Livro ‘A cantiga dos pássaros e das serpentes’ por Suzanne Collins

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UMA HISTÓRIA DA SÉRIE JOGOS VORAZES. AMBIÇÃO O ALIMENTARÁ. COMPETIÇÃO O CONDUZIRÁ. MAS O PODER TEM O SEU PREÇO. É a manhã do dia da colheita que iniciará a décima edição dos Jogos Vorazes. Na Capital, o jovem de dezoito anos Coriolanus Snow se prepara para sua oportunidade de glória como um mentor dos Jogos. A outrora importante casa Snow passa por tempos difíceis e o destino dela depende da pequena chance de Coriolanus ser capaz de encantar, enganar e manipular seus colegas estudantes para conseguir mentorar o tributo vencedor. A sorte não está a favor dele...
Capa comum: 576 páginas  Editora: Rocco Jovens Leitores; Edição: 1 (19 de junho de 2020)  ISBN-13: 978-6556670058  Dimensões do produto: 14 x 3 x 21 cm

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Leia trecho do livro

Para Norton e Jeanne Juster

“Assim fica evidente que durante o tempo em que os homens vivem sem um Poder comum que os subjugue, eles ficam em uma condição chamada guerra; e é uma guerra de todos os homens contra todos os outros homens.”
–Thomas Hobbes, Leviatã, 1651

Parte I
“O MENTOR”

Livro 'A cantiga dos pássaros e das serpentes' por Suzanne Collins

Coriolanus jogou o punhado de repolho na panela de água fervente e jurou que um dia não poria mais aquilo na boca. Mas o dia ainda não era aquele. Ele precisava comer uma tigela grande do alimento pálido e tomar cada gota do caldo para evitar que seu estômago roncasse durante a cerimônia da colheita. Era um item de uma longa lista de precauções que ele tomava para esconder o fato de que sua família, apesar de residir na cobertura do prédio mais opulento da Capital, era tão pobre quanto a escória dos distritos. Que aos dezoito anos, o herdeiro da outrora grandiosa casa Snow não tinha nada além da própria perspicácia para ajudá-lo a viver.

Sua camisa para a colheita o estava preocupando. Ele tinha uma calça social escura aceitável, comprada no mercado clandestino no ano anterior, mas era para a camisa que as pessoas olhavam. Felizmente, a Academia oferecia os uniformes exigidos para uso diário. Mas, para a cerimônia daquele dia, os alunos foram instruídos a se vestirem bem, com a solenidade que a ocasião exigia. Tigris pedira que ele confiasse nela, e ele confiava. Só o talento da prima com a agulha o salvara até ali. Mesmo assim, ele não podia esperar milagres.

A camisa que eles tiraram do fundo do armário, do seu pai, de dias melhores, estava manchada e amarelada pelo tempo, sem metade dos botões e marcada de cigarro em um punho. Danificada demais para ser vendida até nas piores circunstâncias da família, e aquela seria sua camisa da colheita? Naquela manhã, ele fora ao quarto dela ao amanhecer, mas descobriu que a prima e a camisa tinham sumido. Não era um bom sinal. Tigris teria desistido daquela coisa velha e encarado o mercado clandestino em um esforço final e desesperado para encontrar uma roupa adequada? E o que ela teria para a troca? Só uma coisa, ela mesma, e a casa Snow ainda não tinha se rebaixado tanto. Ou estaria se rebaixando agora, enquanto ele salgava o repolho?

Ele pensou nas pessoas botando um preço nela. Com o nariz longo e pontudo e o corpo magrelo, Tigris não era nenhuma grande beleza, mas tinha uma doçura, uma vulnerabilidade que pareciam convidar abuso. Ela encontraria alguém que a quisesse se decidisse assim. A ideia o deixou enjoado, impotente e, consequentemente, repugnado com ele mesmo. No meio do apartamento, ele ouviu a gravação do hino da Capital, “Pérola de Panem”, começar. A voz trêmula em soprano da avó cantou junto e ecoou pelas paredes:

Pérola de Panem
Cidade majestosa,
Com o passar dos anos, você brilha mais.

