendo, e o motivo é que brevemente vai haver uma reunião de professores. Estamos a conjecturar sobre quem vai passar de ano e quem vai repetir. Miep de Jong e eu divertimo-nos à beça só de ver Winn e Jacques, os dois garotos que se sentam atrás de nós. Acho que não vai lhes sobrar um tostão para as férias, de tanto que apostam. É “Você vai passar”, “Não vou”, “Vai”, o dia inteiro. Nem mesmo os pedidos de Miep para se calarem nem minhas explosões de broncas surtem efeito.
Na minha opinião, um quarto da classe devia ficar onde está.
Não há dúvida de que existem uns malandrões de marca maior, mas os professores são também um bocado venais, e só espero que desta vez sejam justos, só para variar.
Por meus amigos e por mim, não tenho medo. Havemos de passar nem que seja raspando, embora eu não confie muito na minha matemática. Enfim, só nos resta esperar com paciência. Enquanto isso, procuramos nos animar uns aos outros. Dou-me bem com todos os meus professores, nove ao todo, sete homens e duas mulheres. O Sr. Keptor, o velho professor de matemática, ficou aborrecido comigo um bocado de tempo, por eu falar demais. Tive de fazer uma redação cujo título era “A tagarela”. Imagine, a tagarela! O que é que eu podia escrever? De qualquer forma, anotei em minha agenda e tratei de ficar bem quieta.
Naquela noite, ao terminar meus deveres de casa, meu olhar caiu sobre o tal título escrito na agenda. Fiquei pensando, enquanto mordiscava o cabo da caneta-tinteiro, que qualquer um pode rabiscar algumas tolices, com letra bem grande e espaçada, mas a dificuldade era provar, acima de tudo, a necessidade que se tem de falar. Pensei e pensei, e então, subitamente, tive uma inspiração. Ao terminar as três páginas pedidas, dei-me por satisfeita. Meu argumento foi o de que falar muito é uma característica tipicamente feminina e que eu faria o possível para controlar-me, mas jamais ficaria completamente curada. Visto que minha mãe falava ainda mais do que eu, como podia eu lutar contra as leis da hereditariedade? O Sr. Keptor acabou rindo dos meus argumentos, mas como eu continuasse a falar, passou-me um novo trabalho. Desta vez o título era “A incurável tagarela”. Entreguei a redação, e o Sr. Keptor não teve queixas durante uma ou duas aulas. Mas na terceira, contudo, irritado, não se conteve:
— Como castigo por falar demais, Anne vai fazer uma composição intitulada Quac, quac, quac, fala dona Pata. — A turma toda caiu na gargalhada e eu também ri, se bem que minhas invencionices, nesse assunto, já estivessem esgotadas. Precisava pensar numa coisa nova e original. Por sorte, minha amiga Sanne tem jeito para escrever poesia e se ofereceu para me ajudar, fazendo toda a composição em verso. Exultei de alegria. Keptor quis fazer-me de tola com aquele tema ridículo, mas eu ia fazer o feitiço virar contra o feiticeiro e fazer com que toda a turma risse dele. Terminamos o poema, e ele ficou perfeito. Era a história de uma pata mãe e de um cisne pai que tiveram três patinhos. Os patinhos acabaram sendo mortos a bicadas pelo pai por grasnarem demais.
Felizmente Keptor entendeu a brincadeira, leu o poema em voz alta, com comentários, para a turma toda e para várias outras turmas. Desde então, eu falo e não recebo broncas ou dever adicional. Keptor chega mesmo a gracejar a meu respeito.
Sua Arme.

Quarta-feira, 24 de junho de 1942

Querida Kitty

O calor está terrível, e estamos positivamente derretendo, mas mesmo assim, temos que ir a pé a todos os lugares. Só agora vejo como era gostoso andar de bonde, mas esse é um luxo proibido aos judeus. Temos mesmo é que andar a pé. Ontem, à hora do almoço, fui ao dentista, na Jan Luykenstraat. É bem longe, da escola à Stadstinunertuinen. Durante a tarde, na aula, quase adormeci. Felizmente a assistente do dentista foi muito gentil e me deu um copo de água — ela é uma pessoa muito amigável.
Aos judeus só é permitido andar de barca. Há um pequeno barco que sai de Josef Israelskade, e o homem nos levou assim que lhe pedimos. Não é por culpa do povo holandês que estamos passando todos esses vexames.
Eu bem que gostaria de não precisar ir à escola, pois minha bicicleta foi roubada durante os feriados da Páscoa, e papai entregou a de mamãe, por segurança, a uma família cristã. Graças a Deus as férias estão chegando. Mais uma semana e termina esta agonia. Ontem aconteceu uma coisa engraçada.
Eu ia passando pelo estacionamento das bicicletas quando ouvi alguém me chamar. Voltei-me e dei com o rapaz bonito que conhecera na tarde anterior, em casa de minha amiga Eva. Aproximou-se, um tanto acanhado, e apresentou-se como Harry Goldberg. Eu estava realmente surpresa, pensando no que ele poderia querer comigo. Não tive que esperar muito. Perguntou-me se poderia acompanhar-me até a escola. — Já que você vai para aquele lado… — respondi, e fomos andando. Harry tem dezesseis anos e uma conversa divertida. Hoje de manhã estava de novo à minha espera e adio que daqui para diante vamos nos encontrar sempre. Sua Arme.

