Livro ‘O ano em que morri em Nova York’ por Milly Lacombe

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Nova edição do livro de Milly Lacombe: uma viagem de autoconhecimento e, acima de tudo, uma história de amor-próprio. A protagonista deste romance vai do paraíso ao inferno em poucas páginas. Casada com a mulher que ama, ela suspeita de que tenha sido traída durante uma de suas viagens de negócios. A angústia de não saber o que se passa, o medo de perguntar, a desconfiança e a dúvida, que nunca tiveram espaço na relação – considerada perfeita pelos amigos –, agora rondam o casal. Mas será mesmo que a traição existiu? Ou era o amor que estava minguando? O ano em que morri em Nova York não é só a história de um casamento desfeito por conta de uma suposta traição. Estas páginas trazem a trajetória de uma mulher em sua redescoberta após o doloroso rompimento. Jornalista que se tornou ativista LGBTQIAP+, Milly Lacombe cria neste seu primeiro romance, com viés autobiográfico…

Páginas: 256 páginas; Editora: Planeta; 2ª edição (15 fevereiro 2023); ISBN-10: 8542220080; ISBN-13: 978-8542220087; ASIN: B0BSNYC55F

Leia trecho do livro

Para Titi, que nunca me deixou ter medo
de entrar na floresta, e para Paola e Ana,
que me fizeram ver a trilha.

Abri os olhos e vi a completa escuridão que me cercava. Estava de cócoras, em uma tenda minúscula, rodeada por outros vinte corpos que, como o meu, suavam naquele espaço aquecido por dez pedras incandescentes, colocadas bem no centro do pequeno ambiente para fazer com que o calor alcançasse temperaturas cada vez maiores. De tempos em tempos, alguém jogava um pouco de água sobre as pedras e, então, delas saía um vapor escaldante. O calor ficava ainda mais forte e sufocante. Senti minha pele grudar na das duas pessoas ao lado, e isso me causou uma irritação brutal. Levei as mãos ao rosto para estancar o suor, mas elas estavam imundas, porque o solo era de uma areia grossa e escura e minha pele suada fazia com que tudo grudasse nela. Melada e suja, encostei a testa no chão. Comecei a chorar, mas por sorte ninguém podia me ouvir, uma vez que todos estavam entregues a uma cantoria estranha. Tudo o que saía de mim eram lágrimas, irritação e desespero. Desespero por sufocar naquele calor absurdo, por perceber meu corpo colado ao de desconhecidos, minha pele lambuzada de uma desagradável mistura de suor e areia, por estar sozinha como nunca tinha estado antes, por não ter mais uma casa, por não saber onde estava minha alma, por não saber o que estava por vir nem quem era aquela mulher de cócoras no meio de uma tenda às margens do Tapajós.

As lágrimas saíam de um lugar desconhecido, fundo e dolorido. O que eu estava fazendo ali? Como pude deixar Paola me levar para aquele lugar? Fazia um mês eu morava em Nova York, tinha mulher, um casamento sólido de nove anos, livros na estante, roupas no armário, uma rotina que me oferecia a ilusão do controle. Agora estava na Amazônia, completamente sozinha, chorando de cócoras, suando como nunca antes, suja de areia e terra, meus livros amontoados dentro de malas na casa de minha irmã, em São Paulo, as roupas amassadas em outras malas, minha alma fragmentada e em lugares desconhecidos. O que teria acontecido? Por que não estávamos mais juntas? Por que nosso relacionamento tinha passado por isso? Por que tinha topado me mandar para o meio da Amazônia com pessoas que achavam adequado dormir em redes, comer apenas grãos, amontoar-se daquele jeito pouco civilizado em uma tenda de lona, inundada de um calor absurdamente estúpido, e cantar músicas xamânicas, grudando pornograficamente umas nas outras? Uma angústia inédita me invadiu e, quando puxei o ar para tentar sobreviver uns minutos a mais, tudo o que senti foi um bafo quente e meu rosto queimar. Mas a história não começa assim.

Preciso voltar ao momento em que decidi ir embora de Nova York; preciso voltar para o dia em que deixei minha vida para trás, duas semanas antes de me encontrar sufocando em uma tenda de lona no meio da Amazônia.

