Livro ‘O Idiota’ por Fiódor Dostoiévski

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Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou a 30 de outubro de 1821, e estreou na literatura com Gente pobre, em 1846. Após ser preso e condenado à morte pelo regime czarista em 1849, teve sua pena comutada para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, experiência retratada em Recordações da casa dos mortos (1862). Após esse período, escreve uma sequência de grandes romances, como Crime e castigo e O idiota, culminando com a publicação de Os irmãos Karamazov em 1880. Reconhecido como um dos maiores autores de todos os tempos, Dostoiévski morreu em São Petersburgo, a 28 de janeiro de 1881. 
Editora: ‎Editora 34; 4ª edição (1 janeiro 2014)  Páginas: ‎688 páginas  ISBN-10: ‎9788573262551  ISBN-13: ‎978-8573262551  ASIN: B07PTB6V6M

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Biografia do autor: Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski nasceu em Moscou em 1821, e estreou na literatura com o romance Gente pobre, em 1846, ao qual se seguiram O duplo (1846) e Noites brancas (1847), entre outros. Após ser preso e condenado à morte pelo regime tsarista em 1849, teve sua pena comutada para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria, experiência retratada em Escritos da casa morta, livro que começou a ser publicado em 1860, um ano antes de Humilhados e ofendidos. Após esse período, escreve Memórias do subsolo (1864), Um jogador (1867), O eterno marido (1870) e uma sequência de grandes romances, Crime e castigo (1866), O idiota (1869), Os demônios (1872) e O adolescente (1875), culminando com a publicação de Os irmãos Karamázov em 1880. De 1873 até o ano de sua morte publicou ainda o Diário de um escritor, reunindo peças jornalísticas e de ficção. Reconhecido como um dos maiores autores de todos os tempos, Dostoiévski morreu em São Petersburgo, em 1881.

Leia trecho do livro

INTRODUÇÃO

Primeira Parte

1

Em dada manhã de novembro, aí pelas nove horas, o rápido de Varsóvia se aproximava de Petersburgo em alta velocidade. Estava degelando, e tão úmido e embaçado que era difícil distinguir qualquer coisa a dez passos da linha à direita ou à esquerda das janelas dos vagões. Dentre os passageiros alguns regressavam do estrangeiro, mas a maioria dos que lotavam os compartimentos da terceira classe era gente de condição humilde, vinda não de muito longe, a negócio. Todos naturalmente estavam cansados e friorentos, com os olhos pesados de toda uma noite de viagem, e suas faces pálidas e amarelentas competiam com a cor do nevoeiro. Em uma das carruagens de terceira classe, dois passageiros desde antes de amanhecer estavam sentados diante um do outro, ao lado da janela. Ambos moços, não muito bem vestidos, viajando com pequena bagagem. Tinham uma aparência de chamar atenção e demonstravam querer encetar conversação. Se houvessem podido saber o que mutuamente possuíam de extraordinário, muito se teriam admirado de o acaso estranhamente os colocar assim frente a frente, em um vagão de terceira classe do rápido de Varsóvia. Um deles era um homem baixo, em uns vinte e sete anos, de cabelos crespos quase pretos e olhos cinzentos, pequenos e ardentes. Um nariz grande e chato avultava entre os malares proeminentes. Os lábios finos conservavam em sua curva um contínuo sorriso atrevido, de uma ironia maliciosa; mas a fronte bem conformada e alta, redimia As linhas grosseiras da parte inferior do rosto. O que mais impressionava, apesar do seu vigor, era a palidez mortal que lhe dava ao mesmo tempo um aspecto de cansaço e um feitio a bem dizer dolorosamente ardente, que não se coadunava com o insolente sorriso rude nem com a expressão dura e presunçosa dos olhos. Agasalhava-o um grosso sobretudo preto forrado de pele de carneiro e que não lhe deixara sentir o frio noturno; já o seu companheiro porém, tinha ficado exposto ao frio e à umidade dessa noite bem russa de novembro, para a qual evidentemente não viera preparado. Trazia este uma capa bem espessa e ampla, com enorme capuz, dessas que, embora muito usadas lá fora, na Suíça ou no norte da Itália, durante o inverno, estão longe, todavia, de servir a quem se propõe uma viagem como a do percurso entre Eldtkuhnen e Petersburgo. Viável e satisfatória na Itália, longe estava de ser suficiente para a Rússia. O dono da capa era um jovem também de uns vinte e seis ou vinte e sete anos, de estatura pouco acima da vulgar, de cabelos louros e abundantes, faces encovadas e uma barba pontuda tão clara, que parecia branca. Seus olhos eram grandes, azuis e fixos. Através deles transparecia algo gentil mas com uma expressão afadigada e tão esquisita que muita gente ao primeiro relance reconheceria estar defronte de um epiléptico. Ainda assim o rosto era agradável, bem tratado, de traços finos, sem uma coloração própria, muito embora nessa ocasião estivesse um pouco azulado por causa do frio. Segurava um pequeno embrulho atado e um lenço grande de seda puída onde decerto estavam todos os seus haveres. Calçava sapatos de sola grossa, cobertos com polainas, tudo à maneira estrangeira. O seu companheiro de cabelos escuros, o do sobretudo de pele de carneiro, continuava a observar tudo isso, visto não ter o que fazer; e por fim, dando ao sorriso uma indelicadeza maior, em um desses gestos que não raro traem, casualmente, certa satisfação ante a desgraça alheia, lhe perguntou sem a menor cerimônia:

– Com frio?

E deu uma sacudidela de ombros.

– Muito! – respondeu com extraordinária presteza o seu vizinho. – E pensar que se trata apenas de um degelo. Imagine então se estivesse congelando! Não esperava que por aqui já fizesse tanto frio. Perdi o costume. – Está vindo do estrangeiro, hein?! – Estou, sim; Suíça. – Credo! Não me diga! – E o homem moreno assobiou e depois riu. Puseram-se a conversar. Era notável a boa-vontade com que o jovem da capa suíça respondia às perguntas do companheiro. Não deixava sequer transparecer nenhum melindre de desconfiança ante a extrema impertinência das indagações inconvenientes e sem propósito. Contou-lhe que estivera uma grande temporada, mais de quatro anos, fora da Rússia; que o tinham mandado para o estrangeiro por causa da saúde, de uma certa moléstia nervosa fora do comum, do gênero assim da epilepsia ou da dança de São Guido, com ataques e contrações. O homem trigueiro à medida que escutava não perdia ensejo de rir à grande; e riu muito mais ainda quando o outro em resposta à sua pergunta “Bem, mas afinal de contas o curaram?” respondeu: – Qual o quê!

– Mas então o senhor deve ter gasto muito dinheiro com isso! E nós aqui a acreditarmos nessa gente de lá – observou o homem de preto, criticando.

– É isso mesmo! – aparteou um indivíduo mal-ajambrado e corpulento, de uns quarenta anos, com um narigão vermelho e a cara cheia de espinhas, que estava sentado rente deles. Pelo jeito devia ser algum funcionário subalterno, com os defeitos típicos da sua classe.

– Pois é! Absorvem todos os recursos da Rússia para acabarem não fazendo coisíssima nenhuma!

– Oh! No meu caso o senhor está completamente equivocado – redargüiu o paciente chegado da Suíça, em um tom amável e conciliatório. – Naturalmente não posso contradizer a sua opinião, porque não estou a par de tudo isso; mas no meu caso o médico me conservou lá aproximadamente durante dois anos, à própria custa, e ainda gastou o resto do seu pouco dinheiro com esta minha viagem para cá.

– Como assim?! Então o senhor não dispunha de gente sua que pagasse? – indagou o homem moreno.

– Não; o Sr. Pavlíchtchev, que costumava pagar por mim, morreu há dois anos. Escrevi, à vista disso, para Petersburgo, à Sra. Epantchiná, uma parenta minha longe, mas não obtive resposta. Então tive de vir… – E para onde vai agora?

– O senhor quer se referir.., onde vou ficar?… A bem dizer, não sei… Por aí…

– Ainda não pensou nisso, não é?

E os dois ouvintes riram, outra vez.

– E não me admiraria nada se esse embrulho aí fosse tudo que o senhor possui de seu neste mundo! – aventou o homem do sobretudo preto. Nem vale a pena apostar! – retrucou o funcionário de nariz vermelho, com ar jocoso. – Eu cá não me abalançaria a isso quanto mais a aventar que aqui o amigo tenha alguma coisa no carro de bagagem. Aliás, convenhamos, a pobreza está longe de ser um vício.

Pelos modos esse era de fato o caso, e o jovem logo confirmou tal suposição, imediatamente, com a sua presteza peculiar.

– Seja lá como for, o seu embrulho merece consideração – prosseguiu o funcionário depois que todos se riram à larga (sim, todos, pois por mais estranho que pareça, o dono do embrulho também se pusera a rir, encarando- os, o que aumentou de muito a alegria) – embora se possa apostar na certa que dentro dele não haja luíses nem fredericos. e muito menos florins brunidos. Sim, pois se não bastassem as polainas que o senhor usa sobre as botinas compradas no estrangeiro, suficiente seria acrescentar a esse embrulho o tal parentesco com uma pessoa como a Sra. Epantchiná, a mulher do general! Sim, convenhamos que esse embrulho aí se reveste de um valor todo especial, se é que realmente a Sra. Epantchiná é sua parenta. Não vá o senhor estar laborando em um equívoco, em um desses enganos que soem muitas vezes acontecer… por via de um excesso de imaginação.

– Outra conjetura certa, essa do senhor – concordou e esclareceu o jovem louro. – Trata-se realmente, por assim dizer, de uma afirmação muito relativa, pois ela quase não chega a ser parenta minha; tanto que nem me surpreendi por não haver recebido resposta. Eu já contava com isso.

– Botou fora então o dinheiro dos selos! Hum!… Em todo o caso o senhor é franco, não tem empáfia, o que já é a seu favor! Há, há!.. Conheço o General Epantchín; aliás toda a gente o conhece; basta ele ser como é; e em tempos conheci o Sr. Pavlíchtchev também que pagou as suas despesas na Suíça, se é que se trata de Nikolai Andréievitch Pavlíchtchev, pois houve dois com esse nome: eram primos. O outro vive na Criméia. O falecido Nikolái Andréievitch era um homem de valor e muito bem relacionado; chegou a possuir quatro mil servos.. – Exatamente; Nikolái Andréievitch era o nome dele. E ao responder, o jovem olhou atentamente, de alto a baixo, o cavalheiro que sabia tudo.

– Exatamente; Nikolái Andréievitch era o nome dele. E ao responder, o jovem olhou atentamente, de alto a baixo, o cavalheiro que sabia tudo. Tais cavalheiros oniscientes são encontrados muitas vezes em uma certa camada da sociedade. Sabem tudo. Tanto a sua incansável curiosidade como as suas aptidões de espírito inclinam-se irresistivelmente em uma direção, sem dúvida por falta de idéias e de interesses mais importantes na vida, como diria um pensador moderno. Mas as palavras “eles sabem de tudo” devem ser tomadas aqui em um sentido quiçá limitado: em que departamento fulano trabalha; que espécie de amigos tem: quais os seus proventos; onde foi governador: quem é sua mulher e que dote lhe trouxe: quais são os seus primos de primeiro grau; quais os de segundo; e outras coisas deste jaez. A maioria de tais cavalheiros oniscientes vive com as mangas coçadas nos cotovelos e recebe um ordenado de dezessete rublos por mês. As pessoas de cujas vidas eles conhecem todos os pormenores ficariam perplexas se lhes fosse dado imaginar suas intenções, mas muitos desses cavalheiros arrancam de tais conhecimentos uma consolação sobremaneira positiva, o que importa em uma ciência completa, disso derivando um autorespeito e o mais alto prazer espiritual. Não se pode negar que se trata de uma fascinante ciência. Farto estou de haver visto homens cultos, literatos, poetas, políticos que procuraram e acharam nessa ciência o seu mais elevado conforto e a sua última finalidade, apenas tendo conseguido fazer carreira mediante emprego de tais dons. Durante esta parte da conversação o homem moreno deu em bocejar e em olhar através do vidro da janela, esperando impacientemente o fim da viagem, não tardando a ficar bastante inquieto, deveras, mal contendo a própria agitação. Na verdade seus modos não deixavam de ser bastante estranhos; ora parecia ouvir sem escutar, ora parecia olhar sem ver. Chegou mesmo a rir, uma vez ou outra, sem saber de quê, ou logo se esquecendo do motivo. – Desculpe, com quem tenho eu a honra de… – perguntou de repente o homem da cara cheia de borbulhas, voltando-se para o moço do embrulho. – Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin é o meu nome – respondeu este último, sem a menor hesitação, de modo muito espontâneo. – Príncipe Míchkin? Liév Nikolátévitch?… Não conheço. Nem creio já ter ouvido! – respondeu o amanuense, pensativamente. – Claro que não estou dizendo que desconheço o sobrenome, que até é histórico; o compêndio de história de Karamzín dá, e com notórias razões; refiro-me ao senhor, pessoalmente. Não me constava que houvesse Príncipes Míchkin por aí; pelo menos não se ouve falar neles. – Creio que não haja mesmo – respondeu logo Míchkin – ou melhor, só existe um, atualmente, que sou eu; cuido ser o último deles. E no que se refere aos nossos pais e avós, alguns não foram senão pequenos proprietários rurais. Meu pai foi cadete, depois tenente do Exército; no entanto, a senhora do General Epantchín não deixava de ser, de certa forma, uma princesa Míchkin, pois como tal foi nascida: foi a última da sua fornada.., também! – Eh! Eh! Eh! “A última da sua fornada!” Boa! Com que graça o senhor esclareceu isso! – chasqueou o funcionário público. O homem moreno também se arreganhou todo. Míchkin ficou até surpreendido em haver perpetrado um gracejo, aliás muito insípido. – Palavra de honra que me exprimi assim sem pensar – explicou ele, por fim, meio zonzo.

– Lógico, lógico que foi sem pensar – concordou o funcionário bem- humorado.

– E o senhor, lá no estrangeiro, também esteve estudando com professores, príncipe? – perguntou sem mais aquela o homem do sobretudo de pele de carneiro.

– Estive, sim senhor.

– Pois eu nunca estudei nada.

– Bem, eu, quer o senhor saber? só estudei um pouquinho – acrescentou o príncipe quase como a querer pedir desculpas. – Eles lá não me apertavam por causa da minha doença. Nisto o homem da capa preta se saiu com esta, à queima-roupa: – Conhece os Rogójin?

– Não, não os conheço, absolutamente. Dou-me com muito pouca gente aqui na Rússia. O senhor é um Rogójin?

– Sim, chamo-me Parfión Rogójín.

– Parfión? O senhor é um desses Rogójin que… – começou logo o funcionário, tomando um ar de crescente circunspeção. – Perfeitamente. Um deles. Sou um dos tais Rogójin, sim – atalhou imediatamente o homem moreno, com um feitio grosseiro de irritação. Não se tinha dirigido uma única vez ao homem das borbulhas, na verdade até ali só havendo falado com Míchkin.

– Não me diga!… – E o amanuense se petrificou, cheio de espanto, enquanto os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. E logo o seu rosto assumiu uma expressão de servilismo e de reverência, quase que de pânico. – É parente, porventura, de Semión Parfiónovitch Rogójín, cidadão honorário e hereditário que faleceu há coisa de um mês e que deixou uma fortuna de dois milhões e de meio de rublos?!

– E como sabe você que ele deixou dois milhões e meio? – retrucou o homem moreno, sem se dignar olhar para o funcionário público nem mesmo de relance.

– Veja este sujeito! – E se voltou bem para o príncipe, indicando com um gesto de pálpebra o outro. – Que lucra gente como essa em bajular logo uma pessoa? Lá isso que meu pai morreu, de fato morreu, está fazendo já um mês. E aqui, conforme o senhor me vê, estou chegando de Pskóv, quase descalço. – O patife do meu irmão, mais a minha mãe, não me remeteram um vintém sequer; e muito menos um aviso – nada! Como se eu fosse um cão! E estive todo o mês de cama, em Pskóv, com febre! – Mas, valha-o Deus, agora vai o senhor entrar em um milhão intato. Isso, avaliando muito por baixo.

– E o funcionário agitou as mãos para o alto. – E este sujeito a se meter, está vendo só o senhor, príncipe?! – disse Rogójin, que acabou se voltando irritado, dizendo para o intruso, depois, em tom furioso:

– E escusa de pensar que lhe jogarei um copeque que seja, está ouvindo?

Nem que você se equilibre com a cabeça no chão e as pernas para o ar, escutou?! – Se me equilibro! Olá, se me equilibro!! – Esta agora! Pois não lhe darei coisa nenhuma, pronto! Nem que você dance à minha volta durante uma semana, de fio a pavio. – Pois não dê, ora essa!? E por que haveria o senhor de dar? Mas que dançarei, lá isso dançarei. Largo a mulher e as crianças e venho dançar na sua frente. Homenagens lhe são devidas! Se são!… – Enforque-se! – cuspiu o homem trigueiro, logo se voltando para o príncipe, novamente.

– Há coisa de umas cinco semanas, sem trazer nada a não ser um embrulho como o senhor agora, fugi da casa de meu pai para a casa de minha tia em Pskóv, onde caí doente. E enquanto estive fora, meu pai morreu. Deu com o rabo na cerca… Deus o tenha na Sua glória, arre! Mas quase que quem morria antes era eu. Sim, matava-me, acredite-me, príncipe! Eu que não fugisse! Dava- me cabo do canastro ali na hora, sem cerimônia alguma! – O senhor o desgostou com alguma coisa? – indagou o príncipe, olhando para o milionário com um interesse muito especial, perscrutando-o através da pele de carneiro. E conquanto a só história da herança de um milhão tornasse o homem já por si notável, algo mais havia nele que surpreendia e interessava Míchkin. E motivo deve ter havido para o próprio Rogójin se pôr a conversar prontamente com o príncipe, na verdade parecendo se tratar bem mais de uma necessidade física do que mental, despertada mais pela preocupação do que pela franqueza, como se buscasse, na sua agitação e no seu paroxismo, alguém a fim de exercitar a língua.

Parecia estar ainda doente, ou pelo menos com um resto de febre. Quanto ao funcionário subalterno, este então já agora permanecia como que suspenso diante de Rogójin, quase não ousando respirar, agarrado às menores palavras, como à espera que delas caísse algum diamante. – Zangado, lá isso bem que ele estava, e bem que lhe sobravam razões – respondeu Rogójin, – mas tudo preparado propositadamente por meu irmão. A minha mãe não posso eu culpar, não passa de uma velha que vive lendo As Vidas dos Santos, sentada entre outras velhotas. E o que o mano Semión disser é lei. Mas por que não me mandou ela avisar ainda a tempo? Eu sei por que foi! Sim, verdade é que eu estava ainda inconsciente a tal altura. Garantem que passaram um telegrama; de fato, mas o passaram a quem? A minha tia. Ora, minha tia cozinha uma viuvez há mais de trinta anos e passa a vida com os iuródivii, (Iurôdivii: simples de espírito, muitas vezes epilépticos, que passavam por ter os atributos de santos e um dom profético. – N. do T.) uns romeiros malucos, isso desde manhã até à noite. Não que seja propriamente uma freira; algo muito pior, isso sim. Claro que, como velha, havia de se apavorar com um telegrama. E zás, foi levá-lo imediatamente à delegacia de polícia, sem ao menos abri-lo: e lá ainda está o estupor! Quem me valeu foi Vassílii Vassilitch Konióv, que me escreveu contando essa trapalhada toda. Até me mandou dizer que meu irmão cortou durante a noite as borlas douradas do brocado fúnerário do caixão de meu pai. “Esta joça deve valer um dinheirão!” disse o gajo. Só por causa disso ele pode ser mandado para a Sibéria, se eu quiser, pois se trata de um sacrilégio. Você aí, seu espantalho – virou-se para o funcionário público – a lei diz ou não diz que isso é sacrilégio’?

– Se é sacrilégio? Inominável! – asseverou o amanuense, imediatamente. – E não é um caso de Sibéria?

– Lógico! Sibéria! Sibéria imediatamente! – Eles lá cuidam que eu ainda esteja doente. – E Rogójin voltou-se de novo para o príncipe.

– Pois, sem dizer um pio a quem quer que fosse, me meti no vagão, doente mesmo como estava e como ainda estou, e vou tocando para casa. “Tu, mano Semión Semiónovitch, ao abrires a porta quando eu bater, vais dar de cara comigo!” Fez meu pai virar contra mim, eu sei. Confesso que fiz meu pai ficar zangado por causa de Nastássia Filíppovna. Por causa do que eu fiz. Quanto a isso, não há dúvida, sou culpado.

– A propósito de quem? De Nastássia Filíppovna? – balbuciou o funcionário com o maior servilismo, como a ligar o que estava escutando com qualquer coisa no seu cérebro.

– Não vá me dizer que a conhece também! – exclamou Rogójin com impaciência.

– Pois conheço! Se conheço! – respondeu o homem, triunfantemente. – Ora a minha vida! Há várias Nastássias Filíppovnas. E uma coisa lhe digo: deixe-se de insolência, animal! – Voltou-se logo para o príncipe e disse como a desabafar: – Já me palpitava que algum estupor da laia deste não tardaria a se dependurar em mim!