Terça-feira, 30 de junho de 1942

Querida Kitty

Até hoje, não tive um minuto de folga para escrever a você. Passei o dia de quinta-feira com amigos. Sexta, tivemos visitas, e assim tem sido até hoje. Harry e eu ficamos nos conhecendo melhor esta semana, e ele contou-me muita coisa sobre sua vida. Veio sozinho para a Holanda e mora com os avós. Os pais estão na Bélgica.
Harry tinha uma namorada chamada Fanny. Eu a conheço. É uma criatura sem sal nem pimenta. Depois de me conhecer, Harry está percebendo que, ao lado de Fanny, não fazia mais do que sonhar de olhos abertos. Quanto a mim, parece que lhe sirvo de estimulante mantendo-o bem acordado. Veja você como cada pessoa tem sua utilidade e que estranhas utilidades temos às vezes!
Jopie dormiu aqui, sábado à noite, mas no domingo foi para a casa de Lies, e eu fiquei aqui a me aborrecer tremendamente. Harry devia aparecer à noite, mas às seis da tarde telefonou. Quando atendi, ele disse:
— Aqui fala Harry Goldberg. Por favor, gostaria de falar com Anne.
— Sim, Harry. E Anne quem fala.
— Alô, Anne, como vai?
— Muito bem, obrigada.
— Sinto muito, não posso aparecer aí hoje à noite, mas gostaria de falar com você. Posso ir aí por uns dez minutos?
— Claro. Estou esperando.
Até logo. — Até logo. Vou para aí agora mesmo.
Desligou o telefone.
Depressa, mudei de vestido e dei um jeitinho no cabelo. Fui então esperá-lo à janela, um tanto nervosa. Afinal, avistei-o. Não sei como não disparei escada abaixo Em vez disso, esperei com paciência que ele tocasse a campainha e só então desci. Ele irrompeu porta adentro assim que atendi.
— Anne, minha avó acha que você é ainda muito criança para estar saindo sempre comigo e que eu devia ir à casa dos Leurs, mas não sei se você soube que não estou mais saindo com Fanny.
— Não, por quê? Vocês brigaram? — Não, nada disso. Eu apenas disse a Fanny que já não estávamos nos entendendo bem e que talvez fosse melhor terminar o namoro, mas que ela sempre seria bem-vinda em nossa casa e que eu esperava também ser bem recebido na casa dela.
Sabe, eu pensei que Fanny estivesse saindo com outro rapaz e a tratei à altura. Mas não era verdade. Agora, meu tio acha que eu devo pedir desculpas a Fanny, mas eu não quero fazer isso. Resolvi, portanto, terminar tudo. Enfim, essa foi apenas uma das muitas razões. Minha avó prefere que eu namore Fanny a você, mas eu não quero. Esses velhos têm ideias antiquadas e eu não estou a fim de seguir o que eles dizem. E verdade que necessito de meus avós, mas, de certa forma, eles também precisam de mim. De hoje em diante, estarei livre às quartas-feiras à noite.
Oficialmente vou às aulas de xilogravura, para agradar a meus avós. Na realidade, frequento as reuniões do Movimento Sionista. Meus avós são contra os sionistas e não admitiriam que eu fosse. Estou longe de ser um fanático, mas sinto certa inclinação e acho aquilo interessante. De qualquer forma, vou deixar o movimento, pois, ultimamente, a confusão lá vem aumentando muito. Quarta-feira vai ser o meu último dia. Daí em diante poderei ver você quarta de noite, sábado de tarde, domingo de tarde e talvez até mais.
— Mas, se seus avós são contra nossos encontros, você não deveria fazer isso escondido!
— O amor encontra meios.
Quando passamos pela livraria da esquina, vi Peter Wessel com mais dois amigos.
Ele disse: “Alô”. E a primeira palavra que ele dirige a mim, há muito tempo, e eu fiquei bem satisfeita.
Harry e eu andamos bastante, e, finalmente, ficou decidido que eu o encontraria às cinco para as sete, em frente à casa dele, na noite seguinte.
Sua Anne.


