Livro ‘Estamos bem’ por Nina Lacour

Livro 'Estamos bem' por Nina Lacour
Marin deixou tudo para trás. A casa de seu avô, o sol da Califórnia, o corpo de Mabel e o último verão agora são fantasmas que ela não quer revisitar. O retrato de uma história em que já não se reconhece mais. Ninguém nunca soube o motivo de sua partida.
Capa comum: 224 páginas
Editora: Plataforma 21; Edição: 1 (4 de setembro de 2017)
Idioma: Português
ISBN-10: 8592783348
ISBN-13: 978-8592783341
Dimensões do produto: 21 x 13,6 x 1,8 cm
Peso de envio: 390 g

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Leia trecho do livro

Para Kristyn, agora mais do que nunca,
e à memória do meu avô, Joseph LaCour,
para sempre no meu coração

Livro 'Estamos bem' por Nina Lacour

capítulo um

ANTES DE IR EMBORA, HANNAH perguntou se eu tinha certeza de que ficaria bem. Ela permanecera uma hora a mais após o fechamento das portas para as férias de inverno, até que todos, exceto os zeladores, tivessem ido embora. Dobrara as roupas lavadas, mandara um e-mail, procurara no enorme livro de psicologia as respostas da última prova para ver se tinha acertado. Ela já não sabia mais como matar o tempo, então, quando eu disse “Sim, vou ficar bem”, não teve escolha a não ser tentar acreditar em mim.

Eu a ajudei a carregar a mala para o andar de baixo. Ela me deu um abraço apertado com ares de oficial e disse:

– Vamos voltar da casa da minha tia no dia 28. Pegue o trem e poderemos ir a peças da Broadway.

Concordei, sem saber se realmente pretendia fazer aquilo. Quando voltei para o nosso quarto, vi que ela havia deixado um envelope fechado escondido sobre meu travesseiro.

Agora estou sozinha no prédio, olhando meu nome escrito na bela letra cursiva de Hannah e tentando não deixar esse pequeno objeto me destruir.

Acho que tenho uma coisa com envelopes. Não gosto de abri-los. Eu não tenho nem vontade tocar neles, mas fico dizendo para mim mesma que vai ser uma coisa boa. Um cartão de Natal. Talvez com uma mensagem especial dentro, ou só com uma assinatura. De qualquer maneira, inofensivo.

Os alojamentos ficam fechados no mês de férias, mas meu orientador me ajudou a conseguir ficar aqui. A administração não gostou. ‘Você não tem família nenhuma?”, me perguntaram. “Ou amigos com quem possa ficar?” “É aqui que eu moro agora”, eu disse. “É onde vou morar até me formar.” Eles acabaram se rendendo. Um bilhete da gerente de serviços residenciais apareceu embaixo da minha porta dois dias atrás, passando o contato do zelador que estaria aqui durante as férias. Fale com ele se precisar de qualquer coisa, ela tinha escrito.

Coisas de que eu preciso: o sol da Califórnia, um sorriso mais convincente.

Sem as vozes de todo mundo, sem as Tvs dos quartos, sem as torneiras abertas e as descargas, sem o zumbido e o apito dos micro-ondas, sem os passos e as portas batendo, sem todos os sons de vida, esse prédio é um lugar novo e estranho. Estou aqui há três meses, mas não tinha reparado no barulho do aquecedor até agora.

É um estalo, um sopro de calor. Estou sozinha esta noite. Amanhã, Mabel chegará para ficar por três dias, depois ficarei sozinha outra vez, até meados de janeiro. “Se eu fosse passar um mês sozinha”, disse Hannah ontem, “começaria a meditar. Está provado clinicamente que baixa a pressão arterial e aumenta a atividade cerebral. Ainda ajuda o sistema imunológico?’ Alguns minutos depois, ela tirou um livro da mochila. “Vi na livraria outro dia. Pode ler primeiro se quiser.”

Hannah Jogou o livro na minha cama. Era uma coletânea de ensaios sobre solidão.

Sei por que ela sente medo por mim. Eu apareci nesse quarto duas semanas após a morte do vovô. Eu entrei, como uma estranha atordoada e selvagem, mas agora sou uma pessoa que ela conhece, e preciso continuar sendo. Por ela e por mim.

Só uma hora se passou e já enfrento a primeira tentação: o calor dos cobertores e da cama, dos meus travesseiros e da colcha de pele falsa que a mãe de Hannah deixou aqui depois de uma visita de fim de semana. Todos estão dizendo: Deite. Ninguém vai saber se você passar o dia inteiro na cama. Ninguém vai saber se ficar com o mesmo moletom o mês todo, se você fizer todas as refeições vendo TV e limpar a boca na camiseta. Vá em frente, escute a mesma música sem parar, até o som perder o sentido. Você pode passar o inverno dormindo.

Só tenho que encarar a visita de Mabel, depois posso mesmo fazer tudo isso. Olho o Twitter até minha vista ficar borrada e caio na cama como um personagem de Oscar Wilde. Eu poderia arrumar uma garrafa de uísque (apesar de ter prometido para o vovô que não faria isso) para me esquentar, deixando os limites do quarto difusos e soltando as lembranças das jaulas.

