Livro ‘Ikigai’ por Ken Mogi

Livro 'Ikigai' por Ken Mogi
Os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz
Por que existem pessoas que sabem o que querem, enquanto outras definham na confusão? Segundo os japoneses, o segredo é encontrar seu ikigai, conceito que pode ser traduzido como razão para viver. Ter um ikigai claro e definido proporciona a satisfação e o propósito que justificam nossa existência, sendo, para muitos, também a chave da longevidade. Em Ikigai: Os segredos dos japoneses para uma vida longa e feliz, os autores Francesc Miralles e Héctor García vão até Okinawa, a ilha japonesa de população centenária, e reúnem pela primeira vez em livro os hábitos e rotinas que mantém em dia a saúde da mente, do corpo e do espírito daquele povo...
Capa comum: 224 páginas
Editora: Astral Cultural; Edição: 1ª (4 de maio de 2018)
Idioma: Português
ISBN-10: 8582467311
ISBN-13: 978-8582467312
Dimensões do produto: 20,4 x 13,6 x 1,4 cm

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Leia trecho do livro

Livro 'Ikigai' por Ken Mogi

Ikigai é uma palavra japonesa que descreve os prazeres e os sentidos da vida. Para os japoneses, o ikigai é “um motivo para se levantar de manhã”, algo que mantém o entusiasmo e a alegria pela vida. Neste livro, Ken Mogi identifica e traz exemplos reais dos cinco passos para encontrar o ikigai: começar pequeno, libertar-se, buscar harmonia e sustentabilidade, descobrir a alegria das pequenas coisas e estar no aqui e agora. Esses cinco pilares permitem que você tenha prosperidade na vida, principalmente quando combinados aos pequenos detalhes daquilo que você ama e faz de melhor. Assim como a felicidade, o ikigai está dentro de cada ser humano e, ao encontrá-lo, é possível descobrir qual é o propósito e a missão que cada um carrega.

SUMÁRIO

Os cinco passos para o ikigai
1. O que é ikigai
2. Seu motivo para levantar de manhã
3. Kodawari e os benefícios de pensar pequeno
4. A beleza sensorial do ikigai
5. Fluxo e criatividade
6. Ikigai e sustentabilidade
7. Encontrando seu objetivo na vida
8. O que não mata fortalece
9. Ikigai e felicidade
10. Aceite-se como é Encontre seu próprio ikigai

生き甲斐
IKIGAI

RECADO PARA O LEITOR

Os cinco passos para o lkigai

Ao longo deste livro, eu me refiro aos cinco passos para o ikigai. São eles:

Passo 1: Começar pequeno
Passo 2: Libertar-se
Passo 3: Harmonia e sustentabilidade
Passo 4: A alegria das pequenas coisas
Passo 5: Estar no aqui e agora

Esses cinco pilares aparecem com frequência, pois cada um deles oferece o contexto elementar — as próprias bases — que permite que a técnica do ikigai prospere. Eles não são mutuamente excludentes nem precisam ser concomitantes, e também não têm uma ordem particular de hierarquia. Mas são vitais para nossa compreensão do ikigai, e vão proporcionar orientação para que você possa absorver o que vai ler nas próximas páginas e refletir sobre sua própria vida.

生き甲斐

CAPÍTULO I

O que é ikigai

Quando o presidente Barack Obama fez sua visita oficial ao Japão na primavera de 2014, os governantes japoneses precisaram escolher um local para o jantar de boas-vindas oferecido pelo primeiro-ministro do Japão. A ocasião era para ser um evento particular, antecedendo a visita de Estado que só começaria oficialmente no dia seguinte e que incluía um jantar cerimonial no palácio imperial, com o imperador e a imperatriz.

Imagine quanta consideração a escolha desse restaurante envolveu. Quando foi finalmente anunciado que o local seria o Sukiyabashi Jiro, possivelmente um dos restaurantes mais famosos e respeitados de sushi, a decisão foi recebida com aprovação universal. E, realmente, foi perceptível o quanto o próprio presidente Obama apreciou a experiência de jantar lá pelo sorriso em seu rosto quando ele saiu. Supostamente, Obama falou que foi o melhor sushi que já tinha comido. Isso foi um elogio enorme vindo de alguém que passou a infância no Havaí, exposto a uma forte influência japonesa, incluindo sushi, e que, presumivelmente, já tinha tido várias experiências anteriores com haute cuisine.