Sexta-feira, 3 de julho de 1942

Querida Kitty

Harry veio visitar-nos, ontem, para conhecer meus pais. Eu havia comprado um bolo recheado de creme, biscoitos, docinhos e mais uma porção de coisas gostosas para o chá. Mas nem Harry nem eu achamos legal permanecer ali na sala, formais, um ao lado do outro. Fomos dar um passeio, e, ao trazer-me de volta, já passavam dez minutos das oito horas. Papai ficou muito zangado e achou que eu tinha feito muito mal, pois é perigoso para os judeus serem encontrados fora de caça depois das oito. Prometi-lhe que dali por diante estaria sempre em casa até às dez para as oito.
Fui convidada para ir à casa dele, amanhã. Minha amiga Jopie vive mexendo comigo por causa de Harry. Não que eu esteja apaixonada por ele, isso não! Posso ter muitos flertes
— Ninguém acha nada demais nisso —, mas um namorado firme, como diz mamãe, isso é coisa diferente.
Harry foi à casa de Eva uma noite dessas e ela me contou que lhe perguntou:
De quem você gosta mais, de Anne ou de Fanny?
Ele respondeu: — Não é da sua conta.
Mas quando foi embora (eles não haviam mais conversado durante o resto da noite) disse a Eva: — Olhe, é de Anne. Até logo e não conte nada a ninguém. — E partiu, como um raio.
E fácil perceber que Harry está apaixonado por mim, e isso é divertido, para variar. Margot diria: — Harry é um rapaz direito. — Concordo, mas acho que ele é mais do que isso. Mamãe não poupa elogios: um rapaz bonito, um rapaz bem-educado, um rapaz simpático. Ainda bem que toda a família o aprova. Ele também gosta de todos, mas considera as minhas amigas muito criançolas. No que tem toda a razão.
Sua Anne.

Manhã de domingo, 5 de julho de 1942

Querida Kitty

Os resultados dos nossos exames foram anunciados no Teatro Israelita, na sexta-feira passada. Eu não poderia ter desejado coisa melhor. Meu boletim não foi nada mau. Tive um vix satis, um 5 em álgebra, dois 6, e o resto, tudo 7 ou 8. Em casa todos ficaram muito contentes, embora, em questão de notas, meus pais sejam diferentes da maioria. Não se importam muito com as notas do meu boletim, desde que me vejam feliz, satisfeita e não muito desinteressada do estudo. Acham que o resto vem com o tempo. Eu penso exatamente o contrário. Não quero ser má aluna.
Realmente eu deveria estar cursando o sétimo ano da Escola Montessori, mas fui aceita na Escola Secundária Israelita. Quando todas as crianças judias tiveram de ir para escolas israelitas, o diretor aceitou-nos, Lies e eu, condicionalmente, e após um pouco de persuasão. Confiou em nós e não quero desapontá-lo. Margot, minha irmã, também recebeu o boletim, brilhante, como sempre. Passaria com louvor, se isso existisse em nossa escola, tão inteligente ela é. Papai, ultimamente, está sempre em casa, pois não tem o que fazer no escritório; deve ser horrível a pessoa se sentir ocioso e desnecessário.
O Sr. Koophuis tomou conta da Travies e o Sr. Kraler da firma Kolen & Co. Há dias, quando caminhávamos pela pracinha, papai falou pela primeira vez em nos escondermos. Perguntei-lhe por que falava nisso. — Bem, Anne — respondeu ele —, você sabe que há mais de um ano estamos transportando víveres, roupas e mobília para a casa dos outros; não queremos que os alemães nos apreendam os haveres e muito menos que deitem as garras sobre nós. O melhor será desaparecermos por nossa própria conta, em vez de esperar que venham nos buscar. —
Mas, papai, quando será isso?
Ele falara tão seriamente que me deixou angustiada.
— Não se preocupe, arranjaremos tudo. Aproveite bem sua vida despreocupada enquanto puder.
Foi tudo. Oh! Que a realização destas palavras tão sombrias esteja muito distante ainda! Sua Arme.

Quarta-feira, 8 de julho de 1942

Querida Kitty

Parece que se passaram anos de domingo até hoje. Tanta coisa aconteceu, que é como se o mundo tivesse virado de cabeça para baixo. Mas ainda estou viva, Kitty, e isso é o que importa, diz papai.
Sim, na verdade ainda estou viva, mas não me pergunte onde nem como. Você não entenderia uma só palavra, por isso vou começar contando o que aconteceu no domingo à tarde.
Às três horas (Harry acabara de sair para voltar mais tarde) alguém tocou a campainha. Eu estava preguiçosamente deitada ao sol na varanda, lendo um livro, e por isso não ouvi. Pouco depois Margot apareceu na porta da cozinha, toda alvoroçada. — As SS mandaram uma notificação chamando papai — sussurrou ela.
— Mamãe já foi falar com o Sr. Van Daan. — (Van Daan é um amigo que trabalha na firma de papai.) Foi um choque para mim. Uma convocação! Todo mundo sabe o que isso significa! Pela minha imaginação começaram a levar para os campos de concentração, prisões. Permitiríamos que ele fosse condenado a isso? — É claro que ele não vai — disse Margot enquanto esperávamos juntas. — Mamãe já foi falar com os Van Daan para resolver se devemos ir para o esconderijo amanhã mesmo.
Os Van Daan vão conosco, seremos sete ao todo.

