Livro ‘Raspútin’ por Douglas Smith

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A biografia que mudará para sempre a forma como vemos uma das figuras mais poderosas da Rússia tsarista. Mais de cem anos após seu assassinato, Raspútin continua na imaginação popular como um símbolo da encarnação do mal. Muitos livros e filmes contam a história de sua ascensão misteriosa ao poder como confidente de Nicolau e Alexandra, e guardião do debilitado herdeiro do trono russo. Separando fato e ficção, o trabalho monumental do premiado historiador Douglas Smith apresenta Raspútin em toda sua complexidade: homem religioso, súdito leal, adúltero e boêmio. Com base em documentos encontrados em sete países, Raspútin é a biografia definitiva de um homem extraordinário que viveu o ocaso da dinastia Románov. “A biografia definitiva da figura mais misteriosa e controversa da Rússia.” ― The Washington Post

Páginas: 1128 páginas; Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (5 de novembro de 2018); ISBN-10: 8535931678; ISBN-13: 978-8535931679; ASIN: B01E3PZRIM

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Sobre o autor: Douglas Smith é um historiador e tradutor premiado e autor de Rasputin and Former People, que foi um best-seller no Reino Unido. Seus livros foram traduzidos para uma dúzia de idiomas. Recebedor de uma bolsa Guggenheim, ele escreveu para The New York Times Wall Street Journal e apareceu em documentários para a BBC, National Geographic e Netflix. Antes de se tornar historiador, trabalhou para o Departamento de Estado dos EUA na União Soviética e como analista de assuntos russos para a Radio Free Europe/Radio Liberty. Ele mora com sua família em Seattle.

Leia trecho do livro

Auch behauptet man: die Tölpel, 
Als sie an das Meer gelengten
Und gesehn, wie sich der Himmel
In der blauen Fluth gespiegelt,


Hätten sie gegleuubt, das Meer
Sei der Himmel, und sie stürzten
Sich Hinnein mit Gottevertrauen;
Sien sämtlich dort ersoffen.

Heinrich Heine,
Atta Troll, Caput XII

Também se diz que aqueles idiotas,
Chegando à beira-mar,
E vendo o céu
Refletindo na onda azul,

Acharam que o mar
Só podia ser o céu e mergulharam,
Com sua fé em Deus,
E todos se afogaram.

Tradução com base na versão inglesa
de Herman Scherffauer (1913)