Como sempre, ela cantou de modo dolorosamente desafinado e com um pouco de atraso. No primeiro ano da guerra, ela tocara a gravação nos feriados nacionais para um Coriolanus de cinco anos e uma Tigris de oito, com o objetivo de desenvolver o senso de patriotismo deles. O recital diário só começou naquele dia sombrio em que os rebeldes de distrito cercaram a Capital, interrompendo o fornecimento de suprimentos pelos dois anos seguintes de guerra. “Lembrem-se, crianças”, dissera ela, “estamos apenas sob cerco… não nos rendemos!” Em seguida, ela cantava o hino pela janela da cobertura enquanto as bombas caíam. Seu pequeno ato de desafio.

Ajoelhamo-nos com humildade
Perante seu ideal,

E as notas que ela nunca conseguia cantar…

E declaramos nosso amor a você!

Coriolanus fez uma leve careta. Já fazia uma década que os rebeldes estavam quietos, mas sua avó não ficava. Ainda faltavam duas estrofes.

Pérola de Panem,
Coração da justiça,
A sabedoria coroa sua testa de mármore.

Ele se perguntou se mais móveis absorveriam parte do som, mas a questão era hipotética. No momento, o apartamento de cobertura era um microcosmo da Capital em si, exibindo as cicatrizes dos implacáveis ataques rebeldes. As paredes do pé direito de seis metros estavam cheias de rachaduras, o teto moldado, cravejado de buracos por causa de pedaços de gesso que caíram, e faixas pretas feias de fita isolante seguravam o vidro quebrado das janelas em arco que davam vista para a cidade. Durante a guerra e a década que se seguiu, a família fora obrigada a vender ou trocar muitos dos bens que tinha, alguns aposentos estavam completamente vazios e trancados, e os outros com mobília esparsa. Pior ainda, durante o frio rigoroso do inverno, no final do cerco, várias peças elegantes e entalhadas de madeira e inúmeros volumes de livros foram sacrificados na lareira para impedir que a família morresse congelada. Ver as páginas coloridas dos livros infantis, os mesmos que ele lia com a mãe, serem reduzidos a cinzas sempre o deixava em lágrimas. Mas era melhor ficar triste do que estar morto. Como já tinha ido a apartamentos de amigos, Coriolanus sabia que a maioria das famílias já começara a fazer reparos nos aposentos, mas os Snow não tinham dinheiro nem para alguns metros de linho para uma camisa nova. Ele pensou nos colegas de escola remexendo os armários ou vestindo ternos novos sob medida e se perguntou por quanto tempo conseguiria manter as aparências.

Você nos dá luz.
Você reúne.
A você fazemos nossa jura.

Se a camisa reformada por Tigris fosse impossível de usar, o que ele faria? Fingiria estar gripado e avisaria que não podia comparecer? Covardia. Comparecer com a camisa do uniforme? Desrespeito. Espremer-se na camisa vermelha de botão que tinha ficado pequena dois anos antes? Péssimo. A opção aceitável? Nenhuma das anteriores.

Talvez Tigris tivesse ido pedir ajuda de sua empregadora, Fabricia Whatnot, uma mulher tão ridícula quanto seu nome, mas com certo talento para moda reciclada. Fosse a tendência penas ou couro, plástico ou plush, ela encontrava uma forma de incorporá-la por um custo razoável. Como não era muito boa aluna, Tigris desistiu da Universidade depois que se formou na Academia e foi atrás do seu sonho de se tornar estilista. Supostamente, ela era aprendiz, mas Fabricia a usava mais como escrava e exigia que ela fizesse massagens em seus pés e limpasse os bolos de cabelo magenta dos ralos. Mas Tigris nunca reclamava e não aceitava críticas da chefe de tão satisfeita e grata que tinha ficado por ter um lugar no mundo da moda.

Pérola de Panem,
Base do poder,
Força na paz, escudo na luta.

