Livro ‘Contra o Ódio’ por Carolin Emcke

Livro 'Contra o Ódio' por Carolin Emcke
Racismo, fanatismo, sentimento antidemocrático. Em um espaço público cada vez mais polarizado, impõe-se um pensamento que só permite duvidar das opiniões dos outros, nunca das próprias. Carolin emcke – uma das intelectuais europeias mais interessantes de sua geração – opõe a essa homologação a riqueza de uma sociedade aberta a diferentes vozes: uma democracia se realiza plenamente apenas com a vontade de defender o pluralismo e a coragem de se opor ao ódio. Com esses anticorpos, podemos derrotar os fanáticos religiosos e nacionalistas, que fabricam consenso, mas têm medo da diversidade e do conhecimento, as armas mais poderosas que temos. "emcke demonstra que o diálogo é...
Capa comum: 186 páginas  Editora: Ayine; Edição: 1ªª (10 de abril de 2020)  ISBN-10: 8592649609  ISBN-13: 978-8592649609  Dimensões do produto: 19,6 x 10 x 1,8 cm

Leia trecho do livro

Mas, se toda justiça
começa com o discurso,
nem todo discurso é justo.

Jacques Derrida

Observar cuidadosamente
significa desmontar.

Herta Müller

Para Martin Saar

Prefácio

Nas profundezas lamacentas eu me afundo;
não tenho onde firmar os pés.
Entrei em águas profundas;
as correntezas me arrastam.
Cansei-me de pedir socorro;
minha garganta se abrasa.
Meus olhos fraquejam
de tanto esperar pelo meu Deus.
Os que sem razão me odeiam
são mais do que os fios de cabelo da minha cabeça.

Salmos 69, 2-4

Às vezes me pergunto se deveria invejá-los. Às vezes me pergunto como eles conseguem odiar dessa maneira. Como podem ser tão seguros. Pois isso aqueles que odeiam têm de ser: seguros. Caso contrário, não falariam ou agrediriam ou matariam dessa forma. Caso contrário, não poderiam menosprezar, humilhar, atacar os outros assim. Eles têm de estar seguros. Sem dúvida alguma. Não se pode odiar duvidando do ódio. Eles não poderiam estar tão perturbados se duvidassem. E necessária uma certeza absoluta para odiar. Qualquer «talvez» já seria um estorvo. Qualquer «possivelmente» se infiltra imediatamente no ódio, e suga-lhe a energia que ainda está para ser canalizada.

O odiado torna-se impreciso. O que é bem definido não pode ser bem odiado. Com a precisão viriam a delicadeza, o olhar atento ou a escuta minuciosa. Com a precisão viria aquela diferenciação capaz de discernir a pessoa singular, com todas as suas qualidades e inclinações múltiplas e contraditórias, como ser humano. Entretanto, uma vez que os contornos são esmaecidos, uma vez que indivíduos como indivíduos se tornam irreconhecíveis, apenas coletivos vagos permanecem como destinatários do ódio, sendo difamados e desvalorizados, xingados e enxotados à vontade: os judeus, as mulheres, os incrédulos, os negros, as lésbicas, os refugiados, os muçulmanos ou ainda os Estados Unidos, os políticos, o Ocidente, os policiais, a mídia, os intelectuais? O ódio se conforma ao seu objeto de ódio. É um encaixe perfeito.

O ódio se dirige para cima ou para baixo, em todo caso sempre em uma visão projetada verticalmente contra «os lá de cima» ou «os lá de baixo»; é sempre a categoria do «outro» que oprime ou ameaça o «próprio». O «outro» é fabulado como um poder supostamente perigoso ou como algo supostamente inferior; e assim os maus-tratos e o desejo de erradicação subsequente do outro não são reivindicados apenas como medidas desculpáveis, mas necessárias. O outro é aquele a quem alguém pode denunciar ou desprezar, ferir ou matar impunemente.

