Livro ‘Submerso: Um romance’ por Eduardo Cilto

Livro 'Submerso: Um romance' por Eduardo Cilto
"ELETRIZANTE. EMOCIONAL. O RETRATO DE UMA GERAÇÃO. Aos dezessete anos, Dimitri não é mais capaz de enxergar a si mesmo quando encara o próprio reflexo no espelho. Dividindo seu tempo entre o colégio e um emprego na última locadora de filmes da cidade, ele vê sua realidade colidir quando um simples encontro com os amigos acaba sendo gatilho para uma de suas maiores crises. Lutando contra a nova vida e consigo mesmo, Dimitri é obrigado a passar o resto do ano em um acampamento para jovens desajustados que promete colocá-lo de volta aos eixos. Porém, um lugar que abriga tantos desajustados pode não ser tão perfeito quanto todos pensam...
Editora: Outro Planeta; 1ª edição (20 abril 2018)  Capa dura: 192 páginas  ISBN-10: 8542212738  ISBN-13: 978-8542212730  Dimensões: 21 x 13.8 x 1.2 cm

Leia trecho do livro

Para todos que já temeram o futuro ou a si mesmos. Lembrem-se: a escuridão sempre se vai quando o dia recomeça.

Tento não me meter em problemas, mas tenho uma guerra em minha cabeça. [Been trying hard not to get into trouble But I’ve got a \ war in my mind.]

Lana Del Rey, “Ride”.

Há uma casa em New Orleans,
a chamam de “Sol Nascente”
E tem sido a ruína de muitos pobres garotos,
E Deus, eu sei, sou um deles
“The House of the Rising Sun”, The Animals

O cheiro forte da química penetra minhas narinas e faz com que meus olhos ardam quando o líquido azul-celeste escorre pelo meu rosto. É como se aquela velha parte de mim estivesse simbolicamente partindo, desgrudando de minha alma e descendo pelo ralo do chuveiro. Um destino infeliz para algo que havia moldado quem eu era, mas as coisas ruins sempre desciam pelo esgoto e, naquele momento, eu me considerava ruim por inteiro.

A voz de Eric Burdon, vocalista do The Animais, sai do alto-falante do celular e ricocheteia por cada canto do banheiro enquanto fecho o registro, puxo uma das toalhas no boxe e com ela envolvo a cintura. Caminho até o gabinete com cuidado, meus pés estão encharcados e corro o risco de escorregar, algo que causaria ainda mais drama e preocupação em casa. Mesmo uma queda no banheiro pode fazer com que a situação volte a sair do controle.

O espelho acima do gabinete está embaçado pelo vapor quente que dança ao meu redor, então, o esfrego até vislumbrar meu reflexo. O garoto do outro lado me encara com estranhamento, parecendo ter caído de cabeça em um tonel de tintura azul. É estranho, embora interessante, não reconhecer a si mesmo à primeira vista. Com o cabelo ainda molhado, deslizo os dedos pelos fios e sinto que a textura está diferente, áspera. Provavelmente, fiz alguma coisa errada enquanto tentava seguir os passos de um tutorial qualquer de tingimento com o qual esbarrei na internet. Ao menos tive a sorte de chegar ao tom desejado: safira na raiz e azul-celeste se espalhando pelo comprimento.

Nunca liguei muito para cabelo, mas, quando pensei no que estava ao meu alcance para mudar minha aparência e que pudesse fazer eu me sentir ao menos um pouco melhor, o cabelo foi o que veio à mente. Perdi as contas de quantas vezes me peguei encarando meu reflexo, inconscientemente desejando ser outra pessoa. Meu antigo eu não existia mais, e não fazia sentido permanecer com a aparência de antes.

Três batidas na porta me trazem de volta à realidade. Meu pai está me chamando e não consigo entender o que diz por causa da música alta. Espero alguns segundos até passarem meus versos favoritos de “The House of the Rising Sun” e pauso a canção.

— O que houve, pai? — grito, ainda encarando o espelho.

— Nada de mais, Dimitri. — A resposta vem em seguida, a entonação preocupada. — Só checando se está tudo bem, você está aí há quase duas horas.

Droga. Nem vi o tempo passar. É claro que ele ficaria preocupado, tinha vários motivos para isso.

— Já estou saindo. Eu me distraí ouvindo música.

Dou uns pulinhos em cima do tapete para que a água escorra e abro a porta. Encontro meu pai encostado na parede do corredor. A expressão se altera no exato momento em que ele me vê; seu olhar vai do meu rosto direto para meu cabelo.

— Sei que é estranho, mas juro que é uma coisa menor do que parece — tento explicar, coçando a sobrancelha. — Acho que não há nada de mais em querer mudar.

Meu pai continua calado, mas através de seus olhos percebo que há milhares de perguntas borbulhando em sua mente. Eu o conheço bem o suficiente para saber que ele jamais tentaria me censurar ou diria algo que me deixasse mal.

— F-ficou bem diferente — diz, finalmente, forçando um sorriso. — Moderno.

Acho engraçado como os adultos usam o adjetivo “moderno” para o que não conseguem compreender ou simplesmente não aprovam.

— É, eu também gostei. — Sorrio de volta.