Silêncio. Não conseguíamos trocar uma palavra, pensando em papai, que estava visitando uns velhinhos no Joodse e nada sabia do que estava acontecendo. Enquanto esperávamos por mamãe, com aquele calor e naquela ansiedade, ficamos cada vez mais caladas e assustadas.
Subitamente a campainha tocou. — É Harry — disse eu. Margot segurou-me, recomendando-me que não abrisse a porta, mas isso nem foi necessário, pois ouvimos mamãe e o Sr. Van Daan conversando com Harry lá embaixo. Pouco depois entraram, trancando a porta. A cada toque de campainha Margot e eu nos esgueirávamos até a porta espiando com cuidado para ver se era papai. Não devíamos abrir a porta para ninguém mais.
Mamãe pediu que Margot e eu saíssemos da sala, pois o Sr. Van Daan precisava lhe falar a sós. Sozinhas no quarto, Margot contou-me que a convocação não fora para papai, mas para ela. Fiquei mais assustada ainda e pus-me a chorar. Margot tem dezesseis anos. Será que eles levavam meninas dessa idade, sozinhas? Graças a Deus ela não vai. Mamãe mesma afirmou isso. Talvez papai se referisse a isso, quando falou em nos escondermos.
Esconder — para onde iríamos? Para a cidade, para o campo, para uma casa ou um chalé?
Mas quando, como e onde? Eu sabia que não podia formular essas perguntas, mas, por outro lado, não conseguia tirá-las da cabeça. Margot e eu começamos a guardar nossas coisas mais importantes nas pastas da escola. A primeira que guardei foi este diário, depois os rolinhos de cabelo, lenços, os livros da escola, um pente, velhas cartas. Guardei as coisas mais incríveis, ao pensar que íamos nos esconder. Não me arrependo; recordações valem muito mais do que vestidos.
Papai chegou finalmente às cinco horas, e telefonamos ao Sr. Koophuís para saber se podíamos ir lá à noite. Van Daan foi apanhar Miep. Miep trabalha com papai desde 1933, e tornou-se nossa amiga íntima, tanto quanto Henk, com quem se casou há pouco tempo. Miep chegou e enfiou em sua sacola alguns sapatos, vestidos, casacos, roupas de baixo e meias, prometendo voltar à noite.
Um silêncio fúnebre recaiu em nosso lar. Ninguém quis comer nada, o calor continuava intenso, e tudo se tornou estranho. Alugávamos o quarto grande, de cima, a um tal Sr. Goudsmit, homem divorciado, de seus trinta anos. Logo naquela noite ele parecia não ter mais nada a fazer, e ficou conosco até as dez horas sem que pudéssemos livrar-nos dele, a não ser que cometêssemos alguma indelicadeza.
As onze, Míep e Henk van Santen voltaram. Novamente, meias, sapatos, livros e roupas de baixo desapareceram na bolsa de Míep e nos enormes bolsos de Henk, até que, por volta de onze e mela, eles próprios desapareceram. Eu estava exausta e, a despeito de saber que aquela seria a última noite que dormiria em minha própria cama, peguei no sono imediatamente, só acordando na manhã seguinte, às cinco e meia, quando mamãe me chamou. Felizmente, o calor não estava tão intenso como no domingo; uma chuva morna e constante caiu o dia inteiro.
Vestimos montes de roupas, como se fôssemos viajar para o polo norte, com a única intenção de levá-las conosco. Nenhum judeu em nossa situação sonharia sequer em sair à rua carregando uma mala com roupas. Eu vestia duas camisetas, três calcinhas, um vestido e, sobre ele, uma saia, uma jaqueta, um casaco de verão, dois pares de mela, sapatos de amarrar, um capuz de lã, um cachecol e mais algumas coisas. Estava quase sufocando antes de sair, como todos. Mas ninguém se importou com isso.
Margot encheu a sacola com livros da escola, foi apanhar a bicicleta e saiu atrás de Míep para o desconhecido — pelo menos eu nem imaginava para onde. Imagine que eu ainda não sabia onde seria o nosso esconderijo. As sete e meia fechamos a porta atrás de nós. Moortie, minha gatinha, foi a única criatura de quem me despedi. Ela ficaria com os vizinhos e seria bem tratada. Isso ficara escrito em uma carta dirigida ao Sr. Goudsmit.
Havia meio quilo de carne na cozinha para a gata, a mesa do café ainda estava posta com as xícaras e pratos usados, as camas desfeitas, tudo dando a impressão de uma partida não planejada. Mas naquele momento não estávamos preocupados com impressões, só pensávamos em sair, fugir dali e chegar em segurança, nada mais. Continuo amanhã. Sua Anne.

