Um Bebê Por Contrato: Irmãos Oviedo – Livro de D. A. Lemoyne

Trecho do livro

NOTA DA AUTORA:

Um Bebê Por Contrato é o segundo livro da série Irmãos Oviedo e contará a história de Joaquín Oviedo, um promotor de justiça mal-humorado, herdeiro de uma família com sobrenome tradicional e Bianca Ortiz, uma jovem amorosa e capaz de qualquer sacrifício por sua família.

Tanto a menina doce e inocente, quanto o homem arredio não estavam preparados para uma armadilha do destino, mas quando o amor tem que acontecer, nada o impedirá.

Apesar de ser uma série, cada livro será protagonizado por um casal diferente e pode ser lido independentemente dos outros. Ainda assim, o livro posterior provavelmente conterá spoilers dos anteriores.

Eu amei escrever a história desse casal e espero que apreciem também.

Um beijo carinhoso e boa leitura.

D.A. Lemoyne

Joaquín

Em algum lugar de Massachusetts
Aos nove anos de idade

— Eles não vão vir. Sabe o que isso significa? Nós vamos ter que vender você para outra família. Não podemos deixá-lo aqui nos Estados Unidos, mas há muitos casais ricos em outros países dispostos a dar um bom dinheiro por um garoto loiro de olhos azuis. Se seus pais não querem pagar o preço para levá-lo de volta para casa, nós encontraremos quem pague.

Tento fingir que não estou escutando. Ser forte e corajoso como meu irmão Guillermo porque não quero que esses homens vejam o quanto estou apavorado.

Faz seis dias que eles me trouxeram. Eu estou contando. Minha cabeça às vezes fica confusa, então resolvi amontoar umas pedrinhas que encontrei no chão do quarto para não me esquecer.

Por que papai não veio ainda? Eles disseram que querem dinheiro e isso minha família tem bastante.

Será que esses homens estão falando a verdade? Que os meus pais sabem que eles me pegaram e mesmo assim não querem pagar o que estão pedindo para que eu seja devolvido? Eu queria que Guillermo já fosse um adulto. Meu irmão nunca me deixaria aqui. Nele eu confio. Eu confiava em papai e mamãe também, mas agora já não sei mais.

— Está me escutando, garoto? Eu sei que você entende o que eu digo e que está com medo. Deveria ter mesmo. — Ainda que eu não olhe para ele, eu sei que está rindo. Faz isso sempre. Dá sorrisos malvados, como se estivesse feliz por me assustar. — Es-tou pensando aqui que nós erramos em pegar você. Sua família não dá a mínima se vai voltar ou não. Acho que depois que o ven-dermos, traremos a garotinha. Ela sim deve valer um bom dinheiro.

O quê? Pegar minha Martina? Minha irmãzinha?

Sinto dor atrás dos olhos de tanta força que faço para não chorar. Fecho minhas mãos bem apertadas para conseguir ficar quietinho porque tenho vontade de ir até onde o homem está e chutar suas canelas.

— Tudo bem. Já vi que você não quer conversar. Vou embora, mas pense no que eu disse. Pode ser que amanhã você já acorde em outro país.

Assim que ele sai, pego um caixote de madeira que encontrei embaixo da cama. Sem aquilo, não consigo alcançar a janela pequena e alta. Coloco-o perto dela. Desde o primeiro dia eu subi nele e olhei para fora. Existem casas velhas ao redor.

A janela é uma passagem bem apertada, mas acho que consigo atravessá-la. Eu estava com medo de me cortar nos cacos de vidro porque ela está quebrada, mas isso foi antes, quando pensei que meu pai virar me salvar.

Agora, acho que vou ter que fugir sozinho, então, tive uma ideia.

Volto à cama e pego o cobertor. Enrolo em minha mão como vi um homem fazendo em um filme de ação e dou socos nos cacos de vidro, quebrando os pedaços que faltam.

Pronto. Do jeito que ficou, só com pontinhas de vidro, mesmo que eu me corte, não vai ser tanto assim. Preciso voltar para casa. Ainda que meus pais não liguem para mim como esse homem disse, eu não posso deixar que eles peguem a minha irmã.

Eu corri tanto que não consigo respirar.

Meus pulmões estão ardendo como se estivessem pegando fogo, mas eu não paro até encontrar uma loja. Tem um placa escrito “aberto” na porta. Empurro-a de qualquer jeito, com medo de que eles estejam atrás de mim e fico aliviado quando vejo uma mulher de cabelos brancos lá dentro.

— Boa noite, meu amor. Não está um pouco tarde para você andar sozinho por aí? — Ela pergunta.

— Eu não estou andando — falo, tomando fôlego. — Eu fugi. Meu nome é Joaquin Oviedo. Eles me sequestraram. Ligue para a polida.

Os olhos dela se arregalam. Ela dá a volta no balcão e vem para perto de mim.

— Você é da família Oviedo? Pode me dizer qual é o nome do seu pai?

— Stewart Caldwell, mas não chame meu pai. Ele não se importa comigo. Ia deixar que aqueles homens me vendessem. Fale com meu irmão Guillermo. Ele sim, vai vir me salvar.

Capítulo 1

Joaquín

Boston — Massachusetts
Vinte e três anos depois

Conto mentalmente até dez, fazendo uma pausa calculada antes do encerramento. Encaro os jurados sem piscar, tentando adivinhar se algum deles está prestes a colocar tudo a perder.

Não. Eu os tenho exatamente onde quero.