Passo por ele e vou para o quarto, onde dou de cara com a maior quantidade de roupas sujas espalhadas pelo chão que qualquer cômodo poderia suportar. Crio uma nota mental dizendo para dar um jeito naquela bagunça, mesmo sabendo que provavelmente não farei isso tão cedo. Abro o guarda-roupa e procuro o uniforme que devo usar no trabalho. Não demoro a achar, porque é a única camiseta branca em meio a tantas peças escuras. A frase “O que quer assistir hoje?” como estampa também é um fator que auxilia na identificação.

Eu trabalho durante meio período em uma das últimas locadoras de filme de São Paulo. Há cerca de dez anos, locadoras pareciam promissoras e havia uma em cada esquina, porém, com a pirataria e a ascensão dos serviços de streaming, os clientes aos poucos desapareceram e os negócios despencaram, o que levou muitas à falência.

Acho que tive sorte em trabalhar em uma das que continuaram funcionando. Poderia ter sido contratado por ser apaixonado por filmes, mas a verdade é que foi só porque eu ainda não tinha completado dezoito anos e isso fazia com que não fosse tão errado me pagar menos de um salário mínimo.

Não preciso levar muita coisa para o trabalho, apenas vis-to o uniforme, pego uma jaqueta e deslizo pelos corredores de casa. Meu pai não está à vista, mas ouço o som de água caindo e deduzo que está no banho. Grito, avisando que estou de saída, mas não há resposta.

A locadora fica a poucas quadras de casa e sempre vou caminhando. A noite ainda não caiu e as pessoas tomam conta das ruas.

Percebo olhares curiosos por causa do meu cabelo, mas não me incomodo porque o julgamento de desconhecidos não me afeta. Encaro de volta, e as pessoas logo desviam o olhar. A maioria das que encaram não consegue ser encarada. Avisto meu local de trabalho, o pequeno comércio associado a um posto de gasolina na esquina de duas avenidas. Atravesso a rua, destranco a porta e entro. O badalar do sino sobre o umbral avisa que cheguei.

Geralmente, não tenho muito o que fazer. Durante a semana, o movimento é quase inexistente. De vez em quando, uns idosos aparecem à procura de um ou dois filmes antigos e acabo trocando umas palavras ou indicando títulos recentes que eles provavelmente não conheceriam por falta de acesso àquelas informações. Então, quando termino de organizar a pilha de devoluções e atualizar a tabela de empréstimos no computador, me jogo no assento reclinado atrás do balcão e dou play no último filme devolvido, Laranja mecânica, um dos meus favoritos. A ideia de assisti-lo novamente me deixa um pouco mais animado. Adoro toda a ironia e rebeldia que o protagonista representa.

Perto da metade do filme, recebo uma ligação da minha chefe, querendo saber se as coisas estão sob controle. Ainda com o celular na mão, vejo que há mensagens não lidas no grupo dos meus amigos; os nomes Clarissa e Bernardo dançam na tela, mostrando que os dois mandam mensagens a todo vapor.

Subo a conversa para ler e entendo a agitação: estavam combinando de se encontrar com a galera. Sinto uma pontada de vontade de encontrá-los, mas lembro que não posso me meter em confusão. Escrevo a mensagem rejeitando o convite e envio. Segundos depois, meu celular escurece e o rosto pálido de Clarissa aparece na tela. Está me ligando.

Subo a conversa para ler e entendo a agitação: estavam combinando de se encontrar com a galera. Sinto uma pontada de vontade de encontrá-los, mas lembro que não posso me meter em confusão. Escrevo a mensagem rejeitando o convite e envio. Segundos depois, meu celular escurece e o rosto pálido de Clarissa aparece na tela. Está me ligando.

— O que você quer? — pergunto, sem enrolação. Ouço Clarissa suspirar do outro lado da linha.

— Quero você — dispara a voz rouca e recheada de sarcasmo. — No nosso passeio, claro.

Reviro os olhos, mas confesso que deixo escapar um sorriso. Provavelmente, ela percebe; dá para perceber esse tipo de coisa.

— Não dá, estou no trabalho.

— Nos encontraremos na saída do metrô daqui a uma hora — avisa, como se eu tivesse concordado com a ideia. — Esteja lá.

Antes que eu tenha a chance de argumentar, ela desliga.

Jogo o celular no balcão e observo as cenas do filme que ainda passa sem prestar muita atenção. Minha mente viaja com o que pode acontecer se eu concordar com as ideias de meus amigos. Sei que nossas saídas são sempre muito divertidas, mas também trazem o pior e o melhor de mim.

Confiro as horas e calculo a distância de onde trabalho até o centro da cidade, o ponto de encontro. Se eu saísse naquele momento, conseguiria chegar lá. Eles esperariam por mim, mesmo que me atrasasse um pouco.

Encaro a rua através da vitrine. O céu começa a escurecer, mas ainda há pessoas caminhando pela calçada. Nenhuma delas nota a locadora. Falta pouco para o fim do meu turno e sinto vontade de sair daquele tédio e me divertir. Faz tanto tempo que não saio com eles que mal me lembro para onde fomos. Recordo apenas da sensação de independência que senti quando encostei a cabeça no travesseiro para dormir.

Que se dane!, pensei, antes de desligar a televisão, apagar as luzes e ir até o expositor de bebidas para disfarçadamente pegar uma garrafa de cerveja, escondendo-a na jaqueta. Não acredito que minha chefe sentirá falta da bebida na próxima vez que aparecer na locadora, mas tiro uma nota de cinco reais do bolso e a coloco dentro do caixa pouco antes de trancá-lo.

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