Aqueles que sofrem esse ódio na própria pele, que estão expostos a ele, na rua ou na internet, à noite ou em plena luz do dia; aqueles que tem de aguentar o uso de termos que carregam toda uma história de desprezo e abuso; aqueles que recebem essas mensagens desejando ou até mesmo diretamente ameaçando-os de morte ou de uma agressão sexual; aqueles a quem não é concedido mais do que alguns direitos, cujos corpos ou véus são difamados; aqueles que devem se esconder por medo de serem atacados; aqueles que não podem sair de casa porque uma multidão brutal e violenta os espera na porta; aqueles cujas escolas ou sinagogas precisam de proteção policial; todos aqueles que são objeto de ódio não podem e não querem se acostumar a isso.

A rejeição latente contra aqueles que são percebidos como diferentes ou estranhos sem dúvida sempre existiu. Mas isso não era necessariamente percebido como ódio. Na Alemanha, isso se expressa em geral mais como uma repulsa atada a fortes convenções sociais. Nos últimos anos, também houve um mal-estar cada vez mais pronunciado em relação a um possível excesso de tolerância, questionando se aqueles que professam uma fé diferente ou têm uma aparência diferente ou praticam outras formas de amor já não deveriam se dar por satisfeitos. Houve um reproche discreto, mas inequívoco, que dizia que judeus, homossexuais ou mulheres deveriam ser felizes e ficar em silêncio, mesmo porque já lhes havia sido concedido muito. Como se houvesse um teto de igualdade. Como se mulheres ou homossexuais pudessem ter direitos iguais até este ponto aqui e então basta. Igualdade plena? Isso seria ir longe demais. Significaria dizer que eles seriam… iguais.

Essa crítica específica à falta de humildade se equipara sorrateiramente ao autoelogio de uma tolerância já dada. Como se fosse uma conquista excepcional que as mulheres tenham permissão para trabalhar… então por que reivindicar o mesmo salário? Como se fosse louvável que os homossexuais já não sejam criminalizados ou presos. Isso mereceria alguma gratidão de sua parte, pelo menos. Que os homossexuais demonstrem seu amor em particular pode até ser, mas por que eles também precisam se casar em público?

No que diz respeito aos muçulmanos, essa tolerância ambígua sempre se expressa na ideia de que eles até poderiam viver aqui na Alemanha, mas praticar a religião muçulmana, aí já seria demais. A liberdade religiosa só seria aceita se fizesse referência ao cristianismo. E então, ao longo dos anos, tornou-se cada vez mais comum ouvir que já era hora de terminar a eterna discussão sobre a Shoah. Como se a memória do que aconteceu em Auschwitz tivesse data de validade, como se fosse um iogurte. Como se refletir sobre os crimes cometidos pelo nacional-socialismo fosse o mesmo que visitar um ponto turístico para depois riscá-lo da lista de viagens pendentes.

Mas algo mudou na Alemanha. Agora odeia-se de forma aberta e descarada. Às vezes com um sorriso no rosto e às vezes não, mas na maioria das vezes sem nenhum escrúpulo. As cartas de ameaças, que sempre existiram, hoje são assinadas com nome e endereço. Delírios violentos e manifestações de ódio expressos na internet se escondem cada vez menos atrás de um pseudônimo. Se, há alguns anos, me perguntassem se eu conseguiria imaginar alguém falando dessa maneira novamente na Alemanha, eu teria dito que seria impossível. Para mim, era absolutamente inconcebível que o discurso público pudesse se brutalizar de novo desse modo e que as pessoas pudessem ser acossadas de forma tão desmedida. É quase como se as expectativas convencionais sobre como uma conversa deveria ser fossem reviradas.

Como se os padrões de coexistência tivessem simplesmente virado de cabeça para baixo: como se aquele que considera o respeito pelos outros uma forma natural e simples de tratamento devesse ter vergonha; como se aquele que desrespeita os outros, sim, aquele que vocifera insultos e preconceitos, pudesse se orgulhar disso.

