Livro ‘Metamorfoses’ por Emanuele Coccia

Livro 'Metamorfoses' por Emanuele Coccia
Todo ser passa pela metamorfose. É a experiência elementar e originário da vida, a que define suas forças e seus limites. Desde Darwin, sabemos que qualquer forma de vida – o ser humano incluído – é apenas a metamorfose de uma outra, muitas vezes já desaparecida. Do nosso nascimento a nossa alimentação, nós todos passamos por essa experiência. No ato metamórfico, mudança de si e mudança do mundo coincidem. Afirmar que qualquer vida é um fato metamórfico significa que ela atravessa as identidades e os mundos sem nunca passar por elas de forma passiva. Esse livro inovador joga as bases de uma filosofia da metamorfose...
Editora: Dantes Editora; 1ª edição (26 outubro 2020)  Formato: 13,8 x 20,7 x 1,9  Páginas: 228

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Leia trecho do livro

“Eu sou tudo porque sou apenas uma corrente de vida sem falha alguma; sou imortal pois todas as mortes confluem em mim, desde a do peixe de um instante atrás até a de Zeus, e, reunidas em mim, tornam-se uma vida não mais individual e determinada, mas em pânico, e, portanto, livre.”
Giuseppe Tomasi Di Lampedusa


Para Colette, rainha das metamorfoses

Introdução

A continuidade da vida

No início, éramos todas e todos o mesmo ser vivo. Compartilhamos o mesmo corpo e a mesma experiência. Desde então, as coisas não mudaram tanto. Multiplicamos as formas e maneiras de existir. Mas ainda hoje somos a mesma vida. Há milhões de anos, essa vida transmite-se de corpo em corpos, de indivíduo em indivíduos, de espécie em espécies, de reino em reino. Certamente, ela desloca, transforma-se. Mas a vida de cada ser vivo não começa com seu próprio nascimento: ela é muito mais antiga.

Consideremos nossas existências. Nossa vida, aquilo que imaginamos ser o que há de mais íntimo e incomunicável em nós, não vem de nós, não tem nada de exclusiva ou pessoal: ela nos foi transmitida por outrem, animou outros corpos, outros pedaços de matéria, além daquela que nos abriga. Durante nove meses, o lado inapropriável e inassinável da vida que nos anima e nos desperta foi uma evidência física, material. Fomos o mesmo corpo, os mesmos humores, os mesmos átomos que a nossa mãe. Somos essa vida que compartilha o corpo de um outro, prolongada e levada para outro lugar.

É o sopro de um outro que se prolonga no nosso, o sangue de um outro que circula em nossas veias, é o DNA que um outro nos deu que esculpe e cinzela nosso corpo. Se nossa vida começa bem antes do nosso nascimento, ela termina bem depois da nossa morte. Nosso sopro não vai esgotar-se em nosso cadáver: vai alimentar todos aqueles que encontrarem nele uma ceia para celebrar.

Nossa humanidade tampouco é um produto originário e autônomo. Ela também é um prolongamento e uma metamorfose de uma vida anterior. Ela é, mais precisamente, uma invenção que os primatas — uma outra forma de vida — souberam extrair de seus próprios corpos — do seu sopro, do seu DNA, da sua maneira de viver — para fazer existir de forma diferente a vida que os habitava e os animava. Foram eles que nos transmitiram essa forma — e, através da forma de vida humana, são eles que continuam a viver em nós. Aliás, os próprios primatas são apenas uma experimentação e uma aposta feita por outras espécies, outras formas de vida. A evolução é uma mascarada que acontece no tempo e não no espaço. Ela permite que toda espécie, de era em era, use uma nova máscara diante daquela que a gerou, e, aos filhos e filhas, que não se deixem reconhecer e não reconheçam mais seus pais. E, no entanto, apesar da troca de máscara, “espécies-mães” e “espécies-filhas” são uma metamorfose da mesma vida. Cada uma das espécies é um “patchwork” de pedaços extraídos de outras espécies. Nós, as espécies vivas, nunca deixamos de trocar peças, linhas, órgãos, e o que cada um de nós é, aquilo a que chamamos espécie, é apenas o conjunto das técnicas que cada ser vivo tomou emprestado de outros. É por causa dessa continuidade na transformação que toda espécie compartilha com centenas de outras uma infinidade de traços. Compartilhamos o fato de ter olhos, orelhas, pulmões, um nariz, sangue quente com milhões de outros indivíduos, com milhões de outras espécies — e em todas essas formas somos apenas parcialmente humanos. Cada espécie é a metamorfose de todas aquelas que vieram antes dela. Uma mesma vida que molda para si um novo corpo e uma nova forma para existir de uma maneira diferente.

É o significado mais profundo da teoria da evolução darwiniana, aquela que a biologia e o discurso público não querem ouvir: as espécies não são substâncias, entidades reais. Elas são “jogos de vida” (no mesmo sentido que falamos de “jogo de linguagem” para o discurso), configurações instáveis e necessariamente efêmeras de uma vida que gosta de transitar e circular de uma forma em outra. Ainda não extraímos todas as consequências da intuição darwiniana: afirmar que as espécies estão ligadas por uma relação genealógica não significa simplesmente que os seres vivos constituem uma grande família ou um clã. Isso significa, sobretudo, estabelecer que a identidade de cada espécie é meramente relativa: se os macacos são os pais e os homens os filhos, somos humanos apenas graças e perante os macacos, da mesma forma que cada um de nós não é filho ou filha em um sentido absoluto, mas apenas em relação à sua mãe e ao seu pai. Toda identidade específica define exclusivamente a fórmula de continuidade (e da metamorfose) com outras espécies.

Essas considerações também se aplicam ao conjunto dos seres vivos. Não há oposição entre o vivo e o não vivo. Todo ser vivo não apenas está em continuidade com o não vivo, mas ele é seu prolongamento, sua metamorfose, sua expressão mais extrema.

A vida é sempre a reencarnação do não vivo, a bricolagem do mineral, o carnaval da substância telúrica do planeta — Gaia, a Terra — que não para de multiplicar suas faces e seus modos de ser na mínima partícula de seu corpo díspar, heteróclito. Cada eu é um veículo para a Terra, uma nave que permite ao planeta viajar sem se mover.

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