PARTE 1

A MORTE

“Isso é morrer? Isso é tudo? Isso é tudo aquilo que temi enquanto rezava contra uma morte dura? Oh, isso eu posso suportar! Posso suportar!”
(Cotton Mather, 1663-1728)

Nova York, 24 de junho de 2015

São nove e meia de uma noite clara e estrelada de primavera. Estou no avião, sentada, e é como se apenas metade de mim estivesse aqui. Ao meu lado, um casal voltando das férias na Califórnia fez escala em Nova York, onde passei o último ano e meio da minha vida. Estão vendo fotos no celular e rindo. Devem ter mais ou menos setenta anos. Como estão casados há tanto tempo? Pelo que já passaram? O que enfrentaram? Será que estão juntos porque, ao contrário da gente, não desistiram?

O calor no avião me faz suar. O comandante avisa que o ar-condicionado está com problemas. E se o avião não sair por questões mecânicas? Será um sinal para que eu não vá? O que estou fazendo aqui? Larguei minha casa e sua pele em nome de quê? Será que é cedo demais? Será que eu deveria ter lutado por você? Por nós duas? Pelo relacionamento?

A aeromoça passa pelo corredor e peço um copo d’água. Sinto vontade de perguntar o que houve com o ar-condicionado, mas percebo que iniciar um diálogo vai exigir de mim uma força que não tenho. Desisto e, quando ela vem com o copo, agradeço baixinho e em inglês, mesmo sabendo que ela fala português.

Todos ao lado parecem calmos e relaxados. Em pé no corredor, uma mulher tenta fazer caberem no compartimento de bagagens a mala de mão e uma sacola. Por que ela comprou mais coisas do que era capaz de carregar?, penso, ao ver a dificuldade com que ela ergue a mala lotada de tranqueiras. Sinto raiva da mulher e vontade de levantar e atirar as coisas dela na pista. O rapaz da fileira de trás se levanta para ajudá-la; eles começam a conversar e sorriem. Certamente ninguém aqui está passando pelo fim de um relacionamento. Há pouco tempo, eu era uma dessas pessoas que ignoram como são felizes, uma dessas pessoas que ignoram que a felicidade talvez seja apenas a ausência de angústia.

Passei nove anos inundada pela certeza de que o nosso era o maior amor do mundo e, como tal, impenetrável e indestrutível. Mas eu estava enganada. Talvez ele não fosse o maior amor do mundo, como supúnhamos. Talvez fosse mais um desses amores ordinários, que terminam invadidos por uma pessoa que nem protagonista é e que, por isso, sai da história antes mesmo de a dor começar, como um mosquito da dengue, minúsculo, insignificante e frágil, mas capaz de causar estragos antes de bater asas.

Experimento uma solidão que só conheci nas madrugadas da minha infância, quando ia dormir na casa de uma amiga e, luzes apagadas, entendia que não poderia sobreviver àquela noite sem minha mãe no quarto ao lado. Não havia chance de respirar sem esperar que a porta fosse aberta e ela entrasse para ver se eu já tinha pegado no sono, me dar um beijo de boa noite, mesmo sabendo que eu fingia dormir para ver se ela ainda assim se abaixaria para me beijar e ajeitar meu cobertor.

Nessa época, em uma casa estranha — que era o que a casa de alguma amiga representava à noite, embora, durante o dia, enquanto brincávamos, eu não visse o ambiente dessa maneira —, a noção de não ter minha mãe por perto me desesperava. A noite trazia todos os fantasmas, e me restava apenas pedir que os pais da tal amiga ligassem para minha mãe para que ela fosse me buscar.

Só havia uma coisa pior do que minha mãe não me buscar: era ela ir me buscar.

Ela chegava sempre muito brava, dizia que eu precisava aprender a dormir fora de casa e que o grude teria que acabar, que ela não me buscaria mais tarde da noite, que aquilo era uma vergonha para ela e especialmente para mim, que no dia seguinte falariam disso na escola, que eu seria motivo de deboche, que minha irmã caçula, exemplo de todas as coisas corretas, nunca tinha feito aquele papelão. Eu, no banco do passageiro ao lado dela no carro, numa época em que crianças não eram obrigadas a ficar no assento de trás, escutava tudo de cabeça baixa sem dizer nada e, mesmo constrangida, preferia estar ali com ela enfurecida a permanecer no quarto estranho. Eu ficava feliz, mas não demonstrava, até porque não era uma felicidade completa, era uma felicidade cheia de culpa e de medo, uma felicidade parcial, porque eu dependia do olhar e do afeto exclusivo de outra pessoa, uma felicidade dependente, uma felicidade que mais parecia uma prisão, mas que era onde eu sabia existir, onde eu me reconhecia. É perfeitamente possível que nos adaptemos a uma vida de cativeiro, porque as mesmas paredes que limitam também protegem, como escreveu a inglesa Jeanette Winterson.