Quinta-feira, 9 de julho de 1942

Querida Kitty

Saímos debaixo de uma chuva torrencial, papai, mamãe e eu, cada qual com uma pasta de escola e uma sacola de compras abarrotada até a boca de tudo o que pudemos colocar lá dentro.
As pessoas que iam para o trabalho olhavam-nos com simpatia. Podia-se notar em seus rostos o quanto sentiam por não poderem oferecer-nos condução, mas ali estava a berrante estrela amarela que falava por si mesma.
Só depois de já estarmos a caminho é que mamãe e papai começaram a me dizer alguma coisa do plano. Há meses que, na medida do possível, vínhamos mudando nossos bens, mantimentos e objetos de maior necessidade, e as coisas estavam suficientemente preparadas para que fôssemos nos esconder por nossa própria conta, no dia 16 de julho. O plano tivera de ser antecipado dez dias por causa da convocação, e, desse modo, nossas acomodações não estariam muito bem organizadas, mas teríamos de nos acomodar da melhor forma possível.
O esconderijo seria no mesmo edificio onde papai tinha seu escritório. É uma coisa dificil de entender, porém mais tarde explicarei. Papai não tinha muita gente trabalhando com ele: o Sr. Kraler, Koophuis, Miep e Elli Vossen, uma datilógrafa de vinte e três anos. Todos sabiam de nossa chegada. O Sr. Vossen, pai de Elli, e os dois rapazes que trabalhavam no depósito não haviam sido informados.
Vou descrever o prédio: no andar térreo há um imenso armazém que é usado como depósito.
A porta da frente da casa fica ao lado da porta do armazém. Do lado de dentro da porta principal há um corredorzinho que leva a uma escada. No topo da escada há outra porta de vidro fosco onde está escrito ESCRITÓRIO com letras pretas. Esse é o escritório principal, grande, bem iluminado e espaçoso. Elli, Miep e o Sr. Koophuis trabalham ali durante o dia.
Um pequenoquarto escuro contendo o cofre, um guarda-roupa e um armário grande conduz a um segundo escritório, um tanto escuro também. Aqui costumam ficar o Sr. Kraler e o Sr. Van Daan; agora, somente o Sr. Kraler. Por um corredor pode-se chegar ao escritório do Sr. Kraler, mas é preciso atravessar uma porta de vidro que se abre por dentro, sendo muito dificil abri-la pelo lado externo.
Do escritório de Kraler, por um corredor comprido, passa-se pelo depósito de carvão e, subindo quatro degraus, chega-se ao salão de luxo do prédio, que é o escritório particular. Mobffia escura e austera, linóleo e tapetes no chão, rádio, lustre de bom gosto, tudo de primeira. Ao lado, uma cozinha espaçosa com água quente e fogão a gás. A seguir o WC. Este é o primeiro andar.
Uma escada de madeira liga o corredor de baixo com o andar superior. Em cima há um pequeno patamar e, de cada extremidade deste, sai uma porta. A da esquerda dá para um depósito de carvão, na parte da frente da casa, e para os sótãos. Uma dessas escadas holandesas muito íngremes sai de um lado e dá para outra porta, que se abre para a rua.
A porta da direita dá para o nosso Anexo Secreto. Ninguém poderia imaginar que existissem tantos quartos por detrás daquela porta feia e cinzenta. Diante dela há um pequeno degrau. Depois dele, uma escada íngreme. À esquerda, um pequeno corredor conduz ao que iria converter-se no quarto e sala da família Frank; ao lado, um quartinho menor seria o quarto de estudos e de dormir das duas mocinhas da família. À direita, um quarto minúsculo, sem janelas, com um pequeno lavatório e um compartimento de WC; dali saía outra porta que dava acesso ao meu quarto e de Margot. Se você subir a próxima escada e abrir a porta lá em cima, vai ficar espantada de ver, nesta velha casa ao lado do canal, um quarto tão amplo e claro. Nesse quarto há um fogão a gás e uma pia (o quarto havia sido utilizado como laboratório). Agora, esta é a cozinha do casal Van Daan, além de ser a sala de estar, de jantar e a copa de todos nós.
O apartamento de Peter Van Daan será um minúsculo quarto corredor. Junto ao patamar do segundo andar existe também uma mansarda. Bem, agora você já foi apresentada ao nosso lindo Anexo Secreto.
Sua Anne.

Sexta-feira, 10 de julho de 1942.

Querida Kitty

Espero não a ter aborrecido com minhas minuciosas descrições da nossa nova casa, mas achei bom você saber onde viemos parar.
Mas, continuando a história — lembra-se, eu ainda não havia terminado —, ao chegarmos a Prinsengracht, Miep nos levou rapidamente para o nosso Anexo Secreto e, fechando a porta atrás de nós, deixou-nos sozinhos. Margot já se encontrava lá, pois viera muito mais depressa, de bicicleta. A sala de estar e todos os outros cômodos estavam incrivelmente atulhados. Todas as caixas de papelão que haviam sido mandadas para o escritório, meses antes, estavam amontoadas no assoalho e sobre as camas. O quarto menor estava entupido até o teto com roupa de cama. Era preciso começar a arrumação imediatamente, se quiséssemos dormir em camas decentes naquela noite. Mamãe e Margot não estavam em condições de mover uma palha; atiraram-se sobre as camas por fazer, exaustas, sentindo-se infelizes e não sei mais o quê. Mas os dois faxineiros da família, papai e eu, pusemos mãos à obra imediatamente.
Passamos o dia inteiro a desfazer caixas e arrumar armários, martelando e limpando até cairmos de cansaço. Não comemos nada quente o dia todo, mas nem ligamos. Mamãe e Margot não comeram por estarem cansadas e nervosas demais, e papai e eu por estarmos muito ocupados.
Terça-feira continuamos o trabalho interrompido na véspera. Elli e Miep foram buscar nossas rações, papai melhorou o deficiente sistema de proteção da casa; esfregamos o chão da cozinha e assim continuamos trabalhando o dia todo.
Até quarta-feira não tive um pingo de tempo para pensar na imensa mudança ocorrida em minha vida. Só agora arranjei alguns minutos para contar a você tudo o que aconteceu e, ao mesmo tempo, situar-me dentro dos acontecimentos passados e dos que ainda estão por vir.
Sua Anne.