Pois bem, não me parece nenhum ganho civilizatório que alguém possa gritar, ofender e atacar de maneira irrefreável. Acho que não há progresso nenhum em poder colocar para fora qualquer baixeza interna só porque, nos últimos tempos, esse exibicionismo do ressentimento supostamente adquiriu relevância pública e até política. Como muitos outros, não estou disposta a me acostumar. Não quero que esse novo prazer em odiar livremente seja normalizado. Nem no meu país, nem na Europa, nem em nenhum outro lugar.

Porque o ódio que será discutido a seguir não é nem individual nem fortuito. Não é apenas um sentimento vago que se descarrega de repente de maneira acidental ou por uma suposta necessidade. Esse ódio é formado coletiva e ideologicamente. O ódio requer moldes pré-fabricados nos quais possa ser derramado. Os termos empregados para humilhar; as cadeias de associações e imagens que permitem conceber e classificar; os enquadramentos da percepção usados para categorizar e fazer julgamentos —tudo isso deve ser pré-formado. O ódio não brota repentinamente do nada, ele é cultivado. Todos aqueles que lhe conferem caráter espontâneo ou individual contribuem involuntariamente para que ele continue sendo alimentado.

Portanto, o aumento de partidos ou movimentos agressivamente populistas na Alemanha (e na Europa) nem mesmo é o mais preocupante, já que ainda há motivos para ter esperança de que eles se decomponham com o tempo devido à arrogância individual, às suas animosidades mútuas ou, simplesmente, à falta de pessoal capaz de realizar profissionalmente um trabalho politico. Isso sem mencionar os seus programas antimodernos, que negam a realidade social, econômica e cultural de um mundo globalizado. E provável que esses partidos também percam sua atratividade quando forem forçados a participar de debates públicos nos quais tenham de argumentar e reagir às declarações de seus interlocutores, quando forem obrigados a ter uma discussão objetiva e factual sobre questões complexas. Também é provável que percam sua particularidade aparentemente dissidente quando tiverem de concordar com os outros partidos nos pontos em que se é apropriado fazê-lo. Isso apenas reforça a crítica de outros aspectos que os caracterizam. Por último, mas não menos importante, talvez fossem necessárias reformas econômicas abrangentes para abordar o descontentamento social gerado pelo aumento da desigualdade e pelo medo da pobreza na velhice em regiões e cidades estruturalmente fracas.

Muito mais ameaçador é o clima de fanatismo. Tanto na Alemanha quanto em outros lugares. Essa dinâmica de uma rejeição cada vez maior contra aqueles que têm outras crenças ou mesmo nenhuma, contra aqueles que têm outra aparência ou amam de maneira distinta daquela que uma norma determina. Esse crescente desprezo por tudo que é divergente está se espalhando e, pouco a pouco, prejudicando a todos nós. Porque nós, seja como objeto ou como testemunhas desse ódio, muitas vezes nos calamos aterrorizados; porque nos deixamos intimidar; porque não sabemos como lidar com esses gritos e com o terror; porque nos sentimos impotentes e paralisados; porque o horror nos deixa sem palavras. Porque, infelizmente, esse é um dos efeitos do ódio: ele deixa transtornados todos aqueles que estão expostos a ele, desorientando-os e fazendo-os perder a confiança. O ódio só pode ser enfrentado na medida em que se rejeita o convite a sua reprodução. Quem enfrenta o ódio com mais ódio já foi manipulado, aproximando-se daquilo que aqueles que odeiam desejam que a pessoa se torne.

