O Coração do Quarterback – Livro de Aurelio Collins

O Coração do Quarterback - Livro de Aurelio Collins

Trecho do livro

O Coração do Quarterback - Livro de Aurelio Collins

Prólogo

Contornei com delicadeza o traço peculiar que se formou na tela ao tocar o pincel em sua textura, deslizando com cautela e sem pressão o entorno simplificado e sinuoso do desenho, extraindo os mínimos e complexos detalhes, frisando o vermelho, como um amadurecimento de cor, destacando o rabisco frágil, apreciando a melodia sinuosa tocando em meus ouvidos enquanto modelava a pincel o quadro, subindo um traço ao redor do leve contorno vermelho. Mais uma vez tomando posse de uma das cores da aquarela, agora tingindo traços escuros de um verde brilhante, dando cor e vida ao formar uma silhueta nítida de uma folha sobre o rabisco vermelho de uma maçã. Meus lábios formaram um sorriso vitorioso ao observar meu trabalho, balançando de leve minha cabeça ao ritmo da música tocando em meus fones de ouvido, apreciando o som de violinos em uma perfeita performance orquestral. Desviei meu olhar de minha tela para logo a frente, onde havia uma maçã no centro da sala, posta sobre uma banqueta de madeira.

Fixei meu olhar em cada detalhe da fruta, buscando o menor risco, voltando a deslizar com cuidado o pincel na silhueta nítida da folha, rabiscando um pequeno traço em seu entorno para destacar sua cor vibrante. Já havia recebido dezenas de críticas a respeito de minha falta de cores vivas e focos omitidos nos detalhes. O fundo multicolor foi uma ótima estratégia, creio eu; os outros haviam optado por algo mais claro e cheio de luz, enquanto eu misturava as cores mais espontâneas em leves contrastes, com todo o destaque sendo o rabisco nítido e bem traçado da maçã. Eu havia optado por recolher toda a essência na pintura, as cores escolhidas haviam ajudado nisso.

Mordi meu lábio, o sorriso enorme preso em minha face, dando por finalizado meu trabalho, admirando o resultado final.

A mentora se aproximou atenta, o olhar avaliador cintilando em sua face séria.

Retirei meus fones, dando espaço para que ela pudesse ver minha tela.

Ajustou seus óculos redondos sobre seu nariz com a ponta de seu dedo indicador.

— Ótimo trabalho, senhorita Mason — exclamou, sem demonstrar uma emoção sequer sobre o que seu comentário realmente significava. — No entanto, creio que ainda não tenha compreendido tudo que lhe instruí a respeito de trazer a realidade para os desenhos. Suas pinturas são muito superficiais; o necessário para pintar é trazer a essência da realidade para os quadros e dar vida a eles. Sua tela é algo visual, apenas isso, entende? É como uma folha flutuando ao ar, você tenta tocá-la para sentir sua textura, apenas em vão. Continue tentando, querida. Isso ainda não é o seu máximo.

E com isso se afastou para o próximo, deixando-me sem reação alguma e com um sorriso congelado em minha face.

Maldição. Isso só podia ser sacanagem. Era minha quarta tentativa falha nesse mês. Desse modo não serei aprovada em nenhuma agência ou academia profissional de arte em Los Angeles, com todas essas críticas do Conselho majoritário do curso, e é claro, de minha mentora, a senhorita Geneviève.

Afinal, o que havia de errado com meus desenhos? Bufei, fixando meu olhar na tela a minha frente, espiando a da garota ao lado, que a mentora parabenizava, chegando até mesmo a comparar com a minha. Se bem que a sua era em tons mais neutros, com silhuetas destacadas e foscas, que pareciam fazer a pintura cintilar.

No instante em que a aula enfim acabou, coloquei meus desenhos em uma pasta e deixei a sala, ajustando minha bolsa de uma alça em meu ombro.

— Não entendo como consegue sobreviver a esse tipo de tortura. — Elise grunhiu, encostada em uma enorme coluna quando saí do prédio do curso. — Eu provavelmente não resistiria a três minutos.

— Isso porque você não entende nada de arte — retruquei ao me direcionar até ela.

— Conheço outro tipo de arte.

Minha amiga riu, sarcástica.

Rolei meus olhos com seu comentário.

— Não seja uma escrota.

— Só estou dizendo a verdade. — Abraçou-me, deixando seu braço em meu ombro ao nos separar. — Como se saiu no teste?

Respirei fundo, frustrada.

— Mau. — Decretei, o tom indignado. — Outra vez.

— Merda. Aquela vaca fez outra crítica?

Dei de ombros.

— Acho que não consigo chegar ao meu potencial. — Passei minha língua por meus lábios para umedecê-los. — De acordo com Geneviève, não consigo trazer a essência da realidade para a arte.