O restaurante Sukiyabashi Jiro é orgulhosamente comandado por Jiro Ono, que é, enquanto escrevo este livro, o chef com três estrelas Michelin mais velho ainda vivo, com noventa e dois anos. O Sukiyabashi Jiro já era famoso entre os conhecedores da culinária japonesa antes do primeiro Guia Michelin de Tóquio, em 2012, mas a publicação botou definitivamente o restaurante no mapa gourmet mundial.

Embora o sushi produzido por ele venha envolto em uma aura quase mística, a culinária de Ono é baseada em técnicas práticas e versáteis. Por exemplo, ele desenvolveu um procedimento especial para oferecer ovas de salmão (ikura) em condição de frescor ao longo do ano todo. Isso desafiou a antiga sabedoria profissional seguida nos melhores restaurantes de sushi, já que ikura só devia ser servido durante a temporada de auge, o outono, quando o salmão enfrenta os rios para botar ovos. Ele também inventou um procedimento especial no qual um certo tipo de peixe é defumado com palha queimada de arroz para produzir um sabor único.

O momento de colocar os pratos de sushi na frente de clientes que esperam ansiosamente precisa ser calculado com precisão, assim como a temperatura do peixe, para otimizar o sabor do sushi, afinal, supõe-se que o cliente vai colocar a comida na boca sem muita demora.

Na verdade, jantar no Sukiyabashi Jiro é como assistir a um balé exótico, coreografado por trás do balcão por um mestre digno, respeitado e de conduta austera (apesar de o rosto dele se abrir em um sorriso de tempos em tempos se você tiver sorte).

Podemos concluir que o sucesso incrível de Ono aconteceu devido ao talento excepcional, à pura determinação e a uma perseverança firme ao longo de anos de trabalho árduo, assim como à busca implacável de técnicas culinárias e apresentação da maior qualidade.

No entanto, mais do que isso, e talvez acima de tudo, Ono tem ikigai. Não é exagero dizer que ele deve seu sucesso incrivelmente fabuloso nos âmbitos profissional e particular da vida ao aprimoramento desse éthos japonês específico.

Ikigai é uma palavra japonesa que descreve os prazeres e sentidos da vida. A palavra consiste, literalmente, de “iki” (viver) e “gai” (razão).

Na língua japonesa, ikigai é um termo usado em vários contextos, e pode se aplicar a pequenas coisas diárias, assim como a grandes objetivos e conquistas. É uma palavra tão comum que as pessoas a usam no dia a dia de forma bem casual, sem estarem cientes do seu significado especial.

Mais importante, encontrar ikigai é possível sem que você seja necessariamente bem-sucedido na vida profissional. Nesse sentido, é um conceito democrático, impregnado de comemoração à diversidade da vida. É verdade que ter ikigai pode resultar em sucesso, mas sucesso não é uma condição necessária para se ter ikigai. É algo aberto a todos nós.

Para o dono de um restaurante bem-sucedido como Jiro Ono, receber um elogio do presidente dos Estados Unidos é uma fonte de ikigai. Ser reconhecido como o chef com três estrelas da Michelin mais velho do mundo, certamente, conta como um belo elemento de ikigai. No entanto, ikigai não está limitado a esses domínios de reconhecimento e aclamação mundial. Ono pode encontrar ikigai apenas servindo o melhor atum a um cliente sorridente, ou ao sentir o frio refrescante do ar matinal quando acorda e se prepara para ir ao mercado de peixes Tsuldji. Ono pode até encontrar ikigai na xícara de café que toma antes de começar cada dia. Ou em um raio de sol passando pelas folhas de uma árvore enquanto ele anda até o restaurante no centro de Tóquio.

Ono mencionou uma vez que deseja morrer fazendo sushi. É algo que dá a ele uma sensação profunda de ikigai, apesar do fato de exigir muitos pequenos passos que são monótonos e que tomam tempo. Para fazer a carne de polvo ficar macia e saborosa, por exemplo, Ono tem que “massagear” o cefalópode por uma hora. Preparar Kohada, um pequeno peixe cintilante considerado o rei do sushi, também exige muita atenção, pois envolve a remoção das escamas e dos intestinos do peixe e um marinado precisamente balanceado usando sal e vinagre. “Talvez meu último sushi seja Kohada”, disse ele.