Foi assim — uma vez eu li — quando os homens que lutaram pela Revolução Francesa entraram na Bastilha para libertar os presos políticos que estavam ali fazia décadas. Eles abriram as portas, tiraram as algemas e as correntes que os prendiam a camas duras e disseram aos prisioneiros que podiam sair da escuridão e do confinamento, pois daquele momento em diante passariam a ser livres. Mas eles não queriam mais sair, porque tinham se acostumado à escuridão, às correntes, às paredes. Não sabiam como lidar com a vida sem limitações, com a claridade, com o dia, com o mundo livre. Dentro deles havia apenas vazio, que é o que fica quando a alma desocupa o corpo.

Era esse o vazio que eu sentia no avião naquela noite de primavera em Nova York — um vazio ainda pior, porque não tinha para quem telefonar, não tinha quem pelo menos tentasse me resgatar daquele lugar estranho e frio. Era a solidão absoluta, a que eu sempre temi sentir, a que eu acreditava que jamais me alcançaria. Um tipo de solidão que tinha sido feita para os outros, não para alguém que, como eu, nasceu com o talento para ser amada e desejada.

No avião, penso em você e, em seguida, nas madrugadas em que minha mãe me buscava na casa de uma amiga, na imensa solidão que eu sentia, e fico ligeiramente encucada, porque você e minha mãe se parecem em muitas coisas, como, por exemplo, no controle que gostam de exercer sobre mim e sobre o que eu faço ou, mais importante, deixo de fazer. Talvez nosso amor não fosse assim tão perfeito quanto a fama de perfeito que ele adquiriu. Escuto minha irmã dizer que queria um relacionamento como o nosso, escuto amigas comentarem que nunca viram duas pessoas que se amassem tanto e quero pegar todas essas pessoas e esmurrá-las. Elas não sabem de nada. Eu não sabia de nada. E agora é tarde.

Tento disfarçar as lágrimas olhando pela janela. Vejo a lua cheia lá fora e me lembro de Harper Pitt, personagem do seriado Angels in America, e de seu monólogo final, que sempre me impressionou pela beleza e poesia. Lembro que quando vi a cena pela primeira vez estávamos nas montanhas, naquela casinha que alugamos, deitadas em frente à lareira, e Harper estava sozinha em um avião que cruzaria o continente americano. Pensei que, como ela, eu também nunca tinha ficado sozinha. Na hora em que vi a cena, senti uma espécie de inveja e achei aquilo estranho e descabido, porque a verdade é que eu não queria ficar sozinha, não queria nunca ficar sozinha porque não havia sido feita para isso, mas não pensei muito sobre a sensação que me invadiu quando vi Harper Pitt pela janelinha do avião, dizendo:

Voo noturno para São Francisco, perseguir a Lua pela América. Deus! Faz anos que não viajo de avião. Quando atingirmos trinta e cinco mil pés, teremos alcançado a troposfera, o grande cinturão de ar calmo. Jamais estarei tão perto da camada de ozônio. Sonhei que estávamos lá. Vi uma coisa que só eu poderia ver por causa da minha impressionante habilidade para ver essas coisas. Almas se levantavam da terra, almas de pessoas mortas, de pessoas que morreram por causa da fome, das guerras, da praga; elas flutuavam como paraquedistas ao contrário. E as almas deram-se as mãos, trançaram os tornozelos e formaram uma teia, uma grande teia de almas. E as almas eram moléculas de três átomos de oxigênio e repararam a camada de ozônio. Nada dura para sempre. Neste mundo, há uma espécie de progresso dolorido. Sentimos saudade do que deixamos para trás e sonhamos com o que está por vir. Pelo menos, é o que acho.

Olhei outra vez a lua, tão cheia e tão branca. Se alguém pudesse ver, da pista, meu rosto enquadrado através da janela do avião, eu era Harper Pitt. Seria uma noite linda, não fosse a mais triste de minha vida. Pitt voava para uma nova vida, e eu, para minha morte.

O avião está partindo, o ar-condicionado parece ter sido ligado, acho que não haverá o esperado sinal para que eu fique. Paola me escreve pelo WhatsApp, e eu penso que já deveria ter desligado o aparelho, mas não desligo e leio a mensagem. Ela manda eu não ir embora de Nova York, manda eu voltar para você, diz que a vida é curta, que é só isso, que eu deveria abortar essa babaquice, esquecer a traição e simplesmente retomar sem pensar em mais nada a não ser em nosso amor.

Respondo que você precisava ficar sozinha, ver a vida sem mim, conhecer outras pessoas, mas ela envia apenas: “Não embarca, não embarca, não embarca, não volta para cá”. Depois escreve: “Por favor, não embarca, não embarca, por favor, por favor, não embarca, não faz isso com vocês, não seja orgulhosa, vou desligar porque estou na aula de leitura de auras”.