Listas de ilustrações

  1. Pokróvskoie, aldeia natal de Raspútin no rio Tura, retratada pelo grande fotógrafo russo Serguei Prokudin-Gorski em 1912. [Biblioteca do Congresso/ Domínio público]
  2. Talvez a mais antiga fotografia de Raspútim que sobreviveu ao tempo, provavelmente tirada na virada do século. Note-se que ele já adotava um de suas poses características. [Coleção do autor]
  3. Antes de haver Raspútin, houve Mosnsier Philippe, necromante, vidente e conselheiro de Nicolau e Alexandra, a quem o casal real chamada “nosso amigo”, exatamente como chamaria Raspútin. [Shemanskii, Poslednie Romanovi]
  4. O tsarévitch Aleixei, Alexandra e Nicolau. [HIA]
  5. As Corvas: Milista e Anastássia. [Fülöp-Miller]
  6. Grão-duque Nilolai Nikoláievitch. [HIA]
  7. Raspútin em casa em Pokróvskoie, segurando Varvara e ladeado por Maria e Dmítri, c. 1910. [Fülöp-Miller]
  8. A casa de Raspútin em Pokróvskoie. [ITAR-TASS]
  9. Raspútin sentado entre o coronel Dmítri Loman (à esq.) e o príncipe Mikhail Putiátin, provavelmente em 1906. [Ria-Novosti/The Image Works]
  10. Raspútin com dois de seus aliados mais íntimos e, mais tarde, inimigos mais implacáveis, bispo Germogen e o “monge louco” Iliodor, c. 1908. Nota-se a indumentária vagamente clerical de Raspútin. [GARF]
  11. Raspútin no quarto das crianças do palácio, cercado por Alexandra e filhos, c. 1909. A babá de Alexei, Maria Vishniakova, está sentada sorrindo, no canto inferior à direita; à sua direita, a carrancuda Tatiana e uma Maria mais alegre, os pés descalços aparecendo sob o vestido branco. Olga está em cima de um móvel atrás de Raspútin. [GARF]
  12. Imagem estranhamente inquietante de Raspútin, Talvez no palácio, no mesmo dia da foto no quarto das crianças. [GARF]
  13. Imperatriz Alexandra e Anna Vírubova. [Biblioteca Beinecke, Universidade Yale]
  14. Depois do assassinato do marido por revolucionários em 1905, a grã-duquesa Isabel (conhecida como Ella), irmã mais velha de Alexandra, ordenou-se freira, tornando-se abadesa de um convento em Moscou. O ódio de Ella contra Raspútin envenenou suas relações com a irmã. [Biblioteca Beinecke, Universidade Yale]
  15. Olga Lokhtina, uma das primeiras e mais fanáticas seguidoras de Raspútin, mostrada aqui c. 1913, depois de ter deixado a família e Raspútin para ficar perto de Iliodor. O comportamento estranho de Lokhtina (ela sofria de uma doença mental não diagnosticada) e a roupa bizarra faziam dela a notória, talvez a mais patética, das amigas de Raspútin. [HIA]
  16. O frontispício de Grigóri Raspútin e a libertinagem mística, de Mikhail Novoselov, confiscado do editor pela Okhrana de Moscou em janeiro de 1912 e destruído. Só a versão manuscrita de Novoselov escapou. Esta fotografia raríssima parece mostrar Raspútin posando de monge,mas a imagem é, muito provavelmente, uma hábil falsificação. [HIA]
  17. Comentário ilustrado de jornal sobre o primeiro escândalo da Duma em 1912, evolvendo Raspútin, aqui mostrado trocando um aperto de mãos com Alekxandr Gutchkov, sob o título “Heróis do dia”. O desenho de Raspútin baseia-se no muito comentado retrato de autoria de Raievski, da mesma época. [Novaia voskresnaia vecherniaia gazeta, 18 mar. 1912, n. 5, p. 3]
  18. Alexei de cama com Alexandra, inequivocamente preocupada, e uma babá, em foto possivelmente tirada em Spala, em setembro de 1912. Deus viu Vossas lágrimas e ouviu Vossas preces. Não fique triste”, escreveu Raspútin de Pokróvskoie para a imperatriz. “O pequeno não vai morrer.” [HIA]
  19. O “antigo” Iliodor. O desacreditado figura figura na capa da popular revista Centelhas, em fevereiro de 1913. Antes de voltar para sua terra natal, na região do rio Don, Iliodor mandou fazer cartões-postais em que aparece trajando sua indumentária mundana e os distribuiu pelo correio para seus amigos seguidores. “E ainda assim a verdade viverá para sempre. Tristeza para os que a ela não se submetem!”, escreveu ele no canto inferior direito do cartão, avisando ao mundo que não o considerasse página virada. [Coleção do autor] 
  20. Rabiscos de Raspútin. Diz o texto: “Domingo. 9 de março de 1914. Uma da manhã. R. Inglesa, no 3, 5o andar. Desenho de Grigóri Ienfimovitch Raspútin”. [RGALI]o
  21. Reunião em Petersburgo,março de 1914. Na foto aparecem: Alexandra (Sana) e Aleksandr Pistolkors (à esq.); perto está Leonid Molchanov; em seguida o príncipe Nikolai Jevakhov, o rosto em parte obscurecido de Anna Vúrubova, de branco. Lili Dehn aparece em pé no vão da porta de branco; em frente a ela está o pai de Raspútin, Iefim. Munia Golovina está sentada com uma mão sobre a outra (a segunda à esquerda de Raspúitn), enquanto Akilina Laptinskaia esta aos pés de Raspútin. As três mulheres no fundo à direita são Madame e Nadejda Loman, mulher e filha do coronel  Dmpitri Loman, e possivelmente Anna Rechetnikova, na casa de cuja mãe Raspútin costumava hospedar-se em Moscou. [GARF]
  22. Imagem icônica de Grigóri Raspútin, c. 1910. O estúdio fotográfico de C. E. de Hahn, situado perto da estação ferroviária de Tsárskoie Seló, onde muito provavelmente a fotografia foi batida, servia apenas a família imperial. É possível que Raspútin tenha sido capturado aqui por Aleksandr Jagelski, “fotógrafo de sua majestade imperial” de 1911 em diante. [GARP]
  23. Raspútin em roupas de camponês. [Mary Evans Picture Library]
  24. Nenhum sacerdote ortodoxo teria pensado em fazer tal pose diante de um fotógrafo: quem, exatamente, Raspútin estaria abençoando? A imagem serviu apenas para diminuir ainda mais a credibilidade dele entre os figurões da Igreja. [On-line]
  25. “A Sina de O. V. Lokhtina.” Havia uma crença generalizada, embora errônea, de que Raspútin era hipnotizador. Aqui, numa fotografia habilmente falsificada, publicada na popular revista Pequena Chama, Raspútin hipnotiza Olga Lokhtina. [Arquivo Nacional Sueco]
  26. Raspútin em trajes nada convencionais. [Roger-Viollet/The Image Works]
  27. Raspútin no rio Tura, perto de Pokróvskoie, fazendo uma pausa durante uma pescaria com uma de suas devotas de Petersburgo. Note-se o sorriso radiante. [SML]
  28. Arquimandrita Feofan (Bistrov). [On-line]
  29. Arcebispo (mais tarde metropolita) Antônio (Khrapovítski). [On-line]
  30. Bispo Alexei (Molchanov). [On-line]
  31. Arcebispo Varnava (Nakropin). [On-line]
  32. Metropolita Pitirim (Oknov). [On-line]
  33. Vladímir Sabler, procurador-chefe do Santo Sínodo (1911-5). [On-line]
  34. Aleksandr Samárin, procurador-chefe do Santo Sínodo (1915). [On-line]
  35. Conde Serguei Witte, primeiro premiê da Rússia (1905-6). [HIA]
  36. Piotr Stolípin, primeiro-ministro e ministro do Interior (1906-11) [HIA]
  37. Conde Vladímir Kokóvtsov, primeiro-ministro (1911-4) e ministro das Finanças (1906-14). [HIA]
  38. Ivan Goremíkin, primeiro-ministro (1906, 1914-6). [HIA]
  39. Vladímir Djunkóvski, governador de Moscou (1908-13) e vice-ministro do Interior (1913-5). [On-line]
  40. Vladímir Sukhomlínov, ministro da Guerra (1909-15). [HIA]
  41. Boris Stürmer, primeiro-ministro (1916). [Fülëp-Miller]
  42. Aleksandr Protopópov, ministro do Interior (1916-7). [Fülbp-Miller]
  43. Aleksandr Gutchkov. [HIA]
  44. Mikhail Rodzianko, presidente da Duma. [HIA]
  45. Pavel Miliukov. [HIA]
  46. “Aqui está minha paz, a fonte da glória, luz na luz. Um presente para minha sincera Mamãe. Grigóri.” Palavras de Raspútin no caderno que presenteou a Alexandra em fevereiro de 1911. A assinatura da imperatriz está no verso. Ao escrever para suas majestades, Raspútin fazia questão de ostentar sua melhor caligrafia. [GARF]
  47. Um dos poucos retratos em cores de Raspútin ainda existentes. A artista, Ielena Klokacheva, formada pela Academia de Belas-Artes de São Petersburgo, é conhecida hoje basicamente por essa obra, executada a lápis e crayon em 1914, quando Raspútin estava vivo.
  48. Um dos dois retratos ainda sobreviventes de Raspútin de autoria da artista dinamarquesa Theodora Krarup, executado em seu ateliê de Petersburgo em 1914.
  49. Khionia Guseva detida depois de tentar matar Raspútin em Pokróvskoie em 29 de junho de 1914. [GARF]
  50. Título do Correio de Petersburgo depois do ataque de Guseva. Raspútin está acompanhado pela filha, Maria, e sua “secretária”, Akilina Nikitichna Laptinskaia. A imprensa russa e estrangeira achou irresistível a história do quase assassinato de Raspútin. [HIA]
  51. Raspútin recuperando-se em seu leito de hospital em Tiumen. [ITAR-TASS]
  52. Raspútin no hospital. Ele assinou diversas cópias das mesmas fotografias com dizeres diversos Este diz o seguinte: “Deus sabe o que será de nós de manhã, Grigóri”. [GMPIR]
  53. Príncipe Nikolai Jevakhov, seguidor de Raspútin e vice-procurador-chefe do Santo Sínodo (1916). [Jevakhov, La verità su Rasputin]