Ikigai reside no reino das pequenas coisas. O ar matinal, a xícara de café, o raio de sol, o massagear da carne de polvo e o elogio do presidente norte-americano estão em pé de igualdade. Só aqueles capazes de reconhecer a riqueza desse espectro podem realmente apreciá-la e senti-la. Essa é uma lição importante do ikigai.

Em um mundo onde nosso valor como pessoa e a sensação que temos de valor próprio são determinados primariamente pelo nosso sucesso, muita gente está sob pressão desnecessária. Você pode sentir que qualquer sistema de valor só é válido e justificável se for traduzido em conquistas concretas — uma promoção, por exemplo, ou um investimento lucrativo.

Bem, relaxe! Você pode ter ikigai, um valor pelo qual viver, sem necessariamente ter que se provar assim. Isso não quer dizer que vai ser fácil. As vezes, eu preciso lembrar a mim mesmo dessa verdade, apesar de ter nascido e crescido em um país onde o ikigai é mais ou menos um conhecimento comum.

Em uma conferência TED intitulada “Como viver até mais de cem anos”, o escritor americano Dan Buettner discutiu ikigai especificamente como um éthos para boa saúde e longevidade. Na época da escrita deste livro, a conferência de Buettner tinha sido vista mais de três milhões de vezes. Buettner explica os aspectos dos estilos de vida de cinco lugares no mundo em que as pessoas vivem mais.

Cada “zona azul”, como Buettner chama essas áreas, tem sua própria cultura e suas próprias tradições, que contribuem com a longevidade. As zonas são Okinawa, no Japão; Sardenha, na Itália; Nicoya, na Costa Rica; Icária, na Grécia; e, dentre os adventistas do sétimo dia, Loma Linda, Califórnia. De todas essas zonas azuis, os habitantes de Okinawa têm a maior expectativa de vida.

Okinawa é uma cadeia de ilhas mais ao sul do arquipélago japonês. Ostenta muitos centenários. Buettner cita as palavras dos habitantes como testemunho do que constitui ikigai: um mestre de caratê de cento e dois anos disse que seu ikigai era cuidar de suas artes marciais; um pescador de cem anos disse que o dele podia ser encontrado enquanto ele continuava a pescar peixes para a família três vezes por semana; uma mulher de cento e dois anos disse que o dela era segurar sua pequena tataraneta no colo — ela disse que era como pular no céu. Analisadas em conjunto, essas simples escolhas de estilo de vida dão dicas do que constitui a essência de ikigai: uma noção de comunidade, uma dieta equilibrada e uma percepção de espiritualidade.

Apesar de talvez serem mais óbvios em Okinawa, esses princípios são compartilhados pelo povo do Japão em geral. Afinal, a taxa de longevidade no Japão é extremamente alta em todas as regiões do país.

De acordo com uma pesquisa de 2016 feita pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar, em comparação a outros países e regiões do mundo, a longevidade dos homens japoneses era a quarta do mundo, com uma expectativa de vida média de 80/79 anos, depois de Hong Kong, da Islândia e da Suécia. As mulheres japonesas tinham a segunda maior expectativa de vida do mundo, com uma média de 87,05 anos, depois de Hong Kong e seguidas da Espanha.

É fascinante ver como o ikigai ocorre naturalmente para muitos japoneses. Um estudo-chave sobre os benefícios do ikigai para a saúde publicado em 2008, Sense of Life Worth Living (ikigai) and Mortality in Japan: Ohsaki Study, Sone et al. 2008, foi conduzido por pesquisadores da escola de medicina da Universidade Tohoku, com sede na cidade de Sendai, no norte do Japão. Esse estudo envolveu uma grande quantidade de pessoas, permitindo aos pesquisadores fazerem correlações estatisticamente significativas entre ikigai e vários benefícios para a saúde.

Nesse estudo, os pesquisadores analisaram dados do estudo de grupos do Osaki National Health Insurance (NHI), conduzido ao longo de sete anos. Um questionário autoadministrado foi distribuído a 54.996 beneficiários do Õsaki Public Health Care, uma agência local do governo que oferece serviços de saúde a residentes de catorze municipalidades, com idades entre quarenta e setenta e nove anos.