Outra mensagem chega. Agora, de minha irmã: “Força. Momentos difíceis, de grande tristeza, resultam em transformação, evolução. Amores de verdade se libertam”.

Não quero me libertar de nada, não quero me transformar em nada. A pessoa que eu era estava ótima para mim. Meu relacionamento, invejado por todos, era lindo, até não ser mais. Era, aliás, o que eu fazia de melhor na vida, talvez meu talento único: conquistar pessoas, fazer com que me amassem e jamais me deixassem. Nos demais âmbitos da vida — profissional, financeiro e social —, eu tinha questões a resolver, mas nesse, não, nesse eu reinava. Quem deixava as pessoas era eu. Dessa vez, no entanto, apesar dos nove anos de casamento, nada em mim queria se afastar de você. Eu tinha chegado em casa, minha casa era sua pele, e nela me deixei ficar.

Eu só queria sair correndo daquele avião, viver uma cena de amor de aeroporto, dessas típicas de comédias românticas. Fantasiei que você apareceria também correndo e não me deixaria embarcar, diria que me amava, pediria desculpas, juraria ficar comigo para sempre, declararia que ter me traído foi a pior coisa que fez na vida, que beijar outra boca fez você sentir náuseas e ver como não poderia viver sem mim. Nada disso aconteceu, e eu embarquei. Agora, aos quarenta e quatro anos, estava sozinha no mundo, à deriva pela primeira vez, sem ter uma casa em São Paulo, sem saber o que fazer da vida, sem uma fonte de renda estável, sem nada.

Quando disse a você que estava de partida, logo depois de descobrir a traição, me senti como uma abelha-operária que, ao picar alguém, morre, porque o ferrão, preso na pele da pessoa, arranca as vísceras do inseto assim que tenta ir embora. Sua mais poderosa arma é aquela que a destrói. E a minha, meu enorme orgulho, um que via você me implorar para ficar, acabou me matando. Você não me mandou embora, é verdade, mas também não insistiu para eu ficar. Ou insistiu, só que não tanto quanto meu orgulho julgava apropriado?

A diferença entre mim e a abelha, além da anatomia e da produção de mel, é que ela não tem a capacidade de escolher não picar e age por instinto, e eu poderia ter escolhido não morrer.

Ou morrer teria sido ficar ao seu lado mesmo sabendo que nada seria como antes? Se meu instinto me mandava ficar, talvez eu estivesse exercendo certa liberdade ao optar pelo caminho oposto — isso se, por liberdade, entendermos, como pediu Kant, o oposto de necessidade; se, por liberdade, entendermos possuir a capacidade de escolher não seguir nosso instinto, que é o que nos separa do resto do mundo animal e vegetal. Agi por achar que este era meu dever: ir embora; afinal, existia nisso uma enorme liberdade, a liberdade que falta a uma maçã, que, madura, não tem como resistir à força da gravidade e cai no solo. A coitada da maçã não pode dizer: “Hoje não vou ceder à gravidade, hoje não vou cair”. Ela simplesmente cai. Mas eu posso escolher não ficar, não aceitar o chifre. Lembro que minha mãe ficava brava com algumas guloseimas que ela mesma comprava: “Não vejo a hora de essa goiabada acabar para eu parar de comê-la”. Era dar muito poder à goiabada e pouco à capacidade de controlar nossos instintos.

Se meu instinto mais animal era o de jamais deixar você, se você era uma necessidade, então seria natural supor que, vivendo como escrava desse instinto, eu exerceria minha liberdade agindo de outra forma que não fosse aceitando a necessidade de você, e isso significaria ter a coragem de tirar meus livros da estante, minhas roupas do armário, colocar tudo em malas e ir embora. Agir por dever e contra meus instintos, essa era uma experiência nova para mim.

O avião se prepara para decolar e dentro dele está tudo o que tenho na vida: roupas, livros, objetos, meu corpo e o que restou de minha alma. Tarde demais, pensei, tudo acabou.

São Paulo, junho de 2015

Voltar a São Paulo, depois de quase dois anos fora, não foi tão difícil quanto eu supunha. A cidade pareceu até mais agradável que antes: havia agora ciclovias, radares que passaram a limitar e civilizar a velocidade nas ruas, mais estações de metrô e mais bares e restaurantes. No entanto, ter que explicar a todo o instante o que me trouxe de volta passou a ser extenuante. No começo, envergonhada, dizia apenas que decidimos passar um tempo longe. Depois, como notei que as pessoas me olhavam com alguma compaixão, entendi que “um tempo” não cola, nunca colou, e eu estava soando como um demitido que tenta parecer demissionário — embora no caso dele exista pelo menos um fundo de garantia a ser recolhido; no meu, no dos abandonados, no dos chifrados, não existe nada parecido, nenhuma recompensa moral. Esse “tempo” é a saída semântica dos covardes e dos traídos.