  54. O Rocambole Russo. Ivan Manassevitch-Manuilov (centro) num banquete com editores dos principais jornais e figuras políticas de Petersburgo. Na frente à esquerda: o editor de Novos Tempos, Mikhail Suvórin; na frente à direita: o embaixador turco Turkhan Pasha.
  55. O secretário de Raspútin, Aron Simanovitch, homem responsável pela criação de muitos mitos sobre seu patrão. [Simanowitsch, Rasputin]
  56. Raspútin nos anos que se seguiram ao ataque de Guseva. [RIA-Novosti / The Image Works]
  57. Raspútin posando para o escultor Naum Aronson em 1915. [The Granger Collection, Nova York]
  58. Anúncio na revista Centelhas do busto de autoria de Aronson destacando que a escultura foi feita aproveitando-se o lançamento de Meus pensamentos e reflexões, de Raspútin, por ocasião da sua “nova atuação como escritor”. [Iskry, n. 27 (1915), p. 215]
  59. Esboço de Raspútin feito pelo ilustrador e retratista júri Annenkov, 1915. [The Image Works]
  60. Caricatura que acompanhava o artigo “O depravado”, publicado na revista de Petrogrado Rudin em fevereiro de 1915, que conta a história de Raspútin através da alegoria do javali Vanka, um “Don Juan suíno” que misteriosamente assume o controle da propriedade de uma família nobre, formando um harém com as filhas.
  61. Rara fotografia de Raspútin batida no último ano de sua vida pela retratista Theodora Krarup em seu ateliê de Petrogrado. [Krarup, 42 Aans]
  62. Último retrato de Raspútin de autoria de Krarup, datado de 13 de dezembro de 1916, apenas quatro dias antes de ser assassinado. I On-line]
  63. Ministro do Interior Alexei Khvostov (1915-6). [On-line]
  64. Stepan Belétski, vice-ministro do Interior (1915-6). [On-line]
  65. Príncipe Mikhail Andrónnikov. [On-line]
  66. Bilhete de Iliodor concordando em participar da trama de Khvostov para assassinar Raspútin em troca de 60 mil rublos. [GARE]
  67. Príncipe Félix lussúpov e sua noiva, Irina. [HIA]
  68. Princesa Zinaida Iussúpova. [On-line]
  69. Grão-duque Dmítri Pávlovitch. [RIA-Novosti/The Image Works]
  70. Vladímir Purichkévitch. [On-line]
  71. Dr. Stanislaw Lazovert. [Roger-Viollet / The Image Works]
  72. Tenente Serguei Sukhotin. [On-line]
  73. e 74. A dançarina Vera Karalli e Marianna Derfelden, meia-irmã de Dmitri, estavam ambas provavelmente no palácio de Iussúpov na noite do assassinato. [On-line]..
  74. A cena do crime. O príncipe Iussúpov não poupou esforços para criar o clima exato no dia do assassinato, selecionando móveis que demonstrassem sua riqueza e seu bom gosto e, principalmente, distraíssem a vítima.
  75. O pátio adjacente ao palácio de Iussúpov numa fotografia tirada pela polícia na manhã de 17 de dezembro, poucas horas depois do crime. Consta que Raspútin tinha saído pela porta lateral (pequeno retângulo escuro à esquerda) e tentado fugir pelo pátio. Os investigadores encontraram marcas de sangue na neve que iam até perto dos portões. [GMPIR]
  76. O cadáver congelado de Raspútin logo depois que foi retirado do gelo do Málaia Nevka na manhã do dia 19. A Grande Ponte Petróvski aparece ao fundo. [GMPIR]
  77. “Ferimento de disparo de arma de fogo na testa” — o resultado da autópsia oficial escrito sobre a fotografia determinando a causa da morte de Raspútin. O horrendo estado do corpo devia-se principalmente à ação do gelo, à correnteza do rio e aos ganchos usados para tirá-lo da água. [GMPIR]
  78. Das manchetes russas: “O assassinato de Grigóri Raspútin. Novos detalhes — Biografia de Raspútin — Cenas da vida de Raspútin”. As duas fotografias supostamente mostram o último retrato de Raspútin pouco antes do assassinato e outra “particularmente difundida entre seus seguidores”. [GARE]
  79. Caricatura zombando de Alexandra desenhada pelo príncipe Vladímir Paley poucos dias depois do assassinato de Raspútin. O príncipe era meio-irmão do grão-duque Dmítri: seu pai era o grão-duque Paulo Alexándrovitch, também pai de Dmítri, e sua mãe era a amante de Paulo, Olga Karnovitch (posteriormente princesa Paley e mulher de Paulo). Como tantos outros, Paulo subestimou a força de Alexandra, e ela não desmoronou com a perda do amigo. [GARE]
  80. Sepultura de Raspútin debaixo da igreja que então era construída por Anna Vírubova perto de Tsárskoie Seló. [Petrogradskii listok, 1917]
  81. A casa das caldeiras do Instituto Politécnico de Petrogrado, onde muito provavelmente o corpo de Raspútin foi incinerado no começo de março de 1917. [On-line]
  82. “A execução de Grichka Raspútin”, capa do Almanaque “Liberdade” publicado logo depois da queda da monarquia. Já baleado na cabeça, Raspútin tenta escapar, mas é derrubado por trás por Purichkévitch. [Almanakh “Svoboda”, n. 1, 1917]
  83. Fabricando o mito. O mesmo número do Almanaque traz a reprodução de uma imagem amplamente divulgada de Raspútin se recuperando no hospital de Tiumen no verão de 1914, depois do ataque de Guseva, mas agora com nova legenda: “Grichka Raspútin despertando depois de uma orgia regada a álcool”. [Almanakh “Svoboda“, n. 1, 1917]
  84. “C A M O Д E P Ж A И B E.”  jogo de palavras com o termo russo para autocracia, samoderjavie, que significa “segurar com as próprias mãos”. A imagem provavelmente apareceu logo depois da queda da monarquia. [On-line]
  85. Jogo de palavras com o ditado “Duas cabeças pensam melhor do que uma”. As expressões faciais deixam claro que apenas duas das três cabeças estão sendo usadas.
  86. Da série satírica “O conto de Grichka”, o pavão de Tsárskoie Seló se revela um babuíno. [GMP1R]
  87. Cartão-postal de 1917 com Raspútin, o demônio bêbado, e Alexandra.
  88. Um lascivo Raspútin subjugando a imperatriz no palácio, de O conto de Grichka, o patife. [Skazka o Grishke Rasputnom […], 1917]
  89. Cartaz publicitário de A firma Románov, Raspútin, Sukhomlínov, Mictssoiédov, Protopópov & Cia., que apareceu no primeiro semestre de 1917. O filme de quatro panes incluía “A queima de estoque da Rússia Por atacado e no varejo”, “Algozes do povo” e “O colapso da firma”. [GMPIR]
  90. Das páginas de Novo Satíricon, no primeiro semestre de 1917: “Projeto de monumento aos maiores heróis da Revolução Russa”, dedicado a Raspútin e Protopópov.
  91. “Casa governante da Rússia.” A famosa capa de Novo Satíricon (abril de 1917) mostra Raspútin, o verdadeiro tsar, cercado por Nicolau e Alexandra, o primeiro-ministro Boris Stürmer, o ministro do Interior Aleksandr Protopópov e o ministro da Guerra Vladímir Sukhomlínov. Anna Vírubova reza aos seus pés. [Coleção do autor]
  92. O cartaz sueco do filme de 1928 Espírito maligno da Rússia apresenta Raspútin sob um viés racial como a bête noire que perseguia a feminilidade europeia. Desde que começou a atrair a atenção do público, Raspútin serviu como uma figura oportuna para a projeção dos mais variados medos e preocupações. [On-line]
  93. Dois anões representando o ministro do Interior Protopópov e “Grichka Raspútin” cavalgam um caixão onde se lê “O Velho Regime”, numa grande manifestação de trabalhadores em Moscou durante a Revolução de Fevereiro. [RIA Novosti/ The Image Works]
  94. Acatisto blasfematório dedicado a “Grichka Raspútin, membro honorário da casa tsarista”. Os painéis laterais incluem cenas da vida de Raspútin: “orando” com mulheres nuas nos banhos públicos, dançando com uma mulher seminua na corte, distribuindo medalhas e sendo alvejado por Purichkévitch. O painel inferior mostra um homem defecando no túmulo de Raspútin. [GARF]
  95. O genro de Raspútin, Boris Soloviov, que atuava como mensageiro secreto entre a família real e Anna Vírubova durante o cativeiro dos Románov em Tobolsk. [Markow, Wie]
  96. Em 27 de abril de 1918, a grã-duquesa Maria, sendo levada com os pais de Tobolsk para Iekaterinburgo, fez esse esboço da casa de Raspútin em Pokróvskoie, depois de uma parada para trocarem de cavalos. [Raspútin, Mon Père
  97. Iliodor, astro de cinema. Anúncio do filme de 1917 A queda dos Románov, estrelando Iliodor no papel dele mesmo lutando contra Raspútin em sua malsucedida tentativa de salvar a monarquia. [Exhibitors Herald, 30 jun. 1917]
  98. Iliodor, homem de família. Fotografia de jornal tirada em dezembro de 1922 de Iliodor, a mulher Nadejda, e os três filhos: Sergius (de sete anos), Iliodor Jr. (quatro) e Hope (cinco), recém-chegados aos Estados Unidos. [Coleção do autor]
  99. Família Raspútin, Pokróvskoie, 1927. Dmítri Raspútin, a mãe Praskóvia, a mulher Feoktista e Katia Pecherkina (atrás). [Simanowitsch, Rasputin]
  100. Maria Raspútina, artista de circo e domadora de animais, Paris, 1935. [Biblioteca Beinecke, Universidade Yale[
  101. Estátua de fibra de vidro de Raspútin erguida em 2014 atrás do hospital municipal de Tiumen, onde ele se recuperara do ataque de Guseva cem anos antes. Além de um marco comemorativo informal no parque em Tsárskoie Seló, este é o único monumento do tipo dedicado a Raspútin na Rússia. [Fotografia tirada pelo autor]