A pesquisa consistia de um questionário com noventa e três itens, no qual os participantes tinham que responder perguntas sobre históricos médicos antigos e de familiares, condição de saúde física, hábitos de bebida e cigarro, emprego, estado civil, educação e outros fatores relacionados à saúde, inclusive ikigai. A pergunta crucial relacionada a isso foi bem direta: “Você tem ikigai na sua vida?”. Os participantes tiveram que escolher uma dentre três respostas: “sim”, “indeterminado” ou “não”.

Ao analisar os dados de mais de cinquenta mil pessoas, o estudo de Õsaki concluiu que, “em comparação a quem encontrou uma sensação de ikigai, os que não encontraram tinham mais chance de não estarem casados, de não terem emprego, de terem nível educacional mais baixo, de terem saúde ruim ou avaliada como ruim, de terem um alto nível de estresse mental, de terem dores corporais severas ou moderadas, de terem limitações de funções físicas e de não caminhar”.

Usando só esse estudo, é claro que não é possível dizer se ter ikigai levou a melhores casamentos, empregos ou status educacional dos participantes, ou, ao contrário, se foi o acúmulo dos vários pequenos sucessos na vida que levou a uma sensação maior de ikigai. Mas seria razoável dizer que ter sensação de ikigai aponta para um estado emocional em que os participantes sentem que podem construir uma vida feliz e ativa. Ikigai é, de certa forma, um barômetro que reflete a visão de uma pessoa sobre a vida de uma forma integrada e representativa.

Além do mais, a taxa de mortalidade das pessoas que responderam “sim” à pergunta sobre o ikigai foi significativamente menor do que as que responderam “não”. A taxa menor foi resultado de elas terem menos risco de doença cardiovascular. O interessante é que não houve mudança significativa no risco de câncer para as pessoas que responderam “sim” em comparação a quem respondeu “não” à pergunta sobre o ikigai.

Por que as pessoas com ikigai também têm risco reduzido de sofrer de doenças cardiovasculares?

A manutenção da boa saúde envolve um número maior de fatores. É difícil dizer com segurança quais fatores são responsáveis, mas a redução de doenças cardiovasculares sugere que os que têm ikigai têm mais probabilidade de se exercitarem, já que sabemos que o envolvimento em atividades físicas é responsável por reduzir o risco de doenças cardiovasculares.

De fato, o estudo de Õsald descobriu que quem respondeu positivamente sobre ikigai se exercitava mais do que os que deram uma resposta negativa.

Ikigai dá propósito à vida ao mesmo tempo que dá determinação para seguir em frente. Apesar de o Sukiyabashi Jiro ser agora um destino culinário mundialmente famoso frequentado por pessoas como Joël Robuchon, as origens de Jiro Ono são muito humildes. A família dele teve dificuldade de se sustentar e, por necessidade financeira (foi na época anterior à introdução de regulamentação banindo o trabalho infantil no Japão), ele começou a trabalhar em um restaurante à noite quando ainda estava no ensino fundamental. Durante o dia na escola, cansado de trabalhar por muitas horas árduas, ele acabava cochilando na sala de aula. Quando o professor o obrigava a ficar de pé do lado de fora como punição, ele costumava tirar vantagem do descanso das aulas para correr para o restaurante e terminar suas tarefas, ou adiantá-las para reduzir a jornada de trabalho.

Quando Ono abriu seu primeiro restaurante de sushi, que acabaria levando ao Sukiyabashi Jiro, sua intenção não era criar o melhor estabelecimento gastronômico do mundo. Naquela época, era mais barato abrir um restaurante de sushi em comparação a outros tipos de restaurante. Os restaurantes de sushi, em sua forma básica, exigem apenas equipamentos e móveis rudimentares. Isso não surpreende se nós considerarmos que o sushi começou como comida de rua vendida em barracas no período Edo, no século XVII. Para Ono, naquela época, abrir um restaurante de sushi foi um esforço para sustentar a familia, nada mais, nada menos.