Talvez eu o ouvisse cantar de novo agora que havia silêncio.

Era disso que Hannah estava tentando me salvar.

A capa da coletânea de ensaios é azul. Brochura. Abro na epígrafe, uma citação de Wendell Berry: No círculo dos humanos, estamos cansados de lutar e não temos descanso. Meu círculo particular de humanos fugiu do frio cruel para as casas dos pais, para lareiras estalando ou destinos tropicais onde vão posar de biquíni e gorro de Papai Noel e desejar um feliz Natal para os amigos. Vou fazer o melhor possível para confiar no sr. Berry e ver sua ausência como uma oportunidade.

O primeiro ensaio é sobre a natureza. Um escritor do qual nunca ouvi falar passa as páginas descrevendo um lago. Pela primeira vez em muito tempo, relaxo com a descrição de um ambiente. Ele narra as ondulações, o brilho da luz na água, as pedrinhas na margem. Fala sobre flutuação e ausência de peso, coisas de que entendo. Eu encararia o frio lá fora se tivesse a chave da piscina coberta. Se pudesse começar e terminar cada dia desse mês solitário nadando, ia me sentir bem melhor. Mas não posso. Então, eu leio. O escritor sugere que pensemos na natureza como uma forma de solidão. Diz que lagos e florestas residem na nossa mente.

“Feche os olhos”, ele diz, e “vá para lá.” Eu fecho. O aquecedor desarma. Espero para ver o que tomará conta de mim.

Lentamente, vem. Areia. Grama e vidro na praia. Gaivotas e maçaricos-brancos. O som e, mais rápido, a visão de ondas quebrando, recuando, desaparecendo no mar e no céu. Abro os olhos. É demais.

A lua é uma lasca brilhante na janela. O abajur da minha mesa, virado para uma folha de papel, é a única luz em todos os cem quartos do prédio. Estou fazendo uma lista para depois que Mabel for embora.

ler a versão on-line do New York Times todas as manhãs
comprar comida
fazer sopa
ir de ônibus para o centro/a biblioteca/um café
ler sobre solidão
meditar
assistir a documentários
ouvir podcasts
encontrar músicas novas

Encho a chaleira elétrica na pia do banheiro e preparo um macarrão instantâneo. Enquanto como, faço o download de um audiolivro sobre meditação para principiantes. Aperto o play. Minha mente vagueia.

Mais tarde, tento dormir, mas os pensamentos ficam voltando. Tudo rodopia: Hannah falando sobre meditação e peças da Broadway. O zelador e se vou precisar de alguma coisa dele. Mabel chegando aqui, onde eu moro agora, voltando a ser parte da minha vida. Nem sei como vou conseguir dizer oi. Não sei como minha cara vai ficar: se vou conseguir sorrir ou mesmo se deveria fazer isso. E, durante todo esse tempo, o aquecedor arma e desarma, cada vez mais alto conforme eu fico mais cansada.

Acendo o abajur ao lado da cama e pego o livro de ensaios.

Poderia tentar fazer o exercício de novo, em chão firme desta vez. Eu me lembro de sequoias tão gigantescas que era preciso cinco de nós, com os braços esticados, para envolver só uma delas. Embaixo das árvores havia samambaias, flores e terra úmida e preta. Mas não confio na minha mente para ficar naquele bosque e, agora, do lado de fora, há árvores cobertas por neve em volta das quais nunca coloquei os braços. Neste lugar, minha história só tem três meses. Vou começar aqui.

Saio da cama, coloco uma calça de moletom por cima da legging e um suéter pesado por cima da blusa de gola alta. Arrasto a cadeira até a porta e pelo corredor na direção do elevador, onde entro e aperto o botão para o último andar. Quando chego, eu a carrego até a enorme janela da torre, onde está sempre silencioso, mesmo quando o alojamento está cheio. Fico sentada lá, com as mãos nos joelhos e os pés no tapete.

Vejo a lua lá fora, os contornos das árvores, os prédios do campus, as luzes que pontuam o caminho. Tudo isso é minha casa agora, e continuará sendo depois que Mabel for embora. Absorvo a quietude disso, a verdade pungente. Meus olhos ardem, a garganta está apertada. Se ao menos eu tivesse alguma coisa para suavizar a solidão. Se ao menos “solitária” fosse uma palavra mais precisa. Deveria parecer bem menos bonita. Mas é melhor enfrentar isso agora, para não ser pega de surpresa mais tarde, para não me ver paralisada e incapaz de encontrar o caminho até mim mesma novamente.

Inspiro. Expiro. Mantenho os olhos abertos e virados para as novas árvores.

Sei onde estou e o que isso significa. Sei que Mabel chegará amanhã, quer eu queira ou não. Sei que estou sempre sozinha, mesmo quando cercada de pessoas, então deixo o vazio entrar.

O céu está azul-escuro, cada estrela, clara e brilhante. Sinto as palmas das minhas mãos quentes nas pernas. Existem muitas formas de estar sozinha. Sei que Isso é verdade. Inspiro (estrelas e céu). Expiro (neve e árvores).

Existem muitas formas de estar sozinha, e da última vez não foi assim.

Livro 'Estamos bem' por Nina Lacour
Livro 'Estamos bem' por Nina Lacour

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