Mapas

O Império Russo

Livro 'Raspútin' por  Douglas Smith

São Petersburgo

Livro 'Raspútin' por  Douglas Smith

Sobre as datas e transliteração

Até fevereiro de 1918, a Rússia seguia o calendário juliano (Velho Estilo), que no século XIX estava doze dias (e no século XX, treze dias) atrás do calendário gregoriano (Novo Estilo). Em janeiro, o governo bolchevique decretou que a Rússia adotaria o calendário gregoriano no fim do mês, de modo que 31 de janeiro de 1918 foi precedido, no dia seguinte, por 14 de fevereiro. Preferi dar no Velho Estilo as datas de acontecimentos na Rússia anteriores a 31 de janeiro de 1918 e no Novo Estilo as de acontecimentos posteriores; sempre que haja possibilidade de confusão, acrescento as iniciais VE ou NE.

Na transliteração de termos e nomes russos, mantenho as terminações masculina e feminina de sobrenomes russos (Grigóri Raspútin, Maria Raspútina, por exemplo). Nos casos em que os personagens são mais conhecidos pelas versões traduzidas dos seus nomes, como no caso do tsar Nicolau II, foram essas que usei, e não transliterações do original.

RASPÚTIN

Introdução; O diabo santo?

Num luminoso dia de primavera em 1912, Serguei Prokudin-Gorski carregou sua enorme câmera com tripé para a beira do rio Tura, na remota aldeia siberiana de Pokróvskoie. Um dos grandes inovadores fotográficos da época, Prokudin-Gorski tinha desenvolvido uma técnica para tirar ricas fotografias coloridas, e o imperador Nicolau II da Rússia ficou tão impressionado com suas imagens que o encarregou de registrar o império em toda a diversidade do seu esplendor.

Sua câmera capturou uma típica cena rural naquele dia. A igreja branca da aldeia, clareada pelo sol, ergue-se acima das casas simples e dos celeiros, toscas estruturas de tora de madeira, marrons e cinzentas, aglomeradas à sua volta. Numa das casas, uma jardineira na janela abriga uma planta com flores vermelhas, gerânios talvez, que se destacam contra as vidraças escuras. Duas vacas pastam despreocupadamente os brotos verdes que despontam na terra depois de outro longo inverno siberiano. À beira d’água, duas mulheres de roupas coloridas são surpreendidas em seus afazeres. Uma canoa solitária repousa na lama, pronta para a próxima expedição de pesca no ‘fura. A imagem evoca muitas outras anônimas aldeias que Prokudin-Gorski fotografou nos últimos anos da Rússia tsarista.

Apesar disso, aquela aldeia era diferente das demais, e Prokudin-Gorski sabia que o imperador e a imperatriz esperavam que ele incluísse Pokróvskoie em seu grande levantamento. Pokróvskoie era a terra natal do russo mais notório da época, um homem que no primeiro semestre de 1912 esteve no centro de um escândalo que abalou o reinado de Nicolau como nada jamais o fizera. Boatos sobre ele circulavam havia anos, mas só então os ministros do tsar e os políticos da Duma, a assembleia legislativa da Rússia, ousaram referir-se a ele pelo nome e exigiram que o palácio explicasse ao país quem era exatamente aquele homem e quais eram suas relações com o trono. Dizia-se que pertencia a uma bizarra seita religiosa que adotava as formas mais indecentes de perversão sexual, que era um falso santo que enganara o imperador e a imperatriz convencendo-os a escolherem-no como guia espiritual, que tinha tomado conta da Igreja ortodoxa russa e a estava deformando de acordo com seus desígnios imorais, que era um camponês imundo que não só conseguira se infiltrar no palácio como também, através de mentiras e astúcia, estava rapidamente se transformando na verdadeira força por trás do trono. O tal homem, muitos já começavam a acreditar, representava um perigo real para a Igreja, para a monarquia e mesmo para a própria Rússia. O homem era Grigóri Iefimovitch Raspútin.

Tudo isso deve ter passado pela cabeça de Prokudin-Gorski naquele dia. Não era uma aldeia qualquer que estava fotografando, mas a terra de Raspútin. Prokudin-Gorski capturou Pokróvskoie para o tsar, mas, curiosamente, teve o cuidado de não incluir na imagem a casa de seu filho mais infame, que deixou fora do enquadramento. Talvez esse fosse o jeito de o grande fotógrafo fazer seu comentário pessoal a respeito do homem sobre quem a Rússia não conseguia parar de falar.

A vida de Raspútin é uma das mais notáveis da história moderna. Parece um conto de fadas sombrio. Camponês obscuro e sem instrução do interior da Sibéria, recebe um chamado de Deus e parte em busca da verdadeira fé, numa jornada que o leva pelas vastidões da Rússia durante muitos anos, até finalmente o conduzir ao palácio do tsar. A família real o adota e fica enfeitiçada com sua devoção, suas infalíveis intuições sobre a alma humana e seus modos simples de camponês. Como que por milagre, ele salva a vida do herdeiro do trono, mas a presença desse forasteiro, e a influência que exerce sobre o tsar e a tsarina, enfurecem os grandes homens do reino, que o atraem para uma armadilha e o matam. Muitos achavam que o santo camponês tinha previsto a própria morte e profetizado que, se alguma coisa lhe acontecesse, o tsar perderia o trono. Foi de fato o que aconteceu, e o reino que ele um dia governou passou anos mergulhado numa sangria e numa miséria indescritíveis.

Mesmo antes do seu hediondo assassinato num porão de Petrogrado nos últimos dias de 1916, Raspútin tinha se tomado, aos olhos de boa parte do mundo, a personificação do mal. Dizia-se que sua perversidade não conhecia limites, bem como seu impulso sexual, que jamais se satisfazia, por mais mulheres que levasse para a cama. Sátiro bêbado e bestial, com os modos de um animal de fazenda, Raspútin mostrava a astúcia inata do camponês russo e sabia bancar o homem simples de Deus quando estava diante do tsar e da tsarina. Convenceu-os de que era capaz de salvar seu filho, o tsarévitch Alexei, e com ele a própria dinastia. Os dois se colocaram, junto com o império, nas mãos dele, e Raspútin, com sua ganância e corrupção, traiu-lhes a confiança, destruindo a monarquia e provocando a ruína da Rússia.

Raspútin é provavelmente o nome mais familiar da história russa. Foi tema de dezenas de biografias e romances, filmes e documentários, peças teatrais, óperas e musicais. Suas façanhas foram enaltecidas em canções, desde a jazzística “Rasputin (The Highfalutin’ Lovin’ Man)” até o grande sucesso da eurodisco de 1978 “Ra Ra Rasputin, lover of the Russian queen… Ra Ra Rasputin, Russia’s greatest love machine”, de Boney M. Há incontáveis bares, restaurantes e casas de nome Raspútin, um software de computador (acrônimo de Real-Time Aquisition System Programs for Unit Timing in Neuroscience), uma história em quadrinhos, um boneco colecionável. Ele é o astro de pelo menos dois games (Hot Rasputin e Shadow Hearts 2) e aparece em mangás e animês japoneses. Há uma cerveja preta chamada Old Raspútin Imperial Stout, e, como não poderia deixar de ser, uma vodca que leva seu nome. A vida de Raspútin serviu de base até para um número de patinação no gelo dos dançarinos russos Natália Bestemianova e Andrei Bukin. A cultura popular transborda de referências a Raspútin.

Um século depois de sua morte, Raspútin continua firmemente instalado no imaginário público como “o monge louco” ou “o diabo santo”, a formulação paradoxal mas evocativa criada pelo padre russo Iliodor, um dos seus mais íntimos amigos e, mais tarde, arqui-inimigos. Com tudo que já foi dito sobre Raspútin nos últimos cem anos, pode parecer que não há mais nada a acrescentar. Ou haveria? O colapso da parecer que não há mais nada a acrescentar. Ou haveria? O colapso da União Soviética em 1991 foi seguido de um intenso e às vezes penoso reexame do passado de Raspútin. Os heróis do velho regime tornaram-se vilões, e os vilões, heróis, num desses violentos movimentos pendulares típicos da Rússia. Nada demonstra melhor a mudança do que o status do tsar Nicolau II e sua mulher, Alexandra: desprezados como inimigos do povo pelos soviéticos, juntamente com os cinco filhos, foram canonizados como santos pela Igreja ortodoxa russa em 2000, tendo seus restos mortais sepultados com grande cerimônia ao lado dos governantes tsaristas da Rússia na Catedral de São Pedro e São Paulo.*

Raspútin não foi esquecido nessa abrangente transvaloração da história russa. Uma nova geração de historiadores vem trabalhando para recuperar o que insistem em descrever como o verdadeiro Raspútin.’ As histórias contadas sobre ele no último século, segundo afirmam, não passam de um mar de mentiras, meias verdades e distorções fabricadas por seus inimigos. Raspútin, na opinião deles, foi objeto da maior calúnia da história. Era um pai e um marido dedicado, um honesto homem de Deus, um devoto cristão ortodoxo, um humilde camponês russo inspirado por visões divinas que colocou seus dons especiais a serviço da família real e de sua amada Rússia. Os relatos de sua devassidão, suas bebedeiras, sua corrupção e sua interferência nos negócios de Estado seriam meros boatos.