Coriolanus abriu a geladeira torcendo para encontrar algo que pudesse dar uma melhorada na sopa de repolho. A única ocupante era uma panela de metal. Quando ele tirou a tampa, deu de cara com uma papa gelada de batatas raladas. Teria sua avó finalmente cumprido a ameaça de aprender a cozinhar? Aquilo era comestível? Ele colocou a tampa no lugar até ter mais informações. Que luxo seria poder jogar aquilo no lixo sem pensar duas vezes. Que luxo seria produzir lixo. Ele se lembrava, ou achava que lembrava, de ser bem pequeno e ver os caminhões de lixo operados por Avoxes – trabalhadores sem língua eram os melhores funcionários, sua avó dizia – roncando pela rua, esvaziando sacos grandes de comida jogada fora, recipientes e itens de casa usados. Depois veio a época em que nada era descartável, nenhuma caloria era indesejada, e nada era impossível de ser trocado ou queimado para se obter calor ou ser preso na parede para fornecer isolamento térmico.

Todos aprenderam a desprezar o lixo. Mas estava voltando à moda. Um sinal de prosperidade, como uma camisa decente.

Proteja nossa terra
Com sua mão armada,

A camisa. A camisa. Sua mente conseguia se fixar em um problema como aquele, ou qualquer outro, sem esquecer. Como se controlar um dos elementos de seu mundo fosse impedi-lo de desmoronar. Era um mau hábito que o cegava para outras coisas que podiam lhe fazer mal. Havia uma tendência à obsessão como parte essencial do seu cérebro que acabaria sendo sua ruína se ele não aprendesse a superá-la.

A voz de sua avó saiu esganiçada no crescendo final:

Nossa Capital, nossa vida!

Velha maluca, ainda se agarrando aos dias pré-guerra. Ele a amava, mas ela perdeu o contato com a realidade anos antes. Em todas as refeições, ela ficava tagarelando sobre a lendária grandeza dos Snow, mesmo quando a refeição era composta de sopa aguada de feijão e biscoitos velhos. E quem a ouvia falar achava que era certo que o futuro dele seria glorioso. “Quando Coriolanus for presidente…”, ela costumava dizer. “Quando Coriolanus for presidente…”, tudo, desde a força aérea precária até o preço exorbitante das costelas de porco, seria magicamente corrigido. Ainda bem que o elevador quebrado e os joelhos com artrite a impediam de sair muito, e seus visitantes infrequentes eram tão fossilizados quanto ela.

O repolho começou a ferver e encheu a cozinha com o cheiro de pobreza. Coriolanus mexeu no vegetal com uma colher de pau. Nada de Tigris ainda. Em pouco tempo seria tarde para ligar e inventar uma desculpa. Todos estariam reunidos no Heavensbee Hall, da Academia. Haveria raiva e decepção da professora de comunicação, Satyria Click, que tinha feito campanha para ele receber uma das vinte e quatro desejadas mentorias dos Jogos Vorazes. Além de ser o favorito de Satyria, ele era monitor dela e sem dúvida ela precisaria dele para alguma coisa hoje. Ela podia ser imprevisível, principalmente quando bebia, e isso era coisa certa no dia da colheita. Era melhor ele ligar e avisar, dizer que não conseguia parar de vomitar ou algo assim, mas que se esforçaria para se recuperar. Ele se preparou e pegou o telefone para alegar que estava mal quando outro pensamento passou pela cabeça dele: se ele não aparecesse, ela permitira que fosse substituído como mentor? E, se ela permitisse, isso enfraqueceria sua chance de ganhar um dos prêmios da Academia oferecidos na formatura? Sem esse prêmio, ele não tinha como pagar a Universidade, o que significaria que não teria carreira, o que significaria que não teria futuro, não ele, e quem sabe o que aconteceria com a família, e…

A porta da frente, torta e barulhenta, se abriu.

– Coryo! – gritou Tigris, e ele botou o telefone no lugar. O apelido que ela deu para ele quando era recém-nascido tinha pegado. Ele saiu voando da cozinha, quase a derrubou, mas ela estava animada demais para reprová-lo. – Eu consegui! Consegui! Bom, consegui uma coisa. – Seus pés deram uma corridinha rápida no mesmo lugar quando ela ergueu um cabide coberto por uma velha capa de proteção de roupas.

– Olha, olha, olha! Coriolanus abriu o zíper e tirou a capa de cima de uma camisa.

Era linda. Não, melhor ainda, era classuda. O linho grosso não era nem o branco original e nem estava amarelado com o tempo, mas de um tom creme delicioso. Os punhos e a gola tinham sido substituídos por veludo preto e os botões eram cubos dourados e preto-ébano. Tésseras. Cada uma tinha dois buraquinhos para a linha passar.