Sábado, 11 de julho de 1942.

Querida Kitty

Mamãe, papai e Margot não conseguem se acostumar com o relógio de Westertoren, que marca as horas a cada quinze minutos. Eu já me acostumei. Aliás, gostei muito dele desde o primeiro dia. Ao anoitecer, então, parece um amigo fiel. Imagino que você vai querer saber como se sente uma pessoa que “desaparece”. Pois confesso que eu também ainda não sei. Penso que neste lugar nunca vou me sentir realmente em casa, o que não significa, contudo, que eu o deteste. Sinto como se estivesse em férias, morando em uma pensão esquisita.
Talvez seja uma comparação meio doida, mas é assim que eu sinto. O Anexo Secreto é o esconderijo ideal. Embora seja meio inclinado para um lado e um tanto úmido, tenho certeza de que não existe esconderijo melhor em toda Amsterdam e, talvez, em toda a Holanda. Nosso quarto, a princípio, parecia muito nu, sem nada nas paredes, mas graças a papai, que havia mandado antecipadamente minha coleção de cartões-postais e de retratos de artistas de cinema, com o auxilio de cola e de um pincel, transformamos as paredes num quadro imenso. Assim ficou muito mais alegre. Assim que os Van Daan chegarem, apanharemos madeira do sótão e faremos alguns armários para as paredes e outras coisinhas para tornar o ambiente mais acolhedor.
Margot e mamãe estão agora um pouco melhor. Ontem mamãe foi para a cozinha pela primeira vez, desde que chegamos. Foi fazer uma sopa, mas acabou se distraindo, conversando lá embaixo, e se esqueceu completamente das ervilhas, que se queimaram, viraram carvão, não havendo quem as desgrudasse da panela.
O Sr. Koophuis trouxe-me um livro chamado Anuário dos jovens. Ontem, nós quatro fomos ao escritório particular e ligamos o rádio. Mas eu fiquei tão apavorada que implorei a papai que subisse comigo. Mamãe, compreendendo o que eu sentia, subiu também. Tememos, também, que os vizinhos ouçam ou suspeitem de qualquer coisa anormal. Logo no primeiro dia improvisamos umas cortinas, se é que se pode chamar aquilo de cortinas. Não passam de retalhos de fazendas, cada qual de um tamanho, qualidade e padrão, que papai e eu costuramos “daquele jeito”. As nossas obras de arte foram finalmente afixadas em seus lugares por meio de alfinetes de gancho, e acho que lá vão permanecer até que possamos sair daqui.
À nossa direita há alguns edificios comerciais grandes e à esquerda, uma fábrica de móveis. Ninguém fica lá depois das horas de trabalho, mas, mesmo assim, os sons conseguem atravessar as paredes. Margot foi proibida de tossir à noite, apesar de estar com um resfriado fortíssimo. Por isso nós a obrigamos a tomar fortes doses de codeína. Estou louca para que chegue terça-feira, quando os Van Daan virão se juntar a nós. Vai ser muito mais divertido e menos silencioso. O silêncio é o que mais me assusta às tardes e à noite. Gostaria demais que um dos nossos protetores pudesse dormir aqui. Não lhe posso descrever como é opressivo não poder sair nunca. Vivo também morta de medo de sermos descobertos e fuzilados. Não é uma perspectiva das mais agradáveis. Temos de falar baixinho e pisar de leve durante o dia para que o pessoal do depósito não nos ouça.
Alguém está me chamando.
Sua Anne.