A campanha contra Raspútin seria parte de uma guerra mais ampla contra a monarquia travada por forças hostis empenhadas em destruir não apenas a dinastia Románov, mas até mesmo a Santa Rússia. A falsa imagem de Raspútin como demônio teria sido criada para minar a legitimidade e a aura sacra do trono, e com isso fomentar uma revolução que levaria ao poder um grupo fanático de comunistas ateus decididos a erradicar a Igreja ortodoxa russa e as tradições sagradas do país. Raspútin, de acordo com essa interpretação, era a personificação da verdadeira fé popular, um camponês simples e devoto que pagou por suas convicções com a própria vida. O influente padre ortodoxo Dmítri Dudko, perseguido e preso pelos soviéticos, declarou: “Na pessoa de Raspútin vejo todo o povo russo — espancado e executado, mas ainda assim preservando a fé, mesmo quando isso significava a morte. E com essa fé ele será vitorioso”. A cantora popular Janna Bichevskaia foi mais longe, referindo-se a Raspútin como o grande mártir russo. Nos últimos anos, têm aparecido ícones com a imagem de Raspútin, quase sempre apresentado ao lado de membros da família real, e grupos dentro da Igreja ortodoxa russa exigiram a sua canonização. O assunto ficou tão sério que levou à convocação de uma comissão sinodal, que depois de anos de investigação e debate decidiu, em 2004, contra a canonização de Raspútin. De acordo com o parecer do metropolita Juvenali, falando em nome da comissão, ainda havia muitas dúvidas sobre as possíveis ligações de Raspútin com seitas místicas, bem como sobre sua reputação de beberrão e imoral. Um subgrupo da Igreja, porém, a Verdadeira Igreja Ortodoxa Russa, que se intitula sucessora da chamada Igreja das Catacumbas, que se separou da Igreja ortodoxa russa oficial nos anos de 1920, reconheceu Raspútin como santo em 1991. Pelo visto, os russos continuam divididos na questão da santidade de Raspútin.[2]

Junto com um repugnante antissemitismo e uma xenofobia paranoica que impregnam essa nova representação nacionalista de Raspútin, há o problema maior de substituir um mito por outro: Raspútin, o demônio, se torna Raspútin, o santo. O pêndulo balança mais uma vez. Nenhuma das duas imagens é convincente, e fica a pergunta: quem era mesmo Raspútin?

Cheguei a Raspútin enquanto escrevia outro livro sobre o destino da aristocracia depois das revoluções russas de 1917. Pesquisando os últimos anos do antigo regime, fiquei impressionado com a onipresença de Raspútin. Não importava a fonte — correspondência pessoal, diários, jornais, livros de memórias ou tratados políticos —, lá estava Raspútin. Ele era incontornável. Como observara, sem nenhum exagero, o poeta simbolista Aleksandr Blok: “Raspútin é tudo, Raspútin está em toda parte”[3] Em minhas décadas de estudos e pesquisas sobre a história russa, nada havia me preparado para isso. Em grande parte, a razão para tanto se devia aos preconceitos do mundo acadêmico no qual fui instruído: para estudiosos da Rússia, Raspútin não era tema digno de estudo. Era popular demais, conhecido demais fora da universidade para ser levado a sério. Havia ao redor dele uma aura circense que o tomava uma figura mais apropriada para escritores de ficção ou história popular. Era um preconceito que acabei compartilhando sem perceber. Apesar disso, descobri que não conseguiria me livrar da curiosidade pelo homem e, quanto mais lia, mais me dava conta de como foi importante para a história dos últimos Románov e o colapso da Rússia imperial. Uma vez que entrou em minha cabeça, Raspútin se recusou a me deixar em paz.]

Depois da queda dos Románov, em 11 de março de 1917, o governo provisório estabeleceu a Comissão Extraordinária para a Investigação de Ilegalidades Cometidas no Cargo por Antigos Ministros, Administradores-Chefes e outras Pessoas em Altos Cargos tanto no Serviço Civil como no Militar e no Naval.** Uma das atribuições da Comissão era descobrir a influência supostamente nefasta de Raspútin em assuntos de Estado. Dezenas de ministros, funcionários, cortesãos e amigos de Raspútin, muitos dos quais mantidos como prisioneiros pelo novo governo, foram levadas perante a Comissão para interrogatório. Num clima de desdenhoso ódio contra o velho regime, muitas testemunhas tentaram salvar a própria pele descrevendo Raspútin da pior forma possível, sustentando que sempre se opuseram à sua influência e que ele foi acima de tudo responsável pela podridão interna do regime tsarista que derrubou a monarquia. No desespero de transferir qualquer culpa para Raspútin, fizeram dele o bode expiatório da miséria da Rússia. Essa estratégia tornou-se a analogia dominante em boa parte da literatura sobre Raspútin, cujo melhor exemplo talvez seja O esplendor perdido, do príncipe lussúpov,  assassino de Raspútin, relato no qual a vítima é apresentada como o próprio Satã.

Um século depois da sua morte, Raspútin continua envolto em mito, praticamente invisível sob as camadas de rumores, calúnias e insinuações que se acumularam sobre ele. Ao ler suas biografias, não consegui me livrar da sensação de não estar vendo o homem que foi, mas apenas projeções alheias, caricaturas bidimensionais sem nenhuma profundidade, complexidade ou vivacidade. Parte do problema está no fato de que pela maior parte do século XX os arquivos de Raspútin na União Soviética estiveram fechados para os pesquisadores, criando uma situação na qual um número limitado de fontes publicadas, com os mesmos episódios e histórias, era repetido interminavelmente. A situação só mudou nos últimos anos: os arquivos da Rússia enfim começaram a revelar seus segredos.

Desde o início eu sabia que o único jeito de chegar mais perto do verdadeiro Raspútin era voltar aos arquivos, procurar os documentos gerados quando ele ainda era vivo, antes que o mito se consolidasse. Foi uma tarefa inusitadamente dificil. As pistas me levaram a sete países, da Sibéria e da Rússia, através da Europa, até a Grã-Bretanha e, por fim, os Estados Unidos. O primeiro dever do biógrafo é estabelecer os fatos objetivos, exteriores, de uma vida, coisa que faltava em nosso conhecimento sobre Raspútin. Assim sendo, fui atrás de todos os fragmentos de informação que pudessem instalar Raspútin firmemente dentro do seu mundo: onde estava ele em determinado dia, fazendo o quê, se encontrando com quem, conversando sobre o quê. Eu queria seguir Raspútin no tempo, tirá-lo do éter da mitologia e transportá-lo para o contexto banal da vida diária. Parecia ser a única maneira de separar Raspútin, o homem, de Raspútin, a lenda. Uma coisa curiosa aconteceu, porém, enquanto eu seguia os passos desse Raspútin esquivo e real.

Quanto mais me aprofundava na pesquisa, mais convencido ficava de que um dos fatos mais relevantes acerca de Raspútin, aquilo que fazia dele uma figura tão extraordinária e poderosa, era menos o que ele fazia e mais o que todo mundo acreditava que fazia. Ninguém podia ter certeza das origens de Raspútin, de seus hábitos sexuais, de sua possível conexão com seitas religiosas secretas e, o mais importante, do poder exato que exercia na corte e da natureza de suas relações com o imperador e a imperatriz. A verdade mais relevante sobre Raspútin era aquela que os russos carregavam na cabeça.

Liev Tikhomirov, revolucionário radical que se tornou monarquista conservador nos últimos anos do século XIX, registrou esse fato crucial em seu diário no começo de 1916:

 As pessoas dizem que o imperador foi pessoalmente avisado de que Raspútin está destruindo a dinastia. Ao que ele responde: “Oh, isso é pura bobagem; exagera-se demais a importância dele”. Um ponto de vista totalmente incompreensível. Pois é daí mesmo que vem a destruição, dos exageros descabidos. O crucial não é saber que tipo de influência Grichka tem sobre o imperador, mas que tipo de influência o povo crê que ele tem. E é isso o que de fato está enfraquecendo a autoridade do tsar e da dinastia:[4]

Ocorreu-me, portanto, que separar o homem do mito era cometer um grave equívoco de interpretação. Não há Raspútin sem as histórias que se contam a seu respeito. Por isso tive o cuidado de ir atrás de todas essas histórias, fossem as que os cortesãos sussurravam nos palácios dos Románov, os murmúrios obscenos que pairavam nos salões aristocráticos de São Petersburgo, os relatos libidinosos da imprensa marrom ou as piadas pornográficas contadas por comerciantes e soldados russos. Rastreando o que se dizia sobre Raspútin, consegui entender como o mito foi criado, por quem e por quê.

