Livro ‘Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo’ por Benjamin Alire Sáenz

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Em um verão tedioso, os jovens Aristóteles e Dante são unidos pelo acaso e, embora sejam completamente diferentes um do outro, iniciam uma amizade especial, do tipo que muda a vida das pessoas e dura para sempre. E é através dessa amizade que Ari e Dante vão descobrir mais sobre si mesmos - e sobre o tipo de pessoa que querem ser. Dante sabe nadar. Ari não. Dante é articulado e confiante. Ari tem dificuldade com as palavras e duvida de si mesmo. Dante é apaixonado por poesia e arte. Ari se perde em pensamentos sobre seu irmão mais velho, que está na prisão. Um garoto como Dante, com um jeito tão único de ver o mundo...
Capa comum: 392 páginas  Editora: Seguinte; Edição: 1ª (25 de abril de 2014)  ISBN-10: 8565765350  ISBN-13: 978-8565765350  Dimensões do produto: 21 x 13,8 x 2,2 cm

Leia trecho do livro

Agradecimentos

Eu pensei duas vezes antes de escrever este livro. Na verdade, depois que terminei o primeiro capítulo, mais ou menos, quase decidi abandonar o projeto. Mas sou sortudo e abençoado o suficiente para estar cercado de pessoas comprometidas, corajosas, talentosas e inteligentes, que me inspiraram a terminar o que comecei. Este livro não teria sido escrito sem elas. Então aqui está minha pequena, e certamente incompleta, lista de pessoas às quais eu gostaria de agradecer: Patty Moosebrugger, ótima agente e amiga. Daniel e Sasha Chacon, pelo grande carinho e por acreditarem que eu precisava escrever este livro. Hector, Annie, Ginny e Barbara, que sempre estiveram ao meu lado. Meu editor, David Gale, que acreditou neste livro, e todo o time da Simon & Schuster, especialmente Navah Wolfe. Meus colegas do departamento de escrita criativa, cujo trabalho e generosidade continuaram a me desafiar a ser um escritor e uma pessoa melhor. E, finalmente, gostaria de agradecer aos meus alunos, antigos e atuais, que me lembram de que a língua e a escrita sempre vão importar. Minha gratidão a todos vocês.

POR QUE SORRIMOS? POR QUE DAMOS RISADA?
Por que nos sentimos sós? Por que somos tristes e confusos? Por que lemos poesia? Por que choramos ao ver uma pintura? Por que nosso coração se descontrola quando estamos apaixonados? Por que sentimos vergonha? O que é essa coisa no fundo das entranhas chamada desejo?

As diferentes regras do verão

O problema da minha vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.

Um

CERTA NOITE DE VERÃO, CAÍ NO SONO DESEJANDO que o mundo fosse diferente quando eu acordasse. Quando abri os olhos de manhã, estava tudo igual. Afastei os lençóis e permaneci deitado, enquanto o calor entrava pela janela aberta.

Estendi o braço para sintonizar o rádio. Tocava “Alone”. Droga. “Alone”, de uma banda chamada Heart. Não era minha música favorita. Não era minha banda favorita. Não era meu assunto favorito. “Você não sabe quanto tempo…”

Eu tinha quinze anos.

Estava entediado.

Estava infeliz.

Por mim, o sol poderia ter derretido todo o azul do céu. Aí o céu seria tão infeliz quanto eu.

O locutor dizia coisas irritantes e óbvias, como “É verão! Faz calor lá fora!”, para depois chamar a vinheta antiga do Cavaleiro Solitário; ele gostava de tocar aquilo todas as manhãs, achava que era um bom jeito de acordar o mundo. “Aiô, Silver!” Quem contratou esse cara? Ele era péssimo. Acho que pensava que, ao escutarmos a abertura da ópera Guilherme Tell, imaginaríamos o Cavaleiro Solitário e o Tonto cavalgando pelo deserto. Talvez alguém devesse dizer àquele cara que já não tínhamos mais dez anos. “Aiô, Silver!” Droga. A voz dele preencheu de novo o ar: “Hora de acordar, El Paso! Segunda-feira, 15 de junho de 1987! 1987! Dá pra acreditar? Um grande ‘feliz aniversário’ a Waylon Jennings, que completa cinquenta anos hoje!”. Waylon Jennings? Aquilo era uma estação de rock, caramba! Mas o que o locutor disse em seguida deu a impressão de que talvez tivesse cérebro. Ele contou como Waylon Jennings tinha sobrevivido ao acidente de avião que matara Buddy Holly e Richie Valens, em 1959. Para finalizar o comentário, tocou a versão de “La bamba” de Los Lobos.

“La bamba.” Era tolerável.

Comecei a batucar o chão de madeira com os pés descalços. Enquanto balançava a cabeça no ritmo da música, imaginava o que Richie Valens teria pensado antes de o avião se espatifar no chão. Ei, Buddy! Acabou a música.

A música acabou tão cedo. A música acabou quando mal tinha começado.

Era muito triste.

Dois

ENTREI NA COZINHA. MINHA MÃE PREPARAVA UM almoço para as amigas da igreja. Peguei um copo de suco de laranja. Minha mãe sorriu.

— Não vai me dar bom-dia?

— Estou pensando no assunto — eu disse.

— Bom, pelo menos você conseguiu sair da cama.

— Foi preciso muito esforço.

— Por que meninos precisam dormir tanto?

— Somos bons nisso. — Ela riu da resposta. — Mas eu não estava dormindo. Estava ouvindo “La bamba”.

— Richie Valens — ela disse baixinho. — Tão triste.