Logo começou a longa e árdua ascensão. No entanto, a cada estágio da longa carreira, Ono teve o ikigai para ajudar a apoiá-lo e motivá-lo enquanto ele ouvia sua voz interior na busca incansável por qualidade. Não era uma coisa que pudesse ser comercializada para as massas, nem facilmente compreendida pelo público em geral. Ono teve que motivar a si mesmo pelo caminho, principalmente no começo, quando a sociedade de um modo geral ainda não tinha percebido seus esforços árduos.

Ele começou aos poucos a fazer pequenas melhorias no negócio, elaborando um recipiente especial, por exemplo, que cabia no espaço incomum de bancada do restaurante dele, para deixar tudo arrumado e limpo. Melhorou várias ferramentas usadas na preparação de sushi, sem saber que muitas seriam usadas em outros restaurantes e que acabariam sendo reconhecidas como invenção original dele. Todos esses pequenos avanços foram trabalhos de amor, apoiados pela sensação apurada de Ono do significado de começar pequeno (o primeiro pilar do ikigai).

Este livro pretende ser uma humilde ajuda para quem está interessado no éthos do ikigai. Espero que, ao contar a história de Jiro Ono, eu tenha dado uma amostra do que esse conceito envolve e do quanto pode ser valioso.

Como vamos ver juntos, ter ikigai pode, literalmente, transformar sua vida. Você pode viver mais, ter boa saúde, ficar mais feliz, mais satisfeito e menos estressado. Além do mais, como subproduto do ikigai, você pode até se tornar mais criativo e bem-sucedido. Você pode ter todos esses benefícios do ikigai se souber apreciar essa filosofia de vida e se aprender a aplicá-la em sua vida.

Como o ikigai é um conceito grandemente imerso na cultura japonesa e sua herança, para clarificar o que envolve, vou mergulhar nas tradições japonesas ao mesmo tempo em que procuro relevância nos hábitos contemporâneos. No meu ponto de vista, ikigai é uma espécie de eixo cognitivo e comportamental, em torno do qual vários hábitos de vida e sistemas de valores estão organizados.

O fato de que os japoneses estão usando ikigai no dia a dia, nem sempre sabendo o que o termo quer dizer exatamente, é testemunho da importância do ikigai, especialmente se você levar em consideração a hipótese léxica, proposta pela primeira vez pelo psicólogo inglês Francis Galton no final do século XIX.

De acordo com Galton, características individuais importantes na personalidade de uma raça ficam codificadas na língua da cultura e, quanto mais importante a característica, mais provável é que seja capturada por uma única palavra.

O fato de ikigai ter sido formado como uma denominação única quer dizer que o conceito aponta para uma grande característica psicológica relevante para a vida dos japoneses. Ikigai representa a sabedoria de vida dos japoneses, a sensibilidade e a maneira de agir que foram unicamente pertinentes na sociedade japonesa e que evoluíram ao longo de centenas de anos dentro da sociedade fechada da nação insular.

Vou mostrar que é claro que você não precisa ser japonês para ter ikigai. Quando penso em ikigai como um prazer particular, eu me lembro de uma cadeira especial que encontrei no Reino Unido.

Durante alguns anos, em meados dos anos 1990, eu fiz uma pesquisa de pós-doutorado no Laboratório de Psicologia da Universidade de Cambridge. Eu estava hospedado em uma casa que pertencia a um eminente professor. Quando me mostrou o quarto em que eu ficaria hospedado, ele apontou para uma cadeira e explicou que tinha valor sentimental para ele: seu pai a fez especialmente para ele quando ele era pequeno.

Não havia nada de extraordinário na cadeira. Para ser sincero, era um pouco malfeita. O design não era refinado, e havia características irregulares aqui e ali. Se a cadeira estivesse à venda no mercado, não seria cara.

Dito isso, eu também vi, pelo brilho nos olhos do professor, que a cadeira tinha um significado muito especial para ele. E era só isso o que importava. Tinha um lugar único no coração do professor, só porque o pai tinha feito para ele. Valores sentimentais são assim mesmo.

Esse é só um pequeno exemplo, mas poderoso. Ikigai é como a cadeira do professor. É questão de descobrir, definir e apreciar os prazeres da vida que têm significado para você. Não tem problema se mais ninguém enxergar esse valor particular, embora, como vimos com Ono e como você vai perceber ao longo deste livro, perseguir as alegrias particulares na vida costuma levar a recompensas sociais. Você pode encontrar e cultivar seu próprio ikigai, desenvolvê-lo secreta e lentamente, até que ele um dia ofereça uma fruta bem original.