A história de Raspútin é uma tragédia, e não apenas a tragédia de um homem, mas de um país inteiro, pois em sua vida — com seus complicados embates sobre fé e moralidade, sobre prazer e pecado, sobre tradição e mudança, sobre obrigação e poder, e seus limites — e em seu fim sangrento e brutal podemos distinguir a história da própria Rússia no começo do século XX. Raspútin não foi demônio nem santo, mas isso não o torna menos notável, nem sua vida menos importante para o declínio da Rússia tsarista.


*À exceção dos restos mortais do tsarévitch Alexei e sua irmã grã-duquesa Maria, guardados num arquivo estatal por insistência da Igreja ortodoxa russa, que ainda não está convencida de sua autenticidade.

**Daqui em diante referida apenas como Comissão.

PARTE UM
O SANTO PEREGRINO
1869 – 1904

1. Origens

Limitada ao norte pelo oceano Ártico e ao sul pelas vastas estepes da Ásia Central, a Sibéria se estende por quase 4900 quilômetros dos montes Urais ao oceano Pacífico. O trem de Moscou aos Urais viaja mais ou menos um dia e uma noite, e de lá mais cinco dias para chegar ao Pacífico. Se colocássemos todo o território contíguo dos Estados Unidos no centro da Sibéria, ainda sobraria um espaço extra de mais de 5 milhões de quilômetros quadrados. É uma terra de florestas de pinheiro e bétula, de lagos e pântanos, drenados por uma série de rios majestosos que correm em direção norte para o Ártico. É uma terra de extremos: as temperaturas variam assombrosos 105 graus, de 71 graus negativos no inverno para 34 graus no verão. É um lugar severo, implacável.

Desde os tempos mais antigos, essa terra vasta e isolada tem evocado imagens fantásticas na imaginação dos estrangeiros. Dizia-se que pais matavam e comiam os próprios filhos. Corriam histórias de siberianos morrendo quando o muco que gotejava do nariz escorria pelo corpo e os congelava no chão. Havia quem dissesse que o povo da Sibéria não tinha cabeça; que os olhos ficavam no peito, a boca entre os ombros. Ainda no século XVIII os modos e costumes da Sibéria eram malvistos por muita gente. Depois de uma visita em 1761 a Tobolsk, a histórica capital da Sibéria, não muito longe da aldeia onde Raspútin nasceu, o astrônomo francês Jean-Baptiste Chappe d’Auteroche escreveu: “Entre as pessoas comuns, homens, mulheres e crianças dormem juntos promiscuamente, sem nenhum sentimento de vergonha. Por isso, com as paixões despertadas pelos objetos que veem, os dois sexos se entregam cedo à devassidão”.[1] A Sibéria de há muito é sinônimo de sofrimento, por causa dos milhares de prisioneiros mandados para lá pelos tsares e mais tarde pelos comissários, fosse para o exílio — ssilka — ou para o regime muito mais severo de katorga — trabalhos forçados. Durante séculos, criminosos comuns, revolucionários e outros subversivos marcharam pela chamada “estrada dos grilhões” que ia da Rússia para os Urais.

Mas nem todo mundo que se mudava da Rússia para a Sibéria ia contra a vontade. Para muita gente, a Sibéria significava a oportunidade de uma vida melhor. A expansão russa para a Sibéria, iniciada no século XVI, foi impulsionada por razões econômicas e pela fome do “ouro macio” — as peles de animais, em especial da marta-zibelina, que parecia tão inesgotável quanto lucrativa. O comércio de peles tornou muitos homens fabulosamente ricos e foi a locomotiva econômica da expansão. A Sibéria, por mais paradoxal que pareça, também significava liberdade, pois não havia servidão a leste dos Urais, e a mão do Estado era leve, para não dizer justa. À medida que o fardo dos servos da Rússia aumentava durante os séculos XVII e XVIII, a fuga para a Sibéria atraía quantidades cada vez maiores de camponeses. De 1678 a 1710, o número de famílias na Sibéria aumentou quase 50%, ao mesmo tempo que caía mais de 25% na Rússia. Para além dos Urais, não havia senhores aos quais dever os frutos do trabalho. Com a liberdade, a vida na fronteira russa adquiriu também um caráter selvagem, sem lei. Durante séculos, a Sibéria foi o Velho Oeste do Império Russo. Os governadores militares dos tsares eram venais, corruptos e violentos, assim como muitos comerciantes e caçadores de pele. Não só peles eram compradas e vendidas, mas também mulheres e bebidas. A violência era um fato comum da vida.[2]

Os russos que ousavam fugir para a Sibéria estavam entre os súditos mais diligentes do país. Observando os camponeses locais, um viajante inglês que atravessou a Sibéria em 1861 a caminho da China notou uma indiscutível “independência de atitude”. Não era o que ele tinha visto na Rússia, com sua “pobreza, negligência e miséria”. E acrescentou: “A condição de suas famílias indica certa dose de amor-próprio”. Suas aldeias tinham um “conforto rústico”, e dava para perceber que se tratava de uma gente disposta a correr risco na esperança de uma vida melhor.’ Tinham certo orgulho, certa dignidade e um senso de responsabilidade para com a própria vida que não existiam entre os servos russos a oeste dos Urais.

***

Izosim, filho de Fiódor, foi um dos pioneiros russos que se aventuraram pela Sibéria no século XVII. Camponês pobre e sem-terra da aldeia de Palevitsi, no rio Vichegda, um afluente do rio Duína do Norte, cerca de 1300 quilômetros a nordeste de Moscou, Izosim, juntamente com a mulher e três filhos — Semion, Nason e Ievsei , atravessou os Urais e estabeleceu-se no posto avançado de fronteira de Pokróvskoie, em 1643.

Pokróvskoie tinha sido fundada um ano antes por ordem do arcebispo da região, e quando Izosim chegou abrigava umas vinte famílias camponesas. A aldeia ficava na margem ocidental do sinuoso rio Tura, na rota dos correios que ligava as cidades de Tobolsk e Tiumen e funcionava como ponto de parada para os cocheiros descansarem e trocarem de cavalos. O nome da cidadezinha vinha da igreja da Virgem Maria — consagrada no dia santo da Pokrov Presviatoi Bogoroditsi —, que os moradores ali construíram. Os camponeses viviam de caçar raposas, ursos, lobos e texugos nas matas vizinhas e de pescar esterletes, lúcios e esturjões no Tura e nos muitos lagos da área. Além disso, cultivavam a terra, criavam gado e curtiam couro. O povo dessa parte da Sibéria vivia relativamente bem, em confortáveis casas de madeira — algumas, de dois andares. Em 1860, mais ou menos na época em que Raspútin nasceu, Pokróvskoie tinha cerca de mil moradores vivendo em duzentas casas. Ostentava leiterias e estábulos, padarias, tavernas, estalagens e mercados, serrarias, uma oficina de ferreiro e uma pequena escola.’

Nos velhos registros da aldeia, Izosim não aparece com nenhum sobrenome, mas por volta de 1650 o filho Nason tinha passado a usar “Raspútin”. Não se sabe ao certo por que escolheu o nome. Talvez tivesse um segundo nome ou apelido de Rasputa (Rosputa), que deu lugar a Raspútin (como veio a ser grafado no século XIX), então um sobrenome comum na Sibéria. Apesar disso, só alguns descendentes de Nason adotaram e mantiveram o nome Raspútin através das gerações.[5] Foi da linhagem de Nason Raspútin que proveio Grigóri, oito gerações depois.