– Você é incrível – disse ele com sinceridade. – E a melhor prima do mundo. –Tomando o cuidado de segurar a camisa com segurança, ele a abraçou com o braço livre.

– Snow cai como a neve, sempre por cima de tudo! – Snow cai como a neve, sempre por cima de tudo! – repetiu Tigris. Foi a frase que os fez aguentar a guerra, quando era uma luta constante não ir parar debaixo da terra.

– Me conta tudo – disse ele, sabendo que ela ia querer contar. Ela amava falar sobre roupas.

Tigris levantou as mãos e deu uma risada baixa.

– Por onde começar? Ela começou com a água sanitária. Tigris tinha sugerido que as cortinas brancas do quarto de Fabricia estavam meio sujas e, ao botá-las de molho com água sanitária, colocou a camisa junto. O resultado foi lindo, mas nem uma eternidade na água sanitária conseguiria tirar completamente as manchas. Assim, ela ferveu a camisa com calêndulas secas que encontrou na lixeira do lado de fora da casa do vizinho de Fabricia, e as flores tingiram o linho o suficiente para esconder as manchas. O veludo dos punhos era de uma bolsa grande que guardava uma placa agora insignificante do avô deles. As tésseras ela tirou do interior de um armário no banheiro da empregada. Ela pediu ao zelador do prédio para fazer os buracos em troca de consertar o macacão dele.

– Foi hoje de manhã? – perguntou ele.

– Ah, não, ontem. Domingo. Hoje de manhã eu… Você encontrou minhas batatas? – Ele a seguiu até a cozinha, onde ela abriu a geladeira e tirou a panela. – Fiquei acordada até de madrugada pra tirar o amido para engomar a camisa. Aí, corri até a casa dos Dolittle para usar um ferro decente. Guardei isto pra sopa! – Tigris virou a maçaroca no repolho que estava fervendo e mexeu.

Ele reparou nas manchas lilás embaixo dos olhos castanho-dourados e não pôde deixar de sentir um pouco de culpa. – Quando você dormiu pela última vez? – perguntou ele. –

Ah, eu estou bem. Comi a casca das batatas. Dizem que é lá que estão as vitaminas. E hoje é a colheita, então é praticamente feriado! – disse ela com alegria.

– Não na casa da Fabricia – disse ele. E em nenhum lugar, na verdade. O dia da colheita era terrível nos distritos, mas também não era bem uma comemoração na Capital. Como ele, a maioria das pessoas não tinha prazer em relembrar a guerra. Tigris passaria o dia fazendo tudo para a empregadora e seu grupo variado de convidados enquanto eles trocavam histórias morosas da provação que viveram durante o cerco e bebiam até cair. No dia seguinte, cuidar deles de ressaca seria pior.

– Pare de se preocupar. Aqui, é melhor você se apressar e comer! – Tigris serviu sopa numa tigela e a colocou na mesa.

Coriolanus olhou para o relógio, tomou a sopa sem ligar se queimava a boca e correu até o quarto com a camisa. Ele já tinha tomado banho e se barbeado, e a pele clara estava, felizmente, impecável naquele dia. A roupa que usava por baixo das vestes da escola e as meias pretas eram boas. Ele vestiu a calça, que era mais do que aceitável, e enfiou os pés em um par de botas de couro com cadarço. As botas estavam pequenas, mas ele conseguia aguentar. Em seguida, vestiu a camisa com cuidado, enfiou-a dentro da calça e se virou para o espelho. Ele não era tão alto quanto deveria ser. Assim como muitas pessoas da geração dele, a dieta pobre provavelmente comprometeu o seu crescimento. Mas ele era atleticamente magro, com excelente postura, e a camisa enfatizava os melhores aspectos do seu físico. Ele não ficava tão majestoso desde que era pequeno e sua avó desfilava pelas ruas com ele de terno de veludo roxo. Ele ajeitou os cachos louros enquanto sussurrava debochadamente para sua imagem:

– Coriolanus Snow, futuro presidente de Panem, eu o saúdo.