Sexta-feira, 14 de agosto de 1942

Querida Kitty

Abandonei-a durante o mês inteiro, mas, francamente, as novidades são tão poucas por aqui, que não encontro nada interessante ou divertido para contar a você. Os Van Daan chegaram no dia 13 de julho. Pensávamos que chegariam no dia 14, mas de 13 a i6 os alemães andaram fazendo convocações a esmo, criando enorme desassossego. Assim, por segurança, resolveram vir mais cedo. Melhor um dia antes, e a tempo, do que um dia depois tardiamente. Às nove e meia da manhã (ainda estávamos tornando café) chegou Peter, o filho dos Van Daan. Ele não tem ainda dezesseis anos; é um rapazinho molenga, tímido e desajeitado. Penso que não se pode esperar muito dele como companhia. Trouxe consigo o gato (Mouschi). O Sr. e a Sra. Van Daan chegaram meia hora depois, e, para divertimento geral, ela trouxe um penico enorme em sua caixa de chapéus. — Não me sinto à vontade em lugar algum sem o meu próprio vaso — declarou ela. Seu primeiro cuidado foi, portanto, encontrar um jazigo perpétuo para ele, debaixo de seu sofá. O Sr. Van Daan não trouxe o seu, mas veio carregando uma mesinha de chá dobrável, debaixo do braço.
Desde o dia em que chegaram, passamos a fazer as refeições juntos, sem a menor cerimônia, e, três dias depois, já parecíamos uma só enorme família. Naturalmente, os Van Daan nos trouxeram um bocado de notícias sobre a semana extra que passaram no mundo dos vivos. Entre outras coisas, estávamos curiosos em saber o que havia acontecido em nossa casa e com o Sr. Goudsmit. O Sr. Van Daan contou-nos o seguinte:
— O Sr. Goudsmit telefonou às nove da manhã, na segunda-feira, perguntando se eu podia dar uma chegada até lá. Fui imediatamente e o encontrei em um estado de enorme agitação. Deu-me a ler uma carta que os Frank haviam deixado e queria levar a gata para a casa de um vizinho, o que me agradou. O Sr. Goudsmit temia que fossem dar busca na casa e, por isso, percorremos todos os quartos, pondo um pouco de ordem e tirando a mesa do café. De repente descobri sobre a escrivaninha do Sr. Frank um bloco no qual estava escrito um endereço de Maastricht. Embora eu soubesse que tinha sido deixado de propósito, fingi enorme surpresa e pedi ao Sr. Goudsmit que rasgasse aquele malfadado papel imediatamente.
Continuei fingindo que nada sabia acerca do desaparecimento de vocês, mas, depois do papelzinho, tive uma ideia luminosa. “Sr. Goudsmit”, disse eu, “de repente percebi a que se refere aquele papel. Há uns seis meses, mais ou menos, esteve no escritório um oficial de alta patente que parecia muito amigo do Sr. Frank e que se ofereceu para ajudá-lo em caso de necessidade. Estava sediado em Maastricht. Creio que foi fiel à sua palavra e que arranjou alguma maneira de mandá-los para a Bélgica ou para a Suíça. Talvez seja conveniente eu dizer isso aos amigos que perguntarem por eles, sem, é claro, mencionar a palavra Maastricht…” Com estas palavras, deixei a casa. Muitos de seus amigos já sabem do sucedido, visto que a história já me foi contada por vários deles.
Divertimo-nos a valer com a história e rimos ainda mais quando o Sr. Van Daan nos contou como a imaginação das pessoas é capaz de deturpar os fatos reais. Uma familia, por exemplo, nos vira passar de bicicleta, muito cedo, enquanto uma senhora afirmara, com toda a segurança, que um carro militar nos viera apanhar bem tarde da noite.

Sua Anne. Sexta-feira, 21 de agosto de 1942

Querida Kitty

A entrada do nosso esconderijo já foi devidamente disfarçada. O Sr. Kraler achou melhor colocar uma estante de livros diante da nossa porta (porque muitas casas estão sendo revistadas em busca de bicicletas escondidas). É claro que a estante tem que ser removível, para que possa ser aberta, como uma porta. O Sr. Vossen foi quem construiu o móvel, sozinho. Desde que ele compartilhou nosso segredo, não sabe o que fazer para nos ajudar. Agora, se quisermos descer, teremos primeiro que nos agachar e depois dar um pulo, porque o degrau foi retirado. Nos primeiros dias fomos todos premiados com alguns galos na cabeça de tanto bater no batente da porta. Finalmente resolvemos pregar ali um pano cheio de serragem. Vamos ver se assim melhora.
No momento, não estou estudando muito; concedi-me férias até setembro. Papai vai darme aulas, então. É impressionante o número de coisas que já esqueci. Nossa vida, aqui, pouco tem mudado. O Sr. Van Daan e eu estamos sempre a nos irritar mutuamente. Com Margot acontece justamente o contrário, pois ele gosta muito dela. Mamãe me trata, às vezes, como se eu fosse um bebê, coisa que não suporto. Afora isso, as coisas vão indo. Não consigo gostar de Peter, ele é tão chato! Passa a maior parte do tempo deitado preguiçosamente na cama; faz, então, algum trabalho de carpintaria e logo volta a cochilar mais um pouco. Que camarada bobo!
O tempo está lindo, e, a despeito de tudo, estamos aproveitando o mais que podemos, estiradas em uma espreguiçadeira, lá na mansarda, enquanto o sol entra pela janela aberta.
Sua Anne.