O nome Raspútin tem sido tema de infindáveis discussões, quase sempre infundadas e incorretas. Muitos tentaram ligá-lo ao termo russo rasputnik, réprobo, ou rasputnichat‘ – comportar-se com desenfreada devassidão —, como se o nome de Raspútin derivasse de sua depravação moral ou lhe tivesse sido aposto mais tarde, por causa da má fama. As afirmações espúrias o perseguiram durante a vida toda. O Tempo Vespertino, por exemplo, publicou uma reportagem em dezembro de 1911 afirmando que ele recebera o apelido “Raspútin” em razão de sua imoralidade quando jovem, e que o nome depois fora oficializado ao constar do seu passaporte. Ainda hoje há historiadores que afirmam que o sobrenome Raspútin refletia a antiquíssima depravação de sua família.[6]

As origens do nome são obscuras. Se de fato começou com um ancestral que era um rasputnik, então a família de Raspútin estava longe de ser incomum, uma vez que muita gente na Sibéria tinha esse nome.Mas há outras fontes mais prováveis. Rasputa ou rasput’e significam encruzilhada”, e muito tempo atrás esse lugar era visto como antro de maus espíritos. Talvez o nome fosse dado a pessoas que, segundo a crença, teriam contato com essas forças. Há também um velho provérbio russo sobre o bobo deixado numa encruzilhada, denotando alguém indeciso. E existe ainda a intraduzível palavra russa rasputitsa, que se refere à úmida e lamacenta estação da primavera, quando as estradas do país se tornavam intransitáveis. É possível que uma criança nascida nessa época se chamasse Rasputa.[7] Sejam quais forem as origens, Raspútin era o sobrenome que Grigóri e o resto de sua família receberam ao nascer, e nunca foi dado como indicador de caráter.

Iefim Raspútin, pai de Grigóri, nasceu em Pokróvskoie em 1842. Fontes o descrevem como “um robusto e típico camponês siberiano”, “fornido, negligente e encurvado”, enquanto um exilado político que conheceu Iefim em 1910 o caracterizou como “um velho saudável, trabalhador e animado”.[8] Ele ganhava o sustento com serviços variados pescando, cultivando a terra, cortando feno. Trabalhou um tempo como estivador nos barcos que faziam viagens regulares nos rios Tura e Tobol, e então conseguiu um emprego no Estado transportando passageiros e mercadorias entre Tobolsk e Tiumen. O dinheiro geralmente era curto; uma vez Iefim foi preso porque não pagou seus impostos. Testemunhos do seu caráter são um tanto contraditórios. Serviu como um dos anciãos da igreja da aldeia, e um morador referiu-se às “conversas cultas e à sabedoria” de Iefim, ao passo que outros notaram seu gosto pela “vodca forte”.[9] Apesar de beber, Iefim pouco a pouco conseguiu se destacar na aldeia. Adquiriu um terreno e uma dezena de vacas e quase vinte cavalos, que, embora não constituíssem grande riqueza, eram sinal de prosperidade para os padrões do campesinato russo.

Registros da igreja declaram que Iefim casou com Anna Parchukova, da aldeia de Usalka, em 21 de janeiro de 1862. Ela era dois anos mais velha. Os anos seguintes viram vários nascimentos e quase o mesmo número de mortes. De 1863 a 1867, Anna deu à luz quatro filhos — três meninas e um menino —, nenhum dos quais chegou a viver um ano. O primeiro filho a sobreviver foi um menino nascido em 9 de janeiro de 1869, quase sete anos depois do dia do casamento. Foi batizado com o nome de Grigóri no dia 10 em homenagem a são Gregário de Nissa, o místico cristão do século IV, cuja festa era celebrada nesse dia na Igreja ortodoxa russa. Na igreja com Iefim, Anna e o menino estavam os padrinhos — Matvei, irmão mais velho de Iefim, e uma mulher de nome Agafia Alemasova.[10]

Seguiram-se mais dois ou três filhos. Em 1874, Anna pariu gêmeos, que viveram poucos dias, e em seguida houve, possivelmente, uma nona criança, uma menina chamada Feodósia, nascida em 1875, que sobreviveu até a vida adulta. Embora os registros existentes não atestem com clareza se ela e Grigóri eram irmãos ou parentes mais distantes, os dois eram amigos. Ele serviu de testemunha no casamento dela, em 1895, e mais tarde foi padrinho de dois filhos de Feodósia. A história, muito repisada, de que Grigóri teve um irmão ou primo chamado Dmítri, que morreu afogado e em cuja morte Raspútin teria prenunciado a própria, não passa de invenção[11]

Toda a juventude de Raspútin na verdade seus primeiros trinta anos de vida, mais ou menos — é um buraco negro sobre o qual não sabemos quase nada, fato que facilitou todo tipo de inverdades e lorotas. Em 1910, no auge de um dos primeiros escândalos em torno de Raspútin, o jornal Manhã da Rússia publicou uma reportagem alegando que investigadores tinham descoberto detalhes chocantes sobre a vida dos pais de Raspútin. lefim, segundo a reportagem, seria um “sibarita muito devasso” que insistia em ter sexo com a mulher durante a gravidez. Uma vez, quando Anna tentou resistir, ele gritou com ela: “Afaste logo as pernas, ande, afaste logo![12]. Por isso os aldeões passaram a chamar o menino de Grichka Afaste Logo.” Outra lenda dizia que, perto do fim da gravidez de Grigóri, quando a barriga de Anna estava muito gr. ande, Iefim insistiu que fizessem sexo anal, o que supostamente teria sido testemunhado por um homem que trabalhava na casa e espalhou a história na aldeia.[13] Casos como esse eram inventados para sugerir que a perversão sexual era uma espécie de tradição na família de Raspútin.

Sabemos que Raspútin nunca recebeu educação formal e permaneceu analfabeto até o começo da vida adulta. O que não era incomum. A maioria dos camponeses, que trabalhavam cultivando a terra, raramente frequentava escola, e o índice de alfabetização era de 4% na Sibéria em 1900, e meros 20% em nível nacional. Os pais de Raspútin também não estudaram. De acordo com o recenseamento de 1897, ninguém na casa de Raspútin sabia ler.[14] O pequeno Grigóri, como outros meninos de Pokróvskoie, passou a ajudar o pai assim que pôde. Aprendeu a pescar, cuidar do gado, trabalhar na lavoura. Aos domingos, ia à igreja com a família. Era a vida do camponês médio, e não parece ter havido nada em sua juventude, a julgar pelo que as fontes primárias nos contam, que sugerisse que Raspútin estava destinado a levar uma vida diferente daquela dos seus antepassados.

Em grande parte, é por sabermos tão pouco sobre esse período que outras pessoas se sentiram livres para criar sua própria versão da vida na casa de Raspútin. É bem típica esta descrição que apareceu no Folheto de Petrogrado em dezembro de 1916:

A aldeia do santo era pobre e abandonada. Seus moradores tinham urna reputação particularmente ruim, mesmo para os padrões siberianos. Desocupados, trapaceiros, ladrões de cavalo. E os Raspútin eram iguais aos demais, e ele sairia a eles assim que crescesse.
Na juventude, Raspútin era uma lástima. Boca-suja, inarticulado, linguarudo, imundo, ladrão e blasfemador, era o terror de sua aldeia natal. [15]

Na juventude, Raspútin era uma lástima. Boca-suja, inarticulado, linguarudo, imundo, ladrão e blasfemador, era o terror de sua aldeia natal. [15]

O Folheto de Petrogrado definia-o como um imprestável cuja preguiça o levava a apanhar do pai. A acusação mais séria, porém, era a de que o jovem Raspútin tinha sido ladrão e que os registros da administração local guardavam provas de que fora julgado por roubo de cavalo e por levantar falso testemunho.

