A Lei das Três Forças – Texto de G. I. Gurdjieff

Eneagrama – Capa do livro ‘Em busca do Ser’ de G. I. Gurdjieff

Fragmento extraído do livro ‘Em busca do Ser‘ de G. I. Gurdjieff.

A Lei das Três Forças

No estudo paralelo do mundo e do homem, podemos presumir que as mesmas leis valem em todos os lugares e para tudo. Ao mesmo tempo, é mais fácil observar algumas leis no mundo, e é mais fácil observar outras no homem. Em certos casos, é melhor começar com o mundo e, depois, passar ao homem; em outros, é melhor começar pelo homem e passar para o mundo.

Esse estudo do mundo e do homem demonstra a unidade fundamental de todas as coisas e nos ajuda a encontrar analogias em fenômenos de várias ordens. Todos os processos em funcionamento no homem e no mundo são governados por um número muito pequeno de leis fundamentais. Toda a variedade aparente que vemos à nossa volta é, na verdade, produto de algumas forças básicas, as quais operam em diferentes combinações numéricas. A fim de compreendermos o mecanismo do universo, antes precisamos aprender a reduzir fenômenos complexos às forças básicas de que eles são compostos.

A primeira lei fundamental é a lei dos três princípios ou das três forças, que determina a unidade e a diversidade pelo universo. Segundo essa lei, que costuma ser chamada de “Lei de Três”, todo fenômeno, qualquer que seja a escala e qualquer que seja o mundo em que possa aparecer, desde o molecular até o cósmico, é o resultado da interação de três forças diferentes e opostas. O pensamento contemporâneo reconhece a existência e a necessidade de duas forças na produção de um fenômeno: força e resistência, polaridade positiva e negativa, correntes positivas e negativas, e assim por diante. Mas essa visão não leva em conta duas forças em todos os fenômenos, nem admite a possibilidade de uma terceira força constitutiva.

De acordo com a ciência antiga, uma ou duas forças são insuficientes para produzir um fenômeno. É preciso haver uma terceira força, sem a qual as duas primeiras nunca poderão produzir algo. Esse ensinamento das três forças está na base de todos os sistemas antigos. A primeira força pode ser chamada de “ativa” ou “positiva”; a segunda, de “passiva” ou “negativa”; a terceira, de “neutralizante”. Mas esses são apenas nomes e, com efeito, as três forças são igualmente ativas. Só parecem ativas, passivas ou neutralizantes em seu ponto de interseção, isto é, elas só adotam essas funções umas em relação às outras e apenas em um dado momento. Somos mais ou menos capazes de compreender as duas primeiras, e a terceira pode ser observada ocasionalmente no ponto de aplicação das forças, ou no “meio”, ou no “resultado”. Mas, de maneira geral, a terceira força não é algo que possamos observar ou compreender de modo típico. Isso se deve às limitações fundamentais de nossa atividade psicológica normal e às categorias fundamentais de nossa percepção limitada do mundo dos fenômenos, ou seja, nossa percepção do espaço e do tempo. Não podemos perceber diretamente a terceira força em ação mais do que podemos perceber espacialmente a “quarta dimensão”.

Contudo, é possível aprender a observar a ação das três forças em nós estudando a nós mesmos a manifestação de nossos pensamentos, de nossa consciência, de nossos hábitos e desejos. Vamos supor, por exemplo, que decidimos trabalhar com nós mesmos no intuito de atingirmos um nível de existência mais elevado. Nesse caso, nosso desejo, nossa iniciativa, é a força ativa, e a inércia de nossa vida psicológica habitual, que se opõe à iniciativa, é a força passiva, ou negativa. No final, ou essas duas forças se equilibrarão mutuamente, ou uma irá se sobrepor à outra embora ambas se enfraqueçam demais para poderem agir. Logo, as duas forças irão, por assim dizer, girar em torno uma da outra, e uma acabará absorvendo a outra sem produzir nenhum resultado. Esse impasse pode durar uma vida inteira. Podemos sentir desejo e iniciativa, mas estes podem ser absorvidos na luta para superar a inércia habitual da vida, nada deixando no final para atingirmos a meta digna de nossa decisão original. E o processo pode continuar até a terceira força surgir, talvez na forma de novos conhecimentos que mostrem a vantagem, ou melhor, a necessidade de um trabalho com nós mesmos, reforçando, desse modo, a iniciativa. Então, graças ao apoio dessa terceira força, a iniciativa poderá ser capaz de superar a inércia, e poderemos nos tornar ativos na direção desejada.

Podemos encontrar outros exemplos das três forças, inclusive o surgimento eventual da terceira força, em todas as manifestações da vida psíquica, em todos os fenômenos da vida comunitária e da humanidade como um todo, bem como na natureza à nossa volta. Por enquanto, porem, bastará compreender o princípio geral: todo fenômeno, de qualquer magnitude, acaba representando a manifestação de três forças e não pode ser produzido apenas por uma ou duas delas. Sempre que observamos uma ação que se detem ou hesita de maneira interminável, podemos dizer que, naquele momento, falta a terceira força. Ao mesmo tempo, um fenômeno que parece ser simples pode ser bastante complexo, consistindo em uma combinação complexa de trindades. Mais importante: devemos lembrar que não podemos captar os fenômenos diretamente como manifestações de três forças, porque não podemos observar o mundo objetivo em nosso estado subjetivo de consciência. O mundo subjetivo ou fenomênico de nossas observações é incompleto, relativamente real, porque só vemos nos fenômenos a manifestação de uma ou duas forças. Se pudéssemos ver a manifestação das três forças em toda ação, veríamos o mundo tal como ele é (as coisas em si mesmas). A terceira força é uma propriedade do mundo real.


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