O ódio só pode ser combatido com o que escapa aos que odeiam: observação cuidadosa, diferenciações contínuas e dúvidas sobre si mesmo. Isso requer desmontar o ódio pouco a pouco em todas as suas partes, separando-o como um sentimento agudo de seus pressupostos ideológicos e observando como ele surge e opera em um contexto histórico, regional e cultural específico. Pode parecer pouco. Pode soar modesto. Pode-se objetar que os verdadeiros fanáticos não seriam atingidos dessa forma. Pode ser. Mas já ajudaria se as fontes das quais o ódio se nutre, as estruturas que o possibilitam e os mecanismos aos quais ele obedece fossem mais facilmente reconhecíveis. Já ajudaria se aqueles que apoiam e aplaudem o ódio fossem privados de sua autoconfiança. Se aqueles que preparam o ódio à medida que impõem seus padrões de pensamento e de olhar fossem desprovidos da sua ingenuidade imprudente ou do seu cinismo. Se aqueles que se engajam pacífica e discretamente não precisassem mais se justificar, mas sim aqueles que os desprezam. Se aqueles que, por razões óbvias, vão ao encontro de pessoas necessitadas não precisassem mais explicar seus motivos, mas sim aqueles que rejeitam o óbvio. Se aqueles que desejam uma convivência aberta e fraterna não precisassem mais se defender, mas sim aqueles que a corroem.

Observar o ódio e a violência a partir das estruturas que os tornam possíveis significa também tornar visível o contexto das justificativas antecedentes e dos consentimentos subsequentes, sem os quais o ódio e a violência não poderiam germinar. Observar as diferentes fontes das quais se alimentam o ódio ou a violência em um caso específico serve para refutar o mito bem conhecido de que o ódio seria algo natural, algo que nos seria dado. Como se o ódio fosse mais autêntico do que o apreço. Mas o ódio não vem do nada. E algo que é fabricado. A violência também não surge do nada. Ela é preparada. Qual a direção tomada pelo ódio e pela violência, contra quais pessoas eles são direcionados, quais os limiares e obstáculos que precisam ser demolidos — tudo isso não é aleatório nem algo dado sem mais nem menos, mas, sim, canalizado. Se, pelo contrário, não condenarmos apenas o ódio e a violência, mas observarmos seus modos de funcionamento, estaremos demonstrando sempre que algo diferente poderia ter sido feito, que outra decisão poderia ter sido tomada, que alguém poderia ter intervindo, que alguém poderia ter desistido. Descrever o ódio e a violência em seu decurso preciso sempre envolve a possibilidade de mostrar como ambos podem ser interrompidos e enfraquecidos.

A observação do ódio não apenas a partir do momento em que ele explode numa fúria cega abre outras possibilidades de ação: determinadas manifestações de ódio são de responsabilidade da promotoria e da polícia, mas as formas de discriminação e delimitação, as pequenas e implacáveis estratégias de exclusão que se manifestam em gestos e hábitos, em certas práticas e convicções, são de responsabilidade de toda a sociedade. Como membros da sociedade civil, somos todos responsáveis por não dar espaço àqueles que odeiam para atacarem de forma certeira o seu objeto. Essa tarefa não pode ser delegada. Apoiar aqueles que são ameaçados por possuírem outra aparência, por pensarem de outra forma, por terem outra crença ou por amarem de forma diferente não exige muito esforço. São pequenas coisas que podem fazer a diferença e que podem abrir um espaço social ou discursivo para aqueles que foram expulsos dessa esfera. O gesto mais importante contra o ódio talvez seja não se isolar. Não se deixar confinar na tranquilidade da esfera privada, na proteção fornecida pelo próprio abrigo ou pelo círculo social mais próximo. Talvez o movimento mais importante seja sair para fora de si e avançar em direção aos outros para, com eles, reabrir juntos os espaços sociais e públicos.

Aqueles que estão expostos ao ódio, que foram abandonados a ele, sentem-se como na voz dolente do salmo citado anteriormente: «Nas profundezas lamacentas eu me afundo». Eles não têm onde firmar os pés. Eles se sentem como se chegassem ao fundo das águas e a torrente crescesse sobre eles. Trata-se de não deixá-los sozinhos, de ouvir seu pedido de ajuda, de não permitir que a torrente de ódio continue a crescer, de criar um terreno firme no qual todos possamos pisar. E disso que se trata.

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