Quarta-feira, 2 de setembro de 1942

Querida Kitty

O Sr. e a Sra. Van Daan tiveram uma briga terrível. Nunca vi coisa igual em minha vida. Mamãe e papai jamais sonhariam em gritar daquela maneira um com o outro. E o motivo foi tão banal que tudo acabou não passando de um desperdício de fôlego. Enfim, cada um como Deus o fez.
Naturalmente foi muito desagradável para Peter, que não pôde tomar partido e teve de ficar olhando. Ninguém o leva a sério. É cheio de fricotes e muito preguiçoso. Ontem, ficou todo nervoso ao descobrir que sua língua estava azul em vez de vermelha; esse estranho fenômeno da natureza desapareceu tão rapidamente como chegou. Hoje apareceu com um cachecol enrolado no pescoço; pois está com torcicolo. Além disso, “Sua Excelência” queixa-se de lumbago. Não é raro, também, queixar-se de dores no coração, rins e pulmões. Penso que ele é hipocondríaco (não é esse o nome que se dá a essa gente?).
Entre mamãe e a Sra. Van Daan as coisas estão começando a ficar feias também, e há motivos para isso. Basta dizer, por exemplo, que a Sra. Van Daan retirou do armário comum de roupa da casa seus três lençóis. Acha muito natural que os lençóis de mamãe sirvam para todos nós. Vai ter uma surpresa daquelas quando descobrir que mamãe seguiu seu bom exemplo. Também não se conforma de ver que seu aparelho de louça está sendo usado, e não o nosso. Está sempre xeretando a fim de descobrir onde guardamos nossos pratos. Eles estão muito mais próximos do que ela pensa, guardados em uma caixa, na mansarda, atrás de uma porção de bugigangas.
Felizmente, enquanto estivermos aqui, será impossível chegar até eles. Sempre fui muito estabanada e ontem quebrei em pedacinhos um dos pratos de sopa da Sra. Van Daan. Ela ficou furiosa e gritou: — Será que não podia ter mais cuidado? É o último que tenho! — O Sr. Van Daan anda uma seda comigo. Tomara que dure. Mamãe passou-me outro sermão terrível hoje de manhã; não aguento mais. Nossas ideias são absolutamente opostas. Papai é um amor, apesar de ficar zangado comigo por cinco minutos seguidos.
Durante a semana passada, algo veio quebrar a monotonia da nossa vida: um livro sobre mulheres, e Peter.
Antes de mais nada, devo dizer que Margot e Peter têm licença de ler quase todos os livros que o Sr. Koophuis nos traz, mas justamente esse livro, interditado pelos adultos, era sobre mulheres. A curiosidade de Peter despertou imediatamente. O que será que havia naquele livro que eles não podiam ler? Um dia, enquanto a mãe conversava lá embaixo, ele pegou o livro sorrateiramente e esgueirou-se para o sótão com sua presa. A mãe sabia muito bem que ele estava lendo o livro, mas não disse nada, até que o pai descobriu. Van Daan ficou uma fera, tomou o livro e pensou que o assunto estivesse encerrado. Mas ele não contava com a curiosidade do filho que, em vez de esmorecer, tornou-se a ainda mais aguçada em face da atitude do pai. Decidido a chegar ao fim, Peter ficava imaginando meios de lançar mão daquele livro tão fascinante. A Sra. Van Daan perguntou a mamãe o que ela achava da proibição. Mamãe respondeu que, na sua opinião, o tal livro não convinha a Margot, mas não achava nada de mais em que ela lesse a maioria dos outros livros.
— Há uma enorme diferença entre Margot e Peter —disse mamãe. — Em primeiro lugar, ela é menina, e as meninas tornam-se adultas bem mais cedo que os meninos; em segundo, Margot já leu muitos livros sérios e não anda em busca de coisas que lhe são proibidas; em terceiro, Margot é muito mais adiantada e inteligente, fato comprovado pelo fato de ela estar no quarto ano da escola.
A Sra. Van Daan concordou, mas continuou a achar errado, em princípio, que crianças lessem os livros escritos para adultos.
Nesse meio tempo Peter descobriu que havia uma determinada hora do dia em que ninguém se preocupava com ele nem com o livro: era às sete e meia da noite, quando todos se reuniam no escritório particular para ouvir rádio. Foi o horário escolhido para levar novamente o livro para a mansarda. Devia ter descido às oito e meia, mas o livro provavelmente estava tão empolgante que ele perdeu a hora. Voltou ao quarto no mesmo instante em que seu pai retornava, Você bem pode imaginar as consequências. Com um tapa e um empurrão o livro foi atirado na mesa e Peter mandado para a mansarda.
As coisas estavam nesse pé quando nos sentamos à mesa. Peter dormiria sem jantar como castigo, e ninguém parecia importar-se com ele. Procuramos comer conversando e fingindo estar alegres quando, subitamente, ouvimos um assobio estridente. Paramos de comer, pálidos, olhando uns para os outros, com as fisionomias transtornadas. Ouvimos então a voz de Peter, que chegava pela chaminé: —Eu não ia descer mesmo, ouviram? — O Sr. Van Daan põs-se de pé num salto, deixou cair o guardanapo, ficou vermelho e berrou: — Pare com isso! — Papai segurou-lhe o braço, temendo o que lhe pudesse acontecer. Ambos dirigiram-se para a mansarda. Após grande resistência e bate-pé, Peter foi para seu quarto, onde ficou de porta fechada enquanto continuávamos a comer.
A Sra. Van Daan quis guardar uma fatia de pão para o pobrezinho, mas o pai ficou firme. — Se ele não pedir desculpas imediatamente, dormirá na mansarda.
— Todos nós protestamos, pois achamos que passar sem jantar já era castigo suficiente. Além do mais, Peter podia apanhar um resfriado e não poderíamos chamar um médico.
Peter não pediu desculpas; pois já havia tido seu castigo. O Sr. Van Daan não disse mais nada, mas no dia seguinte notei que a cama de Peter fora usada. Às sete horas Peter retornou à mansarda, mas papai conseguiu persuadi-lo a voltar por meio de algumas palavras amigas. Durante três dias as caras se mantiveram fechadas e os silêncios, obstinados. Depois, tudo voltou ao normal.
Sua Anne.

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