Por causa de Tigris, ele fez uma entrada grandiosa na sala, esticando os braços e girando em círculo para exibir a camisa.

Ela deu um gritinho de animação e aplaudiu.

– Você está maravilhoso! Tão lindo e elegante! Vem ver, Lady-Vó! – Esse era outro apelido criado pela pequena Tigris, que achava “vovó” e “vó” insuficientes para alguém tão imperial.

A avó deles apareceu, uma rosa recém-cortada aninhada com amor nas mãos trêmulas. Ela usava uma túnica comprida, preta e esvoaçante, do tipo que era popular antes da guerra, mas bem ultrapassada e risível agora, e um par de chinelinhos bordados com a ponta curva que já tinha sido parte de uma fantasia. Fios do cabelo fino e branco saíam por baixo de um turbante de veludo cor de ferrugem. Era o que restava de um guarda-roupa antes luxuoso; seus poucos itens decentes estavam reservados para quando havia visita ou para as raras idas à cidade.

– Claro que queria, Lady-Vó – disse Tigris. – E ele vai ficar mesmo. Enquanto ela levava Coriolanus para a cozinha, ele lembrou que o autocontrole era uma habilidade essencial e que devia ficar agradecido porque a avó lhe oferecia oportunidades diárias de praticá-lo.

– Ferimentos de perfuração não sangram por muito tempo – prometeu Tigris enquanto limpava e fazia um curativo na mão dele. Ela cortou a rosa, preservou um pouco do caule verde e a prendeu à camisa.

– Fica mesmo elegante. Você sabe o que as rosas significam pra ela. Agradeça.

Ele agradeceu. Agradeceu às duas e foi até a porta, desceu os doze lances decorados de escadas, passou pelo saguão e saiu para a Capital.

A porta da frente dava para a Corso, uma avenida tão larga que oito carruagens passavam lado a lado com conforto no passado, quando a Capital exibia sua pompa militar para o povo. Coriolanus se lembrava de ficar nas janelas do apartamento quando era criança, com convidados se gabando que tinham assentos privilegiados para os desfiles. Mas aí os bombardeiros chegaram, e por muito tempo aquele quarteirão ficou intransponível. Agora, apesar de as ruas estarem finalmente livres, ainda havia pilhas de escombros nas calçadas, e prédios inteiros estavam tão danificados quanto no dia em que foram atingidos. Dez anos depois da vitória e ele estava desviando de pedaços de mármore e granito para seguir para a Academia. Às vezes, Coriolanus se perguntava se os detritos foram deixados para lembrar aos cidadãos o que eles haviam aguentado. As pessoas tinham memória curta. Elas precisavam andar em volta dos destroços, pegar cupons de racionamento de alimentação e assistir aos Jogos Vorazes para que a guerra permanecesse viva na mente. Esquecer podia levar à complacência, e aí todos estariam de volta à estaca zero.

Quando entrou na via Scholars, ele tentou controlar o passo. Queria chegar na hora, mas tranquilo e composto, não todo suado. Aquele dia da colheita, como a maioria, parecia que seria quente. Mas o que mais podia se esperar para um 4 de julho? Ele ficou grato pelo perfume da rosa da avó, pois a camisa quente estava exalando um leve aroma de batatas e calêndulas mortas.

Como a melhor escola secundária da Capital, a Academia educava os filhos dos conhecidos, dos ricos e dos influentes. Com mais de quatrocentos alunos em cada turma, foi possível para Tigris e Coriolanus, considerando a longa história da família na escola, serem aceitos sem grande dificuldade. Diferentemente da Universidade, era gratuita e oferecia almoço e material escolar, além dos uniformes. Qualquer um que tivesse nome estudava na Academia, e Coriolanus precisaria daquelas conexões como base para seu futuro.

A grande escadaria que levava à Academia podia receber todo o corpo estudantil e acomodava facilmente o fluxo de oficiais, professores e alunos indo para as festividades do dia da colheita. Coriolanus subiu devagar, tentando agir com dignidade casual caso alguém olhasse para ele. As pessoas o conheciam, ou pelo menos conheceram seus pais e avós, e havia um certo padrão esperado de um Snow. Naquele ano, a começar por aquele dia, ele esperava alcançar reconhecimento pessoal também. Ser mentor nos Jogos Vorazes era seu projeto final antes de se formar na Academia no verão. Se sua performance como mentor impressionasse, com seu registro acadêmico excelente, Coriolanus poderia ganhar um prêmio monetário substancial que daria para pagar a Universidade.