– Mas talvez seja essa a que eu conheço! – disse o amanuense, ressabiado. – Eu, Liébediev, sei de tudo; compreendo que Vossa Excelência me invective; mas, e se eu provar o que digo? Sim, eu me refiro a essa Nastássia Filíppovna mesma, por cuja causa o senhor seu pai tentou lhe dar umas bengaladas. O sobrenome dessa Nastássia Filíppovna é Baráchkov, e é uma dama a bem dizer de alto coturno, é mesmo uma princesa, tal a sua maneira; está ligada a um homem chamado Tótskii Afanássii Ivánovitch, a esse e a mais ninguém, pessoa de propriedades e de imensa fortuna, membro de companhias e de sociedades, mediante as quais se tornou muito amigo do General Epantchín…

– Raios o partam! É isso mesmo! – Rogójin acabou ficando surpreso. – Ufa! Pois não é que o excomungado sabe mesmo?! – Cá comigo é assim, Liébedieve sabe tudo! Eu dava umas voltas por aí, Excelência, acompanhando o jovem Aleksándr Likhatchóv. Logo depois que morreu o pai dele andamos juntos uns dois meses. Mostrei-lhe umas coisas, que eu cá conheço muito bem, a ponto dele não se mexer, um passo que fosse, sem Liébediev. Por sinal que ele agora está na prisão, por dívidas; mas a tal altura tive minhas oportunidadezinhas de vir a conhecer Armância, Corália, mais a Princesa Pátski e Nastássia Filíppovna. E muitas outras além destas. – Nastássia Filíppovna? E por qual motivo esse Likhatchóv… Rogójin encarou-o com o cenho franzido, enquanto os lábios se crispavam lívidos.

– Absolutamente! Absolutamente! Não senhor! De forma alguma! – garantiu o amanuense, com uma pressa nervosa. -Likhatchóv não a conseguiria por dinheiro algum! Não, ela não é nenhuma Armância. Ela não tem ninguém, a não ser Tótskii. Certas noites acontece ir ela se sentar no seu camarote no Grande Teatro ou na Comédia Francesa. Não digo que os oficiais, por exemplo. não falem a propósito dela; mas até mesmo eles nada podem dizer contra ela. “Lá está a famosa Nastássia Filippovna!”, dizem, e é tudo. E mais nada, absolutamente, pois não existe mesmo nada. – Lá isso é a pura verdade – confirmou Rogójin franzindo a testa, sinistramente.

– Já uma outra vez Zaliójev disse a mesma coisa. Ia eu atravessando a Perspectiva Névskii, príncipe, metido no casaco de meu pai, que já tinha três anos de uso, quando ela saiu de uma loja e subiu para a carruagem. Fiquei logo abrasado. E esbarrei com Zaliójev. Se desmazelado eu andava, elegante e aprumado vinha ele, que nem um oficial de cabeleireiro, como sempre com o seu monóculo. E dizer-se que na casa de meu pai nós usávamos botas alcatroadas e éramos tratados só a sopas de couve sem carne! “Ela não é para o teu bico, rapaz”, chasqueou ele. “É uma princesa. Chama-se Nastássia Filíppovna Baráchkov e vive com o Tótskii. E o tal Tótskii nem sabe o que fazer para se livrar dela, pois já atingiu a idade crítica da vida – cinqüenta e cinco anos – e aspira casar-se com a maior beldade de Petersburgo”. Acrescentou, então, que eu poderia ver Nastássia Filíppovna outra vez, ainda naquele dia, no Grande Teatro, na récita do ballet. Que ela deveria estar no seu camarote, na sua baignoire. Falar, na nossa família, em ir ao ballet nunca passaria de extravagante presunção, pois o meu velho não tinha meias medidas: ante uma tal audácia, esbodegaria logo com qualquer de nós, taxativamente! Mas eu escapuli e me esgueirei teatro adentro, lá permanecendo durante uma hora; e vi de novo Nastássia Filíppovna. Conseqüência: a noite inteira não consegui dormir. Na manhã seguinte, como de propósito, meu pai cai na asneira de me entregar duas apólices de cinco por cento, no valor de cinco mil rublos cada uma. “Vai vendêlas”, diz-me ele, “e entrega sete mil e quinhentos rublos no escritório do Andréiev, liquidando assim uma conta que tenho lá e volta imediatamente para casa com o troco, que te fico esperando”. Saí com as apólices, troquei-as em dinheiro sonante, mas quem diz que fui ter com Andréiev?

Toquei mas foi diretamente para a Loja Inglesa, onde escolhi um par de brincos tendo cada um deles um diamante do tamanho mais ou menos de uma noz. Dei por eles os dez mil rublos e ainda fiquei devendo mais quatrocentos. Disse o meu nome e confiaram em mim. Dali fui com os brincos procurar Zaliójev. Conteilhe tudo e o intimei: “Leva-me à casa de Nastássia Filíppovna, mano velho”. Despachamo-nos. Não via e nem me posso lembrar que ruas seguíamos, por onde passávamos, por quem cruzávamos. Só sei que fomos parar exatamente na sua sala de visitas e que ela depois apareceu, pessoalmente. Naquele instante como havia eu de dizer a ela quem eu era? E foi Zaliójev quem tomou a palavra: “Queira aceitar isto da parte de Parfión Rogójin, como lembrança do encontro com a senhora, ontem; digne-se aceitar, por quem é!”. Ela abriu o estojo, olhou e sorriu. “Agradeça por mim ao seu amigo, o Sr. Rogójin, por sua tão amável atenção”. Inclinou-se, saudando, e retirou-se lá para dentro. Há! Por que não morri eu logo ali mesmo? Se me atrevera a ir à casa dela fora porque pensara: “Só em revê-la, morrerei!” E o que me mortificava mais do que tudo, era aquela besta do Zaliójev haver ficado com as honras e vantagens do ato. Sim, pois mal vestido como eu estava, fiquei acolá, diante dela, mudo, pasmado, cheio de acanhamento, ao passo que ele, endomingado na última moda, todo frisado e empomadado, muito garboso com a sua gravata de riscas – era todo mesuras e salamaleques. Ora, é claro que ela o tomou como sendo eu!

“Toma tento, ó coisa”, disse-lhe eu, já na rua, “não te ponhas a arquitetar patranhas, hein? estás ouvindo bem?” Ele ria. “E como é que vais agora prestar contas do dinheiro a teu pai?” Bem me pareceu que a solução era, em lugar de voltar para casa, me atirar ao rio; mas pensei: “Depois do que houve, que me importa o resto?” e entrei uma alma sem remissão. – Que horror! – fez o funcionário, encolhendo-se todo. Positivamente estava assombrado. – Ainda mais sabendo que o falecido era um indivíduo capaz de dar cabo de uma pessoa por causa de dez rublos, quanto mais então por dez mil rublos, credo! – acrescentou, meneando a cabeça para o príncipe. Míchkin encarou Rogójin observando-o com interesse; este último se tornara agora mais lívido do que nunca. – Capaz de dar cabo de uma pessoa! – disse Rogójin, repetindo as palavras do outro e escandindo-as.

– Quem lhe disse que ele era capaz de liquidar com um sujeito? – E, voltando-se imediatamente para o príncipe, prosseguiu: – O velho descobriu logo o meu estelionatozinho… e, de mais a mais, Zaliójev saíra a bater a língua, contando a todo o mundo. Meu pai agarrou-me, fechou-se no andar de cima comigo e, durante uma hora, lhe estive nas garras: desancou-me. “E isto é apenas um prefácio”; me disse ele. “Ainda voltarei para te dizer boa noite”. Que pensa o senhor que ele resolveu? Dirigiu-se nem mais nem menos à casa de Nastássia Filíppovna, arrojou-se aos pés dela, chorando e implorando, a ponto de ela acabar indo buscar o estojo e lhe atirar. “Aí estão os brincos, seu barbaças!” gritou-lhe. “E agora duplicaram de valor para mim, visto Parfión ter afrontado tamanha tempestade para mos trazer. Recomende-me a Parfión Semiónovitch e lhe agradeça por mim”. Durante isso tratei de arranjar vinte rublos com Seriója Protúchin, tomei a bênção de minha mãe e corri a tomar o trem para Pskóv, onde já cheguei tiritando de febre. Aquelas velhas todas de lá desandaram a ler As Vidas dos Santos à minha volta… E eu estatelado, bêbado, a escutá-las! Acabei com o resto das moedas, percorrendo as tavernas do lugarejo, vagueando pelas ruas sem dar tento de nada, completamente aparvalhado. Ao amanhecer estava em franco delírio e, para cúmulo, os cães não se tinham fartado de rosnar no meu encalço. Escapei de boas. – Bem, bem! Mas já agora Nastássia Filíppovna vai cantar em um outro tom – grasnou o funcionário, esfregando as mãos. – Isso de brincos, então… Ah, patrão, agora é que ela vai ver o que são brincos!…

– Cale-se, você aí! Se ousar dizer mais uma só palavra sobre Nastássia Filíppovna o escangalho, tão certo como haver um Deus lá em cima! Lanho-o de chicote! Ou pensa que lhe vale de alguma coisa ser íntimo de Likhatchóv? – gritou Rogójin, agarrando-o violentamente por um braço. – – Isso, isso! Escangalhe-me, pois então é que não se livra mesmo de mim! Escangalhe-me e então terá de me aturar deveras! Isso, isso, desça as mãos sobre mim, como a marcar-me com o seu carimbo de posse… Homessa! Chegamos? – O trem entrara de fato na estação. Apesar de Rogójin haver dito que estava voltando sem ter avisado ninguém, vários homens o esperavam. Assim que deram com ele prorromperam em exclamações e lhe atiraram com os gorros.

– Pois não é que Zaliójev também veio me esperar! – sussurrou Rogójin, olhando para aquele bando todo com um sorriso triunfante e algo malicioso; e logo se voltou para Míchkin.

– Príncipe, não sei por que simpatizei com o senhor. Talvez porque o tenha encontrado em uma emergência destas, muito embora também haja encontrado esse sujeito aqui (e mostrava Liébediev) que não suporto. Vá visitar-me, príncipe. Arrancar-lhe-emos essas polainas. comprar-lhe-emos um casaco de pele, metê-lo-ei em uma casaca de primeira ordem com um colete imaculado, e mais tudo aquilo de que o senhor gosta! Enfiarei dinheiro pelos seus bolsos adentro!… e iremos ver Nastássia Filíppovna! Venha, hein?! Ante o que Liébediev bimbalhou de modo solene e expressivo: – Ouviu bem, Príncipe Liév Nikoláievitch? Não perca essa oportunidade! Oh, não perca esta ocasião! Levantando-se, o príncipe cortesmente estendeu a mão a Rogójin. dizendo com a máxima cordialidade:

– Irei com o maior prazer e lhe agradeço haver gostado de mim. Irei ainda hoje mesmo se tiver tempo. Por minha vez confesso que tive, francamente, muito gosto em conhecê-lo e que desde o instante em que me contou essa passagem referente aos brincos senti grande simpatia pelo senhor. Aliás antes mesmo de me contar esse gesto, e apesar de no começo ter estado a me observar de um modo esquisito, eujá estava gostando do senhor. Obrigado também pelas roupas e pelo casaco de peles que está me prometendo. Na verdade ando muito necessitado de roupas e de agasalhos. E, quanto a dinheiro, efetivamente o que ainda me resta é uma ninharia. – Pois apareça! Esta noite haverá dinheiro, muito dinheiro!

– Haverá sim! Haverá sim!! – confirmava sem parar o amanuense. – Muitíssimo dinheiro, antes de anoitecer, antes de cair o sol! – E mulheres também! Gosta de mulheres, príncipe? Diga com franqueza! – Eu, n… não! Quer que lhe seja franco? Não sei se o senhor compreenderá, mas é que, decerto por causa da minha doença, nada sei a respeito de mulheres…

– Bem, se isso assim é – exclamou Rogójin – valha-o Deus, que põe Suas complacências nas criaturas inocentes.

– Sim, o Senhor nosso Deus se compraz em criaturas como o senhor – reforçou o funcionário público a quem, voltando-se. Rogójin ordenou: – Quanto a você, sigame!

Desceram logo do vagão. Líébediev acabara ganhando a sua partida. O grupo barulhento sumiu logo ao longo da Perspectiva Voznessénski. Quanto ao príncipe, tinha de ir para a Litéinaia. O tempo continuava enevoado e chuvoso. Míchkin informou-se do trajeto com um transeunte – e, como teria de andar umas três verstás, resolveu tomar um fiacre.

2

O General Epantchín vivia em casa própria, em uma travessa da Litéinaia, perto da igreja do Spass Preobrajénskii. Além desta magnífica residência de seis andares, cinco dos quais estavam alugados, tinha um outro enorme prédio na Rua Sadóvaia, que também lhe dava boa renda. Possuía ainda uma vasta propriedade às portas de Petersburgo e também uma fábrica próspera nos subúrbios. Em dias longínquos havia usufruído, como era sabido de todo o mundo, fortes privilégios dos monopólios do governo, tendo, atualmente, interesses e considerável influência na direção de sociedades anônimas muito firmes. Era reputado pela sua grande fortuna e imensas ligações, como homem de negócios, tendo tido sempre o dom de saber se tornar indispensável, sendo a seção governamental onde trabalhava a melhor prova disso. Todavia, era notório que Iván Fiódorovitch recebera pouca educação e era neto de soldado. Esta última condição indubitavelmente só lhe podia ser honrosa. Mas o general, embora fosse um homem inteligente, não se libertara de umas pequeninas fraquezas, aliás desculpáveis, não lhe agradando alusões a tal respeito. Tratava-se, inquestionavelmente, de um homem inteligente e hábil.

Adotara como princípio, por exemplo, não se colocar muito em evidência, apagando-se até quando as circunstâncias o exigiam, sendo que muitos o apreciavam justamente por causa da ciência de saber se colocar em seu lugar. Mas se esses que o admiravam por isso soubessem o que, às vezes, se passava na alma de Iván Fiódorovitch, o homem que sabia qual era o seu lugar!…

Embora, realmente, tivesse conhecimentos práticos e experiência própria, bem como notável habilidade, preferia aparecer carregando idéias alheias em vez das inclinações do próprio intelecto, para poder estadear como homem “desinteressadamente devotado” e — para coincidir com o espírito da época — como um coração generosamente bem russo. A tal respeito contavam-se histórias engraçadas que não desconcertavam o general, pois era reconhecida-mente bafejado pela sorte, até nas cartas, jogando paradas fortes. E, longe de esconder esse seu fraco (como ele o chamava), intencionalmente o ostentava, visto que, além do lado pecuniário, lhe rendia outras vantagens. Freqüentava uma sociedade muito variada, mas composta apenas de gente de categoria. Tinha tudo diante de si; dispunha de tempo para tudo, e tudo lhe vinha a contento. E quanto à idade, também, o general estava no que se chama a flor da vida, com seus cinqüenta e seis anos, não mais; e nós bem sabemos que isso é que é a verdadeira flor da existência do homem, a idade em que realmente a vida começa.

A sua boa saúde, a sua compleição, a sua risada através de dentes bons, embora pretos, o seu ar preocupado de manhã no escritório, as suas maneiras bem-humoradas de noite nas cartas, ou em casa de Sua Alteza, a sua atraente e sólida figura, tudo contribuía para o seu triunfo presente e futuro, despetalando rosas no caminho de Sua Excelência.

O general tinha uma família, com florescentes filhas. Nem tudo, porém, eram rosas somente… Havia circunstâncias imediatas em que as fundadas esperanças e os promissores planos de Sua Excelência exigiam concentrações sérias e profundas. Afinal de contas. que há de mais grave e mais sagrado do que os planos de um pai? A que se devia um homem apegar, se não à sua família?

E a do general consistia de esposa e três filhas já crescidas. Casara-se muito cedo, quando ainda tenente, com uma moça quase de sua idade, que não se distinguia nem pela beleza nem pela educação, e que apenas lhe trouxera um dote de cinqüenta almas, dote que serviu, todavia, como um degrau para a fortuna de mais tarde.

Mas, nunca, depois, se queixou desse casamento tão cedo contraído, e nunca o considerou um erro da mocidade; assim, respeitava a mulher, e a temia, às vezes tanto, que até chegava a amá-la… Ela era uma princesa Míchkina, de uma antiga embora não muito brilhante família, tendo muito apreço à sua origem. Certa pessoa de influência, um desses protetores cuja proteção nada custa, consentira em se interessar no casamento da jovem princesa, e assim abrira caminho para o jovem oficial e lhe dera mão eficaz, embora, a falar verdade, ajuda alguma fosse precisa, um mero olhar lhe tendo bastado para perceber que não seria repelido. Com raras exceções, marido e mulher passavam a vida em harmonia. No começo, a Sra. Epantchiná, como princesa nata, e a última do nome, fizera, mercê também de suas qualidades pessoais, amizades influentes nos círculos elevados, até que, ultimamente, ajudada pela fortuna e pela importância do esposo, já se considerava em casa, mesmo quando em esferas sociais mais elevadas.

Fora durante esses anos que as filhas — Aleksándra, Adelaída e Agláia — tinham crescido. Assinavam-se apenas Epantchiná, éverdade, mas possuíam nobre estirpe pelo lado materno, contavam com um dote apreciável, tinham um pai que, cedo ou tarde, deveria galgar proeminentes posições, e — questão que também não se pode desprezar — eram todas as três notavelmente bonitas, inclusive a mais velha, Aleksándra, que já completara vinte e cinco anos. A segunda, Adelaída, tinha vinte e três e a mais nova, Agláia, apenas vinte. Esta é que era de fato uma beleza, começando já a atrair muita atenção na sociedade. Mas isso não era tudo. Todas as três se distinguiam pela educação, habilidade e talento. Cada qual percebera que se dava perfeitamente com as outras; sempre afinavam juntas, em tudo. Falava-se mesmo de sacrifícios feitos pelas duas mais velhas em favor da mais moça, que era o ídolo da casa. Não gostavam muito de se mostrar em sociedade e eram modestas. Ninguém as poderia censurar por altivas ou demasiado inacessíveis, apesar de se saber que eram orgulhosas e compreendiam quanto valiam. A mais velha era musicista; a segunda pintava passavelmente bem, conquanto isso não fosse do conhecimento geral, a não ser recentemente e, ainda assim, por acaso. Em uma palavra: muito se dizia em favor delas. Mas também havia críticas hostis. Falava-se com horror do número de livros que liam. Elas tinham pouca pressa em se casar; era-lhes agradável, e nada mais, pertencer a certo círculo de sociedade. Mas tudo isto era notável, pois todos conheciam a tendência, o caráter, os desejos e as propensões paternas.

Eram cerca de onze horas quando o príncipe tocou a campainha do apartamento do general, que era no primeiro andar e demasiado modesto se considerarmos a sua situação social. Um criado de libré abriu aporta e Míchkin teve dificuldade em explicar a sua aparição a esse homem que desde o começo olhava desconfiado para o seu embrulho. Por fim, ante a sua reiterada e categórica asserção de que era realmente o Príncipe Míchkin, e que precisava formalmente avistar-se com o general para um assunto importante, o criado perplexo o conduziu a uma pequena antecâmara, ao lado da sala de espera que precedia ao escritório do general; e aí o passou a outro criado, cujo dever era esperar, todas as manhãs, na ante-sala, os visitantes, indo anunciá-los ao general. Este outro criado, que usava uma casaca de compridas abas, tinha uma atitude muito empertigada para os seus quarenta anos. Era o criado grave de Sua Excelência. introduzia as visitas no escritório e só por isso se dava ares de importância.

– Passe para a sala de espera e deponha o seu embrulho aqui – disse, sentando-se em uma poltrona, com deliberada dignidade. passando a olhar com firmeza para Míchkin que se tinha sentado em uma cadeira perto dele, com o embrulho no colo.

– Caso o senhor permita – rogou o príncipe – eu preferiria ficar aqui, com o senhor; que vou fazer lá na saleta, sozinho? – O senhor não pode permanecer na ante-sala, pois é um visitante, em outras palavras, um hóspede momentâneo. Deseja ver o general em pessoa, ou… Era evidente que o criado hesitava ante o pensamento de anunciar semelhante visita, razão pela qual fazia novas perguntas. – Em pessoa, em pessoa, pois tenho um negócio a… – Não me interessa saber o seu negócio. O meu dever é apenas anunciá-lo. Mas, como já lhe disse, na ausência do secretário, não posso fazê-lo entrar. A desconfiança do homem crescia mais e mais, pois o príncipe não se parecia com o normal dos visitantes diários; e, mesmo que o general, em dadas horas, recebesse, às vezes, visitas da mais variada condição, especialmente em casos de negócios, o criado sentia, agora, a despeito da latitude das instruções que lhe tinham sido dadas, uma grande hesitação; e só mesmo a opinião do secretário é que lhe mostraria, de modo cabal, a atitude a tomar. – O senhor é, realmente, de fora, do estrangeiro? – perguntou, sem querer; e logo ficou confuso. O que decerto pretendera perguntar era se ele “realmente era o Príncipe Míchkin”.

– Sim, vim de fora. Acabo de chegár da estação. Creio que o senhor ia perguntar se eu sou realmente o Príncipe Míchkin, não o tendo feito apenas por polidez.

– Hum! – fez o criado, admirado.

– Posso assegurar-lhe que não lhe disse uma mentira e que não se porá em apuros, por minha causa. E nem precisa espantar-se com a minha aparência e porque trago um embrulho. É que não estou, atualmente, em circunstâncias lá muito favoráveis.., florescentes.

– Hum! A tal respeito não tenha apreensões. O meu dever restringe-se a anunciálo; o secretário virá vê-lo, a menos que o senhor… Realmente, a dificuldade está em… O senhor não veio pedir nenhum auxilio ao general? Permita que avance esta pergunta!

– Oh! Não, absolutamente. Quanto a isso, fique descansado, O meu negócio é bem outro. – Queira perdoar-me. Falei assim, por causa da impressão que o senhor me deu à primeira vista. Faça o favor de esperar; o secretário não demora! E Sua Excelência está ocupado, lá dentro. com o coronel, no presente momento. E depois, vem ainda o secretário.., da Companhia… que pediu hora. – Bem, já que devo esperar ainda um pouco, gostaria de saber se há algum lugar por aqui, onde eu pudesse fumar. Trouxe comigo tabaco e um cachimbo. – Fumar? – disse o criado, encarando-o com desdenhosa surpresa, como se não devesse acreditar no que ouvira. – Fumar? Não, o senhor não pode fumar aqui. O senhor devia-se envergonhar de pensar em uma coisa dessas. Eh! Eh! Que pergunta mais disparatada!

– Não quis dizer aqui nesta sala. Julguei que houvesse algum lugar que o senhor pudesse me mostrar, pois há já três horas que não fumo. Estou acostumado a fumar. Mas seja como o senhor quiser. Há um ditado, sabe o senhor, que diz: “Em Roma não se deve.., etc.” O criado não pôde deixar de tartamudear: – Como é que vou anunciar um camarada da sua marca? O senhor (agora já ciciava) em primeiro lugar não devia estar aqui, o lugar de esperar é na sala de espera, pois o senhor é uma visita, em outras palavras, um hóspede, e vão ralhar comigo por causa disto. – Depois acrescentou, olhando de esguelha para o embrulho que evidentemente o intrigava: – O senhor não tem a intenção de ficar aqui com a família, pois não?!

– Não! Nem penso nisso. Mesmo que fosse convidado. Vim apenas travar conhecimento com a família. E é tudo!

– Como? Travar conhecimento? – disse o criado com espantu e redobrada desconfiança e escandindo as palavras. – Mas, ora essa, o senhor no começo não disse que já os conhecia, que vinha tratar de um negócio? – Negócio, propriamente, não. A bem dizer, sim, tenho um negócio, mas se prefere outra palavra, ei-la: vim aconselhar-me. E vim, principalmente, porque, sendo eu próprio Príncipe Míchkin, e sendo a Senhora Epantchiná uma princesa Míchkin por sua vez, a última delas aliás, não havendo, assim, pois, mais Príncipes Míchkin, exceto eu e ela…

– O senhor então é parente? – O lacaio ficava cada vez mais apalermado. – Não sou propriamente isso. Ou melhor, para clarear um ponto, de vez, sou parente, mas tão afastado que nem tem valor contar com isso. Escrevi de lá à Senhora Epantchíná; mas não me respondeu. Apesar disso, no meu regresso, achei que devia vir conhecê-la. Estou lhe dizendo isso para o senhor se certificar a meu respeito, pois verifico que está preocupado. Basta anunciar o Príncipe Míchkin; e só este nome será razão suficiente para entenderem o motivo de minha visita. Se eu for recebido, bem; se não, tanto melhor, talvez. Mas não creio que deixem de me receber. É natural que a Sra. Epantchiná queira conhecer o último e único rebento da sua família. Ela considera sobremodo a sua família, conforme ouvi em fontes autorizadas. A conversa do príncipe parecia bastante simples. Mas era justamente essa simplicidade que não se coadunava com o presente caso; e o criado, experimentado como era, não poderia senão sentir qüe o que era viável de homem para homem não o era absolutamente de uma visita para um serviçal. E, embora os criados, geralmente, sejam mais inteligentes do que os seus amos supõem, o nosso homem concluiu que havia duas explicações: ou o príncipe era uma espécie de impostor que tinha vindo pedir dinheiro ao general, ou era, simplesmente, um pouco tolo e falho de senso de dignidade, não compreendendo que não devia se sentar em uma sala nem conversar sobre negócios com um mero criado. Assim, em ambos os casos, só lhe iria dar incômodos. E então retorquiu, o mais expressivamente possível: De qualquer modo, seria melhor que o senhor fosse para a saleta de espera. – É. Mas se eu estivesse lá não teria podido explicar ao senhor tudo isto – respondeu o príncipe, sorrindo, com bom humor. – E o senhor ainda estaria nervoso a olhar para a minha capa e o meu embrulho. Agora, decerto, o senhor já não vai precisar esperar pelo secretário e pode ir anunciar-me ao general. – Eu não posso anunciar um visitante como o senhor sem falar antes com o secretário. Demais a mais, Sua Excelência deu ordens, agora mesmo, para não ser interrompido por ninguém enquanto estivesse com o coronel. O único a entrar, sem se fazer anunciar, só pode ser Gavríl Ardaliónovitch. – É algum funcionário?

– Gavríl Ardaliónovitch? Não. É empregado da companhia. – O senhor deve pôr o seu embrulho aqui. – Eu estava pensando nisso também. E acho que devo tirar a capa. – Naturalmente. Não vai entrar de capa. O príncipe levantou-se e apressadamente se desembaraçou da capa, ficando só com o seu terno que, embora usado e com o paletó um pouco curto, era decente e de bom talho. Uma corrente de aço era visível no seu colete e preso a ela um reloginho de Genebra, de prata. Mesmo sendo o príncipe um bocado tolo – e o lacaio se tinha logo dado conta disso – não era verossímil conversar com um visitante. Mas, ainda assim, não deixava agora de sentir certo prazer, apesar dele lhe ter despertado um sentimento de grande e inevitável indignação quando ousou perguntar: – E a Sra. Epantchiná, quando recebe ela as suas visitas? – E o príncipe voltou a sentar-se no mesmo lugar.

– Tais visitas não são atribuição minha. A senhora generala recebe em diferentes ocasiões, de acordo com o que elas sejam. A costureira é admitida às onze em ponto. Gavríl Ardaiiónovitch éadmitido mesmo antes de qualquer outra pessoa, às vezes até antes do almoço. – Os cômodos aqui são mantídos em uma temperatura melhor do que no estrangeiro observou Míchkin.

– Mas lá, o ar, fora de casa, é menos gélido do que aqui. Um russo, se não estiver acostumado, dificilmente poderá viver nas casas de lá, durante o inverno.

– Eles as aquecem?

– Não. E as casas são de construção diferente, isto é, as janelas e os fogões são de outro feitio.

– Hum… O senhor esteve por lá muito tempo? – Quatro anos. Mas, quase sempre no mesmo lugar, sempre fora de grandes cidades.

– De modo que se desacostumou dos nossOs hábitos! – Sim, de certo modo. E acredite que até estou surpreendido de não ter esquecido o russo. Enquanto falo com o senhor, fico pen sando: “Ora, não é que estou falando lindamente o russo?!” Talvez até, quem sabe se não é por isso que estou falando tanto? Desde ontem que estou abusando, falando russo sem parar.

– Hum!… Ah! O senhor antes viveu em Petersburgo? Apesar de seus esforços, o lacaio não pode resistir e enveredou por uma conversa polida e afável.

– Em Petersburgo? Eu? Raramente estive aqui. Só de passagem para outros lugares. Antes não conhecia nada da cidade, agora, segundo ouvi, há muitas coisas novas, de modo que mesmo quem a conhecia ainda tem muita coisa fresca para ver. Fala-se muito do novo Palácio da Justiça. – Há! O Palácio da Justiça. Sim, realmente há um Palácio da Justiça. E lá pelo estrangeiro, como é? Há por lá muitas cortes de justiça? São como as nossas?

– Não saberia lhe responder. Ouvi gabarem muito as nossas daqui. Conforme o senhor sabe, nós não temos, por exemplo, a pena capital.

– Então, lá, eles executam gente?

– Sim. Uma vez eu vi, na França, em Lião. O Dr. Schneider me levou. – Enforcam, não é?

– Não. Em França eles cortam fora as cabeças. – Gritam?

– Como poderiam? Aquilo é feito em um instante. Fazem o homem ficar deitado e então uma grande faca desce, pelo próprio peso. Uma máquina poderosa, chamada guilhotina. A cabeça pula fora antes que a pessoa pisque! Os preparativos são horríveis. Mal acabam de ler a sentença, aprontam o homem, atam-no, levam-no para o cadafalso – e isso é que é terrível! Juntam-se multidões, até mulheres, embora não gostem que as mulheres assistam. – Não é coisa para elas!

– Naturalmente que não. Naturalmente Uma coisa assim, tão hedionda! O criminoso era um homem inteligente, de meia-idade, forte, corajoso, chamado Legros. Mas lhe garanto que quando subiu para o cadafalso estava chorando, e mais branco do que uma folha de papel. Não é incrível? Não é hediondo? Quem pode chorar de medo? Nunca me passou pela cabeça que um homem já feito não uma criança, mas um homem que nunca chorou, um homem de quarenta e cinco anos, pudesse chorar de medo! O que não deve estar se passando na sua alma, nesse momento!? A que angústia não deve ela estar sendo levada!? É um ultraje para uma alma, eis que é! Está escrito: “Não matarás!” E então, porque ele matou, o matam? Não. Isso está errado! Já faz um mês que assisti a isso, mas me parece estar ainda vendo com os meus olhos. Já tenho sonhado uma meia dúzia de vezes.

Míchkin, enquanto falava, estava completamente mudado; uma ligeira coloração subira ao seu rosto pálido, muito embora a sua voz continuasse gentil. O lacaio seguia-o com simpático interesse, tanto que o desagradou ter o príncipe se calado. Ele, decerto, também era um homem de imaginação e de sensibilidade, cujo pensamento trabalhava. – Ainda é uma boa coisa que, pelo menos, não haja muito sofrimento quando a cabeça cai.

– Quer saber de uma coisa? O senhor fez justamente uma observação que já ouvi de muitas outras pessoas – prosseguiu o príncipe, acalorando-se – e a guilhotina foi inventada com esse fim. Mas, naquela ocasião, me ocorreu o pensamento de que talvez isso fosse pior. Pode lhe parecer absurda e bárbara esta minha idéia, mas, quando se tem imaginação, se chega, como eu, a supor isso. Pense! Se houvesse tortura, se, por exemplo, houvesse sofrimento, um ferimento que desse agonia corporal, e tudo o mais, isso pelo menos distrairia o espírito, desviando-o do sofrimento moral, de maneira que só se seria torturado pela dor física até que se morresse. Mas a principal e pior pena não está no sofrimento corporal e sim em se saber com segurança matemática que, em uma hora, depois em dez minutos, a seguir em meio minuto, e, depois, já, bem agora mesmo, neste segundo, a alma deve deixar o corpo, e se vai cessar de ser homem; e que isso tem de acontecer!… O pior de tudo isso está em que é certo. Quando o senhor deita a sua cabeça lá, debaixo da lâmina, e a ouve escorregar vindo para a sua cabeça, este quarto de segundo é o mais terrível de todos. O senhor note que isso não é imaginação da minha parte. Muita gente tem dito o mesmo. Vamos a ver se consigo lhe dizer cabalmente o que sinto. Matar, por causa de um assassinato, é uma punição incomparavelmente pior do que o próprio crime cometido. O assassinato por sentença judicial é incomensuravelmente pior do que assassinato cometido por bandidos. Quem quer que seja assassinado por bandidos, e, cuja garganta tenha sido cortada, em um bosque, à noite, ou qualquer coisa assim, naturalmente que espera escapar até o último momento. Tem havido casos de uma pessoa ainda esperar escapar, correndo, ou suplicando misericórdia, e já depois da garganta ter sido cortada! Mas no outro caso, a que nos estamos referindo, toda esta última esperança, que faz morrer dez vezes, como é fácil compreender, está suprimida. pois se sabe que é certo, Há uma sentença; e toda a medonha tortura jaz no fato de que não há, certamente, meios de escapar. E não há, no mundo, tortura maior do que esta. Podem-se comandar soldados, mandar que um deles se coloque diante de um canhão, em batalha, e ele saber que vão dispará-lo sobre ele: ainda assim, terá uma esperança. Mas leia o senhor uma dada sentença de morte a esse mesmo soldado e ele ou enlouquecerá, ou cairá em lágrimas. Quem já afirmou que a natureza está capacitada para suportar isso, sem loucura? Para que e por que essa revoltante, inútil e desnecessária atrocidade? Talvez, por aí haja algum homem que já tenha sido exposto a tal tortura e a quem tenha sido dito: “Vai-te embora. Estás perdoado!” Tal homem decerto, nos pode dizer que foi dessa tortura e dessa agonia que Cristo falou, também. Não, não se pode tratar assim uma criatura humana!

Muito embora o lacaio não estivesse em condições de se exprimir como Míchkin, compreendeu muito, se não tudo, dessa conversa. Isso estava patenteado na expressão atônita do seu rosto. – Já que o senhor está tão desejoso de fumar – observou ele – acho que terá tempo, talvez. Mas, apresse-se, pois Sua Excelência pode muito bem perguntar de repente quem estava.., e o senhor ainda estar lá fumando. Está vendo aquela porta, no vão da escada? Vá até lá, abra-a. Encontrará uma saleta, à direita. Pode fumar lá; mas seria bom abrir a janela, pois é contra as regras… Míchkin, porém, não teve tempo para se informar melhor, nem muito menos para fumar. Entrou na sala um jovem com papéis embaixo do braço, que o olhou de esguelha. O lacaio ajudou-o a tirar o casaco de pele. – Aqui este cavalheiro – começou o lacaio, em uma espécie de confidência quase familiar – se anuncia como Príncipe Míchkin e como parente da senhora generala. Acaba de chegar do estrangeiro, apenas com esse embrulho debaixo do braço…

O príncipe não percebeu o resto. Enquanto o lacaio cochichava, Gavríl Ardaliónovitch o escutava com muita atenção, olhando para o príncipe. Cessando afinal de ouvir, aproximou-se pressuroso: – O senhor é o Príncipe Míchkin? – perguntou com extrema polidez e cordialidade.

Era um jovem de boa aparência, louro, de cerca de uns vinte e oitO anos, também de estatura média, com bonito penteado, uma barba à Napoleão III, o rosto vivo e simpático. Só o seu sorriso, todo afabilidade, era um pouco esquisito. Ostentava dentes que pareciam pérolas. A despeito da jovialidade e da aparente maneira natural, havia alguma coisa nele que era demasiado intencional, principalmente no modo dos seus olhos perquirirem. Míchkin sentiu que, quando sozinho, esse homem devia parecer bem outro, talvez até não rindo nunca.

Explicou-se o mais breve que pôde, repetindo parte do que já expusera ao camareiro e a Rogójin. Enquanto isso, parecia que qualquer recordação se ia avivando no espírito de Gavríl Ardaliónovitch. – Não foi o senhor que mandou uma carta a Lizavéta Prokoievna, há um ano, mais ou menos, da Suíça?

– Sim.

– Então estão a par de tudo, a seu respeito, e certamente se recordarão do senhor. Deseja ver Sua Excelência? Vou anunciá-lo. imediatamente. Sua Excelência deve ficar livre já. Somente… seria melhor se o senhor passasse para a sala de espera… Por que está aqui este senhor? – perguntou ao criado, arrogantemente.

– Digo-lhe já: não houve meios de o convencer a…

Bem neste momento a porta do escritório se abriu e um militar. com uma pasta debaixo do braço, se inclinou ao sair, falando alto. E uma voz exclamou lá de dentro do gabinete:

– Você já está aí, Gánia? Venha cá.

Gavril Ardaliónovitch fez sinal a Míchkin que esperasse, e entrou apressadamente para o escritório. Nem dois minutos depois, a porta se reabria e a voz musical e afável de Gavril Ardaliónovitch se fazia ouvir.

– Príncipe, faça o favor de entrar.

3

O General Iván Fiódorovitch Epantchín estava de pé, no meio da sala, e olhava com extrema curiosidade para o jovem que entrava. Deu mesmo dois passos em sua direção. Míchkin aproximou-se, apresentando-se.

– Perfeitamente – disse o general – em que lhe possoser útil? – Não tenho nenhum assunto urgente. O objeto da minha visita é simplesmente travar conhecimento com o senhor. Peço desculpas de incomodá- lo, mas como não conheço seus ajustes e horários para receber visitas. Estou vindo diretamente da estação. Acabo de chegar da Suíça. O general esteve a ponto de sorrir, mas refletiu melhor e se conteve. Refletiu outra vez, acomodou melhor a vista, examinou seu visitante da cabeça aos pés. Rapidamente aproximou dele uma cadeira, sentouse, por sua vez, perto, e se virou com impaciente expectativa. Em pé, a um canto do escritório. Gánia arrumava uns papéis. – Via de regra tenho muito pouco tempo para travar relações, – observou o general – mas como, sem dúvida, o senhor tem en mente algum… – Eu esperava justamente que o senhor – interrompeu-o o príncipe – julgaria ter eu algum motivo especial nesta minha visita. No entanto, posso assegurar-lhe que não tenho nenhum outro a não ser o prazer de travar conhecimento.

– Naturalmente que isso também é um prazer para mim, mas a vida não é feita só de prazeres, o senhor sabe, tem-se, às vezes. trabalho, é claro… De mais a mais, ainda não atinei com o que possa haver de comum entre nós, digamos, a razão, o motivo, o fim…

– Efetivamente não há razão alguma, e o que há de comum realmente é pouco. Ser eu Príncipe Míchkin e a Sra. Epantchiná ser da minha mesma família e nome, não constituem, de fato, razão, basicamente. Compreendo muito bem, Todavia, foi só isso que me trouxe! Passei quatro anos fora da Rússia, o que é muito tempo. E além disso, quando me ausentei, não estava em perfeito juízo. Não conhecia ninguém aqui, nessa ocasião, e agora menos ainda. Preciso procurar gente de bem. Tenho, por exemplo, um negócio de importância a decidir e não sei de quem me valer. Em Berlim me veio a lembrança de que os seus eram, por assim dizer, parentes meus, e que portanto devia começar por aqui. Podemos ser úteis um ao outro: o senhor a mim e eu ao senhor, visto a sua gente ser tão distinta como tantas vezes ouvi declararem que era. – Isso me desvanece muito… – disse o general, surpreendido. – Permita-me perguntar-lhe onde está hospedado?

– Não estou hospedado em lugar nenhum, por enquanto. – Veio, então, do trem para aqui? É… sem bagagem? – Toda a bagagem que possuo é um embrulho com a minha roupa branca; não tenho mais nada, Geralmente o carrego comigo. Terei tempo para tomar um quarto mais tarde.

– Então o senhor pensa tomar um quarto em um hotel? – Oh! Sim, naturalmente.

– Pelas suas palavras, no começo. supus que tivesse vindo para permanecer aqui.

– Isso poderia ser só mediante um seu convite, Confesso todavia, que mesmo se fosse convidado não permaneceria, sim plesmente porque seria contra a minha natureza.

– Então dá no mesmo que eu não o tenha convidado nem o vá convidar. Conceda, príncipe, de maneira a tornar as coisas claras uma vez por todas: desde que estamos de acordo não podermos trazer à baila parentesco nem relações de amizade entre nós. parentesco e relações que aliás muito me desvaneceriam, não há mais nada senão,.. – Senão me levantar e ir embora?! – E Míchkin se ergueu, rindo com positiva jovialidade, apesar de toda a visível dificuldade da sua situação. – E pode crer, general, conquanto eu desconheça os costumes daqui, e nada saiba da vida prática, que ainda assim estou verificando que o que está acontecendo tinha de se dar. Talvez seja melhor dessa maneira. Aliás já não responderam à minha carta, logo… Bem, até à vista; e desculpe ter incomodado. O rosto do príncipe foi tão cordial, nesse momento, e o seu sorriso tão limpo da menor sombra de qualquer gênero de malquerença, que o general ficou subitamente surpreso e passou a considerar o seu visitante sob um diferente ponto de vista. Deu-se logo uma mudança total na sua atitude. – Quer saber de uma coisa, príncipe? Muito embora eu não o conheça – disse com uma voz muito outra – ainda assim Lizavéta Prokófievna gostará decerto de ver uma pessoa que tem o seu mesmo nome. Fique um pouco, se pode e se é que dispõe de tempo.

– Oh! Tempo é que não me falta; é inteiramente propriedade minha.. – E o príncipe imediatamente depôs o chapéu mole de abas redondas sobre a mesa. – Confesso que espero que Lizavéta Prokófievna venha a se lembrar de que lhe escrevi. O criado do senhor, ainda agora, quando eu estava esperando. suspeitou que eu tivesse vindo para implorar auxílio, Percebi isso e concluí que se tratava de ordens estritas dadas a tal respeito. Mas, na verdade, não vim com essa intenção; vim apenas para travar relações. Apenas receio estar atrapalhando, e isso me constrange.

– Bem, príncipe, se realmente é a pessoa que parece ser – disse o general, com um sorriso bem-humorado – – deve ser agradável travar relações com o senhor: mas acontece que sou um homem ocupado, como está vendo, e sou obrigado a sentar-me de novo, olhar e assinar certas coisas; depois, devo ir à casa de Sua Alteza e ao escritório da Companhia; não posso me livrar destas contingências, embora goste de ver pessoas, gentis, naturalmente. Estou certo de que é um homem bem-educado.. Qual a sua idade. príncipe? – Vinte e seis.

– Oh! Pareceu-me bem mais moço.

– Realmente, já me disseram que aparento menos idade. Procurarei não estorválo, pois não gosto de estorvar. E percebo. além do mais, que somos bem diversos, através de diversas circunstâncias, não podendo por isso ter muitos pontos em comum. Entretanto esta minha última proposição pode não valer, pois muitas vezes, parecendo não haver pontos em comum, os há e muitos… É só por comodidade que as pessoas se classificam segundo as aparências, acabando por não acharem nada de comum entre si. Mas, talvez eu o esteja incomodando, o senhor parece que…

– Duas palavras ainda. Tem o senhor recursos, ou pretende seguir alguma espécie de trabalho? Desculpe estar perguntando. – Aprecio e compreendo a sua pergunta. No momento não disponho de recursos, nem de ocupação, mas terei. O dinheiro últímo que tive não era de minha propriedade, me foi dado para a viagem pelo Prof. Schneider, que me estava tratando e educando na Suíça. Chegou resvés para a viagem, de maneira que só tenho, agora, alguns copeques. Há, porém, uma coisa e sobre a qual até preciso muito me aconselhar, mas…

– Diga-me como pretende viver, então, enquanto isso? Quais são os seus planos?

– Desejo trabalhar seja no que for.

– Oh! Então o senhor é um filósofo? Acautelou-se, porém, com alguns talentos, alguma habilitação, fosse o que fosse, de qualquer maneira, de modo a poder ganhar a vida? Mais uma vez me perdoe. – Oh! Por favor, não me peça desculpas. Não. Suponho que não tenho propensão nem habilitação particular alguma para nada. Pelo contrário, até, pois sou doente e não pude ter uma educação sistemática. Quanto à minha vida, pretendo…

O general interrompeu-o e começou a interrogá-lo. Disse-lhe o príncipe tudo quanto já foi narrado até aqui. Parece que o general já tinha ouvido falar do seu benfeitor Pavlíchtchev e que o conhecera mesmo pessoalmente. Por que se interessara Pavlíchtchev na sua educação, não soube o príncipe explicar; provavelmente decorrera isso de simples amizade, de longa data, com seu pai. Perdera Míchkin os pais quando era bem criança. Crescera e passara toda a vida no campo, cujo ar era essencial à sua saúde. Pavlíchtchev pusera-o a cargo de umas senhoras de idade, suas parentas, contratando-lhe uma governanta e depois um tutor. Disse o príncipe que, conquanto se recordasse de muita coisa, muitas peripécias havia na sua vida que não saberia explicar porque nunca as viera a entender completamente. Que freqüentes ataques de uma moléstia tinham feito dele um idiota. (Empregou pessoalmente essa palavra “idiota”.) Explicou que Pavlíchtchev encontrara em Berlim o Prof. Schneider, um especialista suíço em tais doenças, com uma instituição no Cantão de Valais, onde cuidava de doentes que sofriam de idiotia e de loucura, tratando-os por métodos próprios, com duchas frias e ginástica, educando-os, superintendendo o desenvolvimento mental deles. E que, então, Pavlíchtchev o mandara para a Suíça, para esse médico, havia aproximadamente cinco anos, tendo, porém, morrido logo dois anos depois, sem ter tomado providências a seu respeito. E que Schneider o conservara durante mais dois anos, continuando o tratamento e a educação; conquanto não o tivesse curado de todo, tinha conseguido melhorar sobremaneira a sua condição. Por último, por deliberação própria, e devido, principalmente, a certo fato que inesperadamente acontecera, o tinha mandado de volta à Rússia. O general ficou muito surpreendido, e perguntou: – E o senhor não tem ninguém na Rússia? Absolutamente ninguém? – No momento, ninguém. Mas tenho esperanças. Recebi uma carta estranha sobre a qual até…

O general cortou-lhe a frase, fazendo outra pergunta imediata:

– Foi o senhor, todavia, treinado, no mínimo, para alguma coisa? Essa sua aflição doentia não o impediria, por exemplo, de ocupar algum posto fácil? – Oh! Certamente que não impediria. E como eu ficaria contente com um lugar qualquer! Ao menos para ver de que sou capaz. Estive estudando, durante estes últimos quatro anos, sen interrupção, embora por um sistema adequado, inteiramente fora dos planos habituais dos outros. E me entretive muito a ler o russo também.

– O russo? O senhor conhece, então, a gramática russa, e pode escrever sem erros?

– Oh! Perfeitamente.

– Ótimo, ótimo; e a sua caligrafia?

– A minha letra? É excelente. Posso até chamar a isso un talento, pois sou um perfeito calígrafo. Deixe-me escrever-lhe qual quer coisa, como amostra – disse o príncipe, entusiasmando-se.

– Com a melhor das boas vontades. Sabe bem que é uma coisa essencial, saber escrever. E a sua presteza me agrada, príncipe. O senhor é muito agradável, deixe-me dizer-lhe.

– Que material esplêndido para escrita, esse que o senhor tem aqui! Que porção de penas! Quantos lápis! Este papel é magnífico! Sempre preferi papel assim compacto! Que maravilhoso escritório. Conheço aquela paisagem. É uma vista da Suíça. Garanto que o artista a pintou no próprio sítio, que aliás também conheço. É no Cantão de Uri…

– Muito provavelmente. Mas foi comprada aqui. Gánia, dê ao príncipe algum papel. Escolha a pena que quiser. E o papel. Escreva naquela mesinha. Que é isso? – perguntou o general, voltando-se para Gánia que nesse ínterim tinha tirado da pasta uma grande fotografia, tendo-a agora nas mãos. – Ah! Nastássia Filíppovna! Foi ela quem lhe mandou? Ela mesma? – perguntou com muita curiosidade e de modo impetuoso. – Deu-me agora mesmo. Quando lhe fui levar as minhas congratulações. Há muito tempo que eu lhe vinha pedindo. Nem sei se não teria sido proposital, da parte dela, por ter aparecido lá com as mãos vazias em uma data como esta – ajuntou Gánía com um sorriso desagradável.

– Oh! Não – afirmou o general com muita convicção. – Que mania tem você de entender as coisas! Provavelmente ela não quis insinuar isso. De mais a mais, não é interesseira. E afinal, que espécie de presente lhe poderia você oferecer? Teria de custar alguns mil rublos! Você lhe poderia dar o seu retrato, talvez? E, a propósito, ela ainda não lhe pediu um retrato seu?

– Não pediu e, decerto, nunca o fará. Não vá se esquecer da recepção esta noite. Iván Fiódorovitch, naturalmente! O senhor é um dos mais especialmente convidados.

– Não me esquecerei. Fique tranqüilo que não me esquecerei Hei de ir. Pelo que me parece, ela faz vinte e cinco anos!… Ouça. Gánia, não pretendo contar-lhe um segredo; prepare-se, em todo o caso. Ela nos prometeu, a mim e a Afanássii Ivánovitch, dizer a palavra final, na recepção desta noite. Prepare pois o seu espírito.

Gánia ficou tão repentinamente zonzo que empalideceu um pouco – Ela disse isso? Deveras? – perguntou ele com voz trêmula – Deu-nos a sua promessa, anteontem. Nós a apertamos tanto que acabou prometendo. Mas me recomendou que não lhe dissesse nada antes. O general olhou Gánia com firmeza: evidentemente não lhe agradava a perturbação que o outro não sabia disfarçar. – Iván Fiódorovitch há de recordar – disse Gánia hesitante e preocupado – que Nastássia Filíppovna me deixou em franca liberdade até que ela resolvesse, ficando ainda assim a decisão como última palavra minha. – Que é que você quer dizer com isso?… Que é que você quer dizer com isso? – O general ficou alarmado.

– Não quero dizer nada.

– Veja lá, por Deus, em que situação nos vai você querer deixar! – Não estou dizendo que recuso. Não me exprimi bem… – Recusar? Que idéia é essa? – perguntou o general, patenteando bem a sua decepção.

– Não se trata de recusar, sabemos, meu rapaz. Trata-se da presteza, do prazer e do júbilo com que você deve receber a notícia de uma tal promessa… As coisas, em casa, como vão?

– Isso não importa! Quem decide as coisas em casa sou eu. Só meu pai é que continua a se fazer de maluco, como de hábito; o senhor sabe bem a que ponto lastimável ele chegou. Não nos falamos; mas estou sempre de olho nele e, se não fosse minha mãe, já o teria posto fora de casa. Minha mãe não faz outra coisa senão chorar, é lógico; minha irmã emburra. Mas já lhes disse de uma vez para sempre que faço o que quero e que em casa quem manda sou eu… Esclareci isto muito direitinho à minha irmã, na presença de minha mãe. – Ora aí está um ponto que ainda não consegui compreender, meu rapaz – observou o general, como que meditando; depois, mexendo com as mãos e encolhendo os ombros, prosseguiu – Nina Aleksándrovna, no outro dia, quando me veio ver, soluçou e se lastimou; você há de se lembrar. Que seria? me pergunto eu. Parece que considera uma desonra. Mas permita que pergunte: Desonra em quê e por quê? De que se pode exprobrar Nastássia Filíppovna ? Que se pode censurar nela? Ter vivido com Tótskii? Mas, dadas as circunstâncias, isso é tão pueril! “O senhor não a apresentaria às suas filhas!” diz ela. Bem, e que mais? Como é que ela não enxerga? Como é que ela não entende…

– Não entende o quê? A sua própria situação? – insinuou Gánia ao general que se interrompera embaraçado. – Que quer o senhor? Não há meios dela entender, mas não se zangue com ela, por isso. Já lhe dei uma lição para não se intrometer mais em assuntos alheios. E olhe, se em casa todavia ainda estão relativamente quietos é por não ter Nastássia Filíppovna dado uma resposta definitiva! Mas a tempestade está próxima. Tão próxima, que será hoje, na certa, que se desencadeará.

Míchkin, sentado no canto, escrevendo, ouvia toda a conversa. Quando acabou, trouxe a página escrita, aproximando-se da mesa. – Ah! Então esta moça é que é Nastássia Filíppovna!? – fez ele, olhando com muita atenção e curiosidade para o retrato. – Mas é belíssima – acrescentou logo, com entusiasmo.

Realmente era o retrato de uma mulher extraordinariamente bela; estava com um vestido de seda preta muito simples e bem cortado, com os cabelos, que deviam ser castanho-escuros arranjados em um penteado singelo. Os olhos eram negros e profundos, a testa pensativa. Tinha uma expressão aflitiva e, por assim dizer, desdenhosa. E o rosto um pouco delgado era talvez pálido. Gánia e o general fixaram Míchkin com surpresa. – Nastássia Filíppovna? Dar-se-á o caso do senhor conhecer Nastássia Filíppovna? – titubeou o general.

– Conheço. Estou apenas há vinte e quatro horas na Rússia mas ja conheço uma beleza de tal teor! – confirmou Míchkin. E então lhes descreveu o encontro, no trem, com Rogójin, e tudo quanto este lhe havia contado. – Ora aqui temos nós mais uma novidade! – disse o general meio atarantado. Prestara muita atenção à história que Míchkin Contara e olhava agora para Gánia, refletindo.

– Rogójin? Sim, já soube dessa cena de bebedeira. É um negociante, não é? Trata-se, aliás, de uma rematada maluquice! – Eu também soube! – redargüiu o general. – Nastássia Filíppovna me contou essa história dos brincos, uma vez. Mas agora as coisas mudaram muito, agora há alguns milhões e… uma paixão. E nós bem sabemos do que são capazes esses cavalheiros quando bêbados!… Hum! Tomara que não sobrevenha nada de sensacional! – concluiu o general, algo pensativo. – Parece que o senhor está com medo dos milhões desse homem! – sorriu Gánia, afetadamente, – E você naturalmente não está!? Gánia voltou-se logo para o príncipe:

– Diga-me uma coisa, príncipe. Que impressão teve o senhor desse Rogójin? Pareceu-lhe pessoa séria, ou apenas algum rematado louco? Qual a sua opinião? Enquanto Gánia fazia esta pergunta, algo de novo se instalava na sua alma. Uma idéia nova e específica que lhe abrasava o cérebro fazendo-lhe fulgurar os olhos. O general, que também estava bastante preocupado, olhou, por sua vez, de relance, para o príncipe, muito embora não parecesse contar muito com a resposta deste último.

– Não sei o que lhe diga – respondeu o príncipe – mas uma coisa lhe garanto: há nele uma grande paixão; posso mesmo adiantar mais: uma paixão mórbida. Aliás ele me parece mesmo bem doente e pode vir a fazer, outra, vez, dentro de um ou dois dias, uma das suas, principalmente se prosseguiu na orgia.

– O senhor acha? – perguntou o general, refletindo sobre essa opinião. – Acho.

– Uma das suas, só daqui a um ou dois dias? Talvez ainda hoje, isso sim, e até antes mesmo desta noite! – disse Gánia ao general, em um arreganho. – Hum… Talvez, talvez… E então tudo dependerá da veneta em que ela estiver! – ponderou o general.

– E o senhor bem sabe o feitio dela, às vezes! – Qual feitio? Que quer você dizer? – e o general ficou como que suspenso por uma extrema perturbação.

– Ouça, Gánia, faça-me o favor de pelo menos hoje não contradizê-la muito. E tente… agradá-la deveras. Hum! Que cara é essa? Ouça, Gavríl Ardaliónovitch, não está fora de propósito tornar eu a perguntar-lhe que quer você, afinal de contas! Você sabe muito bem que, no que a mim se refere, esse caso não me sobressalta. De uma maneira, ou de outra, tenho as coisas estabelecidas. Tótskíi já decidiu tudo de uma vez por todas, e estou perfeitamente tranquilo; por conseguinte, que me está preocupando é apenas o seu bem. E isto uma coisa que lhe deve estar entrando pelos olhos a dentro. Você não tem o direito de desconfiar de mim. Além disso, você é un homem… um homem… de senso, realmente, e já venho contando com você para o presente caso desde… desde…

– É isso que é o importante , – acrescentou Gánia, tirando o general da sua hesitação. Depois contraiu a boca em um sorriso maligno, que não procurou esconder, e fitou bem o general; no rosto, com olhos febris, como se quisesse ler através daqueles olhos tudo quanto lhe passava pelo espírito. O general corou. amuado.

– Perfeitamente – aquiesceu ele. – Juízo é o principal. – O seu olhar era cortante.

– Você, às vezes, é um sujeito engraçado. Gavríl Ardaliónovitch. Agora, por exemplo, parece que está vendo nesse negociante Rogójín uma saída oportuna para qualquer embaraço seu. Mas é justamente pelo senso que você se deve guiar. neste caso, antes de mais nada. Você deve, neste negócio, pensar e agir honestamente, e às direitas, para com ambos os lados; e, mais ainda, ficar precavido, de antemão, para evitar comprometer os outros, principalmente tendo tido, como teve, tempo suficiente para deliberar e agir. Com efeito, ainda há tempo (e nisto o general franziu as sobrancelhas, significativamente), muito embora para isso você só tenha diante de si algumas horas. Está entendendo? Entendeu bem? Você quer, ou não quer? Se não quer, diga logo de uma vez, e fique à vontade. Ninguém o está coagindo, Gavria Ardaliónovitch, ninguém Lhe está preparando uma armadilha. Isto, caso você ache que se trata de uma armadilha.

– Eu quero – respondeu Gánia, em voz baixa mas firme; abaixou os olhos e afundou em um silêncio quase sinistro.

O general ficou satisfeito. Excedera-se, talvez, por causa da mútua perplexidade, tendo, evidentemente, ido mais longe do que devia. Virou-se, afinal, para Míchkin e a sua face traiu, sem querer, a verificação desagradável de que o príncipe, estando ali, tinha ouvido tudo. Mas logo se tranqüilizou: bastava a quem quer que fosse olhar para Míchkin para não recear nada. – Oh! – exclamou olhando para o modelo de caligrafia que Míchkin lhe mostrava. – Que letra! Esplêndido! Gánia, venha ver Que habilidade!… Sobre a espessa folha de pergaminho o príncipe tinha escrito, em caracteres medievais russos, a sentença: o humilde hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura.

– Esta – explicou Míchkin com extraordinário prazer e sofreguidão – é precisamente a assinatura do hegúmeno Pafnútii, copiado de um manuscrito do século XIV. Os nossos velhos monges bispos costumavam assinar os seus nomes de modo bonito e, às vezes, com que bom gosto e aplicação! O senhor não tem a coleção de Pogódin, general? E aqui já escrevi em um estilo diferente; esta é a maneira francesa da letra redonda, do último século, quando muitas letras eram bem diversas do que são hoje. E a escrita da praça, dos escrivães públicos; imitada dos seus modelos. Tenho um comigo. O senhor há de concordar que isso tem os seus quês! Olhe, por exemplo, estes DD e estes ss redondos. Adaptei a escrita francesa ao alfabeto russo, o que é muito difícil, mas ficou ótimo. Veja agora esta outra letra aqui não é original? Veja a frase “A perseverança transpõe todos os obstáculos”. É a caligrafia russa de um escrivão profissional ou militar. Era assim que as instruções governamentais eram escritas a certas pessoas importantes. Esta outra, aqui, é uma caligrafia redonda, também, com esplêndidas letras negras, bem grossas, traçadas com um notável bom gosto. Um especialista na arte da caligrafia desaprovaria estes floreios, ou melhor, estes exageros de floreios, estes traços que nunca mais acabam. Veja-os bem; contudo, dão um certo caráter e, na verdade, através deles o senhor está vendo a alma do escrivão militar espiando, demorando em interromper a expressão do seu talento. E o senhor está vendo até o colarinho militar apertado em volta do pescoço… chega-se a ver até mesmo a disciplina, através desta caligrafia. É adorável! Não imagina como me impressionou um espécime destes, ultimamente; descobri-o por acaso. Pus-lhe a mão, imagine justamente onde? Na Suíça! Agora, esta aqui é a letra simples e comum, inglesa; impossível ir-se mais além, na arte. É toda esquisita, finíssima, parece feita de contas e pérolas, não falta nada! E aqui tem o senhor uma variação, já esta agora francesa; obtive-a de um viajante comercial francês. O estilo é o mesmo da inglesa, mas os traços negros são feitos com golpes mais grossos do que os golpes ingleses e, conforme está vendo, a proporção se perdeu. Repare, também que o oval é um nada mais redondo, admitindo-se também o ornato. Todavia, o ornato é uma coisa perigosa; requer um extraordinário, bom gosto e tem acolhida, mas só se a simetria for atingida; e então, a escrita se torna incomparável e a gente simplesmente se apaixona por ela! – Oh! Mas o senhor perpetra verdadeiras maravilhas! – disse o general, sorrindo. O senhor não é apenas um bom calígrafo meu caro amigo, o senhor é mais é um artista! Hein. Gánia?

– Maravilhoso – disse Gánia – e ele também está convenci do da sua vocação! – acrescentou com uma risada sarcástica. – Você pode rir, mas que há nele uma carreira, há! – disse o general. – Sabe, príncipe, para que personagem vai agora o senhor escrever? Ora, bem pode contar com trinta e cinco rublos por mes para começar. Mas, são doze e meia – disse, consultando o relógio – Vamos pois a isso, príncipe. Tenho pressa e talvez não o veja mais hoje. Sente-se, por um minuto, Já lhe expliquei que não posso vê-lo muitas vezes; mas estou sinceramente disposto a ajudá-lo um pouco; naturalmente, isto é, naquilo que for essencial! E, quanto ao resto, o senhor deve agir conforme lhe convier mais. Arranjar-lhe-ei um lugar no escritório, um emprego bem fácil, mas que exija exatidão. Passemos adiante. Na residência, ou melhor, na família de Gavríl Ardaliónovitch Ivolguin, aqui este meu jovem amigo, com quem peço desde já que se dê, a mãe e a irmã separaram dois ou três quartos mobiliados e os cedem com pensão e trato, alugando os a hóspedes especialmente recomendados, Para o senhor isto écomo coisa caída do céu, príncipe, pois não ficará só e sim, por assim dizer, no seio da família; a meu ver, não convém que o senhor se isole logo no começo, em uma cidade como Petersburgo Nina Aleksándrovna e sua filha Varvára Ardaliónovna são senhoras por quem tenho o maior respeito. Nina Aleksándrovna é mulher de um general reformado que foi meu camarada desde que entrei para o serviço, embora, devido a certas circunstâncias tenha rompido relações com ele, o que não me impede, em certo sentido, de o respeitar. Digo-lhe tudo isso, príncipe, para que perceba que o apresento pessoalmente e que, portanto, me faço, em certo modo, responsável pelo senhor. O preço e as condições são extremamente módicos, e espero que o seu salário brevemente já lhe dê para enfrentá-los Naturalmente, uma pessoa precisa sempre de dinheiro trocado, no bolso, mesmo que seja um pouco, apenas, mas o senhor não se zangará comigo se eu lhe aconselhar a não ter muito dinheiro no bolso. Depreendo isso pela impressão que tive do senhor. Como. todavia, sua bolsa está presentemente vazia, permita-me emprestar-te vinte e cinco rublos para as suas despesas mais imediatas. O senhor me pagará depois, naturalmente, e sendo uma pessoa honesta sincera, como indubitavelmente parece ser, nenhuma incompreensão poderá surgir entre nós. Tenho um motivo para me interessar pelo seu bem-estar; sabê-lo-á mais tarde. Vê, estou sendo perfeitamente correto com o senhor. Espero. Gánia, que você nada tenha a opor à instalação do príncipe em sua casa!… – Oh! Muito pelo contrário. Minha mãe ficará contente -aquiesceu Gánia, polidamente.

– Vocês só têm um quarto alugado, creio eu. Mora lá aquele Ferd… ter… – Ferdichtchénko.

– É isso, é isso, Ferdichtchénko. E não simpatizo nada com ele. Não passa de um ordinaríssimo palhaço. Está aí uma coisa que não compreendo: Nastássia Filíppovna dar-lhe tanta confiança. É mesmo parente dela? – Que nada! É pilhéria. Não há o menor traço de parentesco. – Bem, enforquemo-lo. Então, príncipe, está satisfeito? – Agradeço-lhe muito, general. O senhor foi muito bondoso para comigo, e, o que é mais, sem eu lhe ter pedido ajuda. Não estou falando assim por orgulho. De fato não sabia e nem tinha onde ir pousar a cabeça. É verdade que, ainda há pouco, Rogójin me convidou.

– Rogójin? Oh! Mas não! Aconselhá-lo-ia, como pai, ou se o senhor prefere, como amigo, a esquecer-se de Rogójin. E ao mesmo tempo o aconselharia a preferir a família para a qual lhe propus entrar como hóspede. – Já que o senhor é tão bondoso – começou o príncipe – tenho necessidade de um conselho sobre um negócio. Eu recebi uma notificação sobre… – Perdoe-me – interrompeu-o o general. – Não tenho sequer um minuto mais. Vou falar com Lizavéta Prokófievna a seu respeito. Se ela desejar vê-lo agora (vou tentar dar-lhe as melhores impressões a respeito do senhor!) aconselho-o a aproveitar a oportunidade e ganhar-lhe as boas graças, pois Lizavéta Prokófievna lhe pode ser muito útil. Além do mais o senhor tem o mesmo nome que ela! Se ela não quiser, não há outro jeito, se não outra vez, decerto! E você, Gánia, neste ínterim, vá-me olhando estas contas. Eu e Fedosséiev estivemos lutando em vão, com elas. Não se esqueça de incluí-las. E o general saiu sem que Míchkin tivesse conseguido falar-lhe acerca do negócio que, por quatro vezes, em vão, ensaiara. Gánia acendeu um cigarro, e ofereceu outro ao príncipe. Este aceitou, mas refreou a vontade de conversar, receoso de se tornar importuno. Começou a olhar o escritório. Mas Gánia mal olhou para a folha de papel coberta de números e para a qual o general lhe tinha chamado a atenção. Estava preocupado. O seu sorriso, a sua expressão, os seus pensamentos pesavam sobre Míchkin. Principalmente depois que ficaram sós. E, de repente, ele se aproximou do príncipe. que justamente estava em pé, contemplando o retrato de Nastássia Filíppovna. – Então, o senhor admira uma mulher como esta, príncipe? – perguntou, pesquisando-lhe a atitude, como se tivesse alguma intenção especial. E o príncipe respondeu:

– Tem um rosto maravilhoso. E percebo que a história dela não é uma história comum. É um rosto prazenteiro. Mas não teria ele passado já por terríveis sofrimentos? Os seus olhos nos dizem isto, e as suas faces, e este trecho debaixo dos olhos! É um rosto altivo, pasmosamente orgulhoso, mas não sei se ela tembom coração! Se tiver, ah!… Isso a redimiria! De tudo!… – Casar-se-ia o senhor com essa mulher? – prosseguiu Gánia. pondo nele uns olhos febris.

– Não posso me casar com ninguém. Sou doente. – E Rogójin? Casar-se-ia ele com esta mulher? Que acha o senhor? – Rogójin? Casar-se-ia hoje mesmo! Digo mais: casar-se-ia hoje, mas uma semana depois, talvez a matasse. Ao pronunciar estas palavras, viu Gánia estremecer tão violentamente que logo lhe gritou:

– Está sentindo alguma coisa? – E o segurou, espantado. – Alteza! Sua Excelência pede a Sua Alteza que se digne entrar! – anunciou o lacaio, aparecendo à porta. O príncipe seguiu-o.

4

As três filhas do General Epantchín eram moças florescentes, sadias e bem desenvolvidas, com ombros magníficos, bustos bem conformados e braços quase masculinos; e, naturalmente, assim saudáveis e robustas, gostavam de um bom jantar e não escondiam isso a ninguém. A mãe, às vezes, olhava de soslaio para a franqueza desses apetites, e embora suas advertências fossem recebidas sempre com mostras de respeito, muitas de suas opiniões tinham cessado de ter a irrefutável autoridade de tempos passados, tanto mais que as três moças, agindo sempre de acordo, exerciam tal força sobre sua mãe que esta, para salvaguardar a sua dignidade, dera ultimamente em consentir, cedendo diante de qualquer oposição. O temperamento materno, diga-se de passagem, era muitas vezes empecilho aos ditames do bom senso, pois Lizavéta Prokófievna se tornava cada ano mais caprichosa e impaciente. O marido até a considerava um pouco excêntrica, o que o obrigara, experimentado como era, a uma política mais submissa, visto os modos desenvoltos da esposa acabarem sempre por desabar sobre ele. Mas a harmonia doméstica logo se restabelecia e tudo ficava de novo bem.

A Sra. Epantchiná não tinha sequer perdido o apetite e, como de regra, se reunia às filhas, às doze e meia, para uma refeição tão substancial que equivalia quase a um jantar. As moças tomavam uma xícara de chá, mais cedo, ainda na cama, ao acordarem, precisamente às dez horas. Gostavam desse costume que já era mais que hábito. Às doze e meia a mesa era servida na sala de almoço existente ao lado dos apartamentos maternos e, ocasionalmente, quando o general dispunha de tempo, se reunia à família, para tal fim. Além de café, chá, queijo, mel, manteiga, filhós especiais de que a dona da casa gostava muito, costeletas e mais coisas, sem contar um caldo de carne bem quente, eram os pratos habituais. Na manhã em que a nossa história começa, toda a família estava reunida na saleta de almoço, esperando pelo general que prometera aparecer na hora certa. Se se tivesse atrasado um momento que fosse o mandariam chamar, mas foi pontual. Dirigindo-se à esposa, para lhe beijar a mão e lhe dar bom dia, percebeu qualquer coisa esquisita no rosto dela. E, conquanto tivesse tido um pressentimento, a noite toda, de que isso iria acontecer, devido ao “incidente”  (sua expressão genérica peculiar), havendo até perdido o sono, por tal motivo, ainda assim se alarmou outra vez, agora. As filhas vieram beijá-lo. E, embora não estivessem zangádas com ele, também, por sua vez, tinham um ar diferente. Verdade se diga que, ultimamente, o general vinha dando motivos para certas suspeitas; mas como era um pai e um esposo de experiência e às direitas, soubera tomar as suas medidas de precaução. Ajudará, talvez, a clarear esta nossa história um pouco mais, se interrompermos esta seqüência e introduzirmos explicações diretas quanto às circunstâncias e relações em que vamos surpreender a família do General Epantchín no começo desta narrativa. Acabamos de dizer que o general, conquanto homem originariamente de pouca educação fina, era marido experimentado e um pai às direitas. Adotara, por exemplo, como princípio, não se apressar quanto ao casamento das filhas, isto é, não se aborrecer nem se incomodar relativamente à felicidade delas com uma exagerada ansiedade, como o fazem natural e inconscientemente muitos pais, principalmente em certas famílias cuja sensibilidade cresce na proporção direta das solteironas que se vão acumulando. Sempre conseguiu que Lizavéta Prokófievna concordasse com ele a respeito deste princípio, muito embora se tratasse de atitude difícil por não ser muito natural. É que o general sabia basear os seus argumentos em fatos palpáveis e excessivamente eloqüentes. Por conseguinte, deixadas livres em vontade e decisão, as meninas por si mesmas foram se tornando aptas a realizar os seus intentos, disso resultando as coisas marcharem suavemente, trabalharem elas de boa vontade e desistirem de ser caprichosas ou de levar vida fastidiosa. Tudo quanto restava ao casal fazer seria, pois, ajudá-las acer infalíveis, vigiando-as, sem que dessem por isso, para que não fizessem escolhas esquisitas, nem mostrassem disposições e tendencias esdrúxulas. Então, em hora oportuna e decisiva, eles, pais, viriam em sua assistência, com toda a energia e influência, de modo a que as coisas tivessem bom remate. O simples fato, também, de que sua fortuna e roda social cresciam em progressão geométrica, fez as moças subirem na cotação do mercado matrimonial, cada vez mais, à medida que o tempo caminhava. Mas todos esses fatos incontestáveis devem ser confrontados com um outro: a filha mais velha, Aleksándra, sem notar (como sempre acontece) alcançou, solteira, a idade de vinte e cinco anos. E quase paralelamente a isso, Afanássii Ivánovitch Tótskii, homem da melhor sociedade, de altas ligações e extraordinariamente rico, sexpressou, mais uma vez, o seu desde muito acariciado desejo de se casar. Era um homem de cinqüenta e cinco anos, de temperamento artístico e extraordinariamente refinado. Queria fazer um bom casamento, era grande admirador da beleza feminina e estava, desde algum tempo, em termos de amizade íntima com o General Epantchín, especialmente depois que ambos tomaram parte, juntos, em certas empresas financeiras. Fora então que apalpara o assunto, como que, a bem dizer, lhe solicitando conselho e orientação amigável. Viria a ser levada em consideração uma proposta de casamento com uma de suas filhas? Evidentemente estava prestes uma alteração no curso da vida tranqüila da família do general… A beleza da família era, como já dissemos, inquestionavelmente, a mais nova, Agláia. Mas o próprio Tótskii, homem de extraordinário egoísmo, compreendeu que olharia em vão nesse rumo e que Agláia não era para ele. Talvez o amor como que cego e a superardente afeição das irmãs tivessem exagerado a situação; é que tinham, por assim dizer, combinado entre si, com a maior naturalidade, que o destino de Agláia não poderia ser um destino qualquer, e sim o ideal mais alto possível de felicidade terrena. O futuro esposo de Agláia deveria ser um modelo de todas as perfeições e capacidades, bem como o possuidor de vasta fortuna. As irmãs tinham até concordado, sem se externar muito a tal respeito, em sacrificar seus interesses a favor de Agláia. O dote teria de ser colossal, inaudito. Os pais não ignoravam essa espécie de pacto por parte das duas filhas mais velhas; e assim, quando Tótskii se aconselhou, eles ficaram certos de que uma das mais velhas consentiria em coroar os seus desejos e esperanças, principalmente tendo em vista que Afanássii Ivánovitch não fora nem seria exigente a propósito de dote. O general, com o seu grande conhecimento da vida, ligou desde logo a maior importância à proposta de Tótskii. Dadas certas circunstâncias, este Tótskii tinha de ser extremamente prudente e circunspecto em sua conduta. De fato, ele estava simplesmente tateando o seu caminho, os pais apenas tendo apresentado o caso às filhas como uma remota proposição. Receberam como resposta a segurança satisfatória, conquanto nãocategórica, deque Aleksándra, a mais velha, talvez não recusasse. Era uma boa moça, bastante sensata, muito fácil de ser levada, apesar de algo voluntariosa. Era provável que consentisse de bom grado em se casar com Tóstkii. E se viesse a dar a sua palavra, a manteria com toda a honorabilidade. Não era afeita a aparentar coisas. Com ela não haveria o risco de mudanças e altercações e podia trazer, muito bem, doçura e paz àvida do seu marido. Era muito formosa embora não o fosse arrebatadoramente. A que situação melhor poderia aspirar Tótskii? Todavia, o projeto ainda estava no período de tentativa, ficando amistosamente assentado entre Tóstkii e o general que não dariam, por enquanto, nenhum passo irrevogável e final. Os pais não tinham mesmo falado abertamente às filhas, pois havia, em tal assunto, sinais de um elemento de discórdia; a Sra. Epantchiná, a mãe. começava a demonstrar descontentamento; e isso era uma questão importantíssima. Havia um obstáculo sério, fator complicado. Perturbando tudo e podendo até vir a arruinar o caso, completamente.

Este fator complicado e perturbador surgira em cena – como o próprio Tótskii se expressara – havia muito tempo, uns dezoito anos antes. Afanássii Ivánovitch possuía uma de suas lindas propriedades em uma província central da Rússia. Fora seu vizinho mais próximo o proprietário de um pequeno e decadente domínio, homem célebre justamente por seu contínuo e incrível azar. Tratava-se de um oficial reformado, de uma família até mesmo melhor do que a de Tótskii. Chamava-se Filípp Aleksándrovitch Baráchkov. Sobrecarregado de dívidas e hipotecas, conseguira afinal, depois de trabalhos exaustivos à maneira dos camponeses, pôr as suas terras em situação mais ou menos favorável. Era um homem que ao menor sial de melhoria se transfigurava. Radiante e esperançado, viajou, por uns poucos de dias, até à pequena cidade do distrito, para tentar um acordo com um dos seus principais credores. Não havia bem dois dias que estava na cidadezinha, quando o starosta (Camponês mais respeitado de uma aldeia, que os demais camponeses elegem como chefe.) da sua pequenina aldeia chegou, a cavalo, com a barbicha tostada e o rosto desfigurado, a informá-lo de que o solar tinha sido incendiado na véspera, em pleno meio-dia e que a senhora tinha morrido, queimada, estando porém as crianças intactas. Tal surpresa era demais para Saráchkov, apesar de acostumado a ser pasto da adversidade. Vendo-se viúvo, perdeu o juízo e morreu, em delírio, um mês depois. A propridade devastada, com os aldeões na penúria, foi vendida para pagar as dívidas. Afanássii Ivánovitch, na generosidade do seu coração,entendeu de recolher e educar as filhas de Baráchkov, meninotas de seis e sete anos, que foram trazidas para o pé dos filhos do administrador de Tótskii, um ex-escriturário público, de uma família enorme e que ainda por cima era alemão. A criança mais nova morreu de coqueluche e a pequena Nastássia Filíppovna ficou sozinha. Tótskii vivia no estrangeiro e cedo esqueceu a existência dessa criaturinha. Cinco anos mais tarde se lembrou, alhures onde estava, de dar uma olhadela à sua propriedade. Aí chegando, reparou entre a família do seu administrador alemão. Uma encantadora criança, já menina, de uns doze anos, agradável. doce, esperta, e que prometia vir a ser muito bela.

(Sobre tal assunto Afanássii Ivánovitch era um infalível perito.) Passou apenas alguns dias na propriedade, mas providenciou grandes alterações na educação da criança. Uma respeitável e culta governante suíça. quase anciã já, com prática de educação da juventude e com competência para ensinar várias disciplinas além do francês, foi contratada. Ficou instalada na casa de Tótskii mesmo, e logo a pequenina Nastássia começou a receber uma educação em linhas mais amplas. Quatro anos depois, a sua educação estava feita. A governante deixou-a, vindo então uma certa senhora, que vivia nas imediações de uma outra remota propriedade de Tótskii, em uma província recuada, por instruções dele, buscar Nastássia. Naquela outra propriedade havia também uma pequena casa recentemente construída. de madeira. Estava elegantemente mobiliada e o lugar tinha, muito a propósito, o nome de “Otrádnoie”, isto é, “Alegria”. A tal senhora levou Nastássia para acolá e, como era viúva sem filhos e antes vivia longe dali, a uma verstá, instalou-se com a menina, definitivamente. Uma velha arrumadeira e uma empregada de muita prática acolheram Nastássia, a cuja disposição ficaram. E ela encontrou aí instrumentos de música, uma biblioteca feminina selecionada, quadros, gravuras, lápis, pincéis, telas e um galgo purosangue. Nem duas semanas se passaram quando Afanássii Ivánovitch apareceu… Desde então ele se habituou particularmente a preferir essa sua remota propriedade perdida nas estepes, passando lá dois ou três meses, cada verão. Assim decorreu um bem longo tempo: quatro anos calmos, felizes, em um ambiente de bom gosto e de elegância.

Mas, no começo de certo inverno, aconteceu, uma vez, justamente uns quatro meses depois de uma das visitas de verão de Tótskii, e que nessa ocasião só durava quinze dias, que um rumor começou a se alastrar até atingir os ouvidos de Nastássia Filíppovna. E o boato era que Afanássii Ivánovitch estava para se casar em Petersburgo com a linda herdeira de uma boa família; em vésperas, de fato, de dar um golpe afortunado e brilhante. O boato crescera exageradamente, evidenciando coisas que não seriam bem reais ainda. O suposto casamento, apenas um projeto ainda muito vago, era uma reviravolta na vida de Nastássia Filíppovna, e deu azo a que ela demonstrasse uma grande determinação e uma força de vontade completamente inesperadas. Sem perder tempo em reflexões, deixou a sua pequena casa de campo e surgiu em Petersburgo, inteiramente só, indo diretamente a Tótskii. Ele ficou perplexo e, mal começou a falar com ela, logo viu que estava perdendo o seu latim, que tinha de abandonar a entonação, a lógica e os objetos daquelas agradáveis conversas tão bem sucedidas até então, tudo, tudo! Pois viu diante dele, sentada, uma mulher inteiramente outra. E não absolutamente aquela moça que tinha deixado nesse último mês de julho, lá em “Otrádnoie”. E essa nova mulher demonstrou, em primeiro lugar, conhecer e compreender muito – mas muito! – da vida e do mundo, e conhecer tanto que uma pessoa se maravilharia em saber onde e como tomara tanto conhecimento e atingira idéias definitivas. (Na certa, não na sua biblioteca para moças!) E o que é mais, sabia mesmo o aspecto legal de certas coisas e tinha um conhecimento categórico, se não do mundo, pelo menos de como as coisas são feitas no mundo. Em segundo lugar, não possuía mais o mesmo caráter de antigamente. Não havia nada da timidez nem da incerteza da menina de colégio, umas vezes fascinante em sua original simplicidade tão jovial, outras vezes melancólica e sonhadora, estupefata e desconfiada, lacrimosa e difícil. Sim, era uma nova e surpreendente criatura que ria no rosto dele e que lhe atirava venenosos sarcasmos, abertamente declarando que nunca tivera outro sentimento por ele, em seu coração, senão desprezo – desprezo e repugnância que lhe tinham sobrevindo logo após a primeira surpresa. E essa nova mulher lhe anunciou que para ela, no íntimo, era uma questão absolutamente indiferente que ele se casasse imediatamente com quem tinha escolhido, mas que resolvera evitar esse casamento e não o permitir apenas por ódio, simplesmente, ou pirraça, e que, por conseguinte, assim devia ser, “só porque me quero rir de ti, e bastante, já que cada um ri por sua vez”. Isto, no mínimo, foi o que ela disse, muito embora não tivesse pronunciado tudo quanto estava em sua mente. Mas, enquanto essa nova Nastássia Filíppovna ria e falava desta forma, Afanássii Ivánovitch ia juntando, como podia, as suas idéias despedaçadas, a ver como deliberaria em face da situação. Tal deliberação lhe tomou tempo, pois levou quinze dias para pesar as coisas e recuperar qualquer ação. Mas, ao cabo dessa quinzena, chegou a uma decisão.

Afanássii Ivánovitch era, a esse tempo, homem de cinqüenta anos; seu caráter estava mais que formado e seus hábitos estratificados, a sua posição no mundo e na sociedade tendo sido, desde muito, estabelecida nas mais seguras bases. Prezava a sua paz e o seu conforto acima de tudo neste mundo, como se dá com as pessoas de educação refinada. Nenhum elemento duvidoso e demolidor poderia ser tolerado nesse esplêndido edifício que tinha levado toda a vida a construir. Por outro lado, a experiência profunda e a visão ampla tinham ensinado Tótskii de forma absoluta e ao mesmo tempo correta como se teria de haver com uma criatura fora do comum, uma criatura que não somente ameaçaria mas certamente também agiria e, o que é mais, não se prenderia a nada, especialmente não Ligando, como ela não ligava, a coisa alguma na vida, não devendo, portanto, ser provocada. Evidentemente, além de tudo isso, ainda havia mais qualquer outra coisa: o prenúncio já de um fermento caótico em trabalho no seu espírito e no seu coração, algo proveniente de uma indignação romântica (Deus sabia por que e contra quem!), prenúncio esse transformado em um insaciável e exagerado paroxismo de desprezo; enfim, algo altamente ridículo e inadmissível na alta sociedade e prestes a prejudicar qualquer homem bem-educado. De mais a mais, com a sua riqueza e as suas ligações comerciais, Tótskii poderia se livrar desse incômodo se se quisesse servir de um golpe perdoável e pequenino de vilania. Por outro lado, era evidente que Nastássia Filíppovna não teria facilidades. por exemplo, para o prejudicar, digamos, no terreno ou no sentido legal, não conseguindo mesmo criar um escândalo de grande projeção, porque fácil lhe seria embaí-la. Mas tudo isso só valeria se Nastássia Filíppovna estivesse armada para se comportar como certas pessoas se comportam em tais circunstâncias, isto é, sem sair muito abertamente do curso regular de uma conduta possível e provável. Mas ainda aí a perspicácia de Tótskii lhe serviria de muito, sendo bastante esperto, como era, para ver que Nastássia Filíppovna já se capacitara de que não o poderia prejudicar por vias legais, através da lei, e sim por outros meios que já descobrira em seu espírito e em seus olhos brilhantes. Como não dava valor a coisa alguma e, muito menos, a si própria (era preciso muita inteligência e visão, em um mundano cético e totalmente cínico como ele, para perceber que ela havia desde muito deixado de se importar com o próprio futuro e de acreditar na valia de tal sentimento), Nastássia Filíppovna era mulher para enfrentar a ruína sem esperança, e até a própria desgraça, a prisão e a Sibéria, somente pelo prazer de humilhar o homem pelo qual sentia aversão, tamanha que chegava a ser desumana. Afanássii Ivánovitch jamais escondera o fato de que era de um certo modo covarde, ou melhor altamente conservador. Se soubesse, por exemplo, que seria assassinado no altar, no dia em que se casasse, ou que qualquer coisa análoga, aliás excessivamente improvável, ridícula e impossível na sociedade, lhe pudesse acontecer, certamente ficaria alarmado, e bastante! Mesmo que não fosse morto ou ferido, mas que tão somente alguém lhe escarrasse em público na cara, qualquer gesto desse gênero, como forma anômala e chocante de escândalo. E isso era justamente o que Nastássia Filíppovna ameaçava, embora não tivesse dito uma só palavra a respeito. Ela o tinha estudado e compreendido cabalmente, e portanto sabia como feri-lo. E, como o ccasamento não passara até então de mera probabilidade, Afanássii Ivánovitch renunciou ao seu projeto e se submeteu a Nastássia Filíppovna.

Houve ainda uma outra consideração que o ajudou em sua decisão: era difícil calcular quão diferente de rosto esta nova Nastássia Filíppovna era da antiga! Tinha sido até então uma lindíssima rapariga, mas agora… como havia Tótskii de se perdoar por não ter reparado o que havia debaixo daquele rosto! Malograra, durante esses quatro anos, em conhecê-la. Muito, sem dúvida, dessa mudança, viera de dentro; e essas atitudes provavam uma repentina alteração! Lembrouse, contudo, que momentos tinha havido, mesmo no passado, em que aqueles olhos, certas vezes, lhe despertavam estranhas idéias. Havia neles, já naquela época, uma promessa de alguma coisa demasiado profunda. Ah! A expressão escura e misteriosa daqueles olhos! Pareciam estar pedindo que lhe interpretassem o enigma. Também se admirara muitas vezes, nesses últimos dois anos, da assustadora mudança de compleição de Nastássia Filíppovna, que além disso se tornara pavorosamente pálida, talvez ainda mais formosa, por isso. Tótskii, como todo cavalheiro que tinha vivido seus dias livremente, a menoscabara por lhe ter conseguido tão barato a alma virginal. A seguir, porém, sentira uma certa apreensão. Resolvera até, na primavera seguinte, não perder tempo e casar logo Nástássia Filíppovna, mercê de um bom dote, com algum indivíduo decente e de bons sentimentos, que trabalhasse em alguma recuada província. (Oh! De que forma horrível e maliciosa ela não se riu dessa nova idéia!) Mas agora, Afanássii Ivánovitch, fascinado pelo que de novo descobrira nela, positivamente imaginou que ainda se poderia utilizar dessa mulher. Decidiu instalá-la em Petersburgo, cercando-a de luxo e conforto. Se não pudesse ter uma coisa, teria a outra. Poderia até gratificar a própria vaidade e ganhar glória à custa dela, em certos círculos. estimando, como estimava, a própria reputação em tais assuntos. Tinham-se seguido cinco anos de vida em Petersburgo e naturalmente muitas coisas se tornaram claras nesse tempo. A situação de Tótskii não era lá das mais agradáveis. E o pior de tudo foi que, tendo ficado intimidado, nunca mais pôde recuperar a confiança em si mesmo. Tinha medo de Nastássia Filíppovna, mas nem sequer poderia dizer o que temia. Por algum tempo, pelo menos nos dois primeiros anos de Petersburgo, pensou que ela quisesse desposá- lo, não tendo falado nisso apenas devido ao seu orgulho congênito, permanecendo obstinadamente à espera de que ele a pedisse. Estranho pedido, não havia dúvida, mas suspeitou isso. Meditava e examinava.., e cada vez ficava mais preocupado. Para sua grande e de certo modo desagradável surpresa, descobriu (assim é o coração do homem!) e ficou convencido, por uma coisa que aconteceu, que mesmo que lhe pedisse a mão receberia um contra! Levou muito tempo para entender o porquê disso. No fim de contas só descobriu uma explicação: que o orgulho dessa “mulher fantástica e suscetível” tinha atingido um tal ápice de frenesi que preferia expressar-lhe o seu desdém de uma vez por todas, recusando-o, a assegurar o seu futuro e até mesmo o seu acesso às alturas da grandeza. O pior de tudo era que Nastássia o estava dominando totalmente. Não que estivesse, ao menos, influenciada por considerações mercenárias, pois, apesar de ter aceito o luxo, e com o luxo o engodo, vivia modestamente, e quase nada poupara para si, durante aqueles cinco anos. Tótskii aventurou uma tática sutil para quebrar as suas cadeias: começou, com habilidade, experimentando tentá-la com toda a sorte de tentações da espécie mais idealística possível. Mas tais idéias, em forma de príncipes, hússares, secretários de embaixada, poetas, romancistas e até mesmo socialistas, não causaram emNastássia Filíppovna o menor interesse. Teria no coração uma pedra, ou todos os seus sentimentos estariam murchos e secos para sempre? Vivia uma vida apartada, lendo, estudando, ou apreciando música. Tinha poucos amigos, ligava-se a esposas de funcionários inferiores, gente pobre e ridícula; dava-se com duas artistas; recebia algumas velhotas, gostava muito da família de um velho e respeitável mestreescola; e o numeroso pessoal dessa família a estimava, recebendo-a com efusão. Tinha, ànoite, sempre meia dúzia de amigos para vê-la; o próprio Tótskii a visitava com regularidade e freqüência. O General Epantchín fizera recentemente seu conhecimento, com certa dificuldade, ao passo que quase ao mesmo tempo um jovem serventuário governamental. Chamado Ferdichtchénko, que se fazia de engraçado, um bufão bêbado e sem educação, lhe tinha merecido acolhida sem dificuldade alguma. Outra pessoa do seu círculo era um homem esquisitão. chamado Ptítsin, modesto, sensato, de maneiras altamente polidas. que tinha vindo da mais extrema pobreza, sendo agora um agiota. Por ultimo lhe fora apresentado Gavríl Ardaliónovitch, ejá Nastássia Filíppovna desfrutava de estranha fama. Todos tinham ouvido gabar a sua beleza e era tudo. Ninguém poderia jactar-se de favores seus nem tinha o que dizer contra ela, a sua reputação, maneiras e juízo, confirmando bem em um certo ponto a opinião de Tótskii. E fora a essa altura que o General Epantchín começara a tomar uma parte ativa no caso. Quando Tótskii cortesmente se aproximou dele, pedindo o seu conselho como amigo, a propósito de uma de suas filhas, fizera, da maneira mais nobre, uma completa e sincera confissão ao general. Afirmara-lhe que jamais lhe passara pelo espírito apoiar-se em meios equívocos para recuperar a liberdade. Que não se sentiria salvo mesmo que Nastássia Filíppovna lhe jurasse que o deixaria em paz no futuro, pois para ela as palavras significavam pouco, não lhe bastando nem mesmo maiores garantias. Trocaram impressões a respeito e resolveram agir juntos. Ficou resolvido que se experimentariam os meios mais gentis, primeiro, tocando, por exemplo, por assim dizer, nas mais finas cordas do coração dela. Foram ter juntos a Nastássia Filíppovna; e Tótskii falou, com toda a sinceridade, na intolerável miséria da sua situação. Censurou-se por tudo. Disse que quanto à primitiva ofensa não diria que estava arrependido porque era um sensual inveterado e não se pudera Conter; mas que, no momento, desejava se casar e que toda a possibilidade deste altamente viável e distinto casamento estava nas mãos dela. Em uma palavra, depunha todas as suas esperanças em seu generoso coração. Depois, então, o General Epantchín, como pai, começou a falar. E a verdade é que falou razoavelmente, evitando sentimentalismo. Apenas disse que de certo modo admitia plenamente o direito dela decidir o destino de Afanássii Ivánovitch: e fez uma hábil exibição de sua própria humildade, acentuando, operante ela, que o destino de sua filha e, talvez até das outras duas. estava agora dependendo dela. A pergunta de Nastássia Filíppovna quanto ao que dela desejavam, nesse caso, Tótskii logo com rude sinceridade confessou que ela durante esses cinco anos o tinha apavorado e posto em permanente pânico, não podendo pois ficar tranqüilo enquanto Nastássia Filíppovna por sua vez não se casasse. Acrescentou que essa sua proposição aliás seria absurda da sua parte, se ele não tivesse alguma base para isso. Tinha observado e se capacitara como coisa certa que ela era amada por um jovem de bom nascimento e de respeitável família, Gavríl Ardaliónovitch Ívolguin, uma relação que ela aceitara de bom grado em sua casa desde muito. Sim, esse rapaz a amava apaixonadamente, sendo que até daria de bom grado a metade da sua vida pela só esperança de ganhar a sua afeição, conforme, na simplicidade do seu puro e jovem coração, lhe confessara, em hora amistosa. E que Iván Fiódorovitch, protetor do jovem, desde muito sabia dessa paixão. E acrescentou por fim que se ele, Tótskii, não estava equivocado, ela, Nastássia Filíppovna, parecia, desde muito, se ter dado conta do amor do jovem, pois todos tinham percebido que ela realmente o olhava com certa indulgência. Fez-lhe ver quanto para ele, mais que para qualquer outro, era difícil falar sobre isso. Mas que se Nastássia Filíppovna permitisse que ele tivesse por ela, no mínimo, algum pensamento bom, assim como um constante desejo de prover ao seu conforto, deveria já ter percebido quanto lhe tinha sido penoso vê-la na solidão. Solidão essa que só podia ser causada por uma vaga depressão acrescida de uma completa descrença na possibilidade de uma vida nova, que podia muito bem ter seus novos rumos no amor e no casamento. Disse mais que atirar fora talentos dos mais brilhantes e enveredar por uma irrazoável marcha para a ruína era, pensando bem, nem mais nem menos do que uma variação de sentimentalismo incompatível com o bom senso e o nobre coração de uma mulher como Nastássia Filíppovna. Repetindo quão penoso era para ele, mais do que para qualquer outro, ter de lhe falar nisso, afirmou que não desejaria que Nastássia Filíppovna o olhasse com desprezo se ele lhe expressasse, como agora estava expressando, a sincera resolução de garanti-la no seu futuro, oferecendo-lhe a soma de setenta e cinco mil rublos. Categoricamente afirmou que essa quantia, aliás, já lhe estava assegurada no seu testamento, não se tratando, absolutamente, de uma questão de recompensa, de maneira alguma… não tendo ela, de mais a mais, o direito de impedir que ele satisfizesse um desejo bem humano de fazer algo para aliviar a consciência, etc, etc, o que era sempre o remate mais eloqüente em tais circunstâncias. Afanássii Ivánovitch falou com elegância moral, alongando-se até. Juntou, como que de passagem, a categórica informação de que não deixara cair uma só palavra a quem quer que fosse a respeito dos setenta e cinco mil rublos ninguém, nem mesmo Iván Fiódorovitch, ali sentado, tendo sido, antes, sabedor disso. A resposta de Nastássia Filíppovna surpreendeu os dois amigos. Não mostrou nenhum traço da antiga ironia nem do primitivo ódio, E em vez daquela gargalhada cuja só lembrança punha calafrios glaciais na espinha e Tótskii, pareceu alegrar-se com a oportunidade que lhe era dada de falar a alguém com franqueza e camaradagem.

Fez saber que desde muito estivera desejando pedir um conselho amigo e que só o seu orgulho fora empecilho para isso. Mas, já que o gelo estava rompido, nada podia ser melhor. Primeiro com um sorriso morno, depois com uma risada alegre e jovial, garantiu que em caso algum poderia haver mais a tempestade de antes. Que, desde muito tempo para cá, passara a encarar as coisas de modo muito diverso e que, embora não tivesse havido mudança em seu coração, fora compelida a aceitar muitas coisas como fatos definitivos. Que o que tinha sido feito não poderia ser desfeito, que o que tinha passado, o fora de vez, tanto que se admirava de Afanássii Ivánovitch estar ainda sobressaltado. Depois voltou-se para Iván Fiódorovitch e, com ar de muita deferência, disse que sempre só ouvira falar bem de suas filhas, pelas quais entretinha em profundo respeito. Que a só idéia de poder vir a ser útil a elas de qualquer modo, lhe seria uma fonte de orgulho e satisfação. Verdade era que estava deprimida e melancólica; muito melancólica. Afanássii Ivánovitch não tinha feito mais, agora, do que adivinhar os seus sonhos: desejava, de fato, uma vida nova, novos rumos, um novo itinerário, tendo como alvo os filhos e a vida doméstica, senão o amor. Que, relativamente a Gavríl Ardaliónovitch, pouco podia falar. Julgava que fosse verídico que ele a amasse, estando também crente de que poderia se interessar por ele, caso viesse a acreditar na sinceridade desse apego. Mas que, mesmo havendo Sinceridade da parte dele, era muito moço ainda, sendo essa sua opinião a tal respeito bem categórica. Que o que mais apreciava nele era estar trabalhando para sustentar uma família sem recursos. Que já ouvira dizer que era um homem de energia e de orgulho, sequioso de abrir o seu caminho e fazer a sua carreira. Também ouvira falar muito bem a propósito da mãe dele, Nina Aleksándrovna, excelente mulher, muito estimada; e que, quanto à irmã, Varvára Ardaliónovna, também lhe haviam garantido ser notável moça de muito caráter, todas essas coisas lhe tendo chegado através de Ptítsin, principalmente a brava maneira com que encaravam o infortúnio. Teria muito prazer em travar conhecimento com elas, mas que era uma interrogação saber se a receberiam bem, dentro da família. Não faria nada que dificultasse a possibilidade de um tal casamento, mas que precisava pensar nisso um pouco mais. Pedia-lhes pois que a não apressassem. E que, quanto aos setenta e cinco mil rublos, não necessitava Tótskii de falar tanto a tal respeito. Sabia bem o valor do dinheiro e certamente o aceitaria, desde já lhe agradecendo não ter tocado nesse particular a Gavríl Ardaliónovitch nem mesmo ao general, o que não deixava de ser uma delicadeza. Mas, por que não deveria o jovem ser sabedor disso? De que tinha ela que se envergonhar se, ao entrar para essa família, levasse esse dinheiro? Pondo as coisas bem claras, não era ela que tinha de pedir desculpas a quem quer que fosse de coisíssima alguma, e desejava até que isso ficasse bem patenteado. Que enquanto não se certificasse de que Gavríl Ardaliónovitch, ou a sua família, não tinham nenhum secreto sentimento a seu respeito, não se casaria com ele. E reiterava a afirmação de que não se julgava culpada de nada censurável. Gavríl Ardaliónovitch sabia muito bem em que pé ela havia vivido esses cinco anos em Petersburgo, em que condições estava perante Afanássii Ivánovitch, e se porventura fora levada por dinheiro em tudo isso. Se agora aceitava dinheiro, não o fazia como cobrança pela perda da sua honra de donzela, do que não tinha por que ser censurada, e sim como compensação de sua vida arruinada. Dizendo isso, inflamou-se tanto e ficou tão nervosa (o que aliás era natural), que o General Epantchín se deu por satisfeito e considerou o caso solucionado. Mas Tótskii, que já certa vez fora penosamente assustado, não ficou lá muito confiante, levando algum tempo com receio de que uma áspide estivesse escondida entre flores. Todavia, pelo menos, negociações tinham sido abertas. O ponto esquemático dos dois amigos era contarem ambos com a possibilidade de Nastássia Filíppovna ser atraída por Gánia, e as coisas começaram a decorrer de tal forma que o próprio Tótskii acreditava, às vezes, na possibilidade de êxito. No entanto, Nastássía Filíppovna teve um entendimento com Gánia. Entendimento curto. porque o assunto era penoso e delicado. Ela reconheceu e sancionou o seu amor, insistindo, porém, em não se comprometer de forma alguma, reservando o direito, até ao casamento (se casamento houvesse) de poder dizer “não” até ao último momento, dando a Gánia igual direito e liberdade. Pouco depois veio Gánia a saber, acidentalmente, que ela estava a par, e com todas as minúcias, da hostilidade da família dele quanto ao casamento e à pessoa dela. bem como das cenas que isso ocasionava em casa. Mas não lhe disse palavra, muito embora diariamente ele esperasse tal assunto.

Há muito mais a relatar sobre todo o murmúrio e conseqüentes complicações que surgiram do caso proposto e respectivas negociações. Mas estamos a antecipar coisas e a maioria dessas complicações mais não eram do que meros boatos. Falou-se, por exemplo, que Tótskii descobriu ter Nastássia Filíppovna tido um encontro secreto e vago com as filhas do general, história decerto improvável e disparatada. Mas em um outro episódio não pôde ele deixar de acreditar, o que o obcecou como um pesadelo ouviu dizer, como verdade incontestável, que Nastássia Filíppovna estava certa de que Gavríl Ardaliónovitch se casava com ela por causa do dinheiro; que era um coração mercenário, ávido, trêfego e invejoso, sendo a sua vaidade, além de grotesca, ilimitada; que, embora realmente estivesse apaixonadamente se empenhando em conquistá-la (mesmo depois dos dois respeitáveis homens de idade haverem determinado explorar a sua incipiente paixão por ambos os lados, para seus próprios fins, comprando-o para o venderem a Nastássia Filíppovna por intermédio do matrimônio), começara a detestá-la como um pesadelo, paixão e repulsa estando estranhamente associados em sua alma. E que, conquanto, depois de dolorosa hesitação, tivesse consentido em vir a se casar com a “desacreditada rameira”, jurara, em seu coração, fazê-la pagar amargamente, abandonando-a depois, como, segundo afirmaram, dissera mais de uma vez. Transpirou que Nastássia Filíppovna soube de tudo isso e que tinha certo plano “enfiado na manga”. Tótskii ficou em tal pânico que não confiou mais suas inquietudes a Epantchín, mascomo homem fraco, momentos havia em que recuperava a calma e a confiança, munindo-se mesmo de ânimo. Ficou sobremaneira aliviado, por exemplo, quando Nastássia Filíppovna prometeu aos dois amigos que lhes daria a palavra final e decisiva na noite do seu aniversário.

Mas, por um outro lado, apareceu um boato ainda mais estranho e incrível, relativamente ao não menos honrado Iván Fiódorovitch e que (pobre dele!) mais e mais se foi fundamentando à medida que o tempo passava. Ao primeiro exame, soava perfeitamente falso. Era difícil acreditar que Iván Fiódorovitch já em seu venerável fim de vida, com sua excelente compreensão prática pelas coisas do mundo, e tudo o mais, pudesse se enfeitiçar por Nastássia Filíppovna e descesse por tais declives abaixo a ponto de um mero capricho se ter tornado quase paixão. Com o que contava para isso, é difícil imaginar-se; possivelmente com a ajuda do próprio Gánia. Tótskii suspeitou de qualquer coisa, nesse sentido, muito por alto. Suspeita essa suscitada pela probabilidade de um mútuo acordo entre o general e Gánia. Mas é notoriamente sabido que um homem movido pela paixão, especialmente se se trata de um homem de idade avançada, se torna completamente cego e propenso a encontrar fundamentos para sua esperança justamente onde não os há. Daí perder o senso e agir como criança doidivanas, por maior intelecto que possa ter. Veio a público que o general tinha procurado umas pérolas magníficas para o dia do natalício de Nastássia Filíppovna, pérolas que custaram uma soma imensa. E que vivia pensando nesse seu presente, muito embora estivesse perfeitamente informado de que ela não era uma mulher venal. Já na véspera do aniversário andava ele em perfeita febre, apesar de habilmente ter escondido a sua emoção. Era, justamente, daquelas pérolas que a Sra. Epantchiná tinha ouvido falar. Lizavéta Prokófievna tinha, na verdade, muitos anos de experiência a propósito da inconstância do esposo; estava, de fato, quase acostumada com isso, mas lhe seria impossível deixar passar em silêncio esse incidente O zunzum sobre as tão faladas pérolas lhe tinha feito uma grande impressão. E o general pressentira isso, muito de antemão, pois certas palavras já vinham sendo pronunciadas dias antes e principalmente na véspera, tendo ele receado que uma explicação estivesse, inesperadamente, em vias de ser pedida. Eis por que não estava querendo de muito bom grado, ir almoçar com a família na manhã em que a nossa história começa. Antes do aparecimento de Míchkin tinha resolvido escapulir a pretexto de um negócio urgente. Escapulir muitas vezes, significava, no caso do general, apenas pôr-se ao fresco. Precisava ter esse dia livre para si, ou no mínimo, de qualquer maneira, essa noite, e bem distante de dissabores advindos de desassossegos. E eis que inesperadamente, e de modo tão propício, surgira o príncipe. “Um verdadeiro enviado de Deus!” pensou o general ao entrar para se defrontar com a esposa.

5

A Sra. Epantchiná era muito ciosa da dignidade da sua família. Como a deveria ter chocado ouvir assim, sem o menor preparo, que esse Príncipe Míchkin, o último do nome, de quem já tinha ouvido falar, não passava de um pobre idiota, quase um pedinte, pronto até a aceitar a caridade alheia! O general muito propositadamente quis produzir efeito, impressionando-a de súbito, de modo que com a atenção volvida em outro rumo ela esquecesse o caso das pérolas, atraída por uma nova sensação. Sempre que alguma coisa acontecia de extraordinário, a Sra. Epantchiná dava em abrir desmesuradamente os olhos, derrubando o corpo para trás, ficando assim a fixar o que em frente dela estivesse, sem poder articular palavra. Era uma mulher de compleição forte, da mesma idade do marido, com os cabelos negros ainda abundantes começando a pratear aqui e acolá. Mais alta do que baixa, tinha nariz aquilino, faces fundas amareladas e lábios finos e cerrados. Testa alta mas estreita, sob a qual os grandes olhos cinzentos mostravam, às vezes, uma inesperada expressão. Manífestara, em tempos, a fraqueza de supor esses olhos particularmente fascinantes, convicção essa de que ninguém jamais conseguira demovê-la. – Recebê-lo? Queres que eu o receba agora, já? – e a dama estateladamente abriu os olhos, o mais que pôde, encarando Iván Fiodorovitch, que ficou logo sem jeito diante dela. Ora, tratandose de quem se trata, não é necessário nenhuma cerimônia; se tu ao menos pudesses fazer uma idéia de como ele é, querida! – apressou-se o general a explicar. – É completamente uma criança, tem um feitio quase patético! Imagina tu que lhe dão ataques, de vez em quando. Acaba de chegar da Suíça, e veio diretamente da estação para aqui. Veste-se desajeitadamente, como um alemão, e está literalmente sem um copeque. Só lhe falta chorar. Dei-lhe vinte e cinco rublos e pretendo arranjar-lhe um lugarzinho de escrevente no nosso escritório. E lhes sugiro, mesdames que lhe ofereçam lanche, pois estou a jurar que está com fome. – Tu me apavoras! – E a generala foi voltando a si, aos poucos. – Está com fome e tem ataques! Mas que espécie de ataques?

– Acalma-te, que os ataques não lhe sobrevêm assim amiúde. além do que. é dócil como criança de colo e muito instruído. Gostaria de recomendar-lhes, mesdames (dirigiu-se outra vez às filhas. que o submetessem a um examezinho, a ver para o que dará.

– Um exame? – balbuciou a esposa. rolando os olhos, no máximo do espanto, do marido até às filhas e destas, outra vez, até ao general. – Oh! Querida, não tomes as coisas intencionalmente… e sim de modo natural. Como já disse, passou-me pela cabeça tratá-lo amigavelmente; acho ser até um ato de caridade introduzi-lo um pouco em família. – Introduzi-lo na família? Da Suíça?

– Agora já não se pode recuar. Convidei-o. Mas repito mais uma vez, seja como decidires. Pensei nisso por vários motivos: primeiro, ter ele o teu nome, ser talvez até parente teu; depois, a seguir, não ter ele onde pousar a cabeça. Supus que te fosse de certo modo interessante vê-lo, já que, de fato, pertences à mesma família.

– Naturalmente, mamãe. E se não é preciso fazer cerimônia com ele! E ainda por cúmulo está com fome e depois de uma viagem dessas! Por que não havemos de lhe dar alguma coisa a comer, já que não tem para onde ir? – opinou Aleksándra, que era a mais velha. – E se é uma criança, ainda! Podíamos até brincar de cabra-cega com ele! – De cabra-cega? Que é que você está dizendo? – Ora, mamãe, deixe de coisas! – interrompeu Agláia, zangando-se. A segunda filha, Adelaída, que estava de ânimo alegre, não se pode conter e rompeu em uma risada.

– Mande-o buscar, papai. Mamãe já deu licença – decidiu Agláia. O general tocou a campainha e mandou introduzir o príncipe. – Está bem, mas com a condição de que vocês lhe passem um guardanapo em volta do pescoço, quando ele se sentar à mesa – obtemperou a generala. – E chamem Fiódor ou Mávra para ficarem atrás da cadeira dele tomando conta enquanto estiver comendo. Estará ao menos no momento a salvo desses ataques? E muito gesticulador?

– Oh! Não fales assim. É muito bem-educado, e tem maneiras encantadoras. Apenas é um pouco simplório, mas nem sempre. Mas, ei-lo que vem. Faça o favor de entrar. Deixa que te apresente o Príncipe Míchkin, último de seu nome, teu homônimo, ou melhor, xará e talvez até teu parente. Recebe-o bem e sê gentil para com ele. Como o almoço vai ser servido, príncipe, queira dar-nos a honra… E desculpe-me, pois tenho de me apressar, estou atrasado…

– Nós sabemos perfeitamente por que é essa sua pressa… – disse-lhe a esposa, com ênfase. Estou com pressa, estou com pressa, querida. Estou atrasado. Dêem-lhe os álbuns, mesdames. Peçam-lhe que escreva qualquer coisa para vocês; tem uma letra que é um assombro. Vocês deveriam ver como ele escreveu para mim, em antigos caracteres:

“O hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura”. Bem, adeus! – Pafnútii? O abade? Espera um minuto, pára um pouco. Aonde vais e quem é Pafnútii? – chamava-o a esposa, com franco aborrecimento que, ante a fuga do marido, se transformou em agitação. Sim, sim, querida, houve um hegúmeno chamado Pafnútii, que viveu há muito tempo. Mas tenho de sair, já devia estar na casa do conde; imagina tu que ele próprio marcou hora… Adeus, por enquanto, príncipe! Em passadas largas, o general se retirou. – Eu sei quem é o conde que ele vai ver! – disse com muita finura Lizavéta Prokófievna, volvendo os olhos irritadamente para o príncipe. – Que foi? – recomeçou ela, impaciente e amuada, tentando recordar-se. – Ora bem, que foi? Ah! Sim, falávamos do hegúmeno…

– Mamãe! – ia recomeçar Aleksándra, mas Agláia chegou a bater com o pé. – Não me interrompam – falou agenerala martelando cada palavra. – Também tenho o direito de saber. Sente-se aqui, príncipe, nesta poltrona. Aqui, em frente de mim. Não, aqui, perto do sol, mais para a claridade, para eu poder ver bem. Afinal, que hegúmeno foi esse? – O hegúmeno Pafnútii – respondeu Míchkin, com atenção e seriedade. – Pafnútii? Há!… Isto é interessante. Bem, e depois, que é que houve com ele?

Fazia estas perguntas impacientemente, às pressas, de modo cortante, conservando os olhos fixos no príncipe. E, à medida que ele respondia, ela ia meneando a cabeça, a cada palavra. – O hegúmeno Pafnútii do século XIV – começou Míchkin – era o Superior do Mosteiro do Volga naquela parte que atualmente é a província de Krostoma. Foi famoso por sua santa vida Visitou os tártaros, na sua Horda de Ouro, ajudou na distribuição da governança pública tendo, assim, de assinar diversos documentos. Vi uma cópia da sua assinatura. Gostei da letra e a imitei Quando o general manifestou desejos de ver a minha letra, ainda agora, para me arranjar um emprego, escrevi várias sentenças em diferentes caligrafias e entre outras coisas escrevi: “O hegúmeno Pafnútii apôs aqui a sua assinatura” com a própria letra do hegúmeno. O general gostou muito e foi por causa disso que esteve a falar ainda agora.

– Agláia, tome nota de Pafnútii; ou melhor, escreva, senão eu me esqueço. Mas julguei que se tratasse de coisa mais interessante. E onde ficou essa imitação da assinatura dele?

– Creio que ficou no escritório do general, sobre a mesa. – Mande alguém trazer, já.

– Não preferiria a senhora que eu escrevesse aqui, outra vez? – Naturalmente, mamãe – comentou Aleksándra – mas o melhor agora é almoçarmos primeiro; estamos com apetite. – Isso mesmo – concordou a mãe. – Venha, príncipe. Está com disposição? – Sim, comecei a sentir fome agora e lhe fico muito grato. – É uma coisa ótima que o senhor seja assim tão delicado. Verifico, com prazer, que o senhor não se aproxima, sequer, da criatura estranha que me foi descrita como sendo o senhor. Venha. Sente-se aqui, diante de mim – insistiu, fazendo Míchkin sentar-se, mal entraram na saleta de almoço. – Quero examiná-lo. Aleksándra, Adelaída, ajudem-me a servir o príncipe. Realmente ele não é nenhum doente, conforme… Creio não ser necessário o guardanapo passado ao pescoço durante a refeição, não é mesmo, príncipe? Costumava usá-lo, príncipe?

– Só até aos sete anos, creio eu; mas agora, durante as refeições, ainda o uso, mas sobre os joelhos.

– Muito bem. E os seus ataques?

– Ataques? – O príncipe ficou um pouco Zonzo. – Agora são mais raros. Mas, não sei, já me disseram que o clima aqui me fara piorar – Como ele fala direitinho! – E a senhora virou-se para as filhas e anuía ainda, com a cabeça, a cada palavra dele. Eu não esperava isso. Então tudo não passou de brincadeira e invencionice do meu marido, como de hábito. Anime- se, príncipe, e vá me dizendo onde nasceu, e depois, para onde o levaram. Quero ficar sabendo tudo. O senhor me interessa sobremodo. O príncipe agradeceu e, enquanto comia com excelente apetite. começou a repetir a história que já tinha contado várias vezes essa manhã. A dona da casa cada vez demonstrava estar mais contente com ele. As meninas já o ouviam com maior atenção; as relações se estreitavam. Veio a verificarse que Míchkin conhecia muito bem a sua árvore genealógica. Mas, apesar dos esforços gerais, não houve meios de descobrirem que espécie de parentesco próximo poderia haver entre ele e a senhora generala. Entre os avôs e as avós um distante parentesco podia ser descoberto. A senhora ficou particularmente satisfeita com essa averiguação tão evidente, pois muito raramente lhe era dado ensejo de discorrer sobre a sua linhagem. Foi assim, com entusiasmo que se levantou da mesa.

– Venham todos vocês! Vamos para a sala de estar – disse ela. – Tomaremos lá o café. Temos uma sala onde nos reunimos sempre – ia explicando ao príncipe, enquanto o conduzia.

– Minha pequena sala de conversa, onde nos reunimos quando estamos Sozinhas e onde cada uma se entretém com o seu trabalho. Aleksándra, minha filha mais velha, esta aqui, toca piano, lê, ou Costura; Adelaída pinta paisagens e retratos (mas não há meio nunca de acabar coisa alguma) e Agláia fica sentada e não faz nada. Eu, tampouco, não sou muito boa em trabalhos; não consigo ter nada acabado. Bem, chegamos. Sente-se aqui, príncipe, perto do fogo, e me conte qualquer coisa. Quero saber de que jeito o senhor conta uma história. Quero orientar-me bem a seu respeito e quando encontrar a velha Princesa Bielokónskaia hei de falar a respeito do senhor. Quero que todos se interessem pelo senhor. Vamos, conte alguma coisa. – Mas, mamãe, que modos de pedir que lhe conte uma história… – redargüiu Adelaída que tinha ido sentar-se junto ao cavalete e já segurava os pincéis e a paleta, diante do trabalho; copiava de uma gravura uma paisagem começada havia muito tempo. Aleksándra e Agláia sentaram-se em um pequeno sofá, cruzando os braços, preparadas para ouvir a conversa. Míchkin percebeu que era o centro de atenção de todas. E então Agláia observou: – Pois eu nunca haveria de contar nada se me pedissem deste modo. – Por que não? Que há de mais nisso? Por que não há de me contar qualquer coisa? Ele tem língua. Quero ver como descreve os fatos. Vamos, seja o que for. Diga-nos se apreciou a Suíça, e quais as suas primeiras impressões lá. Vocês vão ver, ele já vai começar e muito bem. – Foi uma impressão deveras forte… – começou o príncipe. – Ora, bravos, estão vendo? – aplaudiu a impetuosa senhora dirigindo-se às filhas.

– Não disse que ele ia começar?

– Mas, mamãe, deixe-o falar, ao menos! – retrucou Aleksándra, contendo-a. E ciciou ao ouvido de Agláia: Este príncipe está com mais cara de ser um finório do que um idiota.

– Nem há dúvida; vi isso logo – respondeu Agláia. – E éintolerável fingir assim. Estará ele tentando, com isso, alguma vantagem? E o príncipe repetiu:

– A minha primeira impressão foi muito forte. Quando me tiraram da Rússia e me conduziram através de uma porção de cidades alemãs, eu não fazia mais do que contemplá-las calado e me lembro de que não fazia perguntas. Eu acabara de ter uma série violenta e lancinante de ataques da minha doença. Sempre que piorava e os acessos vinham com mais freqüência, eu caía depois em uma completa estupefação. Perdia a memória e, embora o meu cérebro trabalhasse, parecia que a seqüência lógica das minhas idéias se tinha quebrado. Era incapaz de ligar mais do que dois ou três pensamentos. Pelo menos é a impressão que me dava. Depois os acessos abrandaram e escassearam e me tornei outra vez forte e sadio, como estou agora. Lembro-me que vivia insuportavelmente triste, querendo sempre chorar, permanentemente assustado e com pavor. O mais chocante era tudo me parecer estranho. Tudo me parecia alheio e isso me oprimia… Mas esse estado soturno se levantou, lembro-me bem, uma tarde, ao chegar a Basiléia, na Suíça. O que me despertou foi o zurro de um jumento, na praça do mercado. O jumento mexeu comigo e, não sei por que estranho motivo, simpatizei com ele; e repentinamente tudo se tornou claro na minha cabeça.

– Um jumento? Isso é originalíssimo! – observou a generala. Aliás, pensando bem, não há nada de estrambótico nisso! Qualquer de nós pode sem mais aquela ficar gostando de um jumento! – anuiu ela lançando um olhar impaciente às filhas, que se tinham posto a rir. – Já aconteceu na mitologia. Adiante, príncipe. – Fiquei, desde então, gostando terrivelmente de jumentos. Eles têm uma atração toda especial por mim. Comecei a me informar bem, a respeito deles, pois antes nunca tinha visto nenhum e imediatamente compreendi que criatura útil ele é; industrioso, forte, paciente, barato, resignado… Foi, pois, através desse jumento, que a Suiça começou a me fascinar, a ponto da minha melancolia passar completamente.

– Isto tudo é formidável, mas passemos além do jumento. Passemos a outra coisa. Por que é que você continua rindo, Agláia? E você, Adelaída? O que o príncipe nos contou sobre ojumentinho foi deveras magnífico. Ele viu, ao passo que vocês não viram nunca nenhum. Vocês ainda não estiveram no estrangeiro!

– Eu ja vi um Jumento, mamãe – asseverou Adelaída. E eu também já ouvi um – garantiu Agláia.

E as três moças riram-se, outra vez. O príncipe riu com elas. – Isso não fica bem para vocês – ralhou a mãe. – Deve desculpa las, príncipe; são sempre assim, alegres. Por mais que eu zangue gosto muito delas. São teimosas, são umas cabeças tontas. Por quê? – E Míchkin ria. – Eu faria o mesmo, no lugar delas. Mas voltemos ao jumentinho. Trata-se de uma criatura muito útil e de muito bom coração.

E o senhor, príncipe, tem o senhor também bom coração? Pergunto por curiosidade.

Riram-se todas, de novo.

Mas.., outra vez esse aborrecido jumento?! Já não estava pensando mais nesse bicho. Acredite-me, príncipe, falei sem nenhuma insinuação?… Oh! Eu sei! – E o príncipe desandou a rir.

– Já que, em vez de se zangar, o senhor ri, fico mais à vontade. Vejo que é um moço de muito bom coração – afirmou Lizavéta Prokófievna. – Nem sempre, nem sempre!… – avisou Míchkin. – Pois eu sou – garantiu categoricamente a dona da casa. -Ou, se prefere, vou lhe mostrar. É o meu único defeito, pois não convém ter sempre bom coração. Muitas vezes zango com estas meninas e ainda mais com Iván Fiódorovitch, mas o pior é qui quando me zango é que verifico que tenho bom coração. Ainda agora, antes do senhor chegar, eu estava zangada e achava que não seria capaz de compreender coisa alguma. Sou assim, às vezes. Sou como uma criança. Obrigada pela lição, Agláia. Mas não estou dizendo inconveniência nenhuma. Não sou nenhuma maluca, como pareço, e como estas minhas filhas gostam de me fazer crer que eu seja. Tenho uma vontade própria e não me envergonho à toa.

E digo isso sem malícia. Agláia, venha cá me dar um beijo, aqui.. Agora, basta de carinhos – disse depois de Agláia beijá-la con ternura nos lábios e na mão. – Adiante, príncipe. Vamos a ver se o senhor se lembra de qualquer coisa mais interessante do que un jumento.

– Não sei como se possa falar assim por encomenda – raciocinou Adelaída. – Eu, nem pensar direito poderia.

– Não se incomode, que o príncipe pode pensar por nós todas. pois é muito inteligente; pelo menos dez vezes mais esperto do que vocês, provavelmente mesmo umas doze vezes. Espero que não levem muito tempo para se darem conta disso, pois ele já lhes vai provar imediatamente. Não é, príncipe?

Continue. E pode, por enquanto, deixar de lado o jumento. Que viu mais o senhor no estrangeiro além do jumento?

– Mas o jumento já bastou para provar que ele é bem esperto – redarguiu Aleksándra. – E foi bem interessante o que nos contou da sua condição de doente e como um golpe exterior fez com que as coisas todas o agradassem. Sempre me interessou saber como se perde a razão e como é que se recupera depois. Mormente quando ela volta sem se esperar. – Sim, sim – gritou a mãe, impetuosamente. – Também sei que vocês, quando querem, são espertas. Bem, parem, chega de rir. O senhor ia falar sobre o cenário da Suíça, creio eu! E então?

– Chegamos a Lucerna e fiquei arrebatado pelo lago. Ao mesmo tempo que tal beleza me arrebatou, me deprimiu – confessou o príncipe. – Mas… por quê? – indagou Aleksándra. – Não sei por quê. Toda a paisagem fora do comum sempre me perturba e me deprime pela primeira vez – observou o príncipe. -Sinto ao mesmo tempo felicidade e angústia. Mas isso se dava mais quando eu estava doente. – Como eu gostaria de ver o lago! – ponderou Adelaída. – Não sei por que ainda não fomos ao estrangeiro. Aqui, não há meios de obter assuntos para pintar, principalmente nestes dois últimos anos. O Oeste e o Sul já os pintei há muito. Príncipe, dê-me assunto para um quadro. – De pintura, que sei eu? Mas me parecia que bastava olhar e pintar. – Mas olhar, como? Não sei como olhar as coisas. – Por que continua você a falar através de enigmas? – interrompeu-a a mãe. – Eu não sou capaz de baralhar as coisas assim. Que quer você dizer com essa história de não saber como olhar? Não tem olhos? Sirva-se deles! Se aqui você não pode ver, que fará no estrangeiro? Príncipe, acho que vai ser necessário o senhor nos explicar como é que se vêem as coisas! – Sim, é melhor mesmo – reforçou Adelaída. – O príncipe aprendeu a ver as coisas no estrangeiro.

– Acho que não. Apenas me dei melhor lá. Se aprendi a ver as coisas, isso não sei. Mas, quase todo o tempo, fui muito feliz. – Feliz? O senhor sabe como ser feliz? – exclamou Agláia. -E tem a coragem de dizer que não sabe se aprendeu a ver as coisas? O senhor pode até nos ensinar!

– Então, ensine! – riu Adelaída.

– Eu não posso ensinar nada. – E o príncipe também riu. – Passei quase todo o tempo que estive no estrangeiro, na mesma aldeia, uma aldeia suíça.

Raramente fazia excursões e, essas mesmo, ali por perto. Que lhes hei de eu pois ensinar? No começo fui ficando menos obtuso e logo comecei a ficar mais forte. E pouco a pouco cada dia foi se tornando mais precioso para mim, à medida que o tempo ia passando e eu me dava conta disso direitinho. Deitavame feliz e mais feliz me levantava. Explicar-lhes, porém, por que, não sei. – Então não sentia vontade de sair? De ir a algum lugar? -perguntou Aleksándra.

– No começo, bem no começo, tive, sim. E até me tornei agitado. Estava continuadamente preocupado com a vida que devia levar. Queria saber que era que a vida me tinha reservado. Ficava intoleravelmente ansioso, às vezes. A solidão, as senhoras sabem, dá isso. Havia lá uma pequena cascata. Era um fio de água, muito delgado, quase perpendicular, que se despenhava da montanha, espumoso, branco, espargindo gotículas em volta. Apesar de cair de uma grande altura não dava a impressão de ser alta. Estava longe de meia verstá, mas parecia estar a uns cinqüenta passos. A noite gostava de ouvir o seu barulho. Em tais momentos eu estava sempre dominado por uma grande angústia. Às vezes, também, eu pasmava a encarar as geleiras ao meio-dia, sozinho, a meio caminho do cume da montanha, cercado por imensos pinheirais resinosos. Na crista da rocha, um castelo medieval em ruínas; lá embaixo, ao longe, no vale, a nossa pequenina aldeia, tenuemente visível; muita claridade solar; amplo céu azul. E um terrível silêncio. Então eu sentia que alguma coisa estava me subjugando e ficava a imaginar que se fosse andando sempre, até bem longe, sempre para diante. até alcançar aquela linha onde o céu e a terra se encontram e se tocam, então, lá sim, é que eu acharia a chave do mistério. Lá é que eu veria uma vida mil vezes mais rica e turbulenta do que a nossa. Sonhava com uma grande cidade, como Nápoles, por exemplo, cheia de palácios, ruídos, bramidos e vida. Sim; não sonhava pouco!… E depois concluía que até em uma prisão se pode encontrar uma vida afortunada!… – Já li essa sua última reflexão, aliás tão edificante, no meu livro de leituras, quando eu tinha doze anos – desconcertou-o Agláia. E Aleksándra disse:

– Isso tudo é filosofia. O senhor é um filósofo e, quem sabe? Talvez tenha chegado aqui para ensinar.

– Talvez tenha razão – sorriu o príncipe – talvez seja eu um filósofo e saiba ensinar a pensar… É bem possível; é verdade. Talvez seja assim. – E a sua filosofia é como a de Evlámpia Nikoláievna – interpôs Agláia.

– Trata-se da viúva de um funcionário público que vem ver-nos mais como parenta pobre. Viver barato é o seu único objetivo na vida. Viver tão singelamente quão possível for. mas não fala senão de dinheiro. E tem dinheiro. É uma simuladora. É como a riqueza da vida do senhor dentro de uma prisão. Ou como os seus quatro anos de felicidade nos vales que o senhor trocaria por Nápoles. E olhe lá que teria ganho na troca, embora fosse um lucrozinho à-toa. – Pode haver duas opiniões a respeito de prisão – sentenciou o príncipe. – Certo homem que viveu doze anos em uma prisão me disse uma coisa, depois. Ele era, como eu, um dos clientes do meu professor. Também tinha ataques e, às vezes, ficava excitado; chorava, queria matar-se. A sua vida na cadeia foi uma vida miserável asseguro-lhes, mas não, absolutamente, sem sentido. Imaginem que seus únicos amigos eram uma aranha e uma árvore que crescia debaixo da sua janela gradeada. Mas o melhor é deixar de lado este caso e lhes contar como vim a encontrar, no ano passado, um outro homem em cuja vida houve uma circunstância bem estranha, pelo fato de ser daquelas que raramente acontecem. Esse homem fora, uma vez, conduzido com mais outros ao cadafalso, levado por uma sentença de morte. Ia ser fuzilado por causa de uma ofensa política. Vinte minutos mais tarde, porém, lhe era lida a comutação da pena de morte pela de degredo. Todavia, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos, ou talvez um quarto de hora, teve ele a convicção firme de que ia morrer. Sempre o escutei sequiosamente, quando se punha a recordar as sensações dessa ocasião e. muitas vezes, depois, eu o interrogava a respeito. Lembrava-se de tudo com perfeita exatidão e costumava dizer que lhe era impossível esquecer aqueles vinte minutos. A vinte passos do cadafalso, a cuja volta soldadesca e povaréu permaneciam, havia três postes fincados no chão, pois se tratava de vários condenados. Os três primeiros foram conduzidos até aos postes e amarrados, com a túnica dos condenados (um camisolão branco), os capuzes puxados bem por sobre os olhos para que nada vissem, sendo que então uma companhia de vários soldados se postou diante de cada poste. O meu amigo era o oitavo da lista e portanto tinha de ser um dos do terceiro turno. O padre se acercou de cada um, com a cruz. Ele só dispunha de cinco minutos mais para viver. Contou-me que aqueles cinco minutos lhe pareceram um infinito e vasto tesouro. Sentia tantas vidas naqueles cinco minutos que não precisava se incomodar com o último momento, tanto mais que havia subdividido o seu tempo da seguinte maneira: dois minutos para se despedir dos companheiros. Outros dois para o seu último pensamento geral. E, depois, o último, o quinto, para olhar em redor de si pela derradeira vez. Lembrava-se muito bem dessa extravagante subdivisão do seu tempo. Ia morrer aos vinte e sete anos, moço, forte e em plena saúde. Ao se despedir dos camaradas ocorreulhe perguntar a um deles qualquer coisa inadequada à circunstância, e achou muito curiosa a resposta. Após as despedidas, vieram os tais dois minutos que reservara para pensar em si mesmo. Sabia de antemão em que devia pensar. Desejava atinar, da maneira mais clara e pronta possível, como é que estava existindo agora, isto é, vivendo, e como é que dentro de três minutos seria qualquer outra coisa, alguém ou nada! E isso, como e onde? Resolvera solucionar tudo, de vez, naqueles dois únicos e últimos minutos. Não longe dali havia uma igreja cuja cúpula dourada cintilava aos raios solares. Como se lembrava de se ter posto a fixar, fascinado, aquela cúpula fulgurante de luz! Não podia tirar os olhos de lá! Era como se aqueles raios fossem já a sua outra futura natureza, visto como, dentro de três minutos, ele de um certo modo se iria fundir neles… A incerteza e um como que sentimento de pavor pelo mistério em que já estava quase ingressando foram terríveis. Disse-me, porém, que nada foi tão cruel naquele momento como este contínuo pensamento em forma de interrogação: “E se eu não morrer? Se eu for devolvido à vida? Ah! Que eternidade! Tudo seria meu! Eu transformaria cada minuto em outras tantas eternidades! Não desperdiçaria um segundo sequer! Contaria cada minuto que fosse passando, sem desperdiçar um único!” Disse-me que esta idéia lhe veio com tal furor, que desejou ser imediatamente fuzilado, logo, logo!… Subitamente, Míchkin interrompeu o que estava contando. E elas ficaram à espera de que ele prosseguisse e tirasse qualquer conclusão. – Acabou? – perguntou Agláia.

– Como?! Ah! Sim – disse Míchkin, despertando de um sonho momentâneo.

– Mas, para que nos contou esta história? – É que qualquer coisa em nossa conversa me fez recordá-la… – O senhor fala muito abruptamente… – observou Aleksándra. – Provavelmente quis dizer, príncipe, que nenhum momento da vida deve ser considerado como insignificante e que, muitas vezes, cinco minutos são um precioso tesouro. Isto tudo é muito louvável; mas deixe que lhe pergunte, já que esse amigo que contou tais horrores foi perdoado e teve a pena comutada, havendo sido presenteado portanto com essa “eternidade de vida”. Que fez ele dessa riqueza, depois? Viveu, de fato, contando cada minuto?

– Qual nada! Disse-me depois. Eu também tive curiosidade em saber e perguntei. Muito pelo contrário: perdeu muitos e muitos minutos. – Ainda bem que isso prova que é impossível viver “contando cada minuto”. Por algum motivo é isso impossível. – Sim, alguma razão deve haver – confirmou o príncipe. – Também eu penso assim e, no entanto, não acredito que… – Acha então que vive mais sabiamente do que qualquer outro? – indagou Agláia.

– Sim, muitas vezes julgo assim.

– E não muda de opinião?

– Penso sempre do mesmo modo.

Até então estivera contemplando Agláia com um sorriso gentil e tímido. Mas ao fazer tal afirmativa deu uma risada, passando a olhá-la com jovialidade. – Isso é que é ser modesto… O tom da voz de Agláia tendia para a irritação. – Gosto de ver moças corajosas. Conto-lhes uma destas e não se impressionam! Pois eu fiquei estarrecido com o que esse homem me contou… Essa coisa de dividir os seus últimos cinco minutos… Palavra, tenho até sonhado com essa história… Tornou a olhar para as suas ouvintes, examinando-as uma por uma. – Ficaram zangadas comigo, por alguma coisa que eu tenha feito sem querer? Olhava-as agora bem no rosto, parecendo um tanto embaraçado, assim de repente.

– Zangadas? Nós? Por quê? – exclamaram as três, surpreendidas. – Ora.., por haver eu assumido todo este tempo um ar de quem recita um sermão… Elas riram muito.

– Pelo amor de Deus, não me tomem por pretensioso. Sei por experiência própria que tenho vivido menos do que os outros e que conheço a vida muito menos do que qualquer outra pessoa. Natural, pois, que às vezes eu diga tolices. E perturbou-se completamente.

– Se é feliz, conforme disse, deve ter vivido mais e nunca menos do que os outros. Não vejo por que haja de nos pedir desculpas – redargüiu Agláia, com timbre irritado. – E não suponha, por favor, que nos esteve pregando um sermão. E nem se trata, da sua parte, de nenhum sinal de superioridade, pois, com esse seu quietismo, fácil lhe é encher de felicidade um século de existência. Ou lhe mostrem uma execução, ou lhe façam um aceno com um simples dedo, para o senhor tanto faz, pois qualquer dos casos lhe dará margem para fazer edificantes reflexões, aperfeiçoando seu estado de beatitude. Ora, assim a vida é muito fácil.

– Não, compreendo, Agláia, que você esteja sempre “de ponta” com o que lhe dizem – disse a generala ao reparar no feitio do príncipe. Tampouco entendo o que você está aí a retrucar. Dedo de quem? Qual dedo? Não diga asneiras. O príncipe falou magnificamente; pena que o assunto tenha sido um pouco triste. Qual o motivo de pretender descoroçoá-lo? Quando começou, ele estava risonho; agora está sombrio.

– Está muito bem, mamãe. Escute, príncipe, que pena o senhor não ter assistido a uma execução… porque eu gostaria de lhe perguntar uma coisa. Mas Míchkín prontamente respondeu:

– Já assisti a uma.

– Já? – entusiasmou-se Agláia. Bem me pareceu. Isso é o cúmulo! Se já assistiu a uma coisa dessas como é que tem a coragem de declarar que sempre foi feliz? Não estou eu dizendo uma verdade que o contradiz? – Mas então, na sua aldeia, havia execuções? quis saber Adelaída. – Vi uma, mas foi em Lião. Estava de visita à cidade, com Schneider. E ele me levou. Tivemos essa oportunidade logo que acabamos de chegar. – Bem. Gostou? O que viu foi edificante e instrutivo? – persistia Agláia. – Absolutamente não gostei e até adoeci depois. Devo confessar que fiquei pregado ali, no lugar, sem poder tirar os olhos daquilo. – Eu faria o mesmo – afirmou Agláia.

– Eles implicam com as mulheres que vão assistir. Os jornais até censuram. – É lógico. E se consideram que não é próprio para mulheres, inferem que o é para os homens. Justifica-se.

– Congratulo-me com essa lógica! E naturalmente também pensa assim, príncipe!?

Adelaída interrompeu-os, perguntando:

– Como foi essa execução?

– Não me sinto muito inclinado agora a contar. Míchkin estava meio atarantado, de sobrancelhas franzidas.

– Por que essa má vontade em nos relatar isso? – indagou Agláia, com certo ar escarninho.

– É que ainda agora mesmo acabei de descrever essa execução.

– Agora mesmo? A quem? Ora essa!

– Ao lacaio da entrada, enquanto esperava. – Qual? – ouviu ele de todos os lados.

– Um que fica na saleta, que tem os cabelos meio encanecidos eacara vermelha; enquanto estive sentado na antecâmara, esperando falar com Iván Fiódorovitch – Que despropósito! Isso é até original! – sentenciou a generala. – Ora, o príncipe é um democrata – sublinhou Agláia. Bem, se contou a Aleksiéii como há de recusar a nós outras? – Já estou preparada para Ouvir – disse Adelaída. E Michkin começou, dirigindo-se a esta: – Ainda agora me veio ao espírito um pensamento, quando me pediu um assunto para o seu quadro (Míchkin animava-se logo, confiante): sugerir-lhe que pintasse o rosto de um homem condenado! Um momento antes da guilhotina cair, quando ele ainda estivesse de pé no cadafalso, antes de se curvar sobre o cepo.

– O rosto? Só o rosto? – interessou-se Adelaída. Seria um tema estranho. E que espécie de quadro produziria isso?

– Não sei. Mas, por que não pintar? – insistiu Míchkin com ardor. Vi uma tela mais ou menos assim, em Basiléia, não há muito tempo. Gostaria de descrevê-la para as senhoritas. Um dia destes o farei. Impressionoume como quê!

– Não deixe de nos contar depois como era esse quadro de Basiléia – disse Adelaída. Mas, por hoje, nos explique como devo pintar a execução. Poderia dizer-me como é que o senhor próprio a imaginaria? A cabeça como deve ser? E tem de ser só a cabeça? Como é o rosto? – Praticamente tem de ser no minuto que antecede à morte – começou Míchkin, com muita presteza, servindo-se de suas recordações e dando até mostras de aflição, como não querendo esquecer nenhuma minúcia de importância relativa ao caso. – O momento em que ele acabou de subir a escadinha e parou sobre o cadafalso. Bem nesse instante ele olhou na minha direção. Olhei para a sua face e compreendi tudo. Será possível contar isso? Desejo, sim, desejo muito que a senhorita ou qualquer outra pessoa pinte isso. Melhor se fosse a senhorita. Já me veio a idéia de que a senhorita fizesse bem um quadro desse gênero. Mas, veja bem, tem-se de imaginar tudo quanto sucedeu antes, tudo, tudo! O condenado estava na prisão e pensava que a execução seria dentro de uma semana, contava com as formalidades de praxe e calculava que os papéis levariam uma semana para voltar. Mas, por uma circunstância fortuita, o prazo foi reduzido. Às cinco da manhã ele estava dormindo. Fins de outubro. As cinco da manhã ainda é frio e escuro. O superintendente da prisão chega sem nenhum rumor acompanhado do guarda, e lhe toca o ombro, com muito cuidado. Ele se apoia no cotovelo e se ergue um pouco. Vê a lanterna. Pergunta: “Que é?”. “A execução será às dez horas”. Não pôde apanhar bem o sentido disso, por estar apenas semi- acordado, mas acabou objetando que a sentença demoraria no mínimo uma semana em seus trâmites. Nisto acordou de todo, deixou de protestar, ficou mudo. Assim me contaram. Depois falou:

“É duro assim de repente! E de novo se calou, não falando daí em diante mais nada. As três ou quatro horas seguintes foram esgotadas nos usuais preparativos: receber o sacerdote, depois o almoço, no qual lhe serviram vinho, café e carne (não é isso um escárnio? Pensem na crueldade disso! E dizer-se que, afinal, esses inocentes funcionários agem de boa-fé, convencidos de que estão praticando um último ato de humanidade!) e depois a toilette (sabem que é isso?); só então é que o levaram através da cidade, para o suplício. Penso que também este homem, como aquele outro, deve ter imaginado, enquanto era levado através da cidade, que ainda lhe sobrava um tempo sem fim para viver. Devia ir pensando, pelo caminho: “Pois não é que ainda falta muito tempo! Tenho três ruas! Devo passar por esta, até o fim, depois ainda tem a próxima antes de chegar a terceira; à esquerda há um padeiro, na terceira rua… sim… à esquerda. Ainda falta muito para chegar diante da casa do padeiro… Em torno da carreta, multidão, barulho e exclamações. E ele tinha de suportar dez mil faces, vinte mil olhos! E, pior do que isso, tinha de suportar o pensamento seguinte: “São dez mil, mas nenhum deles vai ser executado; eu é que vou ser executado”. Bem, todo esse preparativo. Agora, rente ao cadafalso, uma escadinha. Diante desses três degraus, começou a chorar, ele que tinha sido um forte, que fora um grande criminoso, segundo me disseram. O sacerdote não o deixava um só momento; acompanhou-o desde a carroça e não deixou de lhe falar todo o tempo. Duvido que tenha escutado. E se começou a escutar não deve ter apreendido mais do que duas palavras. Deve ter sido assim. E eis que começou a subir os degraus. Suas pernas estavam ligadas üma à outra, de maneira que teve de subir dando uns pulinhos lúgubres. O sacerdote, que era um homem inteligente, deixou de lhe falar, só lhe dando a cruz para que a beijasse. Ao pé da escada, ele estava lívido e, quando chegou àplataforma do cadafalso, parou e estava tão branco como papel, como papel imaculado sobre que se escreve. As suas pernas devem ter fraquejado, depois devem ter endurecido como paus. Eu pensava comigo que ele devia estar se sentindo tão mal como se uma coisa na garganta o sufocasse fazendo-lhe uma espécie de êmbolo. As senhoritas nunca sentiram isso, quando estão com temor, ou nos momentos terríveis em que conservamos toda a nossa razão, mas ela não tem mais nenhum poder? Penso que quem quer que se defronte com a destruição inevitável, por exemplo, ao perceber que uma casa vai desabar, deve sentir um desejo só, instantâneo e imediato: sentar-se e fechar os olhos, à espera… venha o que vier… Quando essa fraqueza estava chegando, o sacerdote em silêncio e em um movimento lépido lhe chegou a cruz aos lábios, erguendo-a até ele, uma pequena cruz de prata maciça, conservando-lha assim à altura dos lábios, muito tempo. Cada vez que a cruz lhe tocava os lábios, ele reabria os olhos e parecia vir à vida por uns poucos segundos; e as suas pernas se moviam. Tornava a beijar a cruz, veementemente Beijava-a com pressa, como para não se esquecer de se munir de alguma coisa de que muito necessitava, muito embora eu duvide que naquele momento lhe viessem sentimentos religiosos propriamente. E assim foi, até que o levaram para o cepo.

É incrível, como são raríssimas as pessoas que desfalecem nesse momento. Pelo contrário, o cérebro fica tão aguçado que decerto trabalha em uma progressão tremendamente centuplicada, qual maquina em alta velocidade. Quer me parecer que nessa hora sobrevenha um agudo tumultuar de idéias de toda sorte, sempre inacabadas e também absurdas, completamente gratuitas e inadequadas. “Aquele homem está me olhando. Tem uma verruga na cara. Um dos botões do casaco do algoz está enferrujado”. E uma porção de outras coisas que nessa hora vêm à tona… Há um ponto que se grava indelével, um eixo ao qual a pessoa não se pode eximir, já que tudo o mais roda à sua volta. E pensar que tem de ser assim até o último quarto de segundo, quando a cabeça já está sobre o cepo, à espera… e sabe!

Subitamente ouve em cima de si o retinir do aço. Sim, tem de ouvir isso. Se eu estivesse lá, curvado, ficaria bem atento a fim de ouvir e de escutar! Dura apenas a décima parte de um segundo, mas a pessoa sabe que escutará. E calculem que ainda é ponto de controvérsia saber se, um segundo depois de cortada, a cabeça sabe que foi cortada! Que idéia! E se eu lhes disser que cinco segundos depois ela ainda sabe!? Pinte o cadafalso de maneira que só o último degrau possa ser visto distintamente. No primeiro plano, o criminoso tendo acabado de o subir. Pinte-lhe a cabeça e o rosto, branco como papel; o sacerdote erguendo a cruz. O homem vorazmente estendendo os lábios azuis e olhando… e com que olhos! E ciente de tudo. Uma cruz e uma cabeça, mais nada, eis o quadro. O rosto do sacerdote e o do carrasco. Os seus dois ajudantes. E umas poucas cabeças e olhos, embaixo, pintados, se quiser, no plano posterior, em meia luz, assim como guarnição viva de tela… Eis o quadro! Cessando de falar, Míchkin ficou olhando para elas. – Não me digam que isso é quietismo – comentou consigo mesma Aleksándra. Mas Adelaída disse alto:

– E agora nos conte como foi que o senhor se apaixonou… O príncipe olhou-a, admirado. – Escute – tornou Adelaída, de modo um tanto veemente – o senhor nos prometeu falar sobre a tela de Basiléia, mas eu preferia que nos contasse agora os seus namoros. Não negue que já esteve apaixonado! Além disso, logo que começa a descrever qualquer coisa, deixa de ser um filósofo. E nisto Agláia observou, inesperadamente: – Mal o senhor acaba de contar qualquer coisa fica assim como se estivesse envergonhado… Por que é isso?

– Que despautério, menina!… – ralhou a mãe. E Aleksándra concordou:

– Que falta de propósito!…

– Não acredite em Agláia, príncipe – pediu a Sra. Epantchiná, virando-se para ele.

– Ela faz isso de caso pensado, por malícia; todavia não a eduquei assim tão mal. Oh! Não pense mal delas por estarem mexendo com o senhor desse jeito. Não pense que seja maldade. Eu sei que elas já estão gostando do senhor. Conheço o rosto de cada uma delas.

– Eu também conheço – disse o príncipe com uma ênfase toda especial. – Como assim? – perguntou Adelaída, com curiosidade. – Que sabe o senhor a respeito de fisionomias? – debicaram as outras duas também.

Míchkin, porém, não respondeu e ficou sério. Todas aguardavam a sua resposta. – Eu direi mais tarde – disse, com delicadeza e seriedade. – O senhor está mais é querendo suscitar a nossa curiosidade – exclamou Agláia. – E para que essa solenidade?

– Ora bem – interveio outra vez Adelaída, com precipitação.

– Se deveras é um conhecedor de rostos, certamente já teve algum amor, e a minha conjetura, ainda há pouco, foi certa. Conte-nos, então… – Não, nunca me apaixonei – respondeu o príncipe tão gentilmente como antes e com o mesmo ar grave.

– Eu fui feliz, mas de um modo diferente. – Como? Em quê?

– Então, se querem, está bem, vou contar – disse. E se concentrou, meditando profundamente.

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