No decorrer deste livro, enquanto abordarmos modos de vida, a cultura, as tradições, a mentalidade e a filosofia de vida do Japão, nós vamos descobrir sugestões de boa saúde e longevidade entranhadas no ikigai, e você vai poder se perguntar ao longo do processo:

• Quais são meus valores mais sentimentais?
• Quais são as pequenas coisas que me dão prazer?
Esses são bons pontos de partida para encontrar seu próprio ikigai como forma de obter uma vida mais feliz e mais realizada.

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CAPÍTULO 2

Seu motivo para levantar de manhã

Para algumas pessoas, sair da cama não é problema. Para outras, parece uma coisa muito difícil. Se você é uma daquelas pessoas que ficam embaixo do edredom depois que o despertador toca, desejando que fosse feriado, e acabam se arrastando da cama com relutância depois do segundo ou terceiro alarme, este capítulo é para você.

lkigai, às vezes, é expressado como “o motivo para se levantar de manhã”. É o que dá uma motivação contínua para viver a vida, ou você também pode dizer que dá o apetite para a vida que deixa você ávido para receber cada novo dia. Como vamos ver neste capítulo, os japoneses não precisam de motivações mentais grandiosas para seguir em frente, mas se apoiam mais nos pequenos rituais da rotina diária. Dos cinco pilares do ikigai descritos no começo deste livro, acordar cedo tem mais a ver com começar pequeno.

Hiroki Fujita, que compra e vende atum no famoso mercado de peixe Tsukiji, de Tóquio, tem bastante experiência com o éthos de acordar cedo. Ele acorda às duas da madrugada e se prepara para ir trabalhar, seguindo seus protocolos de sempre. Ainda está escuro quando chega à loja do mercado, mesmo no meio do verão. Fujita logo começa a trabalhar da mesma maneira acelerada com que está acostumado há tantos anos.

Há um motivo especial para Fujita acordar tão cedo todos os dias. Como negociante de atum, ele precisa conseguir o melhor peixe, e portanto não pode se dar ao luxo de perder nada de importante que aconteça no mercado. Os clientes de Fujita contam com ele. Conforme o mundo descobre o sabor divino e delicioso do atum toro, mais e mais atenção é dada ao processo de selecionar e temperar os melhores exemplares. Fujita examina dezenas de atuns colocados no chão de uma seção especial do mercado de peixes Tsukiji para tentar escolher o melhor para sua lista impressionante de clientes, a maioria os restaurantes de sushi mais seletos de Tóquio e arredores, inclusive o Sukiyabashi Jiro, é claro.

“Escolher um bom atum é uma arte intricada por si só”, diz Fujita. No Tsukiji, os atuns são vendidos inteiros, e o comprador não pode ver o interior do peixe quando está fazendo a compra. O único jeito de selecionar o peixe no mercado é olhando a superfície da carne perto da nadadeira da cauda, que foi cortada do corpo do peixe. Fujita costuma tocar e sentir o peixe nessa região, usando os dedos para saber se a carne está madura.

“O público pode ter noções erradas sobre que tipo de atum é saboroso”, diz Fujita:

“As pessoas costumam achar que o atum vermelho com aparência fresca é o melhor, mas nada pode estar mais distante da verdade. O melhor atum tem uma aparência mais suave. Isso só existe em certos tipos de corpo de peixe, capturados por uma variedade limitada de procedimentos de pesca. O melhor tipo só pode ser encontrado em, digamos, um em cem. É preciso procurar certas aparências e texturas, mas é difícil ter certeza, pois os melhores costumam ser bem parecidos ou até indistinguíveis dos que foram danificados por oxidação. Eu levanto cedo de manhã porque sempre estou atrás daquele tipo especial de peixe. Eu penso: eu encontraria o certo se fosse ao mercado de peixe hoje? Esse pensamento me mantém em movimento.”