Haveria vinte e quatro tributos, um garoto e uma garota de cada um dos doze distritos derrotados, sorteados para serem jogados em uma arena e lutarem até a morte nos Jogos Vorazes. Estava descrito no Tratado da Traição que encerrou os Dias Escuros da rebelião dos distritos, uma das muitas punições dadas aos rebeldes. Como no passado, os tributos seriam colocados na Arena da Capital, um anfiteatro agora em ruínas que tinha sido usado para eventos de esporte e entretenimento antes da guerra, junto com algumas armas para que matassem uns aos outros. A Capital encorajava que as pessoas assistissem, mas muita gente evitava. O desafio era tornar o evento mais atraente.

Por causa disso, pela primeira vez os tributos teriam mentores. Vinte e quatro dos formandos mais inteligentes e de melhor desempenho da Academia tinham sido selecionados para a tarefa. Os detalhes envolvidos ainda estavam sendo discutidos. Falava-se de treinar cada tributo para uma entrevista pessoal, talvez alguma preparação para as câmeras. Todos concordavam que se os Jogos Vorazes fossem continuar, precisariam envolver uma experiência mais significativa, e a união dos jovens da Capital com os tributos dos distritos deixou as pessoas intrigadas.

Coriolanus passou por uma entrada decorada com faixas pretas, desceu por uma passagem abobadada e entrou no gigantesco Heavensbee Hall, onde eles assistiriam à transmissão da cerimônia da colheita. Ele não estava atrasado, mas o salão já estava vibrando com a presença de professores e alunos e outros vários envolvidos nos Jogos que não eram necessários na transmissão do dia inicial.

Havia Avoxes percorrendo a multidão carregando bandejas de posca, uma mistura de vinho aguado com mel e ervas. Era uma versão embriagante da bebida azeda que sustentou a Capital na guerra, supostamente protegendo contra doenças. Coriolanus pegou um cálice e passou um pouco de posca pela boca, na esperança de enxaguar qualquer resquício de bafo de repolho. Mas ele só se permitiu um gole. Era mais forte do que a maioria das pessoas achava, e em anos anteriores ele viu gente de classe alta passar vergonha por se embebedar.

O mundo ainda achava que Coriolanus era rico, mas sua única moeda real era o charme, que ele distribuía generosamente enquanto andava pela multidão. Rostos se iluminavam quando ele cumprimentava com simpatia os alunos e professores, perguntava por familiares e fazia elogios aqui e ali.

– Sua aula sobre as retaliações dos distritos ainda me assombra.

– Amei a franja!

– Como foi a cirurgia de coluna da sua mãe? Diga a ela que ela é minha heroína.

Ele passou pelas centenas de cadeiras acolchoadas colocadas para a ocasião na plataforma, onde Satyria estava brindando uma mistura de professores da Academia e representantes dos Jogos com alguma história louca. Apesar de só ter ouvido a última frase (“Bem, eu falei ‘Sinto muito pela sua peruca, mas foi você que insistiu em trazer um macaco!’”), ele se juntou obedientemente às gargalhadas que vieram em seguida.

– Ah, Coriolanus – disse Satyria enquanto acenava para ele se aproximar. – Este é meu melhor pupilo. – Ele deu o esperado beijo na bochecha dela e registrou que a mulher já estava vários copos de posca à frente dele. Ela precisava controlar a bebida, embora a mesma coisa pudesse ser dita de metade dos adultos que ele conhecia. A automedicação era uma epidemia na cidade. Ainda assim, ela era divertida e não severa demais, uma dentre poucos professores que permitiam que os alunos chamassem pelo primeiro nome. Ela se afastou ligeiramente e o observou. – Linda camisa. Onde você conseguiu uma peça assim?

Ele olhou para a camisa como se estivesse surpreso por sua existência e deu de ombros, como um jovem que tem opções infinitas.