Elise resmungou, preparada para diversos discursos que poderiam me apoiar.

Dane-se Geneviève. Você é incrível. —

Então diga isso a ela.

Joguei minha cabeça para trás, gemendo.

Se eu não tiver pontos suficientes para ser aprovada no Conselho com minhas pinturas, não conseguirei entrar em uma academia de arte que almejo desde que comecei a desenhar.

Essa sempre foi minha vontade, desenhar tudo à minha volta; desde pequena sempre me dediquei a isso, e agora estava vendo tudo ir por água abaixo.

Preciso passar no teste final, tenho de mostrar um trabalho que agrade aos críticos do Conselho. Era isso, ou adeus aos meus mais brilhantes sonhos.

— Seus desenhos são incríveis. — Buck concluiu ao olhar meu caderno de artes, sorrindo abobalhado para cada página que passava.

Sorri em agradecimento, devorando minhas batatas fritas, observando suas reações diante de meus desenhos.

— Eu disse que eram fantásticos… — Elise esbravejou ao meu lado, tomando um gole de seu suco.

— Sua opinião não conta. Ela semicerrou os olhos para mim.

— Por que sou sua melhor amiga?

Apenas confirmei com a cabeça para sua indagação.

— Não entendo porque recebe críticas, Mera, suas pinturas são deslumbrantes. — Nina, outra amiga minha, opinou ao lado de Buck.

Dei um leve arfar como resposta.

Após um dia exaustivo, nós quatro resolvemos ir ao pub da universidade — como sempre fazemos — para tomarmos algo. Era um prédio dentro do campus, como uma espécie de lanchonete dos universitários, alguns até trabalhavam aqui nas aulas vagas.

— Acreditem, não é o que o Conselho acha.

— Então que se danem eles.

Sorri para Buck.

— Foi o que eu disse a ela. — Elise ergueu seu copo como se brindasse a isso.

— Não consigo compreender o que sua mentora quis dizer com seus desenhos serem superficiais demais. — Nina, sem tirar os olhos dos desenhos, como Buck, comentou, o tom carregado de confusão.

Deslizei minha língua por meus lábios, pensando em uma boa explicação para ela, que na verdade, até eu mesma buscava compreender.

As instruções de minha mentora e do Conselho continuavam como enigmas para mim.

— Ela acha que meus desenhos não são reais. Que devo tentar focar na realidade ao extremo. No semestre passado, quando mostrei meus melhores trabalhos para os críticos do Conselho, eles disseram o mesmo, que eu deveria trazer algo mais real e vivo para as telas. Algo intenso e peculiar — justifiquei, sem deixar o escárnio de lado em meu tom. — Ainda disseram que minhas pinturas não expressam emoção alguma.

— E eu achando que arquitetura era complicado. — Nina exclamou, sorrindo.

— Deixa eu ver se entendi. — Buck ajustou sua posição no assento, franzindo o cenho ao pensar. — Eles querem que você desenhe algo que traga realidade e peculiaridade para suas telas?

— Emoções também. — Elise emendou, colocando mais uma peça no quebra- cabeças que Buck parecia montar.

— Basicamente — assenti.

— Como pintar pessoas?

Fitei Elise, pensando a respeito de sua pergunta.

— Não sei bem. — Ergui os ombros. — Acho que sim, ou talvez não.

Ora! — Nina riu. — Se precisar de uma inspiração para suas telas, é só me dizer e poso para você.

Todos na mesa caíram na risada. Ela pestanejou em xingamentos para cada um.

— Pensarei a respeito.

Balancei minha cabeça rindo.

— Céus. — Elise arquejou, nada em particular para si. — Ele sim daria uma obra de arte e tanto.

Franzi meu semblante ao vê-la morder seus lábios, focando sua atenção para um ponto atrás de mim.

Quando virei, compreendi o motivo para sua atenção estar tão atiçada.

Um cara enorme entrava no pub, e com todo seu tamanho, era impossível não encará-lo.

E não era apenas por isso.

O cara era quente como uma maldita chama. Parecia chamuscar de tão ardente. Envolto por brasas invisíveis que atraíam olhares a metros de distância para toda aquela magnitude.

Dono de um corpo bronzeado e escultural, com músculos distribuídos por todo seu enorme corpo. Usava uma regata branca, destacando os braços torneados e grossos com bíceps contraídos, e o mais incrível de tudo, com lindos e longos cabelos cacheados de um castanho-claro dourado, espessos, indo até a altura do queixo e das orelhas, com as pontas tocando os ombros largos.

Enrubesci apenas com minha avaliação mental.

Ele era brutalmente bonito, a mandíbula afiada e as maçãs do rosto em perfeita simetria com a linha do maxilar. Cada traço era acentuado e ridiculamente belo.

Seu andar era decidido e impotente, como se ele fosse a droga de um rei perante todos.

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