O chifre é a derradeira fronteira da desmoralização, uma estrada para longe desse lugar chamado dignidade. Depois disso, você está reduzido ao mundo das bactérias, dos seres desprezíveis — ainda que as bactérias não sejam desprezíveis, muito pelo contrário; elas são essenciais à vida na Terra e, mais do que isso, são nossas ancestrais. Foram elas, afinal, que começaram toda essa palhaçada.

Se eu fosse religiosa, seria hora de culpar Eva, que comeu a droga da maçã mesmo sabendo que não devia fazer isso e, assim, nos atirou neste inferno, onde as pessoas traem umas às outras, onde todos andam com máscaras e fantasias, protegidos de si mesmos, de seus sonhos e do mundo. E a serpente dedou a pobre Eva, dando sequência a acontecimentos trágicos. — Castigo, desçam à Terra para passar milhões de anos pagando pelo que fizeram — disse a voz da bondade suprema.

Adão foi poupado, claro. O homem branco raramente leva alguma culpa. Mas desce você também, Adão, porque precisamos de um macho para tocar esse barco. E esteja criado o patriarcado. Vão agora, seus imundos. O que foi feito da serpente, aliás? Preciso de um amigo religioso para me explicar isso e dizer também quem começou a putaria toda, se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos homens — e, ainda que tivessem tido mais filhos e filhas, é inescapável a noção de que, se viemos mesmo deles dois, alguém começou a putaria. Ah, danem-se todos. Eu, que não sou religiosa, culpo mesmo as bactérias. Por causa delas estou aqui, sozinha, com esta dor inominável. Resta a pergunta fundamental, a mãe de todos os questionamentos: por que existe alguma coisa em vez de nada? Era melhor haver nada.

Minha irmã Ana, que vai hospedar meus cacos até que eu encontre um endereço para chamar de meu, tem seis filhos. “Quem tem seis filhos?”, eu me pergunto, sempre que me lembro da quantidade de sobrinhos. Ela mora numa casa espaçosa, na qual não é possível curtir dignamente uma fossa porque, além das seis crianças, com idade entre cinco e quinze anos (os gêmeos Bruna e Marcelo, cinco; Francisco, oito; Estela, onze; Antônio, treze; e Paulo, quinze), existem babás, cozinheiros, motorista, piscineiro, jardineiro. Entre as residências de IPTU elevadíssimo, esse é o metro quadrado mais movimentado do mundo. Ana tem um ateliê de guloseimas naturais e orgânicas; como gosta de lembrar minha mãe, minha irmã “deu certo na vida”. A parte do “ao contrário de você” fica implícita na frase, de maneira forte e imponente.

Chegar a São Paulo e ficar na casa dela era natural, até porque a outra opção seria voltar para a casa de minha mãe, e não acho que haveria no mundo quantidade suficiente de antidepressivo que me fizesse suportar essa opção. Minha mãe e eu passamos a ter um bom relacionamento desde que ela superou minha homossexualidade, mas, antes disso, ao saber que a primogênita era gay, permaneceu três anos sem falar comigo, como se o tratamento do silêncio e do desprezo pudessem fazer com que eu reconsiderasse minha sexualidade, como se fosse possível reavaliar o comprimento de meu cabelo ou a cor de minha pele. “Vou ficar sem falar com você até sua pele de sardas adquirir uma coloração jambo” ou “até seus olhos verdes se tomarem castanhos”. Uma lógica imbuída de preconceito.

Na tarde em que eu disse finalmente a ela que sou gay, ela gritava coisas como “vou me matar” e “vou matar você”. Como ela é italiana e, dizem, tem algum parentesco com Mussolini, eu sabia que entre as duas opções citadas ela ficaria com a segunda. Então, naquela noite, eu me tranquei no quarto — porque ainda morava na casa dela — e telefonei para minha irmã, que já estava casada com Carlos, para dizer:

— A mamãe vai me matar nesta noite. Eu contei que sou gay.

Em uma família normal, essa frase faria com que todos rissem e com que o mais lúcido dissesse: “Deixa de bobagem”. Mas minha realidade sempre foi bastante específica, e minha irmã disse:


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