— Igual Patsy Cline.

Ela concordou com a cabeça. Às vezes, quando a flagrava cantarolando aquela música, “Crazy”, eu abria um sorriso. Era como se compartilhássemos um segredo. Minha mãe tinha uma bela voz.

— Acidentes de avião — ela murmurou. Acho que estava falando mais para si mesma do que para mim.

— Talvez Richie Valens tenha morrido jovem… mas pelo menos ele fez alguma coisa. Quer dizer, ele realmente fez alguma coisa. E eu? O que eu fiz?

— Você tem tempo — ela disse. — Ainda tem muito tempo.

Eterna otimista.

— Bom, primeiro é preciso virar gente — eu disse.

Ela fez uma cara engraçada.

— Tenho quinze anos — completei.

— Sei quantos anos você tem.

— Com quinze anos você ainda não é considerado gente.

Minha mãe riu. Ela era professora de colegial. Eu sabia que em parte ela concordava comigo.

— E então? Por que essa grande reunião?

— Vamos reorganizar o banco de alimentos.

— Banco de alimentos?

— Para distribuir alimentos pra quem não tem.

Minha mãe se sensibilizava com a pobreza. Já fora pobre. Tinha passado por situações que eu jamais passaria.

— Entendi — comentei.

— Talvez você possa ajudar…

— Claro — concordei.

Eu odiava ser escalado para essas funções. O problema da minha vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.

— O que você vai fazer hoje? — a pergunta soou como um desafio.

— Vou entrar em uma gangue.

— Não tem graça.

— Sou mexicano. Não é isso que a gente faz?

— Já disse que não tem graça.

— Não tem graça mesmo — eu disse, por fim. É, não tinha graça.

Precisava sair de casa. Não que tivesse algum lugar para onde ir.

Me sentia sufocado quando minha mãe convidava as amigas da igreja para ir em casa. Não era porque elas tinham mais de cinquenta anos… Não, não era. Nem por causa dos comentários sobre como eu estava virando homem tão rápido. Quer dizer, eu sabia que era besteira. E, dentre todas as besteiras possíveis, aquela era até simpática, inofensiva e carinhosa. Dava para suportar quando elas me pegavam pelos ombros e diziam: “Deixe-me olhar para você. Déjame ver. Ay, que muchacho tan guapo. Te pareces a tu papa”. Não que houvesse alguma coisa para ver. Era só eu. Tudo bem, eu era mesmo parecido com meu pai. Mas não achava aquilo grande coisa.

O que realmente me incomodava era o fato de minha mãe ter mais amigos do que eu. Tem coisa mais triste?

Resolvi ir nadar na piscina do Memorial Park. Uma ideia boba, mas pelo menos era minha.

Enquanto seguia em direção à porta, minha mãe pegou a toalha velha apoiada em meu ombro e trocou por uma melhor. O mundo da minha mãe tinha algumas regras que eu simplesmente não entendia. E as regras não paravam nas toalhas.

Ela encarou minha camiseta.

Eu sabia reconhecer um olhar de censura. Antes que ela me fizesse trocar de roupa, retribuí o olhar. — É minha camiseta predileta — falei. — Você não usou ontem?

— Sim — confirmei. — É do Carlos Santana.

— Eu sei que é — ela disse.

Meu pai me deu de aniversário.

— Se bem me lembro, você não demonstrou tanta empolgação quando abriu o presente.

— Eu esperava outra coisa.

— Outra coisa?

— Sei lá, outra coisa. Uma camiseta de aniversário? — Olhei para ela e completei: — Acho que eu não entendo ele.

— Ele não é tão complicado, Ari.

— Mas ele não fala.

— Às vezes as pessoas falam, mas não dizem a verdade.

— Talvez — eu disse.

— Só que agora eu gosto da camiseta.

— Dá pra notar — ela comentou, com um sorriso no rosto.

Eu também estava sorrindo.

— O papai me disse que comprou no primeiro show que ele foi.

— Eu estava junto. Lembro bem. Já está velha e gasta.

— Tem um significado sentimental.

— Ah, claro.

— Mãe, é verão.

— Sim — ela disse. — É verão.

— Regras diferentes — eu disse.

— É, regras diferentes.

Eu adorava as regras do verão. Minha mãe as tolerava.

Ela estendeu a mão e passou os dedos no meu cabelo.

— Só prometa que não vai usar de novo amanhã.

— Tudo bem. Prometo. Mas só se você prometer que não vai colocar na secadora.

— Talvez você mesmo devia lavar — ela disse, achando graça. — Só não vá se afogar.

Retribuí o sorriso.

— Se acontecer, não se desfaça do meu cachorro.

O negócio do cachorro era piada. Não tínhamos animais de estimação. Minha mãe entendia meu senso de humor; e eu, o dela. Dava certo. Não que ela não tivesse seus mistérios. Mas uma coisa eu de fato entendia: por que meu pai tinha se apaixonado por ela. Já o porquê de ela ter se apaixonado por meu pai era algo que não me entrava na cabeça. Uma vez, quando eu tinha cinco ou seis anos, fiquei com muita raiva. Queria que ele brincasse comigo, e ele era tão distante. Parecia que eu nem estava lá. Com toda minha raiva infantil, perguntei à minha mãe:

— Como você pôde casar com esse cara?

Ela sorriu e passou os dedos no meu cabelo. Sempre fazia isso. Então me olhou bem nos olhos e respondeu tranquilamente:

— Seu pai era lindo.

Minha mãe nem sequer hesitou.

Fiquei com vontade de perguntar para onde tinha ido toda aquela beleza.

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