Pável Raspopov, de Pokróvskoie, contou à Comissão em 1917 coisas parecidas sobre a pessoa e os hábitos de Raspútin. Tinham pescado juntos na juventude, segundo ele, e nenhum dos outros jovens queria saber de chegar perto de Raspútin. O nariz dele estava sempre escorrendo na hora de comer e, quando fumava seu cachimbo, babava muito. Raspútin chegara a ser expulso da comunidade, declarou Raspopov, depois de ter sido flagrado roubando vodca.[16] Há também relatos dc Raspútin roubando feno e lenha, embora fosse mais divulgada a alegação de roubo de cavalo, crime particularmente grave na Rússia pré-revolucionária.[17] Como tanta coisa acerca de Raspútin, a história crescia cada vez que era contada. Se de início se mencionava Raspútin roubando cavalos em uma ou duas ocasiões, mais tarde o que O compositor sueco Wilhelm Harteveld, que esteve com Raspútin mais de uma vez, disse depois da morte de Raspútin que ele nascera numa família de ladrões de cavalo. Iefim supostamente lhe ensinou o oficio da família, por assim dizer, e sentiu-se muito orgulhoso quando o filho se tornou conhecido, aos dezesseis anos, como um dos melhores ladrões da região. O príncipe Félix Iussúpov fez comentário parecido em suas influentes memórias.[18] Se fossem verdadeiras, essas histórias teriam deixado algum rastro nos arquivos de Tobolsk ou Tiumen, mas, apesar dos esforços dos historiadores, nunca se descobriu nenhuma referência ao fato de Raspútin ter sido acusado do que quer que fosse nos tribunais. [19]

No entanto, há informações que provam que Raspútin era um jovem indisciplinado. Detalhes colhidos entre os moradores de Pokróvskoie para um relato de gendarmes de Tiumen em 1909 confirmam que Raspútin tinha “vários vícios”, como “gostar de embriagar-se” e cometer “pequenos roubos”, antes de sumir e voltar outro homem.[20] A data do documento é importante, pois antecede a notoriedade de Raspútin, sendo portanto mais provável que reflita a verdade — ou algum aspecto da verdade , e não simplesmente o afã de moradores de dizer aquilo que supunham que os gendarmes quisessem ouvir.

E há também uma série de documentos que definhavam, despercebidos, nos arquivos de Tobolsk até hoje. De acordo com uma investigação oficial, no fim de junho de 1914 um jornalista e seu secretário chegaram da capital à administração distrital (volostnoe pravienie) em Pokróvskoie dizendo-se agentes do governador-geral de São Petersburgo para coletar provas oficiais dos roubos de cavalo praticados por Raspútin na juventude. O funcionário, um homem chamado Nalobin, intimidado demais para pedir comprovantes de identificação, fez uma pesquisa no “Livro de Condenações Anteriores” da aldeia e relatou que Raspútin jamais fora preso ou punido por crimes dessa natureza. Mencionou, porém, que dispunha de documentos comprovando que em 1884 o chefe do distrito (volostnoi starshina) tinha condenado Raspútin, então com quinze anos, a dois dias de prisão por sua “atitude grosseira” para com ele. Essa, segundo o funcionário, era a única menção do passado criminoso de Raspútin. Nalobin pediu aos homens que assinassem o livro de protocolo afirmando terem recebido as informações, mas eles se recusaram e partiram às pressas.[21] Quando soube o que Nalobin tinha feito, Raspútin ficou furioso e insistiu com o governador de Tobolsk que verificasse o que houve. A investigação revelou que Nalobin tinha de fato mostrado aos dois homens os livros da aldeia com os detalhes incriminadores. Por não ter exigido uma confirmação válida da identidade dos homens, Nalobin foi multado em cinco rublos.

É uma descoberta notável, pois cala de forma definitiva as histórias de roubos de cavalo cometidos por Raspútin, bem como relatos de outros crimes. Se houve “pequenos furtos”, como os aldeões e Raspopov alegavam, então eram mesmo muito “pequenos”, a ponto de sequer merecerem a atenção das autoridades da aldeia. É notável também por oferecer a prova mais irrefutável até agora apresentada da natureza rebelde, talvez até turbulenta, da juventude de Raspútin, coisa de há muito conjeturada, e até mesmo vagamente insinuada pelo próprio, mas jamais documentada de maneira confiável. Claro, essas transgressões de juventude são muito comuns, mesmo entre cristãos virtuosos como santo Agostinho. Mas Agostinho, apesar de roubar e fornicar quando jovem, mudou por completo depois que se converteu ao cristianismo. Não se pode dizer o mesmo de Raspútin, que lutaria contra seus vícios pelo resto da vida, com frequência falhando e cedendo ao pecado, coisa que ele mesmo, vale notar, jamais negou.

Vinte e oito quilômetros a sudeste de Tobolsk, o Santo Mosteiro de Znamenski, em Abalak, fica no alto de um penhasco à beira do rio Irtich, construído no lugar onde, em 1636, uma velha camponesa teve uma visão exigindo-lhe, em nome da Mãe de Deus, que construísse uma igreja. O mosteiro tornou-se moradia de um ícone milagroso da Virgem Maria, famoso em toda a Sibéria por seus notáveis poderes de cura. Pessoas viajavam quilômetros até Abalak para conhecer a santidade do mosteiro e receber a bênção do ícone.

Foi em Abalak, no verão de 1886, que Raspútin conheceu uma moça camponesa de nome Praskóvia Dubróvina. Ela era gorda e loura, com olhos escuros. Tinha três anos e pouco a mais do que Raspútin, nascida em 25 de outubro de 1865, o que a tornava quase uma tia solteirona para os padrões de uma moça camponesa.’ Ela, como Raspútin, estava lá para comemorar a Festa da Assunção naquele verão. Namoraram vários meses e casaram logo depois que Raspútin nascida em 25 de outubro de 1865, o que a tornava quase uma tia solteirona para os padrões de uma moça camponesa.[22] Ela, como Raspútin, estava lá para comemorar a Festa da Assunção naquele verão. Namoraram vários meses e casaram logo depois que Raspútin completou dezoito anos, em fevereiro de 1887.[23] Sabe-se muito pouco sobre Praskóvia. Todos que a conheceram só tinham coisas boas a dizer. Era uma esposa e nora trabalhadora, leal, obediente (até mesmo submissa). Como solteirona, Praskóvia talvez fosse grata a Raspútin pela proposta de casamento, o que significava uma casa, família e alguma segurança e estabilidade. A Rússia camponesa não era lugar para mulheres sozinhas. Apesar da obsessão do marido por mulheres, de suas bebedeiras e longas ausências, ela lhe foi dedicada pelo resto da vida, sempre a postos em Pokróvskoie, mantendo a casa e esperando pacientemente que ele voltasse. De sua parte, Raspútin sempre cuidou que ela tivesse o necessário para si e para a casa, e contratava mulheres jovens para ajudar Praskóvia no trabalho e lhe fazer companhia enquanto ele estava fora.

Depois do casamento, foram morar com os pais de Grigóri, como exigia o costume. Logo vieram os filhos, ao todo sete, embora a maioria morresse cedo. Mikhail, nascido em 29 de setembro de 1889, morreu de escarlatina antes de completar cinco anos. Em maio de 1894, Praskóvia deu à luz os gêmeos Gueórgui e Anna. Eles sucumbiram à coqueluche dois anos depois, juntamente com várias crianças da aldeia. Drnítri, nascido em 25 de outubro de 1895, foi o primeiro dos cinco filhos a chegar à idade adulta, seguido de Matriona (mais conhecida como Maria), nascida em 26 de março de 1898, e depois por Varvara, em 28 de novembro de 1900. Uma quinta criança, Praskóvia, nascida três anos depois de Varvara, não chegou a viver três meses.[24] De acordo com o recenseamento de 1897, Grigóri, então com 28 anos, não tinha casa própria, mas ainda vivia com o pai, de 55 anos, e a mãe, de 57, além de sua mulher e o filho Dmítri, de um ano. Todos da casa são listados como analfabetos, os homens como agricultores camponeses do Estado[25] Até então, a vida de Raspútin parecia desenrolar-se exatamente como a de milhões de camponeses russos: trabalhar na lavoura, frequentar a igreja, fazer suas orações, obedecer ao pai, casar, ter filhos, e manter em movimento o ritmo eterno da vida camponesa. Mas de repente tudo mudou.

2. O peregrino

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