Talvez nós devêssemos encarar a manhã como Fujita encara. Nós sabemos o suficiente sobre as condições fisiológicas do cérebro para saber que essa hora do dia é melhor para trabalho produtivo e criativo. Dados sugerem que, durante o sono, o cérebro está ocupado registrando lembranças em seus circuitos neurais, conforme as atividades do dia são organizadas e consolidadas. Ainda há pesquisas em andamento sobre a dinâmica da consolidação da memória.

Parece que novas lembranças são temporariamente armazenadas no cérebro com a ajuda da região conhecida como hipocampo (nós temos certeza desse papel essencial do hipocampo, pois pessoas com danos substanciais a ele não conseguem formar novas lembranças). Depois, essas lembranças parecem “migrar” gradualmente para o córtex associado, para serem consolidadas em lembranças de longo prazo. O cérebro é capaz de executar o armazenamento, ligação e indexação de lembranças de forma eficiente na ausência da entrada de informações sensoriais.

De manhã, supondo que você dormiu tempo suficiente, o cérebro acabou o trabalho noturno importante. Está em estado renovado, pronto para absorver novas informações conforme você começa as atividades do dia.

Dizer bom dia — ohayo em japonês — e fazer contato visual ativa os sistemas de recompensa do cérebro e leva a um melhor funcionamento da regulação hormonal, que resulta em um sistema imunológico melhorado. Todos esses efeitos se mostraram estatisticamente significativos, embora as ligações causais não sejam completamente compreendidas.

O éthos de acordar cedo está embutido na cultura japonesa, então não é surpresa, talvez, que existam regras sobre como e quando dizer ohayo. Essas coisas são levadas a sério! Como várias regulações hormonais do cérebro são sabidas como estando em harmonia com a movimentação do sol, faz sentido viver em sincronia com o sol, pois os ritmos circadianos são afinados com os ciclos naturais do dia e da noite.

Essa é a explicação neurológica de por que acordar cedo faz parte da tradição japonesa de forma tão intensa. Mas, como estávamos dizendo, tem também um motivo cultural: o Japão é uma nação que sempre deu muito valor ao sol matinal.

O príncipe Shotoku, que governou o Japão no século VII e era filho do imperador Yomei, era um homem de talentos fantásticos. De acordo com as lendas, ele conseguia ouvir e entender dez pessoas falando ao mesmo tempo. O príncipe Shõtoku leva o crédito por ter introduzido reformas políticas positivas, como uma constituição de dezessete artigos, que leva a fama de ter enfatizado a importância de wa (harmonia) no primeiro artigo (discutirei mais sobre isso depois).

Ao enviar uma carta oficial para o imperador da China, o príncipe Shotoku começou com a frase: “Do soberano da terra do sol nascente”. Isso era referência ao fato de que o Japão se situa à leste da China, a direção na qual o sol nasce. A imagem pegou, e o Japão ainda é visto como “terra do sol nascente” pela civilização ocidental. Japão é um exônimo; na língua japonesa, o nome da nação é Nippon ou Nihon, duas pronúncias alternativas para a nomenclatura que expressa “a origem do sol”. A bandeira nacional do Japão, hinomaru (“círculo do sol”) é uma visualização da ideia da terra do sol nascente.

O sol é objeto de adoração, como uma coisa que simboliza vida e energia, há muito tempo no Japão. No ano-novo, muitas pessoas acordam cedo (ou passam a noite acordadas) para ver o primeiro sol nascente do ano. É costumeiro subir o Monte Fuji à noite para reverenciar o sol do pico. Muitas marcas japonesas, inclusive de cerveja, jornal, seguro de vida, fósforos e uma estação de televisão, usam o sol nascente como tema.

Outro motivo para os japoneses gostarem de acordar cedo tem a ver com a história econômica do país. Durante a era Edo (1603-1868), quando o Japão era governado por Xogunato Tokugawa, aproximadamente 80% da população toda era de fazendeiros. Mesmo depois da rápida industrialização e urbanização, cerca de 50% dos japoneses ainda eram fazendeiros em 1945. E, para ter sucesso na lavoura, é preciso acordar cedo de manhã.

O fato de a atividade agrária ter tido um impacto desses talvez não seja surpresa, considerando o quanto o arroz é fundamental para a economia do Japão. O arroz era o produto mais importante e quase sagrado da terra. Tinha que ser oferecido a deuses em rituais, e o bolinho de arroz simbolizava a…

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