Duas Vidas Um Destino – Livro de Simone Schneider

Duas Vidas Um Destino - Livro de Simone Schneider

Trecho do livro

Esse livro é escrito em terceira pessoa, além de contar a história de uma mocinha inocente e bobinha, tendo como mocinho um homem arrogante e frio, o famoso cavalo, então te peço, se você não aprecia esse tipo de leitura, por favor, não deixe uma avaliação negativa usando isso como desculpa, isso só prejudica o autor, que nada mais faz do que criar histórias que a dominam.

Desde já, agradeço. Boa leitura.
Atenciosamente, Simone Schneider

Para Michelle Castelli e Jhonata Avelino.

Qualquer um pode amar uma rosa,
Mas é preciso um grande coração
Para incluir os espinhos. Clarice Lispector

Duas Vidas Um Destino - Livro de Simone Schneider

Emily sabia que estava muito encrencada, grávida de cinco meses aos dezenove anos e desde então tudo havia dado errado, a começar por sua gestação não ter sido planejada pela própria, não que não sonhasse em ter filho, ela almejava isso mais que tudo, família era o que mais desejava.

Sempre desejou ser mãe, mas não assim, não do jeito que seria, não da forma que tudo aconteceu.

Afastou da mente as lembranças, não queria lembrar da loucura que cometeu, do ato impulsivo, que a trouxe até aqui, até esse momento fatídico. Começava a ficar com as mãos suadas, o coração batendo mais forte contra as suas costelas e o ar querendo faltar, tudo isso era o medo, sabia muito bem e sempre o usava para recuar, para deixar de fazer o que devia.

Era injusto, ele precisava saber, não podia esconder para sempre, não pensou em fazer isso, estava apenas esperando o melhor momento. Mas acabou sendo no momento em que eu nem planejei direito. Ralhou consigo mesma. Por um momento pensou que agir por impulso fosse o ideal.

Puxou o ar com mais força e tentou controlar as emoções, se houvesse outro jeito, o usaria sem pensar duas vezes, entretanto, nem tudo era tão simples, não para ela e sabia por experiência própria que não existia nada ruim que não pudesse piorar.

Estava em frente ao grande arranha céu da International Daime e procurava coragem para entrar, tinha que entrar, pois o tempo estava se esgotando, tinha que ser o quanto antes, precisava deixar de ser uma tremenda medrosa e fazer tudo.

Ergueu o rosto para vislumbrar toda estrutura, vidro e metal, fria e luxuosa. Podia ser visto de vários pontos do centro da cidade e um pouco mais além, o que a impedia de esquecer tudo o que fez. Acima dele, somente as nuvens densas. Dentro daquele prédio, estava o seu destino, de certa forma.

Nos primeiros meses dizia para si mesma que tinha que fazê-lo para não ficar com a consciência pesada pela vida toda, porém no último mês isso virou mais que uma necessidade, virou algo de extrema importância. Perguntou-se se seria bem recebida, mas estava apenas se enganando.

– Droga! – Resmungou consigo mesma, tão baixo, que as pessoas que passavam indo e vindo, nem ouviram, ou se tivesse, nem deram um pingo de atenção. Devia ter ligado, mas tinha quase certeza de que não seria atendida. E como poderia? Continuava a ser uma desconhecida.

Percebendo seu nervosismo os pequenos seres em seu ventre mexem freneticamente, buscando espaço, ainda são pequenos, seria mãe de gêmeos bivitelinos, até então, não podia acreditar, o movimento de ambos era algo agradável e reconfortante avisando que estavam bem, que estavam seguros e que estavam com ela.

Havia começado a senti-los no começo da semana e havia chorado tanto, um misto de sensações desconhecidas, mas agora compreendia, que não estava mais sozinha, que tinha duas crianças dentro de si, que logo viriam ao mundo e a chamariam de mamãe. Conhecia várias outras grávidas agora, e algumas delas estavam no começo da gestação e já sentiam seus bebês, temia que algo estivesse errado e realmente estava, infelizmente.

Acariciou o ventre e enxugou as lágrimas teimosas que corriam pelo seu rosto, tinha que ser forte, precisava ser, pelos seus pequenos, por sua Karen e seu Kevin.