– Os Snow têm armários grandes – disse ele distraidamente. – Eu queria um visual respeitoso, mas também comemorativo.

– E conseguiu. O que são esses botões exóticos? – perguntou Satyria, mexendo em um dos cubos no punho. –Tésseras?

– São? Bom, isso explica por que me lembram do banheiro da empregada – respondeu Coriolanus, arrancando uma risada dos amigos dela. Era essa impressão que ele lutava para manter. Um lembrete de que ele era uma das raras pessoas que tinham um banheiro de empregada, ainda mais com piso com a padronagem de tésseras, temperado por uma piada autodepreciativa sobre a camisa.

Ele assentiu para Satyria.

– Lindo vestido. É novo, não é? – Ele percebeu só por um olhar que era o mesmo vestido que ela sempre usava na cerimônia da colheita, reformado com tufos de penas pretas. Mas ela validou a camisa dele, e ele precisava retribuir o favor.

– Mandei fazer especialmente para hoje – respondeu ela, aceitando a pergunta. – É o décimo aniversário, afinal.

– Elegante – disse ele. De um modo geral, eles não eram uma equipe ruim.

O prazer dele sumiu quando viu Agrippina Sickle, professora de Educação Física, usando os ombros musculosos para abrir caminho na multidão. Atrás dela estava seu monitor, Sejanus Plinth, que carregava o escudo ornamental que a professora Sickle insistia em segurar na foto de turma de cada ano. Fora dado a ela no final da guerra por supervisionar com sucesso os exercícios de segurança durante os bombardeios.

Não foi o escudo que chamou a atenção de Coriolanus, mas o traje de Sejanus, um terno macio cor de carvão com uma camisa branca ofuscante contrabalançada por uma gravata estampada, feita para acrescentar fluidez ao corpo alto e anguloso. O conjunto tinha estilo, ar de novo e cheiro de dinheiro. Lucro de guerra, para ser mais preciso. O pai de Sejanus era um fabricante do Distrito 2 que ficara do lado do presidente. Ele fez uma fortuna tão grande com munições que conseguiu comprar a entrada da sua família para a vida na Capital. Os Plinth agora tinham privilégios que as famílias mais antigas e poderosas só conquistaram ao longo de gerações. Era inédito que Sejanus, um garoto nascido em um distrito, fosse aluno da Academia, mas a doação generosa do pai dele permitiu a reconstrução de boa parte da escola no pós-guerra. Um cidadão nascido na Capital esperaria que um prédio fosse batizado em sua homenagem. O pai de Sejanus só pediu estudo para o filho.

Para Coriolanus, os Plinth e gente como eles eram uma ameaça a tudo que ele amava. Os novos ricos da Capital estavam destruindo a antiga ordem com sua mera presença. Era particularmente irritante porque boa parte da fortuna da família Snow também foi investida em munições… mas no Distrito 13. Seu complexo enorme, quarteirões e mais quarteirões de fábricas e unidades de pesquisa, bombardeado até virar pó. O Distrito 13 sofreu um ataque nuclear e toda a área ainda emitia níveis de radiação que impediam que se vivesse lá. O centro da manufatura militar da Capital mudou para o Distrito 2 e caiu no colo dos Plinth. Quando a notícia da destruição do Distrito 13 chegou à Capital, a avó de Coriolanus tratou a situação publicamente com indiferença, dizendo que era sorte eles terem tantos outros bens. Mas eles não tinham.

Sejanus chegara no parquinho da escola dez anos antes, um garoto tímido e sensível observando com cautela as outras crianças com um par de olhos castanhos sofridos e grandes demais para o rosto tenso. Quando a notícia de que ele tinha vindo de um distrito se espalhou, o primeiro impulso de Coriolanus foi se juntar à campanha dos colegas para tornar a vida do garoto novo um inferno. Mas, pensando melhor, ele o ignorou. Se as outras crianças da Capital entenderam isso como significado de que o pestinha do distrito estava abaixo dele, Sejanus interpretou como decência. Nenhuma interpretação era a correta, mas ambas reforçavam a imagem de Coriolanus como um sujeito de classe.

Uma mulher de grande estatura, a professora Sickle foi até o círculo de Satyria, espalhando seus inferiores por todo lado.


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