Eles já estão convencidos. Posso ver pela maneira como acompanham atentamente o que falo.

Meu veredito está garantido.

Aceno com a cabeça, como se estivesse dando um tapinha nas costas de cada um e elogiando o bom serviço que prestarão dentro de alguns minutos, tirando mais um assassino das ruas. Somente então, começo a falar.

— Não tenho a menor dúvida de que quando retornarem, só poderá haver uma decisão: culpado.

Volto a me sentar, enquanto a advogada de defesa tenta fazer mágica em seu discurso final, embora ambos saibamos que o caso já está perdido para ela.

Meia hora depois, quando termina, guardo os papéis na pasta. Agora, já totalmente indiferente a todos ao meu redor. É como se minha mente se desligasse do universo, colocando-o no mudo.

Minha irmã caçula, Martina, diz que eu levo o conceito de introspecção a um outro nível.

Não acho que seja o caso. Só não gosto de seres humanos em boa parte do tempo. Interagir é somente um mal necessário.

Tudo bem. Vou conceder que existem algumas exceções. Minha família, Olívia e minhas três sobrinhas.

Talvez Carter, meu único amigo.

É isso. Acho que não consigo lembrar de mais ninguém.

— Doutor Joaquin, o senhor saiu na capa de uma revista —meu assistente, Daniel, diz.

Mesmo sem levantar a cabeça para olhá-lo, noto que está rindo. Ele sabe o quanto odeio exposição, mas infelizmente é uma espécie de praga. Tanto por causa do meu sobrenome, quanto por ter estado no olho do furacão no combate ao crime organizado. A mídia resolveu vender a minha imagem como a de um super-herói.

Finjo que não escutei, mas ele é persistente — ou talvez só não tenha senso de autopreservação mesmo.

— O solteiro mais sexy, hein! Meu Deus, eu daria o pulmão esquerdo para ganhar um título assim.

— E de que serve ser tão sexy se ele nunca telefona no dia seguinte? — Emília, a advogada de defesa e também uma mulher com quem saí uma vez e nunca desejei repetir a dose, fala.

Ela está parada a poucos centímetros de nós e parece bem chateada.

Ignoro a ironia no que diz respeito ao seu ataque pessoal e me atenho somente à parte prática.

— Ele será condenado — falo.

Não estou dizendo aquilo para provocá-la. Irritar as pessoas demanda uma energia que não sinto vontade de desperdiçar. Além disso, segundo meus irmãos, eu possuo esse dom natural. Não preciso me esforçar para ser detestado.

— Você é um convencido, doutor Joaquin Oviedo.

Pela minha visão periférica, percebo que meu assistente está atento à troca entre nós.

É, aparentemente ela não consegue separar o pessoal, que nem foi tão pessoal assim, já que só saímos uma única vez, do profissional.

— Vocês deveriam ter aceitado o acordo que oferecemos. —Continuo. — Espero que tenha avisado à família do réu que terão que fazer visitas dominicais pelo resto da vida dele.

Antes que ela possa responder, meneio a cabeça à guisa de despedida e me encaminho para a saída, evitando propositadamente a família da vítima porque eu sei o que viria em seguida se conseguissem falar comigo.

Agradecimentos. Lágrimas. Bençãos.

Eu não quero ou preciso disso. Não fiz por eles, mas para afastar outro maldito criminoso da sociedade.

— Aquela interação entre vocês lá dentro foi quente. Ela está totalmente na sua — Daniel diz.

— Você deveria manter sua mente mais focada no trabalho e menos nas mulheres.

— É impossível. Trabalhar com o senhor é como ter um laboratório ambulante de como fazê-las correr atrás sem esforço. É melhor do que qualquer curso de namoro que já me inscrevi.

— Espera. — Paro de andar e o encaro perplexo. — Você está me dizendo que se inscreveu em um curso de namoro? Como diabos funcionaria algo assim?

Geralmente ignoro esse tipo de informação inútil, mas estou realmente interessado pela bizarrice da coisa.

— Simples. É como uma espécie de tutorial. Com todo respeito, mas nem todos têm a sorte de contar com a sua aparência — alto, forte e de olhos azuis, — então é preciso ser criativo, já que a concorrência é feroz.

— Eu quero um exemplo — exijo. — O que você está dizendo me soa como uma espécie de código secreto.

Ele me olha com um ar de superioridade.

— Vamos lá. Por onde começo? Ah, sim. Nós homens somos umas bestas no que diz respeito a romantismo.

Não tenho como negar. As mulheres dão importância à coisas que na minha cabeça não faz o menor sentido. Eu saí com uma por um tempo e acho que no segundo encontro, reclamou que eu não reparei que ela havia cortado dois centímetros de cabelo. Dá para acreditar em algo assim?

— Isso dito — continua — precisamos aprender a como cuidar de detalhes. O curso é uma verdadeira enciclopédia sobre mulheres. Até mesmo como agir quando elas estão naquele determinado período do mês eles ensinam. Nós aprendemos que precisamos dar: flores, carinho e muito chocolate. Não necessariamente nessa ordem.

— Você está ouvindo a si mesmo? Essa conversa é estranha demais.

— Não há nada de estranho. Eu quero me tornar um expert na alma feminina. Depois disso, vou formar meu próprio harém. — Tudo bem, sultão, mas eu o aconselharia primeiro a tentar dar conta de uma de cada vez. Sabe como é? Passinhos de bebê. Vamos voltar ao trabalho agora. Enquanto você não consegue montar seu próprio harém, há uma pilha de processos nos esperando.

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