Havia escolhido Karen em homenagem a sua mãe se fosse menina e Kevin pelo nome do pai do bebê, se fosse um menino, mas o destino foi travesso e lhe deu os dois juntos. A princípio, ficou desesperada de medo, foi um tremendo choque, quando a médica mostrou na tela dois bebês e não um, afinal, duas crianças exigem muito, e a moça não era do tipo que tinha uma rede de apoio na cidade em que vivia, os poucos parentes que tinha, viviam longe e não eram muito íntimos.

Bocejou, já estava quase na hora da sua soneca, a gravidez a fazia dormir por horas a mais que o normal e diversas vezes ao dia, mudando totalmente seus hábitos, já que dormia muito pouco e sempre acordava cedo, para que seu dia rendesse o máximo.

Precisava entrar naquele maldito prédio o quanto antes ou voltar pra casa como uma fracassada, era como se sentia, mas afastou o pensamento pessimista. Ela suspirou, só de pensar no que teria que enfrentar, quando ultrapassasse aquelas portas de vidro.

— Você consegue, Emily! – Incentivou a si mesma, na esperança de se convencer, respirou fundo ao menos cinco vezes. Lentamente se aproximou da entrada, se forçando a isso, pois tinha medo, não tinha como não ter, afinal, trazia junto consigo, uma bomba e não gostava da ideia, nenhum pouco, no entanto, adiantou os passos quando chegou à porta para que pudesse entrar logo, antes que sua coragem fosse embora.

A porta abriu automaticamente, mostrando o grande e luxuoso saguão com seu chão brilhante de porcelanato cinza, havia espelhos em toda parte, viu seu reflexo em um e não gostou do vislumbre de si mesma. Estava pálida e grande, sorriu, na verdade, seu ventre era a única coisa volumosa em seu corpo, seus braços estavam finos e suas pernas haviam perdido as coxas grossas que antes odiava.

Estava com um vestido branco florido confeccionado por ela mesma, assim como o casaquinho de crochê roxo, a única joia que possuía era uma gargantilha, a qual tinha um pingente em formato de coração na ponta, dentro havia uma foto antiga de casamento de seus pais. A única que tinha desde o incêndio que a deixou órfã com apenas dez anos. Trazia consigo uma bolsa à tira colo, seus cabelos encaracolados e castanhos estavam soltos e chegava até a cintura, ela parecia uma menina grávida e frágil. Ao redor de seus olhos castanhos escuros, haviam olheiras, acentuadas por sua pele pálida, quase sem vida, dormiu mal na noite anterior, ansiosa tanto pela consulta, quanto pela visita que decidiu fazer ao pai de seus filhos.

Desviou os olhos do espelho grande e suntuoso. Quantas vezes estivera ali, naquele saguão se encarou naquele mesmo espelho e não conseguia fazer o que devia? Diversas vezes, desde que descobriu que estava grávida e todas às vezes voltou atrás, era uma covarde, a maior de todas. Agora é diferente, dizia a si mesma mais uma vez.

Não seguiu até o balcão imenso de recepção, aquela era a hora em que os funcionários chegavam, então, sua presença não era notada. Entrou rapidamente no elevador, quando o mesmo abriu, antes que recuasse mais uma vez, apertou o número do andar desejado e esperou. Sua mente gritava que devia recuar, que devia guardar o segredo para si, mas a necessidade também estava presente, a lembrando que não tinha outro jeito.

Quando as portas lentamente foram se fechando, mãos a impediram, o movimento inesperado assustou Emily terrivelmente, mas ficou ainda pior, a moça ficou sem chão quando notou quem impediu as portas de se fecharem, notou quem entrou no elevador, assim como ela, ele também estava surpreso, viu isso nos olhos de Kevin, o homem parecia ser um fantasma, não esperava que o confronto fosse ocorrer assim, não esperava que o destino se encarregaria de o colocar diante de si assim, de forma inesperada, esperava o encontrar em sua sala, atrás de sua mesa. Um instante antes de desfalecer, viu a dureza tomar conta das feições de Kevin Daime e antes de perder os sentidos ele a amparou com seus braços fortes.

Antes de abrir os olhos, Emily tocou o ventre como de costume e logo seus bebês responderam seu pedido silencioso de mostrar que estavam bem, chutavam e se contorciam dentro do espaço que dividiam. Sorriu agradecida.

— Que bom que você acordou. — A voz fria de Kevin Daime a despertou por completo. Assustada, levantou rápido demais e tudo começou a girar a sua volta, como se estivesse em um carrossel. As mãos quentes de Daime a amparam, e só então lembrou do desmaio no elevador, a recordando de o porquê estar ali, com ele. — Sente-se, antes que desmaie mais uma vez. — A ordem fora apenas sussurrada, mas ela não pode deixar de acatar, pois o tom deixou todo seu sangue enregelado. — Mas que droga, Júlia onde está o maldito médico? — Gritou ele demonstrando impaciência.

Emily, apenas fechou os olhos e recostou a cabeça no sofá, onde foi sentada novamente, o lugar em seu braço, onde Kevin Daime havia tocado, queimava de forma assustadora, era incrível como seu corpo reagia a um simples toque dele, fazendo suas terminações nervosas entrarem em pânico e seu coração saltar descompassado.

Respirou lentamente várias vezes e só quando relaxou abriu os olhos e entendeu o que ele gritava com a assistente.

— O médico já está a caminho. — Anunciou a loira exuberante de olhos fatais como uma cobra, parou de encarar quando a moça se voltou para ela, em seu semblante nenhuma emoção, sequer empatia pelo estado da gestante.

— Médico? Não preciso de um, estou bem. — Avisou com a voz fraca. Estava na sala dele, tinha certeza, a perfeição em cada detalhe dizia que aquela sala pertencia a Kevin Daime e ali ele trabalhava diariamente.

A mesa no meio da sala era grande e organizada, nada estava fora do lugar, um iMac e um MacBook estavam de frente para a poltrona confortável onde ele se sentava, assim como alguns aparelhos de telefone que tocavam quase que silenciosamente.

Aos fundos estava uma varanda enorme, onde em uma das paredes havia uma pequena cachoeira ornamental, que caia tranquilamente num lago artificial, onde peixes de várias espécies nadavam, cada um mais bonito e colorido que o outro.

Ao meio do lago havia uma ponte de madeira que levava até a parede de vidro de onde se podia ver toda a cidade e mais além o mar azul. Era de tirar o fôlego, por isso, desviou os olhos, pois tinha medo de altura e não queria pensar o quanto estava no alto naquele momento. Kevin desligou o aparelho celular um instante depois de o atender e voltou a olhar para ela, desviou os olhos dele também, ainda não estava pronta, pelo que pôde notar.

— Você precisa sim, de um médico, desmaiou.

— Estou me sentindo perfeitamente bem, desmaios são comuns no meu estado, guando sou sobressaltada. — Os olhos verdes dele a fitavam de alto a baixo a envergonhando, pareciam despi-la, ou arrancar de si todos seus segredos.

A secretaria havia saído sem que notasse, e os telefones na mesa já não tocavam mais. Estava sozinha, com ele, e começou a se sentir temerosa e terrivelmente desconfortável, principalmente, porque o homem alto e forte, a encarava de maneira fria e um tanto curiosa, mas nada satisfeito.

— Mesmo assim, insisto que meu médico a examine. — Olhou para mesinha de vidro com algumas revistas de investimento e um jornal dobrado, apenas para quebrar o contato visual.

— Acabei de vir de uma consulta e não há nada de errado comigo, acredite, estou bem. — Sabia que estava discutindo com ele à toa, pois Kevin Daime fazia o que queria, quando queria.

Como uma pantera ele se aproximou deixando-a acuada e assustada, mesmo sabendo que ele não seria capaz de lhe fazer mal a moça se afastou um pouco, mas ele apenas sentou em sua frente e a encarou demoradamente, a proximidade era sufocante de certa forma.

— Então, já que está em perfeita saúde, posso saber o que faz aqui? — O coração de Emily doeu ao notar o quanto ele desejava que ela não estivesse ali, o quanto ele a desprezava e o mesmo deixava em evidência o que se passava em sua mente, seu corpo inteiro emanava isso.

Ela nunca teve ilusões com ele, afinal, eles eram de classes sociais diferentes, mundos diferentes e estranhos um para o outro. Haviam ficado juntos apenas uma única vez e foi suficiente